SEMINÁRIO: A EPIDEMIA DAS DROGAS PSIQUIÁTRICAS: CAUSAS, DANOS E ALTERNATIVAS

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Nos dias 30, 31 e 01 de novembro, no Rio de Janeiro, na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/FIOCRUZ), Seminário Internacional A EPIDEMIA DAS DROGAS PSIQUIÁTRICAS: CAUSAS, DANOS E ALTERNATIVAS. Entre os convidados internacionais de destaque: Robert Whitaker, Laura Delano e Jaakko Seikkula. O Seminário será transmitido ao vivo → 

Programação:

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RESUMOS (abstracts):

Robert Whitaker

robert-whitakerEm 1980, a American Psychiatric Association (APA) adotou um “modelo de doença” para categorizar transtornos mentais, e esse modelo foi exportado para o Brasil e para grande parte do mundo. O público passou a ser ensinado que depressão, ansiedade, TDAH e esquizofrenia eram doenças do cérebro, causadas por desequilíbrios químicos, e que uma nova geração de drogas psiquiátricas havia sido desenvolvida que corrigia esses desequilíbrios químicos no cérebro.

Essa história passou a ser contada como um notável avanço científico. As causas dos transtornos mentais finalmente passaram a ser conhecidas, e que vinham sendo descobertas drogas que poderiam resolver esses problemas biológicos. E com o público informado com essa história, a prescrição de drogas psiquiátricas, para todas as idades, aumentou dramaticamente.

No entanto, de país a outro país, o aumento do diagnóstico de distúrbios e o aumento do uso de drogas psiquiátricas não levaram a uma redução do ‘fardo’ da doença mental, mas sim ao seu aumento dramático. O número de pessoas “incapacitadas” por transtornos mentais e, portanto, incapaz de trabalhar, aumentou quatro vezes nos Estados Unidos nos últimos 30 anos, e esse aumento na ‘incapacidade’ tem sido observado em muitos outros países que adotaram esse mesmo paradigma de assistência.

Uma revisão da literatura científica revela o por quê. Embora os medicamentos psiquiátricos possam aliviar os sintomas no curto prazo (melhor que o placebo), a longo prazo aumentam o risco de uma pessoa se tornar cronicamente doente e prejudicada funcionalmente. A literatura de pesquisa argumenta por uma necessidade de se repensar profundamente o uso de drogas psiquiátricas, com o pensamento de que elas precisam ser usadas com muito mais cautela, e que devem ser criados modos alternativos de tratamento.

O papel do Brasil é muito relevante para que esse processo tenha êxito global, levando em consideração as suas conquistas na ‘reforma psiquiátrica’.

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Laura Delano

Laura Delanoirei compartilhar a história de como me perdi no sistema de saúde mental ao longo de catorze anos e, por fim, passei a perceber que precisava sair das drogas psiquiátricas, abandonar meus diagnósticos psiquiátricos e deixar o sistema de saúde mental, para assim ter uma chance de recuperar a minha vida.

Eu descreverei como haver sido rotulada de “doente mental” e tomar drogas psiquiátricas moldou fundamentalmente o senso de mim mesma, a minha saúde física, as minhas habilidades cognitivas, o meu senso de sentido e propósito, e minha conexão com o mundo.

Irei reconsconstruir o processo pelo qual eu “desaprendi” a ser um paciente psiquiátrico e me livrar das drogas psiquiátricas. Em seguida, vou compartilhar sobre o trabalho que tenho feito para apoiar os outros que procuram caminhos fora do sistema de saúde mental, e eu vou terminar a conversa compartilhando com vocês os esforços de ativismo militante, defesa de direitos e de educação pública, que estão acontecendo mais amplamente dentro o Movimento de Sobreviventes / Ex-Pacientes Psiquiátricos em rápido crescimento nos Estados Unidos.

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Jaakko Seikkula

Jaakko SeikkulaAceitar o Outro sem condições é o caminho de ouro para abrir diálogos nas redes sociais que se encontram em crises severas. No entanto, o sistema de cuidados é construído sobre diretrizes, onde os profissionais são orientados a seguir sua via de tratamento de um caso para outro dentro de categorias de diagnóstico específicas. Dentro deste tipo de prática hoje dominante, respeitar as vozes dos clientes não é o objetivo básico. Infelizmente, a prática hegemônica muitas vezes desrespeita os recursos psicológicos dos clientes e, portanto, enfatiza a prática fortemente centrada no chamado expert. O tratamento é direcionado aos sintomas de clientes individuais para que o tratamento esteja sob controle.

Nas crises graves, outro tipo de abordagens é imprescindível. Em 30 anos, as experiências de desenvolver a prática do diálogo aberto como foco tornaram-se da maior importância: 1) convidar a família e outras redes sociais dos pacientes para aumentar os recursos; e 2) se concentrar na geração de diálogo para fazer ouvir todas as vozes nas reuniões terapêuticas. Os clientes são abordados como seres humanos em sua plenitude e não como sintomas. Se esses dois elementos principais forem realizados, os recursos dos clientes são ampliados para encontrar seu próprio caminho ao longo de suas vidas. Conforme observado nos estudos de psicose em primeiro episódio, 85% dos pacientes podem retornar ao pleno emprego. Ou em estudos de depressão maior, onde a recuperação ocorre mais rápido e mais frequentemente, em comparação com o tratamento habitual. Em ambos os casos, o papel da medicação pode ser reduzido, evitando assim o efeito nocivo das medicações de psicose e de depressão. Por exemplo, na Lapónia Ocidental com pacientes psicóticos em seu primeiro episódio, 65% não usaram medicação de psicose durante cinco anos; e a situação parece ser a mesma após 20 anos após o início do tratamento. Na primeira comparação, a taxa de aposentadoria é mais baixa na Lapônia Ocidental. e pode ser duas vezes maior dos que em tratamentos baseados em medicação.

Para o clínico, adotar a prática dialógica de respeitar o Outro, sem condições, provou ser uma tarefa desafiadora. Diálogo Aberto enfatiza a importância da nossa escuta cuidadosa de aceitar o outro sem condições. Adotar a prática dialógica é uma nova habilidade, onde podemos nos encontrar em diferentes papéis profissionais do que aqueles com os quais estamos acostumados a agir.

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