Médicos pressionam para se repensar as designações sexuais nas certidões de nascimento

0

Num editorial para a conceituada revista médica, o New England Journal of Medicine, médicos e investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Brown e da Faculdade de Direito da Universidade de Vanderbilt apelam ao governo para repensar a forma como as designações sexuais são relatadas nas certidões de nascimento. Os autores, Vadim Shteyler, Jessica Clarke, e Eli Y. Adashi, propõem a mudança das designações sexuais abaixo da linha de demarcação para proteger as pessoas com diferenças de gênero, intersexo e transgênero da discriminação legal.

” Mover a informação sobre sexo abaixo da linha de demarcação não prejudicaria a utilidade da certidão de nascimento para a saúde pública. Mas manter as designações sexuais acima da linha de demarcação causa danos”, escrevem os autores.

Os indivíduos transexuais e os indivíduos com diferenças de gênero enfrentam taxas mais elevadas de diagnósticos psiquiátricos, e as suas experiências de discriminação levam a um aumento do estresse. Pesquisas anteriores mostraram que os tratamentos não afirmativos de gênero estão associados a graves problemas psicológicos, enquanto que as intervenções de afirmação do gênero podem reduzir as questões de saúde mental. Por exemplo, os jovens transexuais relataram uma redução da depressão e do suicídio quando o seu nome escolhido é respeitado.

A atual designação do sexo como masculino ou feminino nas certidões de nascimento perpetua a narrativa problemática de ver o sexo e a identidade de gênero em forma binária.  À medida que a compreensão das experiências de indivíduos intersexo, transexuais e com diferentes identidades de gênero tem aumentado, tornou-se claro que as designações sexuais nas certidões de nascimento têm pouca ou nenhuma utilidade clínica, mas que servem principalmente para fins legais.

Acreditamos que chegou o momento de atualizar a prática da designação de sexo nas certidões de nascimento, dados os efeitos particularmente nefastos sobre tais designações em pessoas intersexo e transexuais“, escrevem os autores.

Existem dois conjuntos de informações sanitárias recolhidas nas atuais certidões de nascimento: as informações acima da linha de demarcação e as informações abaixo da linha de demarcação. A informação acima da linha de demarcação tem fins legais de identificação e a informação abaixo da linha é utilizada para fins estatísticos. Certas informações, tais como a raça, foram deslocadas abaixo da linha de demarcação para uma autoidentificação mais precisa e para evitar um potencial estigma.
 “A certidão de nascimento está evoluindo, com revisões que refletem mudanças sociais, interesse público e requisitos de privacidade; acreditamos que é tempo de outra atualização: as designações de sexo devem passar para baixo da linha de demarcação”.

De fato, o artigo mencionou que cerca de 6 em 1000 pessoas identificam-se como sendo transexuais ou não-binários, e 1 em 5000 pessoas têm variações intersexo. Além disso, 1 em cada 100 pessoas pode conter variações de cromossomas sexuais sem o saber. As designações sexuais atuais não refletem a diversidade das experiências das pessoas, o que poderia comprometer a saúde dos indivíduos transexuais e dos indivíduos com diferentes identidades de gênero, acrescentando um estresse desnecessário devido a uma identificação imprecisa e limites à autoexpressão.

“Para pessoas com variações intersexo, a designação sexual pública das certidões de nascimento convida ao escrutínio, vergonha e pressão para se submeterem a intervenções cirúrgicas e médicas desnecessárias e indesejadas”, explicam os autores.

“As designações sexuais no nascimento podem ser utilizadas para excluir pessoas transexuais do serviço em unidades militares adequadas, cumprir penas em prisões adequadas, inscrever-se em planos de saúde, e em estados com leis de identificação estritas, votar”.

Os autores também reconhecem que os profissionais de saúde devem sentir-se mais responsáveis pela defesa das minorias sexuais e de gênero que o sistema médico tem prejudicado historicamente. Por exemplo, muitas pessoas com variações intersexo são submetidas a cirurgias sem o seu consentimento, o que pode levar à perda da sensação sexual e da capacidade de reprodução.

Por último, os autores exortam os governos e mais instituições a alterar a prática atual das designações sexuais e a deslocar as designações sexuais abaixo da linha de demarcação nas certidões de nascimento, para que as pessoas possam identificar o seu sexo sem verificação médica. Esta mudança reduzirá a probabilidade de os indivíduos transexuais e os indivíduos com diferentes identidades de gênero se tornarem alvo de discriminação e permitir-lhes-á autoidentificar o seu gênero numa idade mais avançada.

Os autores concluem:

“Hoje, a comunidade médica tem o dever de assegurar que os legisladores não interpretem mal a ciência relativa ao sexo e que as avaliações médicas não estejam a ser mal utilizadas no contexto legal. Para proteger todas as pessoas, as designações sexuais de certificados de nascimento devem ser colocadas abaixo da linha de demarcação”.

….

Shteyler, V. M., Clarke, J. A., & Adashi, E. Y. (2020). Failed Assignments-Rethinking Sex Designations on Birth Certificates. The New England Journal of Medicine383(25), 2399-2401. (Link)

Cientistas investigam o papel da Microbiota intestinal em risco de ‘Transtornos Mentais Graves’.

0
Num artigo recentemente publicado no Frontiers in Psychiatry, investigadores e clínicos internacionais reviram a literatura sobre a relação entre a microbiota intestinal e o risco de perturbações mentais graves (PMG). Os autores, liderados pelos investigadores italianos Gabriele Sani e Mirko Manchia, analisaram as evidências de estudos com animais e humanos para destacar a atual compreensão do campo sobre como a microbiota intestinal muda em indivíduos com perturbações mentais graves (SMD) e oferecer alguns modelos especulativos para explicar a sua relação.
“Um componente biológico, parcialmente herdado, que tem sido até agora negligenciado na previsão do risco de PMG, é a microbiota. A microbiota humana consiste no conjunto de micróbios, incluindo vírus, bactérias, e eucariotas, que habitam vários nichos ecológicos do organismo”, explicam os autores.

“Devido ao seu papel demonstrado na modulação da doença e da saúde, muito interesse tem incidido na caracterização da microbiota que habita o intestino. De fato, as alterações da microbiota intestinal têm sido ligadas, entre outros aspectos, à obesidade, à maturação do sistema imunitário e à resposta às drogas. De particular interesse é o papel modulador que a microbiota adquire no comportamento humano”.

Os autores definem as PMG como diagnósticos psiquiátricos crônicos e recorrentes, tais como ‘esquizofrenia’, ‘doença bipolar’ e ‘doença depressiva grave’, que frequentemente são menos responsivas ao tratamento. Citando as grandes disparidades e desigualdades de saúde das pessoas diagnosticadas com PMG, concentraram-se em métodos preventivos para melhorar os resultados para as pessoas com alto risco clínico de PMG. 

Descobertas recentes têm demonstrado ligações entre dieta e saúde mental, ligando dietas pró-inflamatórias de alto teor de gordura e açúcar a maus resultados em termos de saúde mental. A investigação também encontrou melhor qualidade de vida e redução de sintomas depressivos para pacientes diagnosticados com depressão que aderiram à dieta mediterrânea.

A investigação recente tem também demonstrado ligações entre a microbiota intestinal e a saúde mental, nomeada pelos neurocientistas como o eixo microbiota-cérebro. Por exemplo, foram encontradas diferenças significativas na composição microbiana das pessoas com sintomas depressivos aumentados e qualidade de vida inferior à dos controles saudáveis.

Os autores identificaram vários estudos que mostram uma diminuição da biodiversidade no microbioma para aqueles diagnosticados com PMG em comparação com os controles saudáveis. Por exemplo, bactérias rotuladas como anaeróbios facultativos eram mais susceptíveis de serem encontradas na microbiota intestinal de doentes sem medicamentos diagnosticados com esquizofrenia, distúrbio bipolar e distúrbio depressivo importante.

Tem sido afirmado que a disbiose intestinal (desequilíbrio persistente da comunidade microbiana do intestino) e as infiltrações intestinais (aumento da permeabilidade do revestimento intestinal que permite “fugas” para a corrente sanguínea) podem afetar a saúde mental através de vias como a regulação imunitária, o estresse oxidativo/nitrosativo, assim como a neuroplasticidade.

Embora analisando as diferenças entre perturbações específicas e controles saudáveis, os autores reconhecem que existem provas limitadas de como a microbiota pode variar nos indivíduos em risco de PMG e nos indivíduos em fases posteriores da PMG. Observando que o microbioma é simultaneamente moldado com o sistema nervoso e tem janelas de desenvolvimento crítico semelhantes, os autores apontam para provas crescentes do papel-chave da microbiota no desenvolvimento neurológico, especialmente como fator moderador da maturidade do sistema nervoso central (SNC) nas fases iniciais de desenvolvimento.

Os autores discutem estudos sobre o período perinatal e o microbioma materno com o seu impacto no desenvolvimento psicológico da prole. Por um lado, a exposição materna ao estresse pode alterar o microbioma intestinal da descendência e afetar o comportamento. A investigação relacionou a diminuição dos níveis de probióticos no intestino dos descendentes com o aumento da ansiedade e a diminuição das funções cognitivas; aumento dos níveis de interleucina-1β, uma citocina inflamatória associada à resposta imunitária e diminuição do fator neurotrópico derivado do cérebro (BDNF) na amígdala, que está relacionado com a plasticidade neural, aprendizagem e memória.

Os autores admitem que grande parte desta investigação provém de estudos com animais realizados com ratos. Em ratos alimentados com uma dieta rica em gordura, os seus descendentes demonstraram interações sociais reduzidas, fraco interesse pela novidade social, sociabilidade alterada.

Num outro estudo, descendentes de mães a quem foram administrados antibióticos durante ou imediatamente antes da gravidez de ratos tinham diminuído a sua atividade locomotora e exploradora, baixa inibição de impulsos, más interações sociais e ansiedade. Curiosamente, estes comportamentos foram remetidos depois de terem sido alimentados por mães de controle.

Por último, um estudo de ratos sem germes (GF) (aqueles que não estão expostos a bactérias) mostrou uma maior resposta ao estresse por estarem restringidos, BDNF reduzida no hipocampo e no córtex, mostraram um comportamento mais ansioso e tinham níveis aumentados de serotonina no hipocampo. No entanto, quando dada uma cepa de Bifidobacterium infantis em desenvolvimento precoce (pré-desmame), a resposta ao estresse dos ratos GF normalizou-se.

“Cumulativamente, estes dados apontam para a existência de períodos críticos específicos e limitados, para a microbiota intestinal atuar sobre a função e plasticidade dos circuitos neuronais,” escrevem os autores. “A janela de oportunidade para que a microbiota tenha impacto nos circuitos cerebrais pode diferir para comportamentos emocionais/sociais distintos e, eventualmente, para modalidades sensoriais.”

Os autores observam que apenas um estudo nesta revisão analisou como os microbiomas alterados afetavam o risco de desenvolvimento de perturbações mentais nos seres humanos. Descobriram que as pessoas em risco de PMG tinham uma diferença clinicamente significativa na sua composição microbiana global, com as que se encontravam em altíssimo risco a apresentar maiores níveis de Clostridiales, Lactobacillales, Bacteroidales, Acetyl coenzyme e níveis de colina cingulada anterior. Pensa-se que a colina superior resulta de metabolismo de membrana alterado devido à ativação de microglia, células imunes residentes no SNC que contribuem para a neuroinflamação.

A partir desta revisão bibliográfica, os autores propõem alguns mecanismos para que as alterações na microbiota intestinal e nas expressões genéticas possam moderar o risco de desenvolvimento de uma PMG. Citam evidências que sugerem que os efeitos da microbiota intestinal sobre o SNC influenciam o comportamento dos mamíferos e inibem certas expressões genéticas. Os autores também sugerem que certa microbiota pode aumentar a permeabilidade da barreira hemato-encefálica, predispondo alguém a desenvolver uma doença neurodegenerativa (por exemplo, a doença de Parkinson). Sugerem também que alterações na neurogênese podem levar a deficiências cognitivas na atenção, memória, aprendizagem emocional e funcionamento executivo.

Os autores concluem que deve ser feita mais investigação sobre modificações de microbiota intestinal durante as trajetórias de desenvolvimento das PMGs, embora apenas a investigação longitudinal possa indicar a direção das modificações no eixo microbiota-cérebro. Eles sugerem:

“…a análise da microbiota deve ser incluída na avaliação global geralmente realizada em populações de alto risco para as PMG, dado que pode informar modelos de previsão e estratégias preventivas.” 

****

Sani, G., Manchia, M., Simonetti, A., Janiri, D., Paribello, P., Pinna, F., & Carpiniello, B. (2021). The role of gut microbiota in the high-risk construct of severe mental disorders: A mini-review. Frontiers in Psychiatry11, 585769. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2020.585769 (Link)

KIT DE SOBREVIVÊNCIA EM SAÚDE MENTAL E RETIRADA DAS DROGAS PSIQUIÁTRICAS, CAPÍTULO 5, PARTE 2

0

 

Nota do Editor: Por permissão do autor, o Mad in Brasil (MIB) está publicando o recente livro do Dr. Peter Gotzsche, Kit de Sobrevivência em Saúde Mental . Os capítulos estão ficando disponíveis em um arquivo aqui.

KIT DE SOBREVIVÊNCIA EM SAÚDE MENTAL E RETIRADA DAS DROGAS PSIQUIÁTRICAS, Cap. 5, Parte 2

Sem esperança para a psiquiatria: sugestões para um novo sistema

Expliquei neste livro como tentei reformar a psiquiatria, com que tipo de bloqueios eu e outros nos deparamos, e o que isso me custou pessoalmente.

Eu também tentei mudar a psiquiatria de dentro da tenda. Em dezembro de 2017, solicitei a adesão à Associação Psiquiátrica Dinamarquesa, o que não deveria ter sido um problema, de acordo com as suas próprias regras: “O objetivo da Associação é promover a psiquiatria dinamarquesa. Em particular, é tarefa da Associação promover a pesquisa psiquiátrica dinamarquesa, assegurar a melhor educação possível dos psiquiatras, trabalhar para proporcionar um tratamento psiquiátrico ideal para a população, e propagar o conhecimento sobre psiquiatria.”

Expliquei que tinha contribuído para os objetivos da Associação por muitos anos sem ser membro e que uma associação me daria melhores oportunidades de contribuir.

Silêncio total. Enviei um lembrete depois de um mês, e quando o silêncio continuou, escrevi para toda a diretoria, sete semanas após o meu primeiro e-mail.

No dia seguinte, o presidente, Torsten Bjørn Jacobsen, apenas comentou em sua carta de rejeição que eu não trabalhei para promover o objetivo da Associação.

Dois dias depois, enviei uma carta detalhada, observando que eles violavam as suas próprias regras. Notei que gostaria de participar da próxima reunião anual, o que só poderia fazer se eu fosse membro. Detalhei as muitas maneiras pelas quais, em um grau incomum, eu havia contribuído para o objetivo da Associação. Também mencionei que durante a última reunião anual da Associação, um membro de honra proferiu um discurso no qual sublinhou que os psiquiatras precisavam se comunicar comigo. Os muitos prêmios que os pacientes psiquiátricos e colegas deram-me talvez também deveriam ter influenciado a diretoria, mas não influenciaram.

Três semanas depois, Jacobsen respondeu que, “A diretoria tem enfatizado o conteúdo e a natureza dos produtos de autoria que você produziu ao longo dos anos, que contém opiniões e pontos de vista sobre a especialidade psiquiátrica que não estão em harmonia com os objetivos da Associação. A Associação é, naturalmente, receptiva a diferentes atitudes dentro da especialidade, embora um elemento básico de um membro da Associação deva ser que se respeite a especialidade e as formas de tratamento aceitas, porém a sua produção não está à altura.”

Às vezes vale a pena tentar obter o impossível porque pode revelar o que as pessoas realmente defendem, por trás da decoração de vitrine oficial. É como tocar a rede de uma aranha para vê-la sair correndo do seu esconderijo no fundo e revelar-se. Esta foi uma clara demonstração de censura e proibição oficial. Era exatamente o que muitos psiquiatras em treinamento haviam me falado; suas profundas frustrações de que, se fossem críticos em relação à overdose dos pacientes ou à forma como os psiquiatras faziam os diagnósticos, eles estariam em péssimos lençóis. A rejeição parecia um eco de um dos critérios para se fazer um diagnóstico de esquizotipia: “Crenças estranhas ou pensamento mágico que são inconsistentes com as normas culturais”. Outros pontos de vista diferentes dos hegemônicos eram inconsistentes com as normas culturais da Associação Psiquiátrica Dinamarquesa.

Durante a assembleia geral da Associação três meses depois, Kristian Sloth perguntou porque eu não poderia tornar-me um membro. Ele não obteve resposta significativa, mas o público o aplaudiu. Eu tinha entrado sorrateiramente, no fundo da sala, e ouvi tudo isso.

Três meses depois, quando a Associação tinha uma nova cadeira, eu candidatei-me novamente. Ao meu ver, não foi dada nenhuma explicação satisfatória na assembleia geral sobre a razão pela qual foi-me negada a adesão; Gitte Ahle respondeu que, “Não compartilhamos este ponto de vista porque as pessoas estavam satisfeitas com a declaração oral sobre a razão pela qual você havia sido rejeitado”.

Entendo totalmente as frustrações que os pacientes psiquiátricos têm. Dizem constantemente a eles que o que eles mesmos observaram não é correto, porque os seus psiquiatras não compartilham dos seus pontos de vista. Não é de admirar que uma assembleia geral que consiste principalmente de pessoas que querem preservar o status quo aplauda uma “explicação sem comentários” do porquê de eu não poder tornar-me um membro.

Há muitos psiquiatras excelentes, mas eles são muito poucos em número comparado aos medíocres e não podem mudar um sistema doente. No início de 2020, um jovem psiquiatra em treinamento pediu ajuda em uma lista de e-mails de psiquiatras críticos. Ele trabalhou em um hospital em Londres onde a psiquiatria biológica era o máximo, como em todos os outros lugares, mas ele também tinha se encontrado com pessoas de espírito crítico. Ele foi informado de que existem psiquiatras críticos em todos os lugares. Um dos que responderam observou que ele igualmente havia considerado seriamente abandonar o treinamento psiquiátrico, mas que um amigo sábio lhe disse para jogar o jogo, obter as suas credenciais oficiais, e depois sair da instituição. Isto funcionou bem e lhe deu a autoridade necessária para atirar pedras no estabelecimento.

Quando publiquei meus dez mitos sobre psiquiatria, que são prejudiciais para as pessoas, em um jornal em janeiro de 2014, terminei o meu artigo desta forma: [41]

“As drogas psicotrópicas podem ser úteis às vezes para alguns pacientes, particularmente no uso a curto prazo, em situações agudas. Mas depois dos meus estudos nesta área, cheguei a uma conclusão muito desconfortável: os nossos cidadãos estariam muito melhor se removêssemos todas as drogas psicotrópicas do mercado, pois os médicos não conseguem lidar com elas. É inescapável que a sua disponibilidade cause mais danos do que benefícios. Os médicos não conseguem lidar com o paradoxo de que as drogas que podem ser úteis em tratamentos de curto prazo são muito prejudiciais quando usadas durante anos e criam aquelas doenças que se destinam a aliviar e doenças ainda piores. Nos próximos anos, a psiquiatria deve, portanto, fazer tudo o que puder para tratar o mínimo possível, no menor tempo possível, ou não tratar de todo, com drogas psicotrópicas.”

Eu fiquei com todo o estabelecimento dinamarquês às minhas costas quando publiquei este artigo, e o Ministro da Saúde ameaçou que eu poderia ser demitido. [38] A única coisa que eu tinha feito foi contar a verdade às pessoas. Isto não pode ser tolerado quando o assunto é psiquiatria, que não poderia sobreviver em sua forma atual se enfrentássemos coletivamente as mentiras e agíssemos de acordo.

Fora dos círculos de poder, meu trabalho foi muito apreciado. [42]

Seguiram-se inúmeros artigos, alguns escritos por psiquiatras que concordaram comigo. Durante mais de um mês, não houve um único dia sem discussão dessas questões no rádio, na TV ou nos jornais, e também houve debates nos departamentos psiquiátricos. As pessoas na Noruega e na Suécia agradeceram-me por haver iniciado uma discussão que era impossível de haver no país deles, e eu recebi centenas de e-mails de pacientes que confirmaram com as suas próprias histórias que o que eu havia escrito em meu artigo era verdade.

Nada mudou. Talvez um pouco aqui e ali, mas nada de material.

Histórias de pacientes

Aqui estão algumas histórias que jovens psiquiatras e pacientes me enviaram.

Um estudante de 18 anos ainda estava de luto depois que seu pai havia se enforcado cinco anos antes. Após ter sido colocado em sertralina, ele tentou se enforcar e foi internado em um hospital psiquiátrico. O psiquiatra que o internou reduziu a dose da sertralina. Quando um jovem psiquiatra notou que as pílulas da depressão aumentam o risco de suicídio, o psiquiatra seu tutor respondeu que estava ciente disso, mas que tinha que tratar a depressão, e se o jovem cometesse suicídio sem tomar uma pílula da depressão, eles seriam questionados por que ele não havia sido tratado.

