Sociedade Britânica de Psicologia: contra o modelo biomédico da Psiquiatria

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Em um movimento audaz e sem precedente para qualquer corporação profissional, a divisão de Psicologia Clínica (DCP) do Reino Unido, que é uma sub-divisão da Sociedade Britânica de Psicologia, emitiu uma tomada de posição que é muito pouco conhecida entre nós brasileiros.  Merece que o maior número de pessoas tenha essa informação.

Nessa declaração o que é reivindicado é o fim do modelo biomédico, por falta de evidências científicas, modelo esse que está implicado no diagnóstico psiquiátrico. Veja o documento.

O DCP é da opinião ser oportuno e apropriado afirmar publicamente que o atual sistema de classificação presente no DSM e CID, com relação aos diagnósticos psiquiátricos funcionais, tem limitações conceituais e empíricos significativos. Em consequência, existe uma necessidade de mudança de paradigma em relação com às experiências referidas nesses Manuais, em vistas de se ter um sistema conceitual que não esteja baseado em um modelo de ‘enfermidade’. ”

Resumindo, o argumento é que os diagnósticos dos chamados ‘transtornos mentais’ funcionais – esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar, transtorno da personalidade, o TDAH, e assim sucessivamente – não são categorias cientificamente válidas, e que com frequência são prejudiciais na prática clínica, e, sobretudo, na vida dos diagnosticados.

A declaração afirma que já contamos com alternativas reais e eficazes, como é a formulação psicológica para abordar tais ‘transtornos’, e que existe uma necessidade de se trabalhar em colaboração com os usuários do serviço e os grupos profissionais, incluindo os psiquiatras, com a finalidade de se desenvolver ainda mais as alternativas a esse modelo ‘iatrogênico’.

Essa tomada de posição da Sociedade Britânica de Psicologia ultrapassou em muito a comunidade dos profissionais de saúde, ao aparecer na primeira página de jornais de grande circulação no Reino Unido, como foi no The Guardian, que dedicou duas páginas internas para discutir o assunto, com os títulos ‘Um novo grande campo de batalha de medicamentos? Existe realmente uma enfermidade mental’ , e ‘Os psiquiatras sob fogo na batalha da saúde mental’.

Em questão de horas, milhares de comentários começaram a ser feitos na página na internet do The Guardian, e os artigos estavam sendo re-twiteados ao redor do mundo.

Não faz falta dizer, que a postura assumida pela Sociedade Britânica de Psicologia teve reações de aprovação como de reprovação.

Talvez a mais previsível tenha sido a reação de Allen Frances, quem recentemente esteve no Brasil para o lançamento em português do seu último livro.  Frances passou a ser conhecido recentemente como um opositor declarado do DSM-5. Porém, como seria o esperado de quem foi o coordenado-chefe da força tarefa que elaborou o DSM-IV, Frances reagiu a essa declaração como sendo uma  “postura extremista da Sociedade Britânica de Psicologia, igual ao que foi feito pelo DSM-5 e o NIMH“.

Sendo ele um dos nomes de ponta do modelo biomédico da psiquiatria, muitos foram aqueles que tomaram o posicionamento de Frances, , como seu suporte ideológico (quer dizer, supostamente científico) para o debate entre os profissionais; uns a dizer que tudo isso não passa de “guerras territoriais”, enquanto que outros acusaram o DCP de ignorar o papel da biologia.

Quem lê a declaração do DCP pode constatar o quanto as reações em contrário mal escapam do ideológico, portanto, em nada científicas. O DCP estabelece especificamente que “Esta posição não deve ser interpretada como uma negação do papel da biologia na mediação em todas as formas da experiência, do comportamento e da angústia, humanas.” A declaração também diz explicitamente que o argumento diz respeito às formas de pensar, e não sobre determinadas profissões.

A acusação ‘guerras pelo território’ é particularmente algo muito longe da realidade, visto que a declaração do DCP é simplesmente uma reiteração, aliás bem equilibrada, dos comentários recentes de alguns dos psiquiatras mais eminentes no mundo.  O próprio Allen Frances descreve o DSM-5 como “profundamente defeituoso e que carece de rigor científico”. Enquanto que o Dr. Thomas Insel, diretor do NIMH (National Institute of Mental Health), disse “… os pacientes merecem algo melhor”.  E o ex-diretor do mesmo NIMH, o doutor Steven Hyman, foi ainda bem mais contundente: chamou o DSM-5 de “totalmente equivocado, um pesadelo científico absoluto”. Em resposta, o Presidente do Comitê do DSM-5, o Dr. David Kupfer admitiu: “Temos estado a dizer aos pacientes há várias décadas que estamos buscando pelos bio-marcadores.  E ainda estamos esperando.”

A principal diferença – e, por suposto, muito importante – entre a posição desses eminentes psiquiatras e o DCP é que a primeira se caracteriza pela perseguição do modelo biomédico a todo o custo. De fato, o NIMH anunciou a intenção de colocar como prioridade um programa de 10 anos para definir, de uma vez por todas, os bio-marcadores que até agora têm se esquivado aos investigadores. O projeto parte da posição muito pouco científica de assumir o que necessita ser demonstrado: em suas palavras que “os transtornos mentais são transtornos biológicos”.  Um projeto viciado por natureza, porque ele permite que os conservadores do ‘biologicismo’ continuem afirmando que “estamos nos aproximando – honestamente”. Enquanto tal, a avassaladora quantidade de evidências de fatores causais de natureza psicossocial é relegada, sistematicamente, a um segundo plano.

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Se pensarmos na situação nossa aqui no Brasil. O que as entidades representativas das diversas profissões que trabalham no campo da saúde mental têm a dizer?  O que as organizações sociais de defesa dos interesses dos usuários do sistema de saúde têm a dizer?

A informação precisa chegar ao público dos profissionais de saúde, e em particular aos próprios usuários do sistema de saúde, público e privado.

Ajude a qualificar o debate!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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