Como deixar de ser Dependente Químico de Droga Psiquiátrica?

Uma experiência holandesa. Que pode ser exemplar para nós aqui no Brasil.

0
367

Um dos mais graves problemas que as pessoas enfrentam com o tratamento psicofarmacológico é que as drogas psiquiátricas em médio e longo prazo criam uma dependência química que é eliminada com dramáticas dificuldades. Movimentos liderados por pacientes e ex-pacientes buscam encontrar soluções seguras e eficazes.

Recentemente, a revista New Scientist publicou um artigo relatando uma experiência que pode ser uma referência para nós aqui no Brasil. Trata-se de um ‘site’ holandês que vende kits para ajudar as pessoas em seu processo de ‘desmame’ das drogas psiquiátricas, e que está prestes a ser lançado na língua inglesa. (E como era o de se esperar, tal iniciativa está despertando preocupações entre os reguladores de venda de medicamentos e os médicos do Reino Unido.)

O problema que os usuários de drogas psiquiátricas enfrentam para poder deixar de ser dependentes é que esses medicamentos não são vendidos em dosagens pequenas o suficiente para permitir a diminuição gradativa do tratamento (psicofarmacológico). Isso tem levado algumas pessoas a criticar o modo como os médicos em geral as prescrevem e a buscar métodos alternativos para reduzir suas doses, como moer os comprimidos e dissolvê-los em água, ou quebrar as cápsulas e contar os grânulos. No Reino Unido, a ONG Mind aconselha as pessoas que querem parar de tomar antidepressivos com algumas técnicas, mas recomenda que os usuários recebam primeiramente conselhos de seu médico ou farmacêutico.

New Scientist

Para ajudar as pessoas a diminuir sua dose com mais facilidade, uma ONG médica holandesa, chamada Cinderella Therapeutics, cria “kits” personalizados, com comprimidos precisamente pesados, disponíveis em pacotes rotulados, em dosagens que possam ser reduzidas gradualmente ao longo de vários meses. O ‘site’ recomenda que as pessoas façam isso sob supervisão médica e que devem primeiro receber receita médica.

O artigo da New Scientist aborda alguns dos sintomas comuns que as pessoas sofrem ao buscar interromper o uso de antidepressivos, por exemplo.  Há quem se sinta como se “houvesse sido atropelado por um ônibus”, como é dito por um entrevistado. Ele teve tonturas, náuseas e dores de cabeça quando parou de tomar o antidepressivo mirtazapina. Outros que param de tomar antidepressivos relatam efeitos colaterais, como ataques de pânico ou problemas de memória e concentração.

Há que se observar que os folhetos informativos que os fabricantes de medicamentos fornecem na caixa do medicamento alertam sobre os efeitos de retirada de curto prazo, e os médicos geralmente recomendam que as pessoas reduzam sua dose lentamente. Mas mesmo que as pessoas façam isso, uma vez que elas param de tomar a menor dose de comprimidos disponíveis, algumas ainda enfrentam graves problemas. Algumas pessoas são informadas por seus médicos de que se trata de uma recaída, mesmo que isso não seja verdadeiro, o artigo nos lembra.

Uma solução, muitas vezes proposta, é tomar uma pílula a cada dois dias, mas alguns antidepressivos comuns, como a venlafaxina e a paroxetina, são quebrados pelo organismo em algumas horas, de modo que esse método não interfere que os níveis dessas drogas no sangue fiquem flutuando de um dia para o outro no organismo. Em vez desse método tradicional, as pessoas começaram a trocar ‘on line’ dicas de como diminuir a medicação.

Há quem tente cortar suas pílulas em pedaços menores, mas que descobre que a dosagem passa a ser muito variável e seus sintomas de abstinência retornam.

David Healy, um psiquiatra da Universidade Bangor (Reino Unido), diz que as experiências das pessoas com a retirada de antidepressivos podem variar muito. Ele ajuda aqueles com sintomas graves, prescrevendo formulações líquidas dos remédios, que podem ser medidas em pequenas quantidades.

O farmacêutico Paul Harder, que faz os kits para Cinderella Therapeutics, diz que uma pesquisa não publicada da instituição descobriu que cerca de 80% dos usuários conseguem parar completamente de tomar seus remédios. Outros 10% reduzem, porém o resto retorna à sua dose original. O tempo médio em que as pessoas usam o atendimento do serviço é de dois meses, ele diz, mas algumas pessoas demoram até sete meses.

Tony Kendrick da Universidade de Southampton no Reino Unido diz que outra opção para algumas pessoas é mudar os antidepressivos para fluoxetina (Prozac), que está amplamente disponível em uma formulação líquida. Mas algumas pessoas sentem que não podem mudar.

Eis aí um desafio para nós aqui no Brasil. Um desafio que clama pela colaboração dos médicos e farmacêuticos. Mas que igualmente depende da colaboração de usuários e ex-usuários. Alternativas existem, mas há a força do querer.

Leia o artigo da New Scientist, na íntegra.

Deixe uma resposta