Um homem de meia-idade com sintomas de pneumonia e baixo humor foi colocado pelo seu médico em penicilina, sertralina e um sedativo. Quando o paciente começou a suar profusamente e desenvolveu uma psicose com mania, ele foi internado em um hospital psiquiátrico, com febre. O psiquiatra opinou que ele tinha esquizofrenia polimórfica, parou a sertralina, e começou a prescrever olanzapina e outro sedativo. Quando ele recebeu alta, o diagnóstico era de transtorno de transe dissociativo. Quando um jovem psiquiatra perguntou se a psicose poderia ter sido causada pela sertralina, foi-lhe dito: “Eu nunca vi ninguém com psicose induzida por antidepressivos. Esta falta de lógica mata os pacientes”. Se as pessoas que voltam da África com febre não são examinadas por malária porque o médico internado nunca viu ninguém com malária, alguns vão morrer. Eu estava nessa situação quando jovem, após uma expedição no Quênia. [25] Embora eu estivesse muito doente, com sintomas típicos da malária, dois médicos assistentes que me visitaram no meu apartamento em dias diferentes não acharam necessário examinar o meu sangue para detectar malária. Eu vivia sozinho e tive a sorte de sobreviver sem receber o tratamento de que precisava.

Centenas de pessoas enviaram-me as histórias mais extraordinárias de suas vidas. Algumas agradeceram-me por salvar a vida de seu cônjuge, filho ou filha; por exemplo: “foi seu livro (Psiquiatria mortal e negação organizada) que nos deu a coragem de retirar o nosso filho dos antipsicóticos, quatro anos atrás, menos de cinco meses depois de ele ter começado”. Mais tarde encontrei-me com este pai que agora é muito ativo na comunidade de retirada em Israel.

Outra paciente que me agradeceu por ter salvo a sua vida escreveu que se ela não tivesse lido os meus livros e aprendido que existe algo chamado crise de abstinência, ela teria pensado que tinha ficado louca. Depois de dez anos tomando duloxetina, ela passou por um período de três anos de abstinência que foi muito duro e difícil.

Um paciente escreveu: Eu tenho usado pílulas da depressão por cinco anos por causa da ansiedade social. Eles fizeram da minha vida uma bagunça. As coisas agora estão muito piores em todos os níveis da minha vida. Os comprimidos transformaram a minha personalidade para ficar com raiva e desrespeitoso. Eu sou mais “corajoso”, mas não sou eu. Eu nunca teria começado com elas se soubesse o que iria acontecer; também perdi muitos amigos. Obrigado por seu livro; estou muito feliz que alguém me diga como são as coisas. O mundo é tão louco. Perdi a minha confiança na psiquiatria, nas empresas farmacêuticas e nos médicos. Eu só queria que você soubesse que as pessoas estão se tornando mais conscientes desta loucura. Em nosso grupo de retirada do ISRS, o número de membros aumenta o tempo todo.

Um médico de família usou pílulas da depressão como teste de diagnóstico: Se funcionavam, você tinha depressão, e se não, você não tinha depressão. Outro médico de família respondeu a uma pergunta sobre como parar uma pílula para depressão: “Você pode simplesmente parar!”

Uma paciente foi informada pelo seu psiquiatra que as pílulas da depressão eram como que colocar um molde de gesso em uma perna quebrada. Ela tentou se retirar duas vezes em vão e foi informada que tinha um desequilíbrio químico e que precisava da droga para o resto da sua vida, e seu psiquiatra até aumentou a dose. Um substituto para o seu médico de família a salvou. Ele disse que as pílulas eram diabólicas e a deixaram doente, e ele a ajudou a se retirar. Ela agora quer ajudar outros porque trabalha como consultora de emprego com desempregados, muitos dos quais ficam viciados nas pílulas por causa do estresse e da ansiedade.

A um pai foi negada a custódia de seus filhos porque ele se recusou a tomar drogas psiquiátricas. Muitas outras pessoas me escreveram sobre como eles foram mal tratados pela psiquiatria, às vezes com comentários depreciativos no arquivo do paciente sobre a sua personalidade, quando tentaram evitar que o seu filho fosse tratado com neurolépticos.

Uma paciente me escreveu que um teste mostrou que ela tinha um QI de 70, enquanto estava dopada.

Outro escreveu que a sua psiquiatra lhe havia dito que ela tinha uma doença genética incurável e que precisava de neurolépticos para o resto da sua vida. Quando ela deixou de tomar as drogas, a seu psiquiatra lhe disse que ela teria um novo episódio psicótico novamente. Quando ela reclamou que não conseguia mais se concentrar, que dormia muito e que acreditava que as drogas afetavam a sua memória, que havia ficado difícil estudar, a resposta foi que o problema não eram as drogas, mas que ela tinha perdido neurônios devido à psicose e que seu cérebro não era mais o mesmo. Portanto, ela precisava tomar antipsicóticos indefinidamente para proteger o seu cérebro de perder mais neurônios; caso contrário, ela ficaria demente. Quando a paciente disse que não queria tomar os medicamentos para o resto da sua vida, a psiquiatra respondeu que então ela não a veria mais porque ela só trabalhava com pacientes que queriam ser tratados. “A retirada do Ziprasidone foi um inferno. Eu estava vomitando e não conseguia dormir, por noites e noites, até que o meu corpo se ajustasse. Eu disse ao meu pai que eu tinha parado de tomar e ele queria me forçar a voltar a tomar os medicamentos e ameaçou me mandar para um hospital psiquiátrico se eu não seguisse as instruções do médico. Ele me perguntou: Você quer ficar presa em um manicômio? Então, eu menti para ele dizendo que tinha voltado a tomar a medicação. De qualquer forma, agora estou bem, as pessoas com quem vivo concordam e apoiam a minha decisão e o novo terapeuta também a aceita. Obrigado por ler um pouco da minha história”.

Outro paciente escreveu: “O psicanalista disse que eu tinha que confiar no médico e o médico disse que eu tinha que tomar medicamentos para o resto da minha vida, mas eu interrompi todos os medicamentos por cerca de 8 semanas e não conseguia me sentir melhor. Eu não sou mais um zumbi, voltei a ouvir música, rir, cantar no chuveiro, sentir a vida e ter prazer sexual. Estou de volta a ser eu mesmo. Disse à médica que os remédios estavam me dando anorgasmos e ela perguntou com estas palavras: “O que você prefere, não ter orgasmos ou ficar louco? Foi quando percebi que algo estava errado, pois não desejo viver quimicamente castrado como se eu estivesse passando por uma vida inteira lobotomizado”. Este paciente tinha sido abusado sexualmente quando criança.

Um paciente escreveu que tomou fluoxetina durante dez anos, o que mudou a sua personalidade, e perdeu quase todos os seus amigos. Ele passou por um horrível processo de retirada sem ajuda, onde não conseguia nem sair da cama. Seu médico lhe disse que drogas psiquiátricas eram vitais para ele, assim como a insulina é para um paciente com diabetes, e ele começou a tomar uma droga novamente, mas a tolerava mal. Então, o seu psiquiatra disse que seus efeitos colaterais eram prova- velmente causados pela sua depressão, e ele queria que ele experimentasse outra droga. Este paciente tinha assistido a uma das minhas palestras em Estocolmo e, portanto, sabia que eu tinha uma lista de pessoas que poderiam ajudá-lo a se retirar, e foi por isso que ele me escreveu.

Aqui está a minha última história de paciente, contada por ele e a sua mãe, que resume tragicamente o que está errado com a psiquiatria.

David Stofkooper, um jovem holandês, deu cabo à sua vida em janeiro de 2020, com apenas 23 anos de idade. Ele tinha uma vida social florescente, era um estudante animado, muito inteligente, com muitos amigos, gostava de se socializar e adorava ouvir música. Desde os 17 anos, ele podia ruminar muito, com pensamentos repetitivos; não constantemente, e ainda tinha uma vida divertida. Mas ele cometeu um erro fatal. Ele consultou um psiquiatra e foi colocado em sertralina, em outubro de 2017. Em duas semanas, ele se suicidou. O psiquiatra havia aumentado a dose, e a situação piorou. Ele se tornou ‘zumbificado’, sem libido e sem emoções; toda a sua personalidade havia desaparecido.

Sua mãe chamou o seu psiquiatra e disse que o tratamento definitivamente não funcionava, mas ela foi enganada, sendo-lhe dito que ela não podia ligar devido à privacidade do seu filho. No entanto, a sua intervenção era muito necessária, pois David deixou de notar o que lhe estava acontecendo; ele estava totalmente perdido. Ele disse a seu psiquiatra que estava se sentindo muito suicida, mas o psiquiatra disse que ele precisava esperar mais, então ele acreditou nisso.

Depois de cinco meses, ele conseguiu um novo psiquiatra que lhe disse para deixar a sertralina, o que obviamente não funcionou; foi uma interrupção abrupta, em apenas duas semanas. No início, ele esteve em uma mania durante um dia e ligou para sua mãe, dizendo-lhe que nunca se sentira tão bem antes. Depois disso, ele entrou em um terrível período com sintomas de abstinência, quando não conseguia dormir.

Isto durou meses e não melhorou, e o vazio tomou conta dele mais e mais. Nos primeiros meses da retirada, ele contou a sua psiquiatra como se sentia, mas ela não acreditou nele. Ela lhe disse que não era devido à droga, pois a droga já se encontrava fora do seu sistema. Ela disse que seria provavelmente o seu transtorno obsessivo e compulsivo que criava todos os problemas.

David escreveu em uma nota suicida que, “Você lhes apresenta um problema que é criado pelo tratamento que recebeu deles e, como reação, é culpado por isso.”

Sua vida havia parado. Ele não conseguia tirar prazer de nada. Mesmo um entretenimento fácil como o jogo, algo que ele sempre desfrutara, não lhe dava nenhum prazer. Tudo era cinza. Embora ele não sentisse mais nada ao conhecer garotas, seus problemas de libido zero e de ereção não eram nem mesmo a pior parte: “O apagamento total de qualquer prazer da vida, como se eu tivesse sido despojado de toda a minha dopamina, é debilitante para a vida”.

Ele percebeu que estava condenado a estar neste estado para sempre e não via outra opção senão o suicídio. Ele foi muito racional a respeito desta decisão. Era uma espécie de ‘autoeutanásia’, que seus pais, ambos médicos, entenderam.

O embotamento das suas emoções foi fatal. Ele não se sentia emocionalmente afetado pelas pessoas, não era capaz de sentir alegria em nada, nem mesmo na música. Toda a sua personalidade havia sido dizimada, e ele sentia que já estava morto e que não era mais humano, era uma concha vazia. No último ano da sua vida, ele dizia com frequência que queria desesperadamente viver, mas não como uma espécie de zumbi lobotomizado. David nunca tinha tido problemas de sono antes de tomar sertralina, mas a droga causou insônia severa, que durou até o dia em que ele se matou.

David queria que a sua história fosse contada, como um aviso para os outros. Tanto ele quanto a sua mãe haviam lido o meu livro, [38] mas infelizmente, nada pode ser feito. Se ele o tivesse lido antes de ser colocado em sertralina, poderia ter se recusado a tomar a droga que o matou.

Ouvi histórias de suicídio semelhantes, também na Dinamarca, onde não só a vida sexual continuou sendo destruída, mas onde os pacientes também experimentaram anedonia grave, embotamento das emoções, problemas de memória e disfunção cognitiva, que alguns deles descreveram como uma lobotomia química. Pacientes que saíram de neurolépticos também reclamaram algumas vezes de disfunção sexual persistente, que pode estar relacionada ao fato de não poderem ter nenhuma vida sexual enquanto tomavam as drogas, ou de estarem tomando pílulas da depressão simultaneamente. Ainda há muita coisa que não sabemos sobre os danos persistentes após a abstinência.

Se pessoas que não são psiquiatras – por exemplo, médicos que não usam drogas psiquiátricas, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, assistentes sociais e pessoas sem educação formal, mas que se preocupam com outras pessoas – assumissem amanhã todos os encargos hoje entregues à psiquiatria, isso significaria um tremendo progresso.

Não há esperança para a psiquiatria, que se degenerou tanto, por tanto tempo, e é tão prejudicial que deve ser detida. É muito melhor para nós não ter uma psiquiatria do que ter a que temos, ou qualquer coisa remotamente semelhante.

Precisamos agir coletivamente. Esta é nossa única chance. Se um trabalhador fracassa por causa das condições de trabalho desumanas, o patrão não se importa, mas apenas despede o trabalhador. Se todos saem, de repente ele tem que negociar.

Todos precisam “sair” da psiquiatria. É por isso que escrevi este livro. Os seres humanos podem aceitar quase tudo, se se acostumarem, por mais horrível, injusto e antiético que seja, e poucos protestarão contra um sistema doente por ser desconfortável ou até perigoso para eles. É por isso que temos tido a escravidão como uma norma oficialmente aceita há milhares de anos. Também foi assim que os nazistas chegaram ao poder na Alemanha e o mantiveram; as pessoas tinham muito medo de protestar, já que os nazistas assassinavam os seus inimigos logo no início. Apenas dois meses depois que o presidente Paul von Hindenburg nomeou Adolf Hitler chanceler da Alemanha, em 30 de janeiro de 1933, Hitler abriu o primeiro campo de concentração em Dachau, nos arredores de München.

Você pode citar algum político influente, psiquiatra, psicólogo ou defensor do paciente que tenha corrido um grande risco pessoal ao criticar a psiquiatria? Talvez você possa nomear um ou dois. Posso citar alguns, mas isso porque faço parte do movimento de resistência, como o meu avô foi durante a ocupação nazista da Dinamarca. [25] Meu avô sobreviveu apesar de ter sido levado pela Gestapo e sentenciado a viver em um campo de concentração. Ele salvou muitos judeus; eu quero salvar o maior número possível de pacientes psiquiátricos. A história significa muito para mim. Se os psiquiatras não tivessem esquecido a sua história, talvez tivéssemos tido uma psiquiatria melhor hoje, mas eles repetem os mesmos erros que vem repetindo por mais de 150 anos. Quando Margrethe Nielsen atraiu-me para a pesquisa psiquiátrica em 2007, foi com esta proposta: “A história está se repetindo?” Ela comparou as benzodiazepinas com os ISRSs e mostrou que de fato se repete (ver Capítulo 4).

Tenho as seguintes sugestões.

  • Desarticular a psiquiatria enquanto uma especialidade médica. Em um serviço de saúde baseado em evidências, não usamos intervenções que fazem mais mal do que bem, que é o que faz a psiquiatria. No período de transição, deixar os psicólogos que são contra o uso de drogas psiquiátricas serem os chefes dos serviços psiquiátricos e dar-lhes a responsabilidade final pelos pacientes.
  • Os psiquiatras devem ser reeducados para que possam funcionar como psicólogos. Aqueles que não estão dispostos a fazer isto, devem encontrar outro emprego ou se aposentar mais cedo.
  • O foco deve estar em tirar os pacientes dos medicamentos psiquiátricos, na medida em que eles são prejudiciais a longo prazo, e porque a grande maioria dos pacientes está nessa terapia a longo prazo. Os cursos sobre a retirada de medicamentos devem ser obrigatórios para todos os que trabalham com pacientes de saúde mental, e todos os pacientes devem conhecer por que eles provavelmente teriam uma vida melhor sem medicamentos.
  • Estabelecer uma rede nacional de assistência 24 horas e um website associado para fornecer aconselhamento e apoio às pessoas prejudicadas pela dependência e retirada de drogas prescritas.
  • Fornecer tiras afiladas e outros auxílios para ajudar os pacientes a se retirarem de seus medicamentos sem custo para os pacientes.
  • Peça desculpas. É muito importante que as vítimas de abuso recebam um pedido de desculpas. Os governantes devem exigir das associações psiquiátricas que elas peçam desculpas incondicionalmente ao público em geral sobre os imensos danos que infligiram aos pacientes de saúde mental, mentindo-lhes sistematicamente, por exemplo, sobre o desequilíbrio químico, e dizendo-lhes que as drogas psiquiátricas podem proteger contra o suicídio ou danos cerebrais. Se as organizações de classe não estiverem dispostas a fazer isso, os governos devem fazê-lo por elas e dissolver as organizações porque elas são prejudiciais à sociedade.
  • Pare de usar palavras como psiquiatria, psiquiatras, transtorno psiquiátrico, tratamentos psiquiátricos e drogas psiquiátricas, pois elas são estigmatizantes e porque os pacientes e o público em geral as associam a maus resultados.40,43 Mude a narrativa e use termos como saúde mental em seu lugar.
  • Deixe as questões de saúde mental para os psicólogos e outras profissões de cuidados, pois o que os pacientes precisam mais do que tudo é de psicoterapia, empatia, cuidados e outras intervenções psicossociais.
  • Descartar completamente os sistemas de diagnóstico psiquiátrico como DSM-5 e CID-11 e focar nas questões mais importantes dos pacientes. Os diagnósticos psiquiátricos são tão pouco específicos e não científicos que praticamente toda a população poderia ter pelo menos um, e não se encaixam nos problemas que os pacientes têm, mas muitas vezes levam a diagnósticos adicionais e a mais danos para os pacientes de “carreira” psiquiátrica.
  • Tornar o tratamento forçado ilegal. Todo tratamento de questões de saúde mental deve ser voluntário. O tratamento forçado faz muito mais mal do que bem,38,44,45 e é discriminatório.
  • Tornar os medicamentos psiquiátricos disponíveis apenas para uso sob circunstâncias estritamente controladas:
    1. enquanto os pacientes estão afilando; ou
    2. em casos raros em que é impossível afunila-los, por terem causado danos cerebrais permanentes, por exemplo, discinesia tardia; ou
    3. disponíveis para delírios alcoólicos, podendo também ser usados como sedativo em operações e outros procedimentos invasivos, por exemplo, colonoscopia, o que pode ser extremamente
  • Tornar ilegal o uso de drogas registradas para usos não psiquiátricos, por exemplo, antiepilépticos, para questões de saúde mental, pois isso é prejudicial.
  • Ninguém que trabalha com pacientes com saúde mental deve ter conflitos de interesse financeiros com qualquer fabricante de drogas psicoativas ou outros tratamentos, por exemplo, equipamento para eletrochoque.
  • Todas as regras sobre a necessidade de um diagnóstico psiquiátrico a fim de obter benefícios sociais, ou apoio econômico às escolas, devem ser removidas, pois criam um incentivo para se colar diagnósticos psiquiátricos às pessoas em vez de ajudá-las, o que envolveria outras intervenções que não drogas.
  • Todos: Faça o que puder para mudar a narrativa enganosa da psiquiatria. Fale a respeito das pílulas da depressão, os grandes tranquilizantes, as drogas para ficar ‘ligadão’,

Vídeos de palestras e entrevistas

Se você estiver interessado em ver algumas das palestras que fiz ou entrevistas que dei, eu facilitei a sua vida listando aquelas que foram vistas com mais frequência no YouTube (em 1000):

Título (abreviado) Comprimento Vistas Link
Big pharma is organized crime 7:42 381 https://bit.ly/2XcHMAz
La industria farmacéutica es crimen organizado 7:42 108 https://bit.ly/3aTWBfD
Deadly Medicines and Organized Crime 54:05 64 https://bit.ly/2JADhrF
Farmaceutska industrija je organizovan kriminal 7:41 56 https://bit.ly/3bUYfh3
Crimes in the drug industry and the lies in psychiatry 15:44 53 https://bit.ly/39JSD7L
Overdiagnosed & overmedicated 1:32:46 42 https://bit.ly/2yrxfHk
Sygdomme opfindes for at sælge medicinen 54:55 38 https://bit.ly/39EgqGh
Psychiatry has gone astray 6:19 34 https://bit.ly/2V16HV5
Los 10 mitos de la Salud Mental 53:10 28 https://bit.ly/2JCYnFV
Screening for breast and prostate cancer 7:52 25 https://bit.ly/2wizL28
Discussion, Gøtzsche/Whitaker, psychiatric epidemic 45:46 22 https://bit.ly/347xumS
Psychiatric drugs, few benefit, many are harmed 58:23 20 https://bit.ly/3dSgSUw
Psychiatric drugs, few benefit, many are harmed 49:17 18 https://bit.ly/2Xb3iWm
Medicamentos letais e crime organizado 54:05 18 https://bit.ly/3aIQDxV
Forced Psychiatric Treatment Must be Abolished 1:50:06 18 https://bit.ly/2JFXv32
Psicofármacos que matan 7:01 16 https://bit.ly/348ASxC
Psicofármacos 1:03:11 16 https://bit.ly/2V4AHzt
La psiquiatría se hunde 6:19 14 https://bit.ly/3aJOJ03
Psychiatric drugs do more harm than good 2:10:41 12 https://bit.ly/39FrdQw
Death of a whistleblower and Cochrane’s moral collapse 1:06:56 12 https://bit.ly/3aUfZsw
Prescription drugs are the third leading cause of death 18:06 10 https://bit.ly/3dWp3z1
Survival of a whistleblower 49:42 10 https://bit.ly/3dWXZQc
On the wrong track, psychiatric epidemic 53:22 10 https://bit.ly/2wSLNQ8

 

Sobre o autor

O professor Peter C Gøtzsche se formou como mestre em biologia e química em 1974 e como médico em 1984. Ele é especialista em medicina interna; trabalhou com ensaios clínicos e assuntos regulatórios na indústria farmacêutica 1975-1983, e em hospitais em Copenhague 1984-95. Com cerca de 80 outros, ele é cofundador da Colaboração Cochrane em 1993 (o fundador é Sir Iain Chalmers), e fundou o Centro Nórdico Cochrane no mesmo ano. Ele se tornou professor de Desenho e Análise de Pesquisa Clínica em 2010 na Universidade de Copenhague e foi membro do Conselho Administrativo da Cochrane duas vezes. Ele agora trabalha como freelancer. Tornou-se professor visitante do Instituto de Saúde e Sociedade da Universidade de Newcastle em 2019. Fundou o Instituto para a Liberdade Científica em 2019.

Gøtzsche publicou mais de 75 artigos em “os cinco grandes” (BMJ, Lancet, JAMA, Annals of Internal Medicine e New England Journal of Medicine) e seus trabalhos científicos já foram citados cerca de 50.000 vezes. Seus livros mais recentes são:

  • Vacinas: verdade, mentiras e controvérsia (2020).
  • Sobrevivência em um mundo super medicado: procure você mesmo as evidências (2019).
  • Morte de um denunciante e o colapso moral da Cochrane (2019).
  • Psiquiatria mortal e negação organizada (2015).
  • Medicamentos mortais e crime organizado: Como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica (2013) (Vencedor, Prêmio Anual do Livro da Associação Médica Britânica na categoria Base da Medicina em 2014).
  • Triagem de mamografias: verdade, mentira e controvérsia (2012) (Vencedor do Prêmio Prescrire 2012).
  • Diagnóstico e tratamento racionais: tomada de decisão clínica baseada em evidências (2007).

Três desses livros apareceram em vários idiomas, veja deadlymedicines.dk.

Gøtzsche deu numerosas entrevistas, uma das quais, sobre o crime organizado na indústria das drogas, foi vista cerca de 350.000 vezes no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=dozpAshvtsA. Gøtzsche esteve no The Daily Show em Nova York em 16 de setembro de 2014, onde desempenhou o papel de denunciante revelando segredos sobre as grandes farmácias. Um documentário sobre seu trabalho de reforma em psiquiatria, Diagnosing Psychiatry, apareceu em 2017.

A Gøtzsche tem interesse em estatísticas e metodologia de pesquisa. Ele tem sido coautor das seguintes diretrizes para uma boa apresentação de relatórios de pesquisa: CONSORT para ensaios aleatórios (www.consort- statement.org), STROBE para estudos observacionais (www.strobe- statement.org), PRISMA para revisões sistemáticas e meta-análises (www.prisma-statement.org), e SPIRIT para protótipos de ensaios (www.spirit-statement.org).

Gøtzsche é Protetor da Rede dos Ouvidores de Vozes na Dinamarca. Websites: deadlymedicines.dk e scientificfreedom.dk.

Referências

Capítulo 1. Este livro pode salvar sua vida

  1. Gøtzsche PC. Deadly psychiatry and organised denial. Copenhagen: People’s Press; 2015.
  2. Jorm AF, Korten AE, Jacomb PA, et al. ”Mental health literacy”: a survey of the public’s ability to recognise mental disorders and their beliefs about the effectiveness of treatment. Med J Aus 1997;166:182-6.
  3. Priest RG, Vize C, Roberts A, et al. Lay people’s attitudes to treatment of depres- sion: results of opinion poll for Defeat Depression Campaign just before its launch. BMJ 1996;313:858-9.
  4. Paykel ES, Hart D, Priest RG. Changes in public attitudes to depression during the Defeat Depression Campaign. Br J Psychiatry 1998;173:519-22.
  5. Read J, Timimi S, Bracken P, Brown M, Gøtzsche P, Gordon P, et al. Why did official accounts of antidepressant withdrawal symptoms differ so much from research findings and patients’ experiences? Ethical Hum Psychol Psychiatry (submitted).
  6. Kessing L, Hansen HV, Demyttenaere K, et al. Depressive and bipolar disorders: patients’ attitudes and beliefs towards depression and antidepressants. Psycho- logical Medicine 2005;35:1205-13.
  7. McHugh RK, Whitton SW, Peckham AD, Welge JA, Otto Patient preference for psychological vs pharmacologic treatment of psychiatric disorders: a meta- ana-lytic review. J Clin Psychiatry 2013;74:595-602.
  8. Olfson M, Blanco C, Marcus SC. Treatment of adult depression in the United States. JAMA Intern Med 2016;176:1482-91.
  9. Breggin P. The most dangerous thing you will ever do. Mad in America 2020; March 2. https://www.madinamerica.com/2020/03/dangerous-thing-psychiatrist/.
  10. Gøtzsche PC. Psychiatry gone astray. 2014; Jan 21. https://davidhealy.org/psychi- atry-gone-astray/.
  11. Breggin PR. Brain-disabling treatments in psychiatry: drugs, electroshock, and the psychopharmaceutical complex. New York: Springer;2008.
  12. Breggin PR. Intoxication anosognosia: the spellbinding effect of psychiatric Ethical Hum Psychol Psychiatry 2006;8:201-15.
  13. Gøtzsche P. Surviving psychiatry: a typical case of serious psychiatric drug Mad in America 2020; Jan 7. https://www.madinamerica.com/2020/01/ surviving-psychiatry-typical-case-serious-psychiatric-drug-harms/.
  14. Bielefeldt AØ, Danborg PB, Gøtzsche PC. Precursors to suicidality and violence on antidepressants: systematic review of trials in adult healthy volunteers. J R Soc Med 2016;109:381-92.
  15. Maund E, Guski LS, Gøtzsche PC. Considering benefits and harms of duloxetine for treatment of stress urinary incontinence: a meta-analysis of clinical study reports. CMAJ 2017;189:E194-203.
  16. Hengartner MP, Plöderl M. Newer-generation antidepressants and suicide risk in randomized controlled trials: a re-analysis of the FDA Psychother Psychosom 2019;88:247-8.
  17. Hengartner MP, Plöderl M. Reply to the Letter to the Editor: “Newer-Generation Antidepressants and Suicide Risk: Thoughts on Hengartner and Plöderl’s Re- ” Psychother Psychosom 2019;88:373-4.
  18. FDA package insert for Effexor. Accessed 4 Jan 2020. https://accessdata.fda. gov/drugsatfda_docs/label/2008/020151s051lbl.pdf.
  19. FDA package insert for Neurontin. Accessed 4 Jan 2020. https://www.accessdata. gov/drugsatfda_docs/label/2017/020235s064_020882s047_021129s046lbl.p df
  20. Horowitz MA, Taylor D. Tapering of SSRI treatment to mitigate withdrawal symptoms. Lancet Psychiatry 2019;6:538-46.
  21. Davidsen AS, Jürgens G, Nielsen RE. Farmakologisk behandling af unipolar de- pression hos voksne i almen praksis. Rationel Farmakoterapi 2019;
  22. Gøtzsche PC. Survival in an overmedicated world: look up the evidence Copenhagen: People’s Press; 2019.
  23. Demasi M, Gøtzsche PC. Presentation of benefits and harms of antidepressants on websites: cross sectional study. Int J Risk Saf Med 2020;31:53-65.
  24. Whitaker R. Anatomy of an epidemic, 2nd edition. New York: Broadway Paper- backs; 2015.

Capítulo 2. A psiquiatria é baseada em evidências?

  1. Whitaker R. Mad in America: bad science, bad medicine, and the enduring mis- treatment of the mentally ill. Cambridge: Perseus Books Group; 2002.
  2. Healy D. Let them eat Prozac. New York: New York University Press;2004.
  3. Whitaker R. Anatomy of an epidemic, 2nd edition. New York: Broadway Paper- backs; 2015.
  4. Gøtzsche PC. Deadly psychiatry and organised denial. Copenhagen: People’s Press; 2015.
  5. Medawar C. The antidepressant web – marketing depression and making medicines work. Int J Risk & Saf Med 1997;10:75-126.
  6. Caplan PJ. They say you’re crazy: how the world’s most powerful psychiatrists decide who’s normal. Jackson: Da Capo Press; 1995.
  7. Breggin PR. Brain-disabling treatments in psychiatry: drugs, electroshock, and the psychopharmaceutical complex. New York: Springer;2008.
  8. Kirsch I. The Emperor’s new drugs: exploding the antidepressant myth. New York: Basic Books; 2009.
  9. Moncrieff J. The bitterest pills. Basingstoke: Palgrave Macmillan; 2013. 10 Davies J, ed. The sedated society. London: Palgrave Macmillan.
  10.  Davies J, ed. The sedated society. London: Palgrave Macmillan; 2017.
  11. McLaren N. Anxiety, the inside story. How biological psychiatry got it Ann Arbor: Future Psychiatry Press; 2018.
  12. Sharfstein S. Big Pharma and American psychiatry: The good, the bad and the ugly. Psychiatric News 2005;40:3.
  13. Angermeyer MC, Holzinger A, Carta MG, et al. Biogenetic explanations and public acceptance of mental illness: systematic review of population studies. Br J Psychiatry 2011;199:367–72.
  14. Read J, Haslam N, Magliano L. Prejudice, stigma and “schizophrenia:” the role of bio-genetic ideology. In: Models of Madness. (John Read and JacquiDillon, eds.). London: Routledge, 2013.
  15. Read J, Haslam N, Sayce L, et al. Prejudice and schizophrenia: a review of the “mental illness is an illness like any other” approach. Acta Psychiatr Scand 2006;114:303-18.
  16. Kvaale EP, Haslam N, Gottdiener WH. The ‘side effects’ of medicalization: a meta-analytic review of how biogenetic explanations affect stigma. Clin Psychol Rev 2013;33:782–94.
  17. Lebowitz MS, Ahn WK. Effects of biological explanations for mental disorders on clinicians’ empathy. Proc Natl Acad Sci USA 2014;111:17786-90.
  18. Davies J. Cracked: why psychiatry is doing more harm than good. London: Icon Books;
  19. Kirk SA, Kutchins H. The selling of DSM: the rhetoric of science inNew York: Aldine de Gruyter; 1992.
  20. Williams JB, Gibbon M, First MB, et al. The Structured Clinical Interview for DSM-III-R (SCID). II. Multisite test-retest reliability. Arch Gen Psychiatry 1992;49:630-6.
  21. Adult ADHD Self-Report Scale-V1.1 (ASRS-V1.1) Symptoms Checklist from WHO Composite International Diagnostic Interview; 2003.
  22. Pedersen AT. En psykiatrisk diagnose hænger ved resten af livet. PsykiatriAvisen 2019; Jan 18. https://www.psykiatriavisen.dk/2019/01/18/en-psykiatrisk- diagnose-haenger-ved-resten-af-livet/.
  23. Frandsen P. Et anker af flamingo: Det, vi glemmer, gemmer vi i hjertet. Odense: Mellemgaard; 2019.
  24. Pedersen AT. Diagnosing Psychiatry. https://vimeo.com/ondemand/diagnosingpsychiatryen.
  25. Breggin P. The most dangerous thing you will ever Mad in America 2020; March 2. https://www.madinamerica.com/2020/03/dangerous-thing-psychiatrist/.
  26. Biederman J, Faraone S, Mick E, et al. Attention-deficit hyperactivity disorder and juvenile mania: an overlooked comorbidity? J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 1996;35:997-1008.
  27. Moreno C, Laje G, Blanco C, Jiang H, Schmidt AB, Olfson M. National trends in the outpatient diagnosis and treatment of bipolar disorder in youth. Arch Gen Psychiatry 2007;64:1032-9.
  28. Gøtzsche PC. Psychopharmacology is not evidence-based medicine. In: James D (ed.). The sedated society. The causes and harms of our psychiatric drug epidemic. London: Palgrave Macmillan; 2017.
  29. Varese F, Smeets F, Drukker M, Lieverse R, Lataster T, Viechtbauer W, et Childhood adversities increase the risk of psychosis: a meta-analysis of patient- control, prospective- and cross-sectional cohort studies. Schizophr Bull 2012;38:661-71.
  30. Shevlin M, Houston JE, Dorahy MJ, Adamson G. Cumulative traumas and psychosis: an analysis of the national comorbidity survey and the British Psychiatric Morbidity Survey. Schizophr Bull 2008;34:193-9.
  31. Kingdon D, Sharma T, Hart D and the Schizophrenia Subgroup of the Royal College of Psychiatrists’ Changing Mind Campaign. What attitudes do psychiatrists hold towards people with mental illness? Psychiatric Bulletin 2004;28:401-6.
  32. Demasi M, Gøtzsche PC. Presentation of benefits and harms of antidepressants on websites: cross sectional study. Int J Risk Saf Med 2020;31:53-65.
  33. Kessing L, Hansen HV, Demyttenaere K, et al. Depressive and bipolar disorders: patients’ attitudes and beliefs towards depression and antidepressants. Psycho- logical Medicine 2005;35:1205-13.
  34. Christensen AS. DR2 undersøger Danmark på piller. 2013; Mar 20. https://www.dr.dk/presse/dr2-undersoeger-danmark-paa-piller.
  35. Ditzel EE. Psykiatri-professor om DR-historier: ”Skræmmekampagne der kan koste liv.” Journalisten 2013; Apr 11. https://journalisten.dk/psykiatri-professor- om-dr-historier-skraemmekampagne-der-kan-koste-liv/.
  36. Gøtzsche PC. Death of a whistleblower and Cochrane’s moral collapse. Copen- hagen: People’s Press; 2019.
  37. Sterll B. Den psykiatriske epidemi. Psykolognyt 2013;20:8-11.
  38. Gøtzsche PC. Psychiatry gone astray. 2014; Jan 21. https://davidhealy.org/psy- chiatry-gone-astray/.
  39. Rasmussen LI. Industriens markedsføring er meget, meget effektiv. Den har fået lægerne til at tro på, at eksempelvis antidepressiva er effektive lægemidler. Det er de overhovedet ikke. Politiken 2015; Aug 30:PS 8-9.
  40. Schultz J. Peter Gøtzsche melder psykiater til Lægeetisk Nævn. Dagens Medicin 2015; Oct 2. http://www.dagensmedicin.dk/nyheder/psykiatri/gotzsche-melder- psykiater-til-lageetisk-navn/.
  41. Depression er en folkesygdom – især for kvinder. 2017; Jan 31. http://www.psykiatrifonden.dk/viden/gode-raad-og- temaer/depression/depression-er-en-folkesygdom.aspx.
  42. Kessing LV. Depression, hvordan virker medicin. Patienthåndbogen 2015; July 5. https://www.sundhed.dk/borger/patienthaandbogen/psyke/sygdomme/laegemidle r/depression-hvordan-virker-medicin/.
  43. Videbech P. SSRI, antidepressivum. Patienthåndbogen 2015; July 23. https://www.sundhed.dk/borger/patienthaandbogen/psyke/sygdomme/laegemidle r/ssri-antidepressivum/.
  44. Scheuer SR. Studerende: Antidepressiv medicin er ikke løsningen på sjælelige problemer. Kristeligt Dagblad 2018; Mar 19.
  45. Christensen DC. Dear Luise: a story of power and powerlessness in Denmark’s psychiatric care system. Portland: Jorvik Press;2012.
  46. Angoa-Pérez M, Kane MJ, Briggs DI. et al. Mice genetically depleted of brain serotonin do not display a depression-like behavioral phenotype. ACS Chem Neurosci 2014;5:908-19.
  47. Hindmarch I. Expanding the horizons of depression: beyond the monoamine hypothesis. Hum Psychopharmacol 2001;16:203-218.
  48. Castrén E. Is mood chemistry? Nat Rev Neurosci 2005;6:241-6.
  49. Gøtzsche PC, Dinnage O. What have antidepressants been tested for? A systematic review. Int J Risk Saf Med 2020;31:157-63.
  50. Hyman SE, Nestler EJ. Initiation and adaptation: a paradigm for understanding psychotropic drug action. Am J Psychiatry 1996;153:151-62.
  51. Gøtzsche PC. Medicamentos mortais e crime organizado. Porto Alegre: Bookman; 2016.
  52. Moncrieff J, Cohen D. Do antidepressants cure or create abnormal brain states? PLoS Med 2006;3:e240.
  53. Hamilton M. A rating scale for depression. J Neurol Neurosurg Psychiat 1960;23:56-62.
  54. Gøtzsche PC. Survival in an overmedicated world: look up the evidence Copenhagen: People’s Press; 2019.
  55. Sharma T, Guski LS, Freund N, Gøtzsche PC. Suicidality and aggression during antidepressant treatment: systematic review and meta-analyses based on clinical study reports. BMJ 2016;352:i65.
  56. Breggin P. Psychiatric drug withdrawal: A guide for prescribers, therapists, patients and their families. New York: Springer.
  57. Davies J, Read J. A systematic review into the incidence, severity and duration of antidepressant withdrawal effects: Are guidelines evidence-based? Addict Behav 2019;97:111-21.
  58. Danborg PB, Gøtzsche PC. Benefits and harms of antipsychotic drugs in drug- naïve patients with psychosis: A systematic review. Int J Risk Saf Med 2019;30:193-201.
  59. Francey SM, O’Donoghue B, Nelson B, Graham J, Baldwin L, Yuen HP, et Psychosocial intervention with or without antipsychotic medication for first episode psychosis: a randomized noninferiority clinical trial. Schizophr Bull Open 2020; Mar 20. https://doi.org/10.1093/schizbullopen/sgaa015.
  60. Bola J, Kao D, Soydan H, et al. Antipsychotic medication for early episode schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev 2011;6:CD006374.
  61. Demasi M. Cochrane – A sinking ship? BMJ 2018; 16 Sept.https://blogs.bmj.com/ bmjebmspotlight/2018/09/16/cochrane-a-sinking-ship/.
  62. Leucht S, Tardy M, Komossa K, et al. Antipsychotic drugs versus placebo for relapse prevention in schizophrenia: a systematic review and meta-analysis. Lancet 2012;379:2063-71.
  63. Wunderink L, Nieboer RM, Wiersma D, et al. Recovery in remitted first-episode psychosis at 7 years of follow-up of an early dose reduction/discontinuation or maintenance treatment strategy: long-term follow-up of a 2-year randomized clinical trial. JAMA Psychiatry 2013;70:913-20.
  64. Hui CLM, Honer WG, Lee EHM, Chang WC, Chan SKW, Chen ESM, et Long-term effects of discontinuation from antipsychotic maintenance following first-episode schizophrenia and related disorders: a 10 year follow-up of a randomised, double-blind trial. Lancet Psychiatry 2018;5:432-42.
  65. Chen EY, Hui CL, Lam MM, Chiu CP, Law CW, Chung DW, et al. Maintenance treatment with quetiapine versus discontinuation after one year of treatment in patients with remitted first episode psychosis: randomised controlled trial. BMJ 2010;341:c4024.
  66. Whitaker R. Lure of riches fuels testing. Boston Globe 1998; Nov 17.
  67. Cole JO. Phenothiazine treatment in acute schizophrenia; effectiveness: the National Institute of Mental Health Psychopharmacology Service Center Col- laborative Study Group. Arch Gen Psychiatry 1964;10:246-61.
  68. Leucht S, Kane JM, Etschel E, et al. Linking the PANSS, BPRS, and CGI: clinical implications. Neuropsychopharmacology 2006;31:2318-25.
  69. Khin NA, Chen YF, Yang Y, et al. Exploratory analyses of efficacy data from schizophrenia trials in support of new drug applications submitted to the US Food and Drug Administration. J Clin Psychiatry 2012;73:856–64.
  70. Leucht S, Fennema H, Engel R, et al. What does the HAMD mean? J Affect Disord 2013;148:243-8.
  71. Jakobsen JC, Katakam KK, Schou A, et al. Selective serotonin reuptake inhibitors versus placebo in patients with major depressive disorder. A systematic review with meta-analysis and Trial Sequential Analysis. BMC Psychiatry 2017;17:58.
  72. Cipriani A, Zhou X, Del Giovane C, Hetrick SE, Qin B, Whittington C, et al. Comparative efficacy and tolerability of antidepressants for major depressive disorder in children and adolescents: a network meta-analysis. Lancet 2016;388:881-90.
  73. Kirsch I, Deacon BJ, Huedo-Medina TB, et al. Initial severity and antidepressant benefits: A meta-analysis of data submitted to the Food and Drug Administration. PLoS Med 2008;5:e45.
  74. Fournier JC, DeRubeis RJ, Hollon SD, et al. Antidepressant drug effects and depression severity: a patient-level meta-analysis. JAMA 2010;303:47-53.
  75. Gøtzsche PC, Gøtzsche PK. Cognitive behavioural therapy halves the risk of repeated suicide attempts: systematic review. J R Soc Med 2017;110:404-10.
  76. Moncrieff J, Wessely S, Hardy R. Active placebos versus antidepressants for depression. Cochrane Database Syst Rev 2004;1:CD003012.
  77. Moncrieff J. The myth of the chemical cure. Basingstoke: Palgrave Macmillan; 2008.
  78. Michelson D, Fava M, Amsterdam J, et al. Interruption of selective serotonin reuptake inhibitor treatment. Double-blind, placebo-controlled trial. Br J Psychiatry 2000;176:363-8.
  79. Rosenbaum JF, Fava M, Hoog SL, et al. Selective serotonin reuptake inhibitor dis- continuation syndrome: a randomised clinical trial. Biol Psychiatry 1998;44:77- 87.
  80. Breggin P. Medication madness. New York: St. Martin’s Griffin; 2008.
  81. Hughes S, Cohen D, Jaggi R. Differences in reporting serious adverse events in industry sponsored clinical trial registries and journal articles on antidepressant and antipsychotic drugs: a cross-sectional study. BMJ Open 2014;4:e005535.
  82. Schneider LS, Dagerman KS, Insel P. Risk of death with atypical antipsychotic drug treatment for dementia: meta-analysis of randomized placebo-controlled trials. JAMA 2005;294:1934–43.
  83. Alert for Healthcare Professionals: Risperidone (marketed as Risperdal).2006; Sept https://www.fda.gov/Drugs/DrugSafety/PostmarketDrugSafetyInfor- mationforPatientsandProviders/ucm152291.htm. Link inactive, as the issue has been described in the risperidone package insert: https://www.accessdata.fda. gov/drugsatfda_docs/label/2009/020272s056,020588s044,021346s033,021444s0 3lbl.pdf.
  84. Hjorthøj C, Stürup AE, McGrath JJ, Nordentoft M. Years of potential life lost and life expectancy in schizophrenia: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry 2017;4:295-301.
  85. Gøtzsche PC. Psychiatry ignores an elephant in the room. Mad in America 2017; Sept 21. https://www.madinamerica.com/2017/09/psychiatry-ignores-elephant- room/.
  86. Hegelstad WT, Larsen TK, Auestad B, et al. Long-term follow-up of the TIPS early detection in psychosis study: effects on 10-year outcome. Am J Psychiatry 2012;169:374-80.
  87. Melle I, Olav Johannesen J, Haahr UH, et al. Causes and predictors of premature death in first-episode schizophrenia spectrum disorders. World Psychiatry 2017;16:217-8.
  88. Chung DT, Ryan CJ, Hadzi-Pavlovic D, et al. Suicide rates after discharge from psychiatric facilities: a systematic review and meta-analysis. JAMA Psychiatry 2017;74:694-702.
  89. Hjorthøj CR, Madsen T, Agerbo E et al. Risk of suicide according to level of psychiatric treatment: a nationwide nested case-control study. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol 2014;49:1357–65.
  90. Large MM, Ryan CJ. Disturbing findings about the risk of suicide and psychiatric hospitals. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol 2014;49:1353–5.
  91. Brown S. Excess mortality of schizophrenia. A meta-analysis. Br J Psychiatry 1997;171:502-8.
  92. Wils RS, Gotfredsen DR, Hjorthøj C, et al. Antipsychotic medication and remission of psychotic symptoms 10 years after a first-episode psychosis. Schizophr Res 2017;182:42-8.
  93. Forskningsrådet. Tilgjengeliggjøring av forskningsdata. 2017; Dec. ISBN 978-82- 12-03653-6.
  94. Gøtzsche PC. Does long term use of psychiatric drugs cause more harm than good? BMJ 2015;350:h2435.
  95. Dold M, Li C, Tardy M, et al. Benzodiazepines for schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev 2012;11:CD006391.
  96. Coupland C, Dhiman P, Morriss R, et al. Antidepressant use and risk of adverse outcomes in older people: population based cohort study. BMJ 2011;343:d4551.
  97. Bielefeldt AØ, Danborg PB, Gøtzsche PC. Precursors to suicidality and violence on antidepressants: systematic review of trials in adult healthy volunteers. J R Soc Med 2016;109:381-92.
  98. Maund E, Guski LS, Gøtzsche PC. Considering benefits and harms of duloxetine for treatment of stress urinary incontinence: a meta-analysis of clinical study reports. CMAJ 2017;189:E194-203.
  99. Hengartner MP, Plöderl M. Newer-generation antidepressants and suicide risk in randomized controlled trials: a re-analysis of the FDA Psychother Psychosom 2019;88:247-8.
  100. Hengartner MP, Plöderl M. Reply to the Letter to the Editor: “Newer-Generation Antidepressants and Suicide Risk: Thoughts on Hengartner and Plöderl’s Re- ” Psychother Psychosom 2019;88:373-4.
  101. Le Noury J, Nardo JM, Healy D, Jureidini J, Raven M, Tufanaru C, Abi-Jaoude Restoring Study 329: efficacy and harms of paroxetine and imipramine in treatment of major depression in adolescence. BMJ 2015;351:h4320.
  102. Lars Kessing i Aftenshowet. DR1 2013; Apr 15.
  103. Klein DF. The flawed basis for FDA post-marketing safety decisions: the example of anti-depressants and children. Neuropsychopharmacology 2006;31:689–99.
  104. Emslie GJ, Rush AJ, Weinberg WA, et al. Rintelmann J. A double-blind, randomized, placebo-controlled trial of fluoxetine in children and adolescents with depression. Arch Gen Psychiatry 1997;54:1031-7.
  105. Eli Lilly and Company. Protocol B1Y-MC-X065. Clinical study main report: Fluoxetine versus placebo in the acute treatment of major depressive disorder in children and adolescents. 2000; Aug 8.
  106. Jureidini JN, Doecke CJ, Mansfield PR, Haby MM, Menkes DB, Tonkin AL. Efficacy and safety of antidepressants for children and adolescents. BMJ 2004;328:879-83.
  107. Laughren TP. Overview for December 13 Meeting of Psychopharmacologic Drugs Advisory Committee (PDAC). 2006; Nov 16.fda.gov/ohrms/dockets/ac/06/ briefing/2006-4272b1-01-FDA.pdf.
  108. Vanderburg DG, Batzar E, Fogel I, et al. A pooled analysis of suicidality in double-blind, placebo-controlled studies of sertraline in adults. J Clin Psychiatry 2009;70:674-83.
  109. Gunnell D, Saperia J, Ashby D. Selective serotonin reuptake inhibitors (SSRIs) and suicide in adults: meta-analysis of drug company data from placebo controlled, randomised controlled trials submitted to the MHRA’s safety review. BMJ 2005;330:385.
  110. Fergusson D, Doucette S, Glass KC, et al. Association between suicide attempts and selective serotonin reuptake inhibitors: systematic review of randomised controlled trials. BMJ 2005;330:396.
  111. Antidepressant use in children, adolescents, and adults. http://www.fda. gov/drugs/drugsafety/informationbydrugclass/ucm096273.htm.
  112. Australian Government, Department of Health. The mental health of Australians. 2009 May. https://www1.health.gov.au/internet/publications/publishing.nsf/Con- tent/mental-pubs-m-mhaust2-toc~mental-pubs-m-mhaust2-hig~mental-pubs-m- mhaust2-hig-sui.
  113. Crowner ML, Douyon R, Convit A, Gaztanaga P, Volavka J, Bakall R. Akathisia and violence. Psychopharmacol Bull 1990;26:115-7.
  114. Sharma T, Guski LS, Freund N, Meng DM, Gøtzsche PC. Drop-out rates in placebo-controlled trials of antidepressant drugs: A systematic review and meta- analysis based on clinical study reports. Int J Risk Saf Med 2019;30:217-32.
  115. Paludan-Müller AS, Sharma T, Rasmussen K, Gøtzsche PC. Extensive selective reporting of quality of life in clinical study reports and publications of placebo- controlled trials of antidepressants. Int J Risk Saf Med 2020 (in press).
  116. Montejo A, Llorca G, Izquierdo J, et al. Incidence of sexual dysfunction associated with antidepressant agents: a prospective multicenter study of 1022 outpatients. Spanish Working Group for the study of psychotropic-related sexual dysfunction. J Clin Psychiatry 2001;62 (suppl 3):10–21.
  117. Healy D, Le Noury J, Mangin D. Enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, 5α-reductase inhibitors and isotretinoin: 300 cases. Int J Risk Saf Med 2018;29:125-34.
  118. Healy D, Le Noury J, Mangin D. Post-SSRI sexual dysfunction: Patient experi- ences of engagement with healthcare professionals. Int J Risk Saf Med 2019;30:167-78.
  119. Healy D. Antidepressants and sexual dysfunction: a history. J R Soc Med 2020;113:133-5.
  120. FDA package insert for Prozac. Accessed 14 March 2020. https://pi.lilly.com/ us/prozac.pdf.
  121. Medawar C, Hardon A. Medicines out of Control? Antidepressants and the conspiracy of goodwill. Netherlands: Aksant Academic Publishers;
  122. FDA package insert for Effexor. Accessed 4 Jan 2020. https://www.accessdata. fda.gov/drugsatfda_docs/label/2008/020151s051lbl.pdf.
  123. FDA package insert for Lithobid. Accessed 12 March 2020. https:// accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2016/018027s059lbl.pdf.
  124. Cipriani A, Hawton K, Stockton S, et al. Lithium in the prevention of suicide in mood disorders: updated systematic review and meta-analysis. BMJ 2013;346:f3646.
  125. Börjesson J, Gøtzsche PC. Effect of lithium on suicide and mortality in mood disorders: A systematic review. Int J Risk Saf Med 2019;30:155-66.
  126. FDA package insert for Neurontin. Accessed 4 Jan 2020. https:// accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2017/020235s064_020882s047_02112 9s046lbl.pdf.
  127. Ghaemi SN. The failure to know what isn’t known: negative publication bias with lamotrigine and a glimpse inside peer review. Evid Based Ment Health 2009;12:65-8.
  128. Weingart SN, Wilson RM, Gibberd RW, et al. Epidemiology of medical BMJ 2000;320:774–7.
  129. Starfield B. Is US health really the best in the world? JAMA 2000;284:483–5.
  130. Lazarou J, Pomeranz BH, Corey PN. Incidence of adverse drug reactions in hospitalized patients: a meta-analysis of prospective studies. JAMA 1998;279:1200–5.
  131. Ebbesen J, Buajordet I, Erikssen J, et al. Drug-related deaths in a department of internal medicine. Arch Intern Med 2001;161:2317–23.
  132. Pirmohamed M, James S, Meakin S, et al. Adverse drug reactions as cause of ad- mission to hospital: prospective analysis of 18 820 patients. BMJ 2004;329:15-9.
  133. van der Hooft CS, Sturkenboom MC, van Grootheest K, et al. Adverse drug reaction-related hospitalisations: a nationwide study in The Netherlands. Drug Saf 2006;29:161-8.
  134. Landrigan CP, Parry GJ, Bones CB, et al. Temporal trends in rates of patient harm resulting from medical care. N Engl J Med 2010;363:2124-34.
  135. James JTA. A new, evidence-based estimate of patient harms associated with hospital care. J Patient Saf 2013;9:122-8.
  136. Archibald K, Coleman R, Foster C. Open letter to UK Prime Minister David Cameron and Health Secretary Andrew Lansley on safety of medicines. Lancet 2011;377:1915.
  137. Makary MA, Daniel M. Medical error – the third leading cause of death in the US. BMJ 2016;353:i2139.
  138. Centers for Disease Control and Prevention. Leading causes of death. cdc. gov/nchs/fastats/lcod.htm.
  139. Management of substance abuse. Amphetamine-like substances. Undated. Downloaded 14 March 2020. https://www.who.int/substance_abuse/facts/ ATS/en/.
  140. National Institute on Drug Abuse. What is the scope of methamphetamine misuse in the United States? 2019; Oct. https://www.drugabuse.gov/publications/ research-reports/methamphetamine/what-scope-methamphetamine-misuse-in- united-states.
  141. Moore TJ, Glenmullen J, Furberg CD. Prescription drugs associated with reports of violence towards others. PLoS One 2010;5:e15337.
  142. Molina BS, Flory K, Hinshaw SP, et al. Delinquent behavior and emerging sub- stance use in the MTA at 36 months: prevalence, course, and treatment effects. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 2007;46:1028-40.
  143. The MTA Cooperative Group. A 14-month randomized clinical trial of treatment strategies for attention-deficit/hyperactivity disorder. Arch Gen Psychiatry 1999;56:1073-86.
  144. Jensen PS, Arnold LE, Swanson JM, et al. 3-year follow-up of the NIMH MTA study. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 2007;46:989-1002.
  145. Molina BS, Hinshaw SP, Swanson JM, et al. The MTA at 8 years: prospective follow-up of children treated for combined-type ADHD in a multisite study. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 2009;48:484-500.
  146. Swanson JM, Arnold LE, Molina BSG, et al. Young adult outcomes in the follow-up of the multimodal treatment study of attention-deficit/hyperactivity disorder: symptom persistence, source discrepancy, and height suppression. J Child Psychol Psychiatry 2017;58:663-78.
  147. Borcherding BG, Keysor CS, Rapoport JL, et al. Motor/vocal tics and compulsive behaviors on stimulant drugs: is there a common vulnerability? Psychiatry Res 1990;33:83-94.
  148. Breggin PR. The rights af children and parents in regard to children receiving psychiatric diagnoses and drugs. Children & Society 2014;28:231-41.
  149. Danborg PB, Simonsen AL, Gøtzsche PC. Impaired reproduction after exposure to ADHD drugs: Systematic review of animal studies. Int J Risk Saf Med 2017;29:107-24.
  150. Cherland E, Fitzpatrick R. Psychotic side effects of psychostimulants: a 5-year review. Can J Psychiatry 1999;44:811-3.
  151. Boesen K, Saiz LC, Erviti J, Storebø OJ, Gluud C, Gøtzsche PC, et al. The Cochrane Collaboration withdraws a review on methylphenidate for adults with attention deficit hyperactivity disorder. Evid Based Med 2017;22:143-7.
  152. Storebø OJ, Ramstad E, Krogh HB, Nilausen TD, Skoog M, Holmskov M, et al. Methylphenidate for children and adolescents with attention deficit hyperactivity disorder (ADHD). Cochrane Database Syst Rev 2015;11:CD009885.
  153. Boesen K, Paludan-Müller AS, Gøtzsche PC, Jørgensen KJ. Extended-release methylphenidate for attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in adults. Cochrane Database Syst Rev 2017;11:CD012857 (protocol; review in progress).
  154. Wallach-Kildemoes H, Skovgaard AM, Thielen K, Pottegård A, Mortensen LH. Social adversity and regional differences in prescribing of ADHD medication for school-age children. J Dev Behav Pediatr 2015;36:330-41.
  155. RL, Garland EJ, Wright JM, et al. Influence of relative age on diagnosis and treatment of attention-deficit/hyperactivity disorder in children. CMAJ 2012;184:755-62.
  156. Santaguida P, MacQueen G, Keshavarz H, Levine M, Beyene J, Raina P. Treatment for depression after unsatisfactory response to SSRIs. Comparative effectiveness review No. 62. (Prepared by McMaster University Evidence-based Practice Center under Contract No. HHSA 290 2007 10060 I.) AHRQ Publication No.12-EHC050-EF. Rockville, MD: Agency for Healthcare Research and Quality; 2012: April. ahrq.gov/clinic/epcix.htm.
  157. Rink L, Braun C, Bschor T, Henssler J, Franklin J, Baethge C. Dose increase versus unchanged continuation of antidepressants after initial antidepressant treatment failure in patients with major depressive disorder: a systematic review and meta-analysis of randomized, double-blind trials. J Clin Psychiatry 2018;79(3).
  158. Samara MT, Klupp E, Helfer B, Rothe PH, Schneider-Thoma J, Leucht S. Increasing antipsychotic dose for non response in schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev 2018;5:CD011883.
  159. Miller M, Swanson SA, Azrael D, Pate V, Stürmer T. Antidepressant dose, age, and the risk of deliberate self-harm. JAMA Intern Med 2014;174:899-909.
  160. Ho BC, Andreasen NC, Ziebell S, et al. Long-term antipsychotic treatment and brain volumes: a longitudinal study of first-episode schizophrenia. Arch Gen Psychiatry 2011;68:128-37.
  161. Zipursky RB, Reilly TJ, Murray RM. The myth of schizophrenia as a progressive brain disease. Schizophr Bull 2013;39:1363-72.
  162. Videbech P. Debatten om antidepressiv medicin – Virker det, og bliver man afhængig? BestPractice Psykiatri/Neurologi 2014; May:nr.
  163. Ownby RL, Crocco E, Acevedo A, et al. Depression and risk for Alzheimer disease: systematic review, meta-analysis, and metaregression analysis. Arch Gen Psychiatry 2006;63:530-8.
  164. Moraros J, Nwankwo C, Patten SB, Mousseau DD. The association of antidepressant drug usage with cognitive impairment or dementia, including Alzheimer disease: A systematic review and meta-analysis. Depress Anxiety 2017;34:217-26.
  165. Coupland CAC, Hill T, Dening T, Morriss R, Moore M, Hippisley-Cox J. Anticholinergic drug exposure and the risk of dementia: a nested case-control study. JAMA Intern Med 2019; Jun 24.
  166. Mojtabai R, Olfson M. National trends in psychotropic medication polypharmacy in office-based psychiatry. Arch Gen Psychiatry 2010;67:26-36.
  167. Videos from International meeting: Psychiatric drugs do more harm than Copenhagen 2015; Sept 16. https://www.deadlymedicines.dk/wp- content/uploads/2014/10/International-meeting1.pdf
  168. Gøtzsche PC. Long-term use of antipsychotics and antidepressants is not evidence-based. Int J Risk Saf Med 2020;31:37-42.
  169. Belmaker RH, Wald D. Haloperidol in normals. Br J Psychiatry 1977;131:222-3. 170
  170. Kroken RA, Kjelby E, Wentzel-Larsen T, Mellesdal LS, Jørgensen HA, Johnsen Time to discontinuation of antipsychotic drugs in a schizophrenia cohort: influence of current treatment strategies. Ther Adv Psychopharmacol 2014;4:228-39.
  171. Nielsen M, Hansen EH, Gøtzsche PC. Dependence and withdrawal reactions to benzodiazepines and selective serotonin reuptake inhibitors. How did the health authorities react? Int J Risk Saf Med 2013;25:155-68.
  172. Committee on the Review of Medicines. Systematic review of the benzodiaze- pines. Guidelines for data sheets on diazepam, chlordiazepoxide, medazepam, clorazepate, lorazepam, oxazepam, temazepam, triazolam, nitrazepam, and flura- zepam. Br Med J 1980;280:910-2.
  173. Gøtzsche PC. Long-term use of benzodiazepines, stimulants and lithium is not evidence-based. Clin Neuropsychiatry 2020;17 (in press).
  174. Ilyas S, Moncrieff J. Trends in prescriptions and costs of drugs for mental disorders in England, 1998-2010. Br J Psychiatry 2012;200:393-8.
  175. Nielsen M, Gøtzsche P. An analysis of psychotropic drug sales. Increasing sales of selective serotonin reuptake inhibitors are closely related to number of products. Int J Risk Saf Med 2011;23:125-32.
  176. Nielsen M, Hansen EH, Gøtzsche PC. What is the difference between dependence and withdrawal reactions? A comparison of benzodiazepines and selective serotonin re-uptake inhibitors. Addict 2012;107:900-8.
  177. Oswald I, Lewis SA, Dunleavy DL, Brezinova V, Briggs M. Drugs of dependence though not of abuse: fenfluramine and imipramine. Br Med J 1971;3:70-3.
  178. Priest RG, Vize C, Roberts A, et al. Lay people’s attitudes to treatment of depression: results of opinion poll for Defeat Depression Campaign just before its launch. BMJ 1996;313:858-9.
  179. Read J, Timimi S, Bracken P, Brown M, Gøtzsche P, Gordon P, et al. Why did official accounts of antidepressant withdrawal symptoms differ so much from research findings and patients’ experiences? Ethical Hum Psychol Psychiatry (submitted).
  180. Public Health England. Dependence and withdrawal associated with some pre- scribed medications: an evidence Review. 2019; Sept. https://assets.publishing. gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/829777 /PHE_PMR_report.pdf.
  181. Nutt DJ, Goodwin GM, Bhugra D, Fazel S, Lawrie S. Attacks on antidepres- sants: signs of deep-seated stigma? Lancet Psychiatry 2014;1:102-4.
  182. Raven M. Depression and antidepressants in Australia and beyond: a critical public health analysis (PhD thesis). University of Wollongong, Australia; 2012. http://ro.uow.edu.au/theses/3686/.
  183. Gøtzsche PC. Usage of depression pills almost halved among children in Denmark. Mad in America 2018; May 4. https://www.madinamerica.com/2018/05/usage-depression-pills-almost-halved- among-children-denmark/.
  184. Chan A-W, Hróbjartsson A, Haahr MT, Gøtzsche PC, Altman DG. Empirical evidence for selective reporting of outcomes in randomized trials: comparison of protocols to published articles. JAMA 2004;291:2457-65.
  185. Carney S, Geddes J. Electroconvulsive therapy. BMJ 2003;326:1343-4.
  186. Read J, Bentall R. The effectiveness of electroconvulsive therapy: a literature review. Epidemiol Psichiatr Soc 2010 Oct-Dec;19:333-47.
  187. Rose D, Fleischmann P, Wykes T, et al. Patients’ perspectives on electrocon- vulsive therapy: systematic review. BMJ 2003;326:1363.

Capítulo 3. Psicoterapia

  1. Gøtzsche PC. Deadly psychiatry and organised denial. Copenhagen: People’s Press; 2015.
  2. Gøtzsche PC. Chemical or psychological psychotherapy? Mad in America 2017; Jan 29. https://www.madinamerica.com/2017/01/chemical-psychological- psychotherapy/.
  3. Krupnick JL, Sotsky SM, Simmens S, et al. The role of the therapeutic alliance in psychotherapy and pharmacotherapy outcome: Findings in the National Institute of Mental Health Treatment of Depression Collaborative Research Program. J Consult Clin Psychol 1996;64:532–9.
  4. Demyttenaere K, Donneau A-F, Albert A, et al. What is important in being cured from: Does discordance between physicians and patients matter? (2). J Affect Disord 2015;174:372–7.
  5. Sørensen A, Gøtzsche. Antidepressant drugs are a type of maladaptive emotion regulation (submitted).
  6. Spielmans GI, Berman MI, Usitalo AN. Psychotherapy versus second-generation antidepressants in the treatment of depression: a meta-analysis. J Nerv Ment Dis 2011;199:142–9.
  7. Cuijpers P, Hollon SD, van Straten A, et al. Does cognitive behaviour therapy have an enduring effect that is superior to keeping patients on continuation pharmaco- therapy? A meta-analysis. BMJ Open 2013;26;3(4).
  8. Breggin PR. Intoxication anosognosia: the spellbinding effect of psychiatric Ethical Hum Psychol Psychiatry 2006;8:201–15.
  9. Breggin PR. Brain-disabling treatments in psychiatry: drugs, electroshock, and the psychopharmaceutical complex. New York: Springer;
  10. Gøtzsche PC, Gøtzsche PK. Cognitive behavioural therapy halves the risk of repeated suicide attempts: systematic review. J R Soc Med 2017;110:404-10.
  11. Hawton K, Witt KG, Taylor Salisbury TL, et al. Psychosocial interventions for self-harm in adults. Cochrane Database Syst Rev 2016;5:CD012189.
  12. Morrison AP, Turkington D, Pyle M, et al. Cognitive therapy for people with schizophrenia spectrum disorders not taking antipsychotic drugs: a single-blind randomised controlled trial. Lancet 2014;383:1395-403.
  13. Seikkula J, AaltonenJ, Alakare B, et al. Five-year experience of first-episode nonaffective psychosis in open-dialogue approach: Treatmentprinciples, follow- up outcomes, and two case studies. Psychotherapy Research 2006;16:214-28.
  14. Svedberg B, Mesterton A, Cullberg J. First-episode non-affective psychosis in a total urban population: a 5-year follow-up. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol 2001;36:332-7.
  15. Harnisch H, Montgomery E. “What kept me going”: A qualitative study of avoidant responses to war-related adversity and perpetration of violence by former forcibly recruited children and youth in the Acholi region of northern Uganda. Soc Sci Med 2017;188:100-8.
  16. Nilsonne Å. Processen: möten, mediciner, beslut. Stockholm: Natur & Kultur; 2017.

Capítulo 4. Retirada de medicamentos psiquiátricos

  1. Gøtzsche PC. Medicamentos mortais e crime organizado. Porto Alegre: Bookman; 2016.
  2. “My anti-depressant withdrawal was worse than depression.” 2020 Mar 12. https://www.bbc.co.uk/programmes/p086fjk7.
  3. Gøtzsche PC. Sundhedsstyrelsens råd om depressionspiller er farlige. Politikens Kronik 2010 Feb
  4. Horowitz MA, Taylor D. Tapering of SSRI treatment to mitigate withdrawal symptoms. Lancet Psychiatry 2019;6:538-46.
  5. Gøtzsche PC. Prescription pills are Britain’s third biggest killer: Side-effects of drugs taken for insomnia and anxiety kill thousands. Why do doctors hand them out like Smarties? Daily Mail 2015; Sept 15. http://www.dailymail.co.uk/health/ article-3234334/Prescription-pills-Britain-s-biggest-killer-effects-drugs-taken- insomnia-anxiety-kill-thousands-doctors-hand-like-Smarties.html.
  6. Gøtzsche PC. Deadly psychiatry and organised denial. Copenhagen: People’s Press; 2015.
  7. Gøtzsche PC. Death of a whistleblower and Cochrane’s moral collapse. Copen- hagen: People’s Press;
  8. Public Health England. Dependence and withdrawal associated with some prescribed medications: an evidence Review. 2019; Sept. https://assets. service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/ file/829777/PHE_PMR_report.pdf.
  9. Guy A, Davies J, Rizq R (eds.) Guidance for psychological therapists: Enabling conversations with clients taking or withdrawing from prescribed psychiatric drugs. London: APPG for Prescribed Drug Dependence; 2019
  10. Ho BC, Andreasen NC, Ziebell S, et al. Long-term antipsychotic treatment and brain volumes: a longitudinal study of first-episode schizophrenia. Arch Gen Psychiatry 2011;68:128-37.
  11. Zipursky RB, Reilly TJ, Murray RM. The myth of schizophrenia as a progressive brain disease. Schizophr Bull 2013;39:1363-72.
  12. Timimi S. Death of a whistleblower and Cochrane’s moral collapse. Psychosis 2019; Oct 30. https://doi.org/10.1080/17522439.2019.1685584.
  13. Gøtzsche PC, Sørensen A. The review on antidepressant withdrawal that Cochrane won’t publish. Mad in America 2020; Feb 11. https://www.madinamerica.com/ 2020/02/review-cochrane-wont-publish/.
  14. Cipriani A, Zhou X, Del Giovane C, Hetrick SE, Qin B, Whittington C, et Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis. Lancet 2018;391:1357-66.
  15. Higgins JPT, Green S (eds.). Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions Version 5.1.0 [updated March 2011]. The Cochrane Collaboration, 2011. cochrane-handbook.org.
  16. Gøtzsche PC. Rewarding the companies that cheated the most in antidepressant trials. Mad in America 2018; March 7. https://www.madinamerica.com/2018/ 03/rewarding-companies-cheated-most-antidepressant-trials/.
  17. Munkholm K, Paludan-Müller AS, Boesen K. Considering the methodological limitations in the evidence base of antidepressants for depression: a reanalysis of a network meta-analysis. BMJ Open 2019;9:e024886.
  18. Gøtzsche PC. Why we need a broad perspective on meta-analysis: It may be crucially important for patients. BMJ 2000;321:585-6.
  19. Gøtzsche PC. Does long term use of psychiatric drugs cause more harm than good? BMJ 2015;350:h2435.
  20. Davies J, Read J. A systematic review into the incidence, severity and duration of antidepressant withdrawal effects: Are guidelines evidence-based? Addict Behav 2019;97:111-21.
  21. Groot P, van Os J. How user knowledge of psychotropic drug withdrawal resulted in the development of person-specific tapering medication. Ther Adv Psychopharmacol 2020 (paper under review). https://iipdw.org/user-knowledge- psychotropic-drug-withdrawal/.
  22. survivingantidepressants.org. Surviving Antidepressants is a site for peer support, documentation, and education about withdrawal symptoms caused by depression pills, with more than 6,000 reports of patient experiences.
  23. Inner Compass Initiative: The Withdrawal Project. https://withdrawal. theinnercompass.org. Resources for withdrawal from psychiatric
  24. Hall W. Harm reduction guide to coming off psychiatric drugs. The Icarus Project and Freedom Center; 2012. theicarusproject.net/resources/publications/ harm-reduction-guide-to-comingoff-psychiatric-drugs-and-withdrawal/.
  25. Benzo buddies. Mutual-support environment for those who wish to withdraw from benzodiazepines. benzobuddies.org.
  26. Recovery Road. Antidepressant & Benzodiazepine Withdrawal www.recovery-road.org.
  27. Ashton CH. Benzodiazepines: how they work and how to withdraw. Newcastle: University of Newcastle; 2011. benzo.org.uk/manual/.
  28. Toft B, Gøtzsche PC. Psykofarmakaepidemien kan bekæmpes. Information 2017; Apr 3. https://www.information.dk/debat/2017/04/psykofarmakaepidemien-kan- bekaempes.
  29. Gøtzsche PC. Survival in an overmedicated world: look up the evidence. Copenhagen: People’s Press; 2019.
  30. McLaren N. Anxiety, the inside story. How biological psychiatry got it Ann Arbor: Future Psychiatry Press; 2018.
  31. Christensen DC. Dear Luise: a story of power and powerlessness in Denmark’s psychiatric care system. Portland: Jorvik Press;
  32. Ostrow L, Jessell L, Hurd M, Darrow SM, Cohen D. Discontinuing psychiatric medications: a survey of long-term users. Psychiatr Serv 2017;68:1232-8.
  33. Groot P, van Os J. Antidepressant tapering strips to help people come off medication more safely. Psychosis 2018;10:142-5.
  34. Horowitz MA, Taylor D. Tapering of SSRI treatment to mitigate withdrawal symptoms. Lancet Psychiatry 2019;6:538-46.
  35. Sørensen A, Rüdinger B, Gøtzsche PC, Toft BS. A practical guide to slow psychiatric drug withdrawal. Copenhagen 2020; Jan 4. https://www.deadly- dk/wp-content/uploads/A-practical-guide-to-drug-withdrawal.pdf.
  36. Breggin P. Psychiatric drug withdrawal: A guide for prescribers, therapists, patients and their families. New York: Springer;
  37. Simons P. Peer-support groups were right, guidelines were wrong: Dr. Mark Horowitz on tapering off antidepressants. Mad in America 2019; Mar 20. https://www.madinamerica.com/2019/03/peer-support-groups-right-official- guidelines-wrong-dr-mark-horowitz-tapering-off-antidepressants/.
  38. Zinkler M, von Peter S. End coercion in mental health services—toward a system based on support only. Laws 2019;8:19.
  39. Fiorillo A, De Rosa C, Del Vecchio V, Jurjanz L, Schnall K, Onchev G, et How to improve clinical practice on involuntary hospital admissions of psychi- atric patients: suggestions from the EUNOMIA study. European Psychiatry 2011;26:201-7.
  40. Scanlan JN. Interventions to reduce the use of seclusion and restraint in inpatient psychiatric settings: what we know so far, a review of the literature. Int J Soc Psychiat 2010;56:412–23.
  41. Gøtzsche PC, Vinther S, Sørensen A. Forced medication in psychiatry: Patients’ rights and the law not respected by Appeals Board in Denmark. Clin Neuro- psychiatry 2019;16:229-33.
  42. Gøtzsche PC, Sørensen A. Systematic violations of patients’ rights and lack of safety: cohort of 30 patients forced to receive antipsychotics. Ind J Med Ethics 2020. Published online Aug 12. Free
  43. Dold M, Li C, Tardy M, et al. Benzodiazepines for schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev 2012;11:CD006391.
  44. Frandsen P. Et anker af flamingo: Det, vi glemmer, gemmer vi i hjertet. Odense: Mellemgaard; 2019.
  45. Breggin P. Brain-disabling treatments in psychiatry: drugs, electroshock and the psychopharmaceutical complex. New York: Springer;
  46. What does akathisia and tardive dyskinesia look like? Videos of children and adults who have been permanently brain damaged by neuroleptics. Undated. https://www.deadlymedicines.dk/lectures/.
  47. Moncrieff J. Antipsychotic maintenance treatment: time to rethink? PLoS Med 2015;12: e1001861.
  48. Karon BP. All I know about Peter Breggin. In: The International Center for the Study of Psychiatry and Psychology. The Conscience of Psychiatry. The reform work of Peter R. Breggin, MD. New York: Lake Edge Press;
  49. Gøtzsche PC. Forced drugging with antipsychotics is against the law: decision in Norway. Mad in America 2019; May 4. https://www.madinamerica.com/ 2019/05/forced-drugging-antipsychotics-against-law/.
  50. Gottstein J. The Zyprexa papers. Anchorage: Jim Gottstein;

Capítulo 5. Kit de sobrevivência para jovens psiquiatras

  1. Drachmann H. Klinikchef må ikke længere arbejde som psykiater. Politiken 2013; Feb 1.
  2. Hildebrandt S. Lars Søndergård mistænkes atter for at overmedicinere. Dagens Medicin 2015; Oct 23.
  3. Hildebrandt S. ”Det er monstrøse doser af medicin.” Dagens Medicin 2015; Oct 23.
  4. Schmidt M. Svar fra ledelsen i Psykiatrien Vest. Dagens Medicin 2015; Oct
  5. Hildebrandt S. Derfor er Lars Søndergårds supervisor sat under skærpet Dagens Medicin 2016; Mar 3.
  6. https://illnessquiz.com/schizotypal-personality-disorder-test/.
  7. Mayo Clinic. Schizotypal personality disorder. https://www.mayoclinic.org/dis- eases-conditions/schizotypal-personality-disorder/symptoms-causes/syc- 20353919.
  8. Börjesson J, Gøtzsche PC. Effect of lithium on suicide and mortality in mood disorders: A systematic review. Int J Risk Saf Med 2019;30:155-66.
  9. Svensson P. Så stoppade GU-professor allmänhetens insyn i läkemedelsforskning. Göteborgs-posten 2018; Jan 20. http://www.gp.se/nyheter/g%C3%B6teborg/ s%C3%A5-stoppade-gu-professor-allm%C3%A4nhetens-insyn-i-l%C3%A4ke- medelsforskning-1.5069930.
  10. Sternbeck P. Brallorna nere på professorn Elias Eriksson. Equal 2018; Jan 16.
  11. Riksdagens Ombudsman. Kritik mot Göteborgs universitet for handläggningen av en begäran om utlämnande av allmänna handlingar m.m. 2017; Dec 20:Dnr 7571-2016.
  12. Gøtzsche PC, Gøtzsche PK. Cognitive behavioural therapy halves the risk of repeated suicide attempts: systematic review. J R Soc Med 2017;110:404-10.
  13. Sveriges radio. Striden om de antidepressiva medlen. 2017; Aug 28. http://sverigesradio.se/sida/avsnitt/943828?programid=412.
  14. Gøtzsche PC. National boards of health are unresponsive to children driven to suicide by depression pills. Mad in America 2020; Mar 15. https:// madinamerica.com/2020/03/children-driven-suicide-depression-pills/.
  15. Frankfurt HG. On bullshit. New Jersey: Princeton University Press; 2005.
  16. Läkemedelsbehandling av depression, ångestsyndrom och tvångssyndrom hos barn och vuxna. Läkemedelsverket 2016; Dec 8.
  17. Barczyk ZA, Rucklidge JJ, Eggleston M, Mulder RT. Psychotropic medication prescription rates and trends for New Zealand children and adolescents 2008- 2016. J Child Adolesc Psychopharmacol 2020;30:87-96.
  18. UNICEF Office of Research. Building the future: children and the sustainable development goals in rich countries. Innocenti ReportCard 14; 2017.
  19. Hjelmeland H, Jaworski K, Knizek BL, Ian M. Problematic advice from suicide prevention experts. Ethical Human Psychology and Psychiatry 2018;20:79-85.
  20. Whitaker R, Blumke D. Screening + drug treatment = increase in veteran Mad in America 2019; Nov 10. https://www.madinamerica.com/2019/11/ screening-drug-treatment-increase-veteran-suicides/.
  21. Gøtzsche PC. Medicamentos mortais e crime organizado. Porto Alegre: Bookman; 2016.
  22. Videos of talks presented at the inaugural symposium for the Institute for Scientific Freedom. 2019; Mar 9. https://www.youtube.com/playlist?list=PLoJ5D4KQ1G0Z_ZQo5AIIiuuspAKCn c49T.
  23. Medawar C, Hardon A. Medicines out of Control? Antidepressants and the conspiracy ofgoodwill. Netherlands: Aksant Academic Publishers;
  24. Stordrange IL. The happy pill. She survived 10 years of ”torture” in https://www.youtube.com/watch?v=T4kVpNmYzBU&t=1s. Version with Norwegian subtitles: https://ingerlenestordrang.wixsite.com/lykkepillen.
  25. Gøtzsche PC. Survival in an overmedicated world: look up the evidence Copenhagen: People’s Press; 2019.
  26. Hoel A. Cause of death: unknown. 2017; Mar 24. https://www.imdb.com/title  /tt6151226/.
  27. Jakobsen JC, Katakam KK, Schou A, et al. Selective serotonin reuptake inhibitors versus placebo in patients with major depressive disorder. A systematic review with meta-analysis and Trial Sequential Analysis. BMC Psychiatry 2017;17:58.
  28. Gøtzsche PC. Antidepressiva skader mere end de gavner. Dagens Medicin 2017; Mar 15,
  29. Gøtzsche P. The meeting was sponsored by merchants of death. Mad in America 2014; July 7. http://www.madinamerica.com/2014/07/meeting-sponsored-mer- chants-death/.
  30. Pedersen AT. Diagnosing Psychiatry. https://vimeo.com/ondemand/diagnosingpsychiatryen.
  31. Pedersen AT. Debat: Vi har ret til at undre os. Journalisten 2017; May 8.
  32. Christensen AS. DR2 undersøger Danmark på piller. 2013; Mar 8. https://www.dr.dk/presse/dr2-undersoeger-danmark-paa-piller.
  33. Ditzel EE. Psykiatri-professor om DR-historier: ”Skræmmekampagne der kan koste liv.” Journalisten 2013; Apr 11. https://journalisten.dk/psykiatri-professor- om-dr-historier-skraemmekampagne-der-kan-koste-liv/.
  34. Gøtzsche PC. Death of a whistleblower and Cochrane’s moral collapse. Copen- hagen: People’s Press;
  35. Heilbuth PE. Pillens mørke skygge. DR1 2013; Apr 2019.
  36. Heilbuth PE. Dårlig presseetik, Politiken. Politiken 2013; Apr
  37. Thisted K. Jeg tager lykkepiller, ellers var jeg død! Ekstra Bladet 2015; Oct 24. 38 Gøtzsche PC. Deadly psychiatry and organised denial. Copenhagen: People’s Press; 2015.
  38. Spencer M. The Carter Center’s guide for mental health journalism: don’t question, follow the script. Mad in America 2020; Feb 23. https://www.madinamerica.com/ 2020/02/carter-center-guide-mental-health- journalism/.
  39. Whitaker R. Anatomy of an epidemic, 2nd edition. New York: Broadway Paper- backs; 2015.
  40. Gøtzsche PC. Psychiatry gone astray. 2014; Jan 21. https://davidhealy.org/psychi- atry-gone-astray/.
  41. Gøtzsche PC. Unwarranted criticism of “Psychiatry cone astray.” Mad in America 2014; Feb 20. https://www.madinamerica.com/2014/02/unwarranted-criticism- psychiatry-gone-astray/.
  42. Jorm AF, Korten AE, Jacomb PA, et al. ”Mental health literacy”: a survey of the public’s ability to recognise mental disorders and their beliefs about the effect- tiveness of treatment. Med J Aus 1997;166:182-6.
  43. Gøtzsche PC, Vinther S, Sørensen A. Forced medication in psychiatry: Patients’ rights and the law not respected by Appeals Board in Denmark. Clin Neuro- psychiatry 2019;16:229-33.
  44. Gøtzsche PC, Sørensen A. Systematic violations of patients’ rights and lack of safety: cohort of 30 patients forced to receive antipsychotics. Ind J Med Ethics 2020. Published online Aug 12. Free access.

[trad. edição Fernando Freitas]

Abordagens de Cura Psicológica para o Trauma Pós-Colonial AfroLatinx

0

Um artigo da psicóloga feminista multicultural Lillian Comas-Díaz, publicado no volume mais recente do Journal of Latinx Psychology, explora como o legado do colonialismo continua a afetar a comunidade afro-latinx e sugere que as abordagens descoloniais, anti-racistas e de libertação para a psicologia podem ser utilizadas para responder às necessidades desta população.

“Os afro-latinxs carregam o sinal da colonização, do domínio e controle por indivíduos ou grupos sobre o território, recursos e comportamentos de outros indivíduos ou grupos”, escreve Comas-Diaz.

“De fato, a colonização promove a auto-negação sistemática colonizada e a desconxão das suas raízes originais, resultando em conflitos de identidade omnipresentes. Infelizmente, os efeitos negativos da colonização continuam durante a pós-colonização, em que este legado promove a discriminação baseada na interseção de raça, classe, gênero e sexualidade, uma discriminação que confere poder aos grupos brancos privilegiados sobre os grupos minoritários raciais desprotegidos”.

Por esta razão, o povo AfroLatinx está continuamente a lidar com formas contemporâneas de colonização (por exemplo, Porto Rico e outras colônias ou territórios americanos) e com os efeitos a longo prazo do colonialismo, também conhecido como colonialidade. Entre os efeitos da colonialidade estão o desenvolvimento da Mentalidade Colonial e o Transtorno do Stress Pós-Colonização.

A Mentalidade Colonial é a interiorização da opressão durante e após a colonização, onde os colonizados passam a acreditar na sua inferioridade étnica, racial e cultural. Isto vem com um conjunto de consequências.

Primeiro, aqueles que desenvolvem uma mentalidade colonial desejam ser como o colonizador e separar-se da sua cultura e história. Muitas vezes evitam bronzear-se (como para evitar pele mais escura devido ao seu colorido), não gostam do seu cabelo natural e outras características corporais, defendem os padrões de beleza europeus brancos, procuram indivíduos de pele mais clara como parceiros românticos, e são mais propensos a sofrer de síndrome do impostor. Além disso, exprimem hostilidade e agressão contra os negros e outras pessoas de cor. Como resultado, aqueles que desenvolvem uma mentalidade colonial procuram assimilação na cultura Branca e tornam-se separados das suas comunidades, cultura e são ambivalentes quanto às suas próprias identidades.

Entre os reforçadores culturais da mentalidade colonial estão os discursos de ” mestiçagem”. Mestizaje Racial Ideologies (MRIs) destacam a mistura racial das pessoas latinas, levando-as a negar qualquer privilégio atribuído a cores de pele mais claras. As MRIs também reproduzem a mestiçagem racial à medida que os latinos diminuem a dinâmica racial e negam o envolvimento no racismo anti-black, invalidando as experiências das pessoas afro-latinx.

” Ao não conseguirmos pôr os latinx pretos no centro, perpetuamos paradigmas mal informados da latinidade como racialmente homogêneos e daltónicos”, argumenta Comas-Diaz. “Uma tal continuação da negritude ameaça os nossos irmãos afro-latinx, ao mesmo tempo que dificulta a nossa capacidade coletiva de curar as feridas da mentalidade colonial.”

Mas a Mentalidade Colonial não é a única consequência psicológica do colonialismo e da colonialidade. Os Latinxs e AfroLatinxs lutam com o transtorno de estresse pós-colonização (PCSD), uma combinação de sentimentos, pensamentos, comportamentos, e sintomas corporais. O PCSD é desenvolvido através da exposição contínua à opressão sistêmica e às micro e macro agressões raciais. O PCSD difere do PTSD por ser entendido como uma reação normal aos stressores contínuos relacionados com a vida dentro de um contexto sociopolítico racista.

Os AfroLatinxs enfrentam discriminação e rejeição em muitas frentes. A sua complexidade étnica e racial muitas vezes não é reconhecida, pois sentem pressão para se identificarem no binário racial negro/branco dos Estados Unidos ou para se identificarem como negros ou latinos. Como anteriormente mencionado, as pessoas latinas adotam frequentemente crenças daltônicas enquanto se envolvem em racismo contra os afro-latinxs. Os afro-americanos também ignoram a latinidade AfroLatinxs e interpretam a sua identificação como latinx como racismo internalizado. Ao identificarem-se simultaneamente como africanos e latinos, os afro-latinxs podem tornar-se alvos de xenofobia.

No meio destas lutas, os AfroLatinx encontraram formas de compreender as suas complexidades étnicas e raciais e de enfrentar as consequências psicológicas da sua opressão. O autor identifica o desenvolvimento da consciência tripla, através da qual os AfroLatinx podem refletir e integrar a sua latinidade com os seus antepassados africanos e nativos. Ao integrar as suas raízes culturais e históricas nas suas identidades, eles tornam-se fortalecidos, aumentando a sua auto-estima, confiança positiva em si próprios e protegendo-os contra os efeitos psicológicos do racismo.

Segundo o autor, o desenvolvimento da identidade AfroLatinx assumiu diferentes formas, tais como a formação de diferentes grupos, espaços e práticas. Por exemplo, os Porto Riquenhos diásporos formaram os Jovens Senhores – inspirados pelos Panteras Negras – que se concentraram na descolonização, autodeterminação e práticas de justiça social que eram antiracistas e antipatriarcais.

Os AfroLatinxs também participam no artivismo ou na arte ao serviço da justiça social. Isto tomou a forma de composição musical (por exemplo, bomba, plena, habanera, salsa, samba reggaetón, hip hop, jazz, e outras formas de música), poesia, e mesmo a criação dos super-heróis AfroLatinx em para os quadrinhos. A arte pode ter contribuições importantes para a vida psicológica, uma vez que ter autoimagens positivas proporciona validação e apoio a identidades revolucionárias e melhora a autoestima.

No entanto, para Comas-Díaz, isto não vai longe o suficiente. Ela escreve:

“Precisamos de mais do que modelos positivos para enfrentar a opressão e o trauma racial. Para desmantelar a mentalidade colonial e curar o trauma racial, precisamos de abordagens descoloniais, antiracistas e de cura libertadora na investigação e na prática. Além disso, estas abordagens devem ser fundamentadas num contexto mais amplo que centre as identidades revolucionárias dos AfroLatinx enquanto desenraíza o ethos da negritude que permeia a nossa investigação e prática.”

Relativamente à investigação, a AfroLatinidade pode ser abordada pela inclusão do “Latinx” ou “Hispânico” na discussão das origens das pessoas, analisando a experiência de vários subgrupos para compreender o papel da interseccionalidade em diferentes grupos Latinx. Ao incluir as identidades raciais e étnicas, os psicólogos podem compreender melhor como a raça e o racismo afetam o desenvolvimento da formação da identidade.

Em termos de prática psicológica, Comas-Diaz apela a uma abordagem holística que atenda à “ferida da alma” da AfroLatinx e aos traumas raciais. O primeiro passo desta abordagem holística proposta é a descolonização. Isto começa com o reconhecimento do trauma colonial.

Comas-Díaz propôs vários passos para o reconhecimento e cura deste trauma. O primeiro é o luto, identificando “as feridas que sofremos”. Depois vem pedir desculpas pela dor que causamos o outro tipo experienciar. A terceira é ouvir ou reconhecer a sabedoria e o conhecimento das pessoas exploradas pelo sistema colonial. O quarto é o relacionamento ou o envolvimento em humildade cultural. O quinto é a representação ou a ocupação de espaços de participação. O sexto é investir ou incluir pessoas de grupos marginalizados na tomada de decisões. O sétimo é a reparação ou o uso da psicologia para curar o sofrimento das pessoas que magoam e prevenir a dor dos outros. Finalmente, há a solidariedade e o trabalho em prol da equidade racial.

Uma abordagem clínica que aborde o trauma racial entre os AfroLatinx deveria visar a descolonização psicológica juntamente com a reformulação da identidade etnorracial, a promoção da transformação pessoal, e o fomento da consciência sociopolítica. Isto inclui a avaliação das preocupações das pessoas, a estabilização e dessensibilização emocional, o reprocessamento de experiências negativas e, finalmente, o envolvimento em ações de justiça social. Os terapeutas devem também realçar e fomentar as forças e virtudes da pessoa através da expressão criativa e reconectá-las com as suas fontes de empoderamento.

Finalmente, a reconexão com as suas crenças espirituais indígenas (por exemplo, Santería, Candomblé, Umbanda, Espiritismo, e Santerismo) ajuda os AfroLatinxs a lidar com o racismo. A espiritualidade pode servir como moderador entre o stress racial e os sintomas associados à “doença mental”, promovendo o crescimento pós-traumático. A espiritualidade pode também fomentar a consciência crítica, o desenvolvimento da identidade e o envolvimento em ações sociopolíticas. Ainda estigmatizadas em muitos países latinos, estas formas de espiritualidade tinham sido suprimidas durante a colonização e tiveram de disfarçar os seus deuses através de imagens Cristãs dominantes.

Estas práticas espirituais afrocêntricas centram as experiências vividas dos AfroLatinx, validam as suas emoções, e ligam-nas às suas raízes, histórias, culturas e conhecimentos. Também promovem a libertação dentro do seu desenvolvimento espiritual, oferecendo resistência, afirmação, conexão, esperança e agência.

O trabalho de Comas-Díaz é importante uma vez que as questões afro-latinx têm sido negligenciadas na psicologia e na cultura latina. Grupos latinx nos Estados Unidos e nas Américas têm frequentemente negado o racismo devido a discursos de mestiçagem – ou à presunção de que todos os latinxs são mestiços. Por conseguinte, não podem adotar crenças e ações racistas contra os latinos de pele mais escura. Além disso, algumas abordagens psicológicas que se centram em torno da Negritude e do antiracismo não atendem às particularidades do povo afro-latinx.

A investigação psicológica Latinx deve abordar as interseções entre latinidade, raça, gênero, estatuto socioeconómico e história colonial para dar sentido à forma como a mentalidade colonial, PCSD, e outras formas de sofrimento afetam a diversidade dos povos Latinx e AfroLatinx. Além disso, a prática psicológica deve envolver-se na praxe descolonial que promove uma consciência crítica, a reconceptualização da identidade, transformação pessoal e ação sociopolítica.

****

Comas-Díaz, L. (2021). Afro-Latinxs: Decolonization, healing, and liberation. Journal of Latinx   Psychology, 9(1), 65–75. https://doi.org/10.1037/lat0000164 (Link)

“Pandemia e genocídio: a bordo da nau dos insensatos”

Navio dos loucos, Hieronymus Bosch, ~1495

O país poderia ser comparado a uma nau sem rumo levada ao sabor das ondas. Sem liderança efetiva, sem sequer uma autoridade sanitária responsável que aponte possíveis rumos ou, pelo menos, demonstre minimamente solidariedade para com a população. Estamos à deriva em plena tempestade e em alto mar. Sem falar nas medidas de mitigação da crise econômica gravíssima com resultados sociais assustadores. Se por um lado, o desmonte do sistema de saúde, vítima de subfinanciamento, descaso e ataque governamental vem se agravando, por outro, a desigualdade socioeconômica, à qual se junta um persistente racismo estrutural, fragiliza ainda mais uma parcela considerável da população. Por isso, falar em genocídio não é exagero.

Navio dos loucos, Hieronymus Bosch, ~1495

Genocídio. Genocida. São termos que designam o extermínio deliberado de um povo, de uma população ou comunidade. As ações que explicitam isso não se encontram apenas nas entrelinhas, subentendidas ou maquiadas por qualquer subterfúgio. Não é questão de diferenças de entendimento sobre determinados pontos espinhosos. Estas ações são explícitas, declaradas, deliberadas, transmitidas através de diferentes meios de comunicação, veiculadas em rede nacional, em pronunciamentos oficiais. E, o mais assustador: são consentidas por uma parcela significativa da população que se sente representada pela encarnação da pulsão de morte que reproduz um gozo mórbido e perverso.

Estamos nas mãos de líderes neofascistas associados aos interesses do mercado financeiro. O preço da implementação de tais políticas? A vida e a saúde da população. Genocídio.

Infelizmente, a cultura política do bolsonarismo é um sintoma social, uma patologia social enraizada nas entranhas da nossa sociedade. Para expurgá-la, o impeachment não é suficiente. Nossas vísceras estão expostas com tudo o que há de mais perverso e que por muito tempo foi rechaçado. Nosso pensamento colonialista, racista, misógino, nosso analfabetismo político etc. A perversão foi instituída e institucionalizada. Vivemos no império da banalidade do mal.

Uma horda fascista promove a destruição. Mais atual do que nunca, Freud (1921) ao se debruçar sobre a problemática das massas afirmou que o grupo parece uma revivescência da horda primeva. Do mesmo modo como o homem primitivo sobrevive potencialmente em cada indivíduo, a horda primeva pode mais uma vez insurgir. Os processos grupais remontam os processos psíquicos individuais. A patologia social se enlaça e se propaga individualmente. Segundo Freud, a oposição entre psicologia individual e psicologia das massas, que pode parecer muito importante à primeira vista, perde muito de sua nitidez se examinada a fundo. Não é adequado separar os atos psíquicos sociais e narcísicos. A psicologia das massas trata do ser humano enquanto membro de uma linhagem, de um povo, de uma classe ou enquanto parte de uma multidão que se organiza como massa durante um certo tempo para um fim determinado.

A vida psíquica consciente representa apenas uma parte muito reduzida em comparação com a vida psíquica inconsciente. Nossos atos conscientes derivam de um substrato inconsciente formado sobretudo por influências hereditárias. Esse substrato contém inúmeros rastros ancestrais que constituem a “alma” de um povo.

Nas massas, o indivíduo não é mais ele mesmo, mas um autômato em estado hipnótico. A influência de uma sugestão é lançada com uma impetuosidade irresistível. A personalidade consciente desaparece, o indivíduo se torna irreconhecível posto que a predominância dos aspectos inconscientes passa a orientar pensamentos e sentimentos na mesma direção.

Assim, também nos fenômenos de massa nos deparamos com a pulsão de morte, que consiste em um princípio econômico da redução das tensões a zero, uma busca pela inércia ou homeostasia que estaria inteiramente a serviço da pulsão de morte. A compulsão à repetição é característica própria da pulsão. Ela opera uma espécie de fixação da pulsão recalcada e exige um trabalho constante, pois leva o sujeito a se colocar em situações dolorosas, réplicas de experiências antigas.

Historicamente e até os dias de hoje ainda caímos em falsas promessas conservadoras, discursos falaciosos que acertam e manipulam a alma coletiva através do medo, nos lançando direto para as garras do militarismo e do caos. Ainda permanece a necessidade de sermos igual e justamente amados pelo seu líder. O uso do medo para a implementação de políticas de Estado desastrosas faz o Brasil sucumbir. Este uso do medo é histórico! Precisamos recordar para não repetir, no entanto, desconhecemos nossa própria história. Não elaboramos nossa herança simbólica que não cessa de retornar fantasmaticamente.

Em meio ao caos da Covid-19, convivemos com crises políticas artificiais geradas pelo próprio Governo Federal. Trocas sucessivas de ministros, questionamentos extemporâneos a instâncias de outros poderes que são acompanhadas pelo comportamento recorrente do presidente da república de negar a gravidade dos efeitos da pandemia, utilizando recursos antigos de manipulação de massa que se atualizam sorrateiramente.

A luta pela saúde e pela educação é um direito inalienável. Esta não deve cessar. A resistência é necessária e vital.

Como Compreender as Mortes por Desespero Pode Mudar a Psiquiatria

0

Dois investigadores internacionais, Lilly Shanahan da Universidade de Zurique na Suíça e William Copeland da Universidade de Vermont, publicaram recentemente um artigo de opinião na JAMA Psychiatry sobre a compreensão da psiquiatria em relação às “mortes por desespero”.

O termo “mortes por desespero” provém de uma hipótese publicada em 2015, segundo a qual o aumento da taxa de mortalidade prematura em indivíduos brancos de meia-idade, não hispânicos e com baixa educação, devido a suicídio, intoxicação por drogas e doença do fígado por alcoolismo, era uma manifestação de desespero em relação a circunstâncias sociais e econômicas desafiadoras.

Este quadro resultou em investigação em várias áreas diferentes, que revelou outras descobertas: há também uma mortalidade prematura crescente noutras populações demográficas; há outras causas de mortalidade prematura, tais como hipertensão ou diabetes; as causas de morte implicadas em mortes por desespero nem sempre levam à mortalidade prematura, e as tendências diferem consoante a região e o sexo. Isto complicou o quadro proposto.

Tem havido uma escassez de investigação sobre mortes por desespero dentro da psiquiatria, apesar do estudo de uma série de fenômenos semelhantes dentro do campo. Os autores propõem que as “mortes por desespero” têm-se tornado um problema cada vez mais omnipresente para as mortes relacionadas com estagnação econômica, desespero, dependência, capitalismo, e outras doenças relacionadas.

Sugerem a psiquiatria como uma disciplina ideal para estudar as mortes por desespero, embora isso exigisse ir além dos quadros tradicionais do diagnóstico psiquiátrico. Por exemplo, oferecem que a irritabilidade e o comportamento suicida poderiam ser estudados não apenas como sintomas de transtornos psiquiátricos, mas como síndromes dignas de consideração por si só.

Flickr

Para testar o quadro de morte por desespero, tomaram dados do Estudo Great Smoky Mountains, que sugere uma escala de desespero. A escala foi construída com base nas definições do DSM de transtorno disfórico, depressão grave, e sintomas isolados de desespero. Havia baixas taxas de mortalidade no estudo, por causa disso mediram os pensamentos e comportamentos suicidas e os problemas de drogas/álcool, que são hipóteses precursoras de mortes por desespero.

Encontraram uma associação entre o desespero e pensamentos e comportamentos suicidas posteriores, bem como o consumo ilícito de drogas, mas não o transtorno relacionado com o consumo de álcool. Mais amplamente, isto e a investigação psiquiátrica sugerem uma explicação mais complexa e com várias camadas da mortalidade e morbilidade psiquiátrica. Entretanto, as mortes por desespero são uma explicação muito estreita e uni-causal para a morte prematura, ignorando caminhos mais complexos para fenômenos mais complexos como as ECA, problemas de saúde física, vulnerabilidade neurobiológica, e políticas a nível macroeconômico que regulam estes processos.

Desenredar estes processos seria demorado e dispendioso, exigindo estudos longitudinais e uma cuidadosa consideração de como os fatores culturais, sociológicos e econômicos interagem com os fatores biológicos. Isto ajudará a ir além das abordagens reducionistas às mortes por desespero que a psiquiatria parece ansiosa por empreender. Também ajudará a abordar a realidade de que a morbilidade, a incapacidade e a mortalidade psiquiátricas são consideravelmente subestimadas, proporcionando à psiquiatria uma colaboração mais interdisciplinar e uma melhor compreensão do vasto fardo das doenças psiquiátricas.

“As mortes por desespero têm sido importantes para dar destaque à inversão dos ganhos na esperança de vida”, concluem os autores.

“A psiquiatria pode aperfeiçoar este quadro definindo e medindo a noção de desespero, ordenando as cadeias causais que o rodeiam, e infundindo as mortes de uma visão causal limitada do desespero com perspectivas biológicas. Ou no que lhe concerne, a psiquiatria beneficiaria com o aumento do seu foco nas tendências sociais para identificar grupos de risco e causas ao nível macro que poderiam ser alvo de intervenção e com o desenvolvimento de novos métodos para avaliar como a carga psiquiátrica se reflete com precisão nas estatísticas de deficiência e mortalidade. Uma integração de modelos psiquiátricos e populacionais proporcionaria uma oportunidade de enriquecer a psiquiatria muito para além das mortes por desespero e salientaria a necessidade de modelos conceituais que captem a complexa interação dos percursos sociais e biológicos para o suicídio e o uso problemático de drogas e álcool.”

****

Shanahan, L., Copeland, W.E. (2021). Psychiatry and Deaths of Despair. JAMA Psychiatry.Published online March 31, 2021. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2021.0256 (Link)

Abordar as Raízes do Trauma Racial: Entrevista com a psicóloga Lillian Comas-Díaz

0

Lillian Comas-Díaz é uma pioneira no campo das abordagens etnoculturais à saúde mental. Ela é simultaneamente uma clínica e psicóloga feminista multicultural, escrevendo numerosos artigos em periódicos e livros que impulsionam o campo para teorias e práticas mais inclusivas e menos etnocêntricas.

Foi recentemente galardoada com o prémio de ouro da Associação Psicológica Americana de 2019 pela realização da vida inteira e a prática da psicologia, a primeira vez que uma pessoa de cor foi reconhecida com o prêmio. Ela credita o esforço coletivo e a longo prazo dos profissionais da cor que trabalham na expansão das lentes da psicologia para incluir as perspectivas das experiências das pessoas marginalizadas.

Comas-Díaz, juntamente com os seus colegas, introduziu recentemente uma edição especial sobre o conceito a que chamam trauma racial (ver relatório MIA). Ela descreve o trauma racial como “um tipo insidioso de sofrimento que muitas pessoas de cor e outros indivíduos marginalizados experimentam, onde vivem numa sociedade onde o racismo, o heterossexismo, o classicismo, e todos esses tipos de “ismos” estão a fazer com que a sociedade seja opressiva para com esses grupos alvo”.

A transcrição abaixo foi editada para maior compreensão e nitidez. Ouça aqui o áudio da entrevista.

Hannah Emerson: Poderia aproximar-nos de como você evoluiu na investigação de abordagens etnoculturais da saúde mental, talvez tenha sido uma resposta da sua história pessoal ou da sua formação psicológica?

Lillian Comas-Díaz: Sim, sem dúvida, sendo uma mulher mestiça e de cor e tendo um passado transnacional, todas essas experiências informaram o meu desenvolvimento pessoal e profissional como psicóloga clínica, como psicóloga multicultural, e como psicóloga feminista.

Nasci em Chicago com pais porto-riquenhos, voltamos para Porto Rico, e depois voltei e vim para os Estados Unidos. Ter de lidar com diferentes culturas, choque cultural, e adaptações culturais de andar para trás e para a frente sensibilizou-me para a importância de ter uma lente mais ampla para olhar para a cultura. Estas experiências revelaram a importância de ser um psicólogo culturalmente empenhado e culturalmente competente, mas também uma pessoa.

Dado aquilo com que temos estado a lidar neste momento nos Estados Unidos, é muito importante ter uma visão que não seja limitada por uma perspectiva etnocêntrica. Temos de ser mais globais na nossa perspectiva, sobretudo sabendo que os Estados Unidos são uma nação de imigrantes. Portanto, é importante abordar a riqueza que a diversidade traz à nossa cultura.

Emerson: Poderia descrever as formas como pode ser psicologicamente desafiador ser uma pessoa de cor ou um indivíduo indígena nos Estados Unidos hoje em dia?

Comas-Díaz: Racismo é uma questão importante nos Estados Unidos. Embora neste momento se fale de forma mais destacada, tem sido sempre uma questão da maior importância. A história das pessoas de cor nos Estados Unidos tem sido bastante difícil e traumática. Tem havido muitos ganhos, mas mesmo assim, neste momento estamos a assistir a um ressurgimento da xenofobia – o ódio ao estranho, à pessoa diferente.

Os tipos de racismo que vemos neste momento são bastante óbvios, e podemos definir operacionalmente quais são os resultados do racismo só de olhar. Há um aumento dos crimes de ódio. As relações entre as pessoas de cor e as comunidades de cor e a polícia, por exemplo, são extremamente conflituosas. Os sistemas prisionais – temos mais pessoas de cor encarceradas quando comparadas com indivíduos brancos que cometeram tipos semelhantes de crimes. Mesmo o atual clima político neste momento, em que a raça está transformando-se em uma questão política para as pessoas que concorrem a um cargo e, até certo ponto, o racismo está sendo politicamente armado.

Neste contexto, toda a situação da raça é bastante relevante para a nossa realidade. Infelizmente, a investigação mostra que para as pessoas de cor, o racismo não é saudável. Cria muitos problemas de saúde mental e problemas físicos. Ainda mais do que isso, infelizmente, há pesquisas que também mostram que as pessoas de cor que estão expostas ao racismo, quando têm filhos, há um efeito intergeracional. Por outras palavras, os filhos de pessoas de cor tendem a ter mais susceptibilidade a traumas fisiológicos desencadeados pelo racismo. Por isso, é aí que se fala do conceito de trauma racial.

O trauma racial, apesar de partilhar algumas semelhanças com o transtorno de stress pós-traumático (TEPT), é um fenómeno totalmente diferente do TEPT. O trauma racial é único porque o trauma racial é o resultado de um trauma sociopolítico. Por outras palavras, existe um tipo insidioso de sofrimento que muitas pessoas de cor e outros indivíduos marginalizados experimentam. E é o resultado de viver numa sociedade onde o racismo, o heterossexismo, o classicismo, e todos esses tipos de “ismos” estão a tornar a sociedade opressiva em relação a esses grupos alvo.

A outra razão para o trauma racial ser único é que está relacionado com os ataques comunitários que as pessoas minoritárias (particularmente as pessoas de cor) recebem, mesmo que os perpetradores possam não ter a intenção de atacar pessoas. Podem ou não ser intencionais, mas estão sob a forma de micro agressões. Estas experiências incluem ataques, mas também quaisquer ameaças de danos ou ferimentos. Além disso, quando as pessoas são testemunhas de ataques quando os ataques são perpetrados contra outras pessoas de cor, chamamos a isso trauma racial indireto.

Não podemos medicalizar o trauma racial porque, mais uma vez, é diferente de uma situação médica como o transtorno de estresse pós-traumático. Porque as origens, ou as raízes, do trauma racial, têm a ver com a história, com a opressão, e com questões sociopolíticas. Estas são as áreas que precisamos de abordar em um nível mais coletivo. Estão a ser transmitidas individualmente, mas também em comunidades

Emerson: Tem alguns exemplos diretos de micro agressões? Poderia explicá-los aos nossos ouvintes para que entendam como isto se apresenta?

Comas-Díaz: A pessoa que cunhou pela primeira vez o termo micro agressão foi um psiquiatra afro-americano, Chester Pierce, e nós psicólogos popularizamos o termo. Há muita literatura sobre micro agressões. A pessoa que é vítima de uma micro agressão recebe uma mensagem negativa e hostil, por vezes depreciativa, para com um grupo marginalizado, neste caso, pessoas de cor. A questão é muitas vezes que os perpetradores podem não estar conscientes de que estão envolvidos em comportamentos negativos e racistas.

Por exemplo, perguntando aos asiáticos-americanos ou latino-americanos, de que país vieram, apesar de terem nascido e sido criados aqui. Outra micro agressão que é mais comum hoje em dia é: “Voltem para o seu país”, quando estas são pessoas que nasceram e foram criadas aqui. Outros exemplos seriam: “Não parecem asiático-americanos”, “Não parecem latinos”, sendo ignorados pelos funcionários se estiverem numa loja com clientes brancos, e os incidentes que ocorrem quando motoristas negros pardos.

Muitas micro agressões acontecem de forma contínua. Se acontece apenas uma ou duas vezes, a maioria das pessoas consegue lidar com isso. São as micro agressões insidiosas e persistentes que as pessoas de cor são sujeitas que provocam traumas raciais – ou quando é para com os seus entes queridos, ou para com qualquer outra pessoa, que resulta em traumas raciais indiretos.

Tentar lidar com isso enquanto se tenta negociar com a pessoa que comete uma micro agressão, por vezes, pode ter um efeito contrário. Há uma tendência da pessoa que se envolve numa micro agressão para justificar o seu comportamento porque não entende por que é que o seu comportamento é ofensivo ou como é que está a atacar a pessoa.

Devido a isso, em 2000, o Cirurgião Geral dos EUA indicou que a principal causa das disparidades de saúde entre comunidades de cor e americanos brancos tem a ver com o efeito do racismo. É evidente que isto está a acontecer através de micro agressões ou questões sistémicas ou históricas e que muitas pessoas de cor estão a ser expostas ao racismo e particularmente a micro agressões.

Emerson: Como responderia àqueles que dizem que as micro agressões mostram quão frágeis os jovens são hoje em dia? Talvez dissesse que é uma justificação, mas pergunto-me como poderão as pessoas compreender que poderá ser mais, que tem impacto na saúde mental se for persistente e insidiosa, tal como descreveu.

Comas-Díaz: Permitam-me mencionar que o conceito de micro agressão tem sido criticado por psicólogos, dizendo que não há dados científicos específicos – mas temos muita investigação. Em termos de ser susceptível ou de falar de micro agressões, quer isso afete ou não as pessoas, o que a investigação tem mostrado é que mesmo crianças de cor, quando são sujeitas a uma micro agressão, ou experimentam uma micro agressão indireta, que tende a afetar o desenvolvimento da sua identidade cultural e racial.

Por outras palavras, faz com que se sintam negativos por serem negros, porque ser uma pessoa de cor significa que as pessoas podem envolver-se em micro agressões e nada acontece, então poderia haver uma internalização disso, “Bem, talvez sejamos tratados assim porque o merecemos”, esse tipo de coisas. Portanto, a internalização de quando se está a ser atacado, não por nada que se tenha feito, mas apenas por causa da nossa identidade, afeta realmente não só o desenvolvimento da nossa identidade, mas afeta a nossa saúde mental e física, e há muitos dados sobre isso.

Emerson: Isto faz-me voltar a relacionar com o que você disse, que não pode medicalizar o trauma racial, que se sente como um fenômeno completamente diferente do PTSD. Quando se fala de trauma racial dentro do contexto psiquiátrico em que nos encontramos, será que não se corre o risco de patologizar pessoas de cor, como se o problema estivesse dentro delas e não dentro da nossa sociedade?

Comas-Díaz: Não, você tem toda a razão, e é por isso que sempre dissemos que o trauma racial é único e que não podemos medicá-lo porque as raízes e a aplicação da condição têm a ver com histórias e traumas históricos. Isto significa, nativos americanos, e afro-americanos, e latinx, que têm sido historicamente atacados e que isso continua a ser transmitido às pessoas agora.

Há um problema com a medicalização de uma condição que, embora tenha sintomas físicos e mentais como ansiedade, hiper vigilância, alguns sintomas do TEPT, é claro, é singular no sentido em que é contínua. Não há uma resposta a uma questão sistêmica sobre como reduzir ou como lidar com o racismo. Assim, as pessoas que sofrem de traumas raciais não veem qualquer alívio em termos do que o sistema vai fazer para amenizar esta situação. Se há alguma coisa, aquilo que está acontecendo neste momento, assim o esperamos, que irá mudar, é que há uma polarização neste momento no nosso país devido à raça.

Assim, a utilização de uma perspectiva médica é na verdade limitada porque se a pessoa for vista como sofrendo apenas de trauma, o prestador do serviço quer seja um psiquiatra, um prestador de cuidados de saúde mental, ou um médico, não incorporará uma perspectiva sociopolítica e histórica no tratamento, deixando de fora as raízes do problema.

Temos também de recordar que, neste momento, o conceito de trauma está centrado nos valores da Europa Ocidental e Oriental. Como resultado, o conceito de trauma é mais receptivo a uma sociedade individualista onde valores como a auto agência, o lócus de controle interno, as palavras “eu posso fazê-lo, eu posso ser o centro do meu universo”, a meritocracia, são bastante normativas. Sim, o mérito é importante, mas isto não é normalmente aplicável à maioria das pessoas de cor porque ou são excluídas de uma sociedade meritocrática e/ou tendem a ter valores mais coletivistas como a conexão, a solidariedade e a associação com os outros.

O conceito medicalizado de trauma não aborda essas coisas. Portanto, é disso que precisamos. Precisamos de sistemas de tratamento que estejam enraizados na história, no contexto, e nesta situação sociopolítica. Muitas destas abordagens medicalizadas tendem a ser ahistórica, e são descontextualizadas. Perguntam: “Digam-me quais são os seus sintomas”, e é só isso. Tentam lidar com o trauma sem compreender o contexto sociopolítico mais amplo e mesmo geopolítico. 

Emerson: Como se identifica um trauma racial numa pessoa ou numa comunidade se os sintomas podem não ser o marcador? Como sabe que está lá?

Comas-Díaz: Faz uma avaliação clínica, como faria com qualquer pessoa que apresente sintomas de trauma, mas depois também explora com a pessoa a sua história e como se identifica (porque algumas pessoas podem identificar-se como uma pessoa de cor e outras não).

Muitas pessoas que não têm a perspectiva sociopolítica nem sequer perguntarão: “Você teve alguma experiência com o racismo? Por vezes, o cliente pode não falar nisso porque o cliente, a pessoa de cor, pode não sentir que o profissional de saúde vai prestar atenção ao que ele ou ela tem a dizer sobre ser vítima de trauma, de trauma racial. É preciso uma lente particular para identificar isso e dar permissão à pessoa – sim, podemos falar aqui de racismo se isto for algo que lhe aconteceu, ou aos seus entes queridos, ou à sua comunidade.

A primeira coisa é que o terapeuta precisa de estar mais consciente da situação social e política em que se encontra e ter alguma consciência racial; para compreender que sim, a raça pode ser uma razão para as pessoas ficarem doentes, tendo traumas raciais. Esta é uma diferença em relação à abordagem psicoterapêutica dominante.

A outra coisa é envolver-se num processo que pode ajudar a pessoa a desenvolver a “consciência crítica”. Isto significa aplicar o pensamento crítico se a pessoa tiver interiorizado que ele ou ela é a causa do trauma, neste caso, o trauma racial, e isso não está a ajudar, e isso está a piorar a situação. Ajudar essa pessoa a descobrir quais são as causas deste trauma racial, versus o comportamento individual, ajuda muito a não promover a internalização do cliente de “a culpa foi minha”. Isso é algo que acontece em outros tipos de vítimas de trauma. A vítima muitas vezes sente-se como se tivesse causado o trauma.

A consciência crítica significa desenvolver uma consciência de porque é que isto está a acontecer, quem se beneficia, contra quem isto está a ser feito, e qual é o efeito na sociedade desta micro agressão, o racismo. Um efeito é a preservação do status quo. Falamos da utilização daquilo a que se chama abordagens de psicoterapia de libertação, que é basicamente ajudar a pessoa a desenvolver um sentido de consciência, uma consciência clínica, das suas circunstâncias e de como contribuem para o seu trauma, neste caso, o trauma racial. Uma vez que essa consciência exista, eles tornam-se mais libertos em termos de, bem, talvez haja algumas coisas que eu possa fazer sobre isto para lidar com esta situação.

As abordagens descolonizantes envolvem ajudar a pessoa a reconhecer a realidade que tem enquanto pessoa de cor. Por exemplo, falamos de trauma racial, mas há muita resiliência entre as pessoas de cor e as comunidades minoritárias. Porque, caso contrário, se olharmos para a história, muitas pessoas de cor não sobreviveriam. Portanto, a resiliência existe, é inerente, e por vezes, quando as pessoas sofrem de traumas raciais, não conseguem conectar-se com essa resiliência.

Numa abordagem terapêutica com uma perspectiva descolonial libertadora, o profissional ajuda o cliente a conectar-se com essa resiliência, e isso pode ser através da arte, isso pode ser através do envolvimento da comunidade, e isso pode ser através da ação de justiça social.

Há pesquisas que mostram que quando as pessoas são vítimas de trauma, particularmente quando se trata de um trauma sociopolítico ou racial, tomam consciência de que não é por causa de quem são, mas porque são membros de um grupo marginalizado, e isso inicia um processo de cura. Então a pessoa não interioriza e não se vitima a si própria.

A outra coisa é a ação de justiça social. Não dizemos às pessoas o que devem fazer. Dizemos às pessoas para dizerem: “Como pensam que se podem envolver? O que seria para si, uma ação de justiça social”? Para algumas pessoas, dizem que criar os meus filhos e ensinar-lhes o que é ser, por exemplo, um homem negro neste país é importante. Algumas pessoas podem dizer que contribuir para algo, ajudar, ou ser voluntário numa escola. Outras pessoas podem dizer que vão à igreja ou algo do género. O que ouço as pessoas dizer é ou apoiar alguém ou concorrer a cargos públicos para garantir que, a um nível sistémico, as coisas começam a mudar. Penso que estamos a assistir a algumas dessas mudanças neste momento.

Os terapeutas que trabalham com pessoas com trauma racial precisam de estar ligados ao que se passa – as questões sociais, políticas, econômicas e sistêmicas da sociedade – porque neste momento fazer terapia não se trata apenas da pessoa que vem ao consultório e do que está a acontecer entre as quatro paredes. Fazer terapia é também ajudar os clientes a viverem uma vida mais saudável fora da sala de terapia. É por isso que o profissional precisa de saber o que se está a passar fora dessas quatro paredes.

Outra coisa que quero partilhar com vocês que penso ser muito, muito importante é que o racismo não afeta apenas as pessoas de cor ou as pessoas marginalizadas. Afeta-nos a todos. Afeta as pessoas brancas; afeta toda a gente. Quando existe uma situação insidiosa como o racismo, ele divide o nosso país. É por isso que é importante que todos nós, quer sejamos pessoas de cor ou brancos, façamos um autoexame contínuo, uma autoavaliação, questionando-nos a nós próprios.

Emerson: O que acha que encorajaria as pessoas a dizer: “Estou empenhado em tornar-me culturalmente competente” e a empenhar-se neste auto-exame contínuo?

Comas-Díaz: O que a pesquisa mostra é que as pessoas, digamos os brancos, que estão na escola ou na faculdade com uma pessoa de uma raça diferente, tendem a ser mais receptivas a tornarem-se culturalmente competentes. Isto traduz-se em inglês simples para, caso tenha uma relação com alguém diferente da sua cultura ou do seu ambiente, e essa relação não seja manchada pelo racismo, então essa relação motiva-o a tornar-se, se for branco, aquilo a que chamamos um aliado.

Quando se torna cada vez mais consciente das micro agressões raciais, então quando testemunha um acontecimento, e o ignora ou vira as costas, isso realmente o afeta. Quando se é um aliado, e se assiste a uma situação em que se cometem micro agressões raciais, pode-se dizer: “Oh, sabem o que isto é, eu posso compreender por que razão não pensam que isto é, mas isto é racismo da minha perspectiva”.

Estar com a pessoa que diz: “Isto magoa-me, as suas palavras ou as suas ações magoam-me”, é muito importante. Não só o aliado se vai sentir melhor consigo próprio, como também pode estar a ajudar a traduzir a mensagem da pessoa de cor que sofre o trauma racial para o perpetrador, assumindo que ele ou ela não está consciente de que está envolvido em racismo ou na micro agressão.

Penso que uma mensagem importante, a mensagem para levar para casa, é que o racismo nos afeta a todos. Muitas vezes pensamos que só é essa pessoa que é vítima de trauma racial, mas é endêmico, e afeta-nos a todos. Penso que é importante que vejamos isso, porque muitas pessoas que se envolvem em micro agressões como os perpetradores podem não estar cientes de que o estão a fazer. Sem desenvolver a consciência crítica, podem continuar a fazê-lo, e isso significa que se isolarão de pessoas que são diferentes de si próprias.

Emerson: Então, o que diria a estas pessoas? O que diria às pessoas, talvez globalmente ou às pessoas nos EUA neste momento, que poderiam estar sofrendo aquilo a que chama trauma racial?

Comas-Díaz: Ficar criticamente consciente de que isto é algo que não lhes está a acontecer apenas a eles. Parte do problema com o trauma é que é muito isolador. As vítimas geralmente sentem não só que a culpa é delas, mas também que isto é algo que têm de fazer por si próprias. Portanto, comecem por abordar coletivamente esta questão, perguntando: “Quem mais foi afetado por isto?

O que eu diria às pessoas a nível global é: este é um conceito que pode ou não se aplicar a vocês. Caso pense que se aplica à sua pessoa, será importante identificar que partes da sua identidade são afetadas com a opressão que o faz desenvolver traumas. Isto tem alguns componentes em comum com o PTSD, mas é singular porque se não pertencesse a esse grupo marginalizado, você não estaria a sofrer este tipo de trauma.

Emerson: Por último, você sugeriria terapia como um fórum para proporcionar cura a pessoas que sofrem traumas raciais, ou recomendaria a exploração de outras modalidades de cura?

Comas-Díaz: Se é terapia, tem de ser um tipo particular de terapia. Tem de ser um terapeuta que tenha uma perspectiva sociopolítica, que conheça os efeitos da história, sistemas, política e diferenças sociais sobre a saúde da pessoa. Tem de ter uma abordagem descolonizante, certificando-se de que o cliente não está a rejeitar partes dele ou dela, porque a sociedade está a rejeitar isso nele ou nela. Tem de ser abordada através de uma consciência crítica. Tem de incluir uma perspectiva em que a pessoa é convidada a participar numa ação de justiça social definida pelo cliente, não definida pelo terapeuta – uma perspectiva em que há criatividade, em que a arte pode ajudar muito.

Mencionei também o fomento da resiliência inerente à maioria das pessoas de cor que sobreviveram a gerações de lidar com o racismo – também, coligações onde a solidariedade com outros membros do grupo marginalizado pode ser útil. Penso que parte do problema que queremos evitar é a divisão e a superação da situação. Este tipo de solidariedade ajuda a curar e ajuda a desenvolver estratégias para mudar não só a si próprios, mas também o sistema.

Quero terminar com o que já mencionei várias vezes, que o racismo e muitos tipos de opressões afetam-nos a todos. É tão importante para todos nós, quer sejamos perpetradores ou vítimas, que nos tornemos criticamente conscientes do nosso papel e nos comprometamos a mudar para podermos cocriar uma sociedade mais pacífica, mais respeitosa, e que celebre as nossas diferenças.

****

Os Relatórios MIA são apoiados, em parte, por uma doação da Open Society Foundations

Medicina Insana, Capítulo 9: Os Pais Preocupados (Parte 1)

0

 

 

 

[Nota do editor: Ao longo de vários meses, Mad in Brasil está publicando uma versão seriada do livro de Sami Timimi, Medicina Insana (o original disponível para compra aqui). Na Parte 1 deste capítulo, ele discute o Programa de Sensibilização Relacional (RAP) e como as relações familiares se solidificam através das “Guerras da Emoção”. Daqui a quinze dias, abordará ações específicas que as famílias podem tomar para melhorar as relações. Todos os capítulos estão aqui arquivados.]

As ideias delineadas no capítulo anterior podem ser estendidas para ajudar os pais que estão preocupados com o(s) seu(s) filho(s). Quando os pais estão preocupados com o seu filho, quer seja o seu comportamento ou estado emocional ou ambos, a intensidade emocional nessa relação aumenta, resultando em vários efeitos em cascata.

Os diagnósticos (tais como TDAH ou autismo) dão alívio temporário aos pais sitiados, mas convidam a todos a iniciar um processo alienante que encoraja todos a verem os seus filhos como infectados por uma doença que os leva a operar fora dos limites do que é considerado normal.

Mas os pais têm os seus próprios dilemas, dado o quanto a parentalidade tem estado sob escrutínio. Uma das coisas mais comuns que ouvimos ao trabalhar com pais em serviços de saúde mental de crianças e adolescentes é o quanto se sentem julgados por aqueles que os rodeiam quando os seus filhos atuam em público. É fácil ver como um diagnóstico pode proporcionar alívio temporário à medida que os pais mudam do sentimento de que são julgados como pais fracassados para um que pode agora ser visto como um pai heróico lutandor com uma criança problemática.

Penso que a nossa cultura de comparação e competição tornou difícil para os pais e os seus filhos sentirem-se seguros e competentes. A incapacidade de estar à altura de algo (seja para a criança, o pai, a criança sobre o seu pai, o pai sobre o seu filho) persegue as nossas vidas. É mais difícil do que nunca ser uma criança “normal” ou um pai “normal”.

Este capítulo não pode remediar o meio cultural e político; pode apenas fornecer algumas reflexões sobre o que pode melhorar em alguns aspectos da vida de algumas famílias. Também não estou apresentando um modelo de funcionamento “normal” da família, ou não estou a dar sermões a ninguém sobre os valores que devem ter. Como já discuti, os modelos de desenvolvimento infantil e as formas familiares variam em todo o mundo.

Este capítulo não deve ser utilizado para fazer juízos de valor sobre as numerosas famílias que vivem sob o stress da desigualdade, racismo, sexismo, e todas as outras formas de privação de direitos que nos podem afetar. O fato do seu pai ser condenado a uma longa pena de prisão por um delito relativamente insignificante, como acontece com tantos homens negros na ideologia do encarceramento em massa nos EUA, tem efeitos em cadeia para a família e os seus filhos que os podem seguir até à idade adulta. Estas questões requerem ação política, e não apenas as poucas dicas tépidas que esboço neste capítulo.

Na minha opinião, um sentimento de pertença e de sentir que se é amado apenas por ser, e não por fazer algo em particular, mais do que qualquer outra coisa, leva a que as crianças cresçam bem e estejam prontas para o tumulto e os desafios da idade adulta. Claro que poderia começar a desconstruir que significados e indicadores equivalem a “pertencer”, mas por agora deixem-me começar o capítulo com este pensamento: Nenhuma das ideias delineadas neste capítulo é tão importante como a do seu filho sabendo que você o ama e encontra alegria na sua existência, independentemente do que faça ou diga que o preocupa ou o enfurece.

O Programa de Sensibilização Relacional (RAP)

Eu, juntamente com alguns colegas, desenvolvi uma abordagem que utilizamos com pais muito preocupados, que é uma abordagem sem diagnóstico, e que utiliza principalmente um formato de grupo para o qual convidamos os pais, e os seus acompanhantes, que estão preocupados com o seu filho. Chamamos a esta abordagem o “Programa de Sensibilização Relacional” ou RAP. A abordagem RAP foi originalmente inspirada pelas ideias do psicólogo americano Howard Glasser, que desenvolveu a Abordagem do Coração Cultivado (Nurtured Heart Approach – NHA). O RAP introduz a NHA com filosofias sistêmicas e centradas na solução.

Eu penso no RAP como uma “caixa de ferramentas” de ideias. Tem conceitos e exercícios que podem ser utilizados de uma forma flexível para se adaptarem a diferentes circunstâncias. Não são realmente concebidos para serem aplicados como se fossem as únicas “verdades” possíveis. As pessoas reais são mais criativas e diversificadas do que qualquer abordagem única pode permitir. Apenas aqueles que a vivem podem verdadeiramente compreender que desafios e oportunidades as suas vidas contêm. Nesta abordagem, cada pai/mãe/responsável/família/escola precisa de descobrir o que é prático, útil, e adaptável às suas circunstâncias singulares. São-lhes apresentados uma série de conceitos e quadros e depois decidem se e como algum destes pode ser aplicado às suas vidas.

O RAP não é um programa de formação parental, de gestão parental, ou de formação de pais. É mais um programa baseado em competências para ajudar bons pais com aquelas crianças mais “intensas”. Não envolve dizer às pessoas os detalhes do que devem ou não fazer. O RAP fornece conceitos e perguntas para ajudar os pais a resolverem por si próprios como desejam proceder e adaptar as ideias às suas circunstâncias específicas. Dito isto, temos tido alguns resultados inspiradores acumulados ao longo dos anos, em que os pais que procuram ajuda para os seus filhos descobriram algo de novo sobre a relação com a criança com quem estão preocupados, libertando-os para criar novas “danças” e para verem as suas vidas através de uma nova lente.

No RAP concentramo-nos menos em como controlar o comportamento, que está repleto de perigos para a relação pai-filho, e mais em como construir relações positivas na família. Funciona bem para todos os tipos de cuidadores de crianças, desde professores a pais adotivos. Refiro-me aos “pais” no resto do capítulo, de modo a não complicar as sentenças. Onde quer que a palavra “pais” apareça, pode-se substituir todos os outros potenciais prestadores de cuidados. “Ele” e “ela” são utilizados alternadamente, não para denotar o sexo específico da criança, mas por conveniência e em vez de escrever ela/ele em todas as ocasiões. Por razões de conveniência semelhantes, onde usei o singular (como em “pai” ou “filho”) que também poderia referir-se ao plural (como em “pais” ou “filhos”) e vice-versa.

Alguns pressupostos

Eis alguns pressupostos que ajudam a estabelecer alguma base para esta filosofia terapêutica no lado parental da relação:

  • Os pais são motivados por intenções positivas – os pais que procuram ajuda são “bons pais”; eles querem ver as coisas a melhorar para os seus filhos.
  • É difícil para os pais quando o comportamento do seu filho é difícil; eles sentem-se frequentemente julgados e sentem que todos parecem ter uma opinião sobre eles e o seu filho
  • Todos os bons pais passam a maior parte do seu tempo a sentir-se culpados sobre a forma como os pais – devia ter feito isto ou não, devia ter sido mais rigoroso ou mais suave, etc. Presumo, como todos os bons pais, que eles continuarão a sentir-se culpados, aconteça o que acontecer!
  • Os profissionais têm alguns conhecimentos acadêmicos que podem ser úteis, mas ninguém conhece melhor os seus filhos do que os pais e outros prestadores de cuidados envolvidos. A filosofia do RAP partilha ideias, formas de pensar e um quadro de estratégias, mas não fornece conselhos específicos sobre como pô-las em prática. Isto é algo que cada família precisa de descobrir por si própria, com base nos seus próprios conhecimentos e competências.

Qualquer relação, por definição, envolve pelo menos duas pessoas que estão a contribuir para o seu funcionamento. Mesmo que a contribuição de um dos pais na sua relação com o seu filho não seja tão influente como o lado da criança, sobre que lado da relação se pensa que os pais têm controle? Em quem se pode garantir que a mudança pode ser alcançada? Concentrar-se naquilo que você, como pai, pode mudar é mais susceptível de conduzir a uma mudança relacional do que tentar convencer o seu filho a mudar.

Here are a few assumptions that help set some baseline for this therapeutic philosophy on the child side of the relationship:

  • As crianças não nascem no mundo da mesma forma. As pesquisas mostram que as crianças, desde os seus primeiros momentos de vida, têm temperamentos, tendências e diferenças na forma como interagem com o mundo.
  • Algumas crianças mais tarde atraem rótulos psiquiátricos e psicológicos, mas estes rótulos pouco nos dizem sobre o que pode ser útil para qualquer criança específica.
  • m vez disso, podemos simplesmente reconhecer que com algumas crianças a intensidade com que interagem e experimentam o mundo e a sua gente é maior do que a maioria das outras crianças.
  • Estas crianças intensas tendem a produzir fortes reações emocionais por parte daqueles que as rodeiam, incluindo frustração, raiva e preocupação.
  • Isto significa que, enquanto para a maioria das crianças as abordagens mais comuns à parentalidade e à gestão de comportamentos complicados – um pouco de mais de atenção aqui e ali e recompensas aqui e ali – tendem a funcionar, para aquelas crianças que são um pouco mais intensas, podemos precisar de “melhorar o nosso jogo” e trabalhar para as envolver a um maior nível de intensidade emocional.
  • Pode-se pensar nestas crianças como procurando emoções (e não como “procurando atenção”). “Procura de atenção” é uma frase que sugere que as crianças estão pensando logicamente no que fazem; no entanto, na realidade, as crianças estão geralmente apenas a responder a como se sentem e procuram um envolvimento emocional em resposta a este sentimento.

Dança relacional familiar

Agora podemos olhar para alguns impulsionadores emocionais das relações pai/filho. Aqui estão mais alguns pressupostos:

  • As emoções são virais! Temos tendência para “apanhar” as emoções daqueles a quem estamos mais próximos (emocionalmente e geograficamente). Não fique surpreendido com a rapidez com que uma emoção pode irromper para outros membros da família. O riso gera o riso como a raiva gera a raiva.
  • A filosofia básica desta abordagem é a de se concentrar na construção de relações funcionais em vez de se concentrar no controle do comportamento. Deixar que as emoções que queremos mais se derramem e sejam apanhadas. Vamos construir a nossa tolerância e imunidade em relação às emoções que queremos menos.
  • O conceito de emoções “negativas” e “positivas” não é, estritamente falando, exacto. Temos apenas uma variedade de emoções que são formas de energia dirigida que nos colocam num modo de “ação” em vez de “pensar”.
  • Quando os pais lidam com crianças que têm comportamentos desafiadores, procuram frequentemente estratégias para tentar controlar esse comportamento difícil. Podem esperar que os profissionais lhes possam dizer que se fizerem A e depois B, o comportamento irá parar. Podem estar à procura de alcançar a ausência de comportamentos indesejados. A filosofia do RAP não lhe diz o que deve fazer para eliminar comportamentos indesejados – e por boas razões.
  • Um dos problemas em se focalizar no controle do comportamento é que as tentativas de controlar o comportamento podem levar a mais pressão e tensão na relação com a criança, o que pode acabar em um ciclo de feedback negativo, resultando em mais tentativas de controlar o comportamento causando mais tensão na relação, e assim por diante. Quanto mais uma pessoa jovem se sentir alienada ou “agarrada”, mais poderá tentar defender-se, mais raiva poderá sentir, e mais baixa se tornará a sua autoestima. Um laço negativo reforçado pode acumular-se ao longo do tempo.
  • Ao concentrar-se nas relações desde o início, pode-se construir uma base melhor para relações mais fortes que envolvem alguma apreciação mútua.
  • O RAP tenta ajudar a criar uma dança relacional nova e, espera-se, mais agradável.

As Guerras* das Emoções

[Nota do Editor: Em inglês, ‘guerras’ se escreve WARS. O autor irá utilizar cada uma das letras que compõem a palavra ‘WARS’ enquanto abreviatura de palavras cujo sentido irá explorar. Portanto, a expressão ‘guerra das emoções’ não deve ser entendida aqui em seu sentido literal.]

A ideia da “Guerra das Emoções” é ajudar os pais a compreender como a “dança relacional familiar” pode tornar-se problemática. Pode ser pensada como um referencial para dar sentido ao que se está a passar a um nível mais inconsciente.

“W” é para Erros [‘Wrongs’]: A primeira suposição em Emotion WARS é que estamos programados para notar mais o que está a correr mal do que o que está a correr bem. Evolutivamente, a nossa sobrevivência esteve relacionada com a nossa capacidade de procurar sinais de perigo no nosso ambiente e de responder a estes. Como este é um aspecto instintivo, significa que quanto mais estressado nos sentirmos, mais provável é que ativemos este instinto para tentar resolver qualquer problema percebido.

Preocupar-se com o que está a correr mal significa que, qualquer que seja a causa do aumento do estresse, ela se torna irrelevante em comparação com a experiência real do estresse. Assim, quer sejam finanças difíceis, problemas numa relação conjugal, o estresse da escola a soar regularmente, e assim por diante, uma vez que experimentamos um aumento do estresse, é mais provável que acabemos por nos concentrar no que está errado, inclusive com os nossos filhos. Com o tempo, torna-se como um radar interno que analisa o ambiente em busca de sinais do que vai correr mal a seguir, faltando muitas vezes aqueles pedaços que estão OK.

“A” é para Apego [‘Attachment’]: O próximo pressuposto básico é que as crianças nascem como criaturas “à procura de emoção”. Os apegos são criados através das nossas relações emocionais e o que procuramos é energia emocional daqueles a quem estamos apegados. No mundo infantil, não existem emoções boas ou más. Para a bebé e criança em crescimento existe um impulso instintivo para a procura de emoções, de modo que qualquer emoção (seja o amor, a preocupação, ou a raiva) que lhes chegue de um dos pais seja experimentada como sendo de alguma forma gratificante. Se pensarmos sobre isso, não conseguimos tirar a mente de alguém por quem estamos zangados, do mesmo modo que de alguém por quem estamos amando.

A energia emocional cria a ligação. A procura pela energia emocional é uma melhor forma de descrever o que as crianças fazem do que a procura pela atenção. Isto também significa que as crianças conhecerão os pais emocionalmente muito melhor do que os pais alguma vez conhecerão a criança emocionalmente. Um pai terá muitas coisas a considerar e a pensar. Uma criança apenas aprenderá instintivamente (não logicamente) o que lhe dá energia emocional por parte do pai.

“R” is for Relationships: Relationship dynamics are then built up through these emotional energy ties that family members have to each other and over time this develops into a dynamic—a relational dance, where the relationship follows a certain “rhythm” so that each person responds in a predictable way to the other.

“R” é para Relações [‘Relationships’]: A dinâmica da relação é então construída através destes laços energéticos emocionais que os membros da família têm uns com os outros e com o tempo esta desenvolve-se numa dança relacional dinâmica, onde a relação segue um certo “ritmo” para que cada pessoa responda de uma forma previsível à outra.

“S” é para Scripts [‘Scrips’]: Ao longo do tempo, cada um de nós desenvolve papéis dentro de qualquer grupo e estes papéis raramente são os que escolhemos conscientemente, mas antes emergem da coleção de danças relacionais “assentando” num certo padrão reconhecível que todos no grupo (muitas vezes inconscientemente) reconhecem. Por exemplo, é um fenômeno bem conhecido que, quando se tem um parceiro, um deles acaba por ser o que se preocupa em arrumar, outro pode estar preocupado em ordenar as contas ou preparar as crianças de manhã, e assim por diante. Muitos descobrem então que mesmo que queiram que os papéis mudem, não se sentem ” bem” quando o fazem.

Assim, por exemplo, se é você que está preocupado em manter a casa arrumada e anseia que o seu parceiro também o faça, quando o fazem, de alguma forma eles nunca parecem ser capazes de o fazer da forma correta e por isso você tem de o refazer de acordo com o que considera ser o padrão correto! Isto é um pouco como se cada membro da família tivesse um ” script” que segue e que identifica o seu papel, e se qualquer membro vier com um novo script que altere o seu papel habitual, isso afasta qualquer outro porque não parece “natural”.

Existe assim uma força emocional poderosa e geralmente não reconhecida pelos outros membros, empurrando qualquer pessoa que “sai do script” de volta ao script que todos reconhecem – de volta à dança relacional familiar habitual. Se uma criança ocupa o papel de, digamos, “o desordeiro”, os membros da família irão muitas vezes assumir que esta criança está de alguma forma envolvida sempre que há problemas e que a criança se instalará nesse papel e o esperará dentro de si mesma.

As Guerras Emocionais utilizam assim o quadro em que desenvolvemos uma dança relacional familiar através do fluxo de energia emocional; onde quer que esta seja mais forte, então é isto que essa relação “aprenderá” – esta será a sua dança relacional. À medida que o estresse aumenta, então o que está a correr mal será mais notado. Com o tempo, um grupo de pessoas desenvolverá um conjunto de danças relacionais que se tornarão o ” script familiar ” ou a dança relacional familiar.

Quando há uma criança com um comportamento desafiador (para os seus pais), então, com o tempo, a dança relacional familiar pode ter-se estabelecido num padrão em que esse é o papel da criança no script familiar. Por mais que todos queiram e tentem mudar isso, de alguma forma (através do poder destes fluxos emocionais), apesar das melhores intenções de todos, continua a regressar a este script.

O dossier do seu filho

Imagine que você está escrevendo um dossier imaginário sobre como gostaria que o seu filho esteja dentro de 5 anos. Agora faça a si próprio estas perguntas e veja o que sai:

  • O que você gostaria de ver nessa pasta?
  • Que qualidades ou valores gostaria de imaginar que estão a atrair a sua energia emocional?
  • Que tipo de comportamentos você gostaria de os ver expondo?
  • Escalone esses comportamentos/qualidades/valores de 1 a 10 para o quanto os exibem agora, onde 1 nunca é e 10 é sempre. Qual desses comportamentos ou qualidades é que eles já têm ao máximo?
  • Como é que você viu isto?
  • Quando é que você os viu fazer isso?
  • Quanta energia emocional lhes deu quando fizeram este comportamento desejado mesmo que tenha sido por um período muito curto?
  • Como você pode reparar e dar energia emocional a quaisquer pequenos exemplos destes comportamentos/qualidades quando os vê?
  • Que mais poderia fazer para ajudar a aumentar uma dessas pontuações em 0,5?

O pai robô

Em muitos aspectos, o brinquedo favorito das crianças pode ser uma pessoa, como por exemplo um membro da sua família. Há algo de muito satisfatório numa pessoa que faz escolhas independentes e tem intenções autônomas e mesmo assim consegue “brincar” com elas e fazê-las reagir de uma forma que sabe que essa pessoa não quer, quer seja para as enrolar ou para as fazer ceder a uma exigência que você fez.

Imagine que, como pai, você é como um robô de brinquedo com muitos botões. Quando se aperta qualquer botão, o Robô (você, o pai) fica animado e começa a fazer coisas interessantes, à medida que se trabalha emocionalmente para cima. As crianças já há muito que descobriram os seus botões. Agora pergunte-se a si próprio:

  • O que é que eles fazem que lhe aperta os botões? O que é que fazem para lhe darem um impulso emocional?
  • Que comportamentos ou qualidades no seu filho, quando o vê, o “animam” dessa forma?
  • Serão estes botões que gostaria de deixar de funcionar – por outras palavras, botões que despertam emoções que prefere não ter – ou são botões que deseja continuar a ter – botões que despertam emoções que lhe agradam?
  • Se quiser que um botão pare de funcionar, o que pode acontecer se tentar parar de reagir quando esse botão é premido? Consegue lidar com as suas emoções quando elas se esforçam mais para que o botão volte a funcionar? Conseguirá gerir uma situação que envolve gerir riscos sem dar energia emocional?
  • Gostaria de reforçar os botões que fazem sobressair as emoções de que gosta? Gostaria de ter mais deste tipo de botões? Pode dar uma pontuação entre 1 e 10 pela frequência com que vê estes botões ” agradáveis ” (1 nunca, 10 a toda a hora)? O que poderia fazer para aumentar a sua pontuação em 0,5 em qualquer um destes botões ” agradáveis “?

….

[trad. e edição Fernando Freitas]

Maior publicação sobre ‘Antipsicóticos Afilados’ acaba de ser lançada

0

Um novo artigo, publicado no Schizophrenia Bulletin, é o primeiro artigo científico a destacar uma perspectiva de descontinuação gradual dos medicamentos antipsicóticos que mostra ser promissora na redução dos sintomas negativos de abstinência e recaída. O autor principal, Mark Horowitz, da UCL Psychiatry, explicou o ímpeto da publicação:

“Surpreendentemente, não há diretrizes publicadas sobre como sair dos antipsicóticos. Pela minha própria experiência, sei o quão difícil pode ser desabituarmo-nos aos medicamentos psiquiátricos – por isso, propusemos escrever orientações sobre como retirar com segurança os antipsicóticos. Suspender os medicamentos é uma parte importante do trabalho de um psiquiatra, mas tem recebido relativamente pouca atenção.”

Flickr

A pesquisa mostra que mais de metade dos indivíduos que têm tomado antipsicóticos relataram experiências negativas, não se limitando ao suicídio, como o entorpecimento emocional, sedação, aumento de peso e dificuldades cognitivas. O uso de antipsicóticos a longo prazo tem sido associado a efeitos negativos no corpo, tais como perturbações do movimento, aumento da mortalidade, e impactos duradouros no cérebro, incluindo a atrofia cerebral.

Dados os efeitos adversