O DSM e o Modelo Médico: novo vídeo

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Autor: Steve Spiegel.

Uma vez que as ideias, as atitudes ou as atividades com referência à atenção em “saúde mental” afetam diretamente a toda a sociedade, o público merece uma visão geral das questões levantadas pelos críticos dessas práticas. Por essa razão, eu criei uma curta conferência em vídeo, intitulada O DSM e o Modelo Médico (anexada abaixo).

Esse resumo da crítica ao modelo médico de sofrimento mental destina-se a preencher um vazio na informação pública, e oferece uma contundente crítica à psiquiatria e à sua narrativa. O vídeo também pretende dar voz aos destituídos de direitos diante das injustiças que sofrem em sua interação com o sistema de saúde mental. Descreve a natureza contraproducente do modelo médico, a sua pseudociência, e o elitismo que os sustentam.

Estou buscando feedback da comunidade do Mad in America sobre o meu vídeo, porque pretendo reeditá-lo, para dar o maior impacto possível. Estou particularmente interessado em feedback sobre o paradigma do bem-estar social que é introduzido como sendo uma melhor narrativa alternativa de abordagem do sofrimento mental. Também estou interessado em ideias sobre como promover o vídeo, que após a edição será apresentado gratuitamente ao público .

Aqui está uma breve sinopse das questões discutidas no vídeo:

A primeira seção apresenta o modelo médico do sofrimento psíquico (o modelo da doença) e o DSM que o descreve. A Associação Psiquiátrica Americana (APA) publica o DSM; sua narrativa domina os cuidados de saúde mental nos EUA. A narrativa do modelo médico é um “paradigma clássico”, conforme foi introduzido por Thomas Kuhn em seu livro marcante, A Estrutura das Revoluções Científicas. Um paradigma clássico é uma cosmovisão completa – portanto é difícil desafiá-lo, porque os seus termos têm conotações e contextos inter-relacionados a darem suporte à narrativa existente.

Consistentemente, a maioria das pessoas no meu país (os EUA) assumem que a saúde mental é uma questão médica; poucos são os que podem imaginar saúde mental como sendo uma narrativa de bem-estar emocional-social. É lamentável para os desprotegidos que poucas pessoas entendam a definição da Organização Mundial de Saúde: a saúde como sendo um problema social, quer dizer, sendo uma questão de bem-estar social. Também é lamentável para os desprotegidos que poucas pessoas possam imaginar sofrimento emocional como sendo algo maior do que o seu próprio sofrimento, ou alguma experiência angustiante que seja mais angustiante do que a sua própria.

A Seção Dois segue a introdução do modelo médico, apresentando uma narrativa alternativa – ela introduz um modelo de bem-estar social de sofrimento emocional natural (ou como reações “antissociais” ao sofrimento). A narrativa de bem-estar social acrescenta alguma digamos que humanidade à nossa compreensão da saúde mental – enquanto uma discussão de emoções como sendo efeitos diretos da experiência humana. Faz afirmações sobre emoções que devem ser óbvias: um sofrimento emocional (sofrimento mental) é uma reação natural a experiências angustiantes, ao invés de ser uma doença. A narrativa de bem-estar social também defende que a saúde física afeta diretamente a saúde mental: doenças físicas, alergias, déficits nutricionais, fadiga e toxinas ambientais, podem levar ao sofrimento mental.

A Seção Três é uma visão geral da crítica do modelo médico do sofrimento psíquico. Começa com uma breve história do DSM, tentativas da psiquiatria para explicar o seu modelo médico. Faz uma crônica da história das revisões de DSM, expondo sua fundação política que é bem mais do que científica – a Associação Psiquiátrica Americana simplesmente categoriza comportamentos considerados como sendo “antissociais”, e os etiqueta como sendo problemas médicos – pelo voto de comitê. O vídeo critica o DSM por: 1) sua falta de validade, 2) sua falta de confiabilidade, 3) seu desprezo às histórias pessoais, 4) seu desprezo à intensidade do sofrimento, 5) os limites de categorias ambíguas, 6) o uso de sintomas comuns como categorias, 7 ) estigmatizar clientes, 8) promover profecias autorrealizáveis, e 9) ignorar seus preconceitos culturais.

As críticas também devem incluir a psiquiatria ao etiquetar os comportamentos “antissociais”, por meio do emprego de termos médicos (em grego ou em latim), para reificá-los – isto é, para fazer com que passemos a vê-los como um problema médico (biológico), portanto, objeto da apreciação médica. Por exemplo, os psiquiatras nos sugerem a visão médica para a incontinência urinária, descrevendo que o que a causa é enuresis – uma palavra grega para urinar! O vídeo também firmemente expressa sua desaprovação pelo fato que a psiquiatria continue a defender a teoria do desequilíbrio químico (a causalidade lógica dos “transtornos mentais”), mesmo depois que a maioria dos psiquiatras eminentes já a tenham rejeitado.

Além de fazer um resumo das críticas populares ao DSM, esta seção também aborda o absurdo científico do novo DSM-5, ao mudar a sua definição do que é um “transtorno mental”, sem comentário ou explicação. Nada chama mais a atenção do quanto a psiquiatria é uma pseudociência do que o DSM-5, ao mudar a sua definição ofuscada do que é um “transtorno mental”, sem que os psiquiatras defendam ou mesmo percebam a mudança!

A Seção Quatro discute os interesses adquiridos – obstáculos à mudança de uma narrativa. A realidade dos fortes interesses dos psiquiatras e executivos das empresas farmacêuticas é exposta à luz do dia. Além disso, esta seção descreve vários outros grupos que também estão fortemente investidos no modelo médico. Existem muitas razões pelas quais as pessoas se tornam defensoras do modelo médico. Os psiquiatras investem suas vidas em uma formação em escolas de medicina e contraem dívidas em sua formação profissional, acreditando que podem aliviar o sofrimento humano, ao mudar a história embaraçosa da Psiquiatria – que é um acúmulo de “tratamentos” nocivos. Os vastos recursos da Big Pharma criam uma ampla faixa de interesses: pais e irmãos, que se encontram na defensiva com relação a comportamentos perturbadores, eles passam a ver no modelo biomédico a solução para os problemas; por sua vez, os que padecem de sofrimento mental encontram um refúgio no modelo, para dar conta do sofrimento; e os líderes culturais, que procuram manter a injustiça injustificável, são investidos por esse modelo.

Depois de descrever os obstáculos para mudar a equivocada narrativa de doença para uma narrativa de bem-estar social, a Seção Cinco discute os danos de se tratar um problema de bem-estar social como um problema médico. Essa seção descreve a crise atual em saúde mental. O modelo médico não é apenas equivocado, errôneo; a saúde mental é realmente prejudicada ao tratar o sofrimento emocional natural (ou reações ao sofrimento de formas “antissociais) como sinônimo de uma doença – quer dizer, como um problema médico.

O livro clássico de Robert Whitaker, Anatomy of an Epidemic, documenta como é que tratar o sofrimento emocional – enquanto uma doença – apenas piora os resultados. Em primeiro lugar, o modelo médico prejudica a saúde mental, ao manipular, por meios psicológicos, os que padecem de sofrimentos emocionais – defendendo que as emoções naturais relacionadas a experiências reais e angustiantes são em vez disso “distúrbios mentais” imaginários. Em segundo lugar, o modelo médico prejudica a saúde mental, estigmatizando os sofredores emocionais com um rótulo médico, que falsamente implicam em uma disfunção neurológica. Em terceiro lugar, o modelo médico prejudica a saúde mental, ao promover o abuso de drogas; é nocivo quando falsamente se descreve as drogas psiquiátricas como sendo “medicamentos” que tratam um problema médico (biológico).

Por fim, o modelo médico prejudica a saúde mental ao promover “terapias coercitivas”. O termo “terapia coercitiva” é um oxímoro. Negar os direitos humanos básicos às pessoas que sofrem emocionalmente de experiências extraordinariamente angustiantes é absurdamente cruel –  piora os resultados, incluindo entre eles o suicídio.

O vídeo deve ser editado para incluir como o modelo médico de sofrimento mental prejudica a população em geral, bem como os desprovidos de direitos. Há um custo substancial, tanto econômico como social, ao se aumentar o número de pacientes psiquiátricos em uma comunidade. A epidemia de “transtornos mentais”, causada pela “terapia medicamentosa” para o sofrimento emocional natural, está promovendo na prática uma epidemia de pessoas que precisam de assistência pública (ver Anatomia de uma Epidemia); e isso é um desperdício assombroso de recursos públicos. O vídeo também deve incluir críticas ao modelo médico ao serem promovidas violações flagrantes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (o novo tratado internacional de direitos humanos da ONU).

A conclusão é um apelo para que se desafie a narrativa do modelo médico – para que se dê conforto aos aflitos, ao invés de piorar a sua situação já difícil pela via do ostracismo e da violação de seus direitos. Essa parte final do vídeo tenta expressar a tragédia do tremendo dano causado ao se considerar erroneamente o sofrimento emocional natural como sendo uma doença. Felizmente, a psiquiatria e sua narrativa de modelo médico estão agora vacilando, devido ao peso crescente de sua pseudociência, ao elitismo, e aos danos causados à saúde mental da comunidade.

Talvez o vídeo deva concluir com uma nota mais otimista? Substituir o falso, esse modelo de doença  – enquanto uma narrativa de sofrimento mental -, por uma narrativa de bem-estar social, isso certamente poderá promover uma melhoria revolucionária na condição social humana!

Congratulo-me e valorizo os comentários da comunidade do Mad in America antes de reeditar O DSM e o Modelo Médico. (A ser observado: o lucro anual das vendas de drogas psicotrópicas foi equivocadamente apresentado e será reeditado, para refletir o valor correto de 18 bilhões de dólares.)

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Veja o vídeo na íntegra, clicando aqui.

Steve Spiegel

Steve Spiegel é um cientista natural independente e neurocientista teórico. Suas experiências com sofrimento mental iniciaram uma investigação sobre o sofrimento humano natural e a pseudociência do modelo médico de sofrimento mental. Steve está atualmente produzindo documentários e lançando um programa gratuito de terapia que unifica alternativas à terapia de drogas em um programa único e abrangente.

 

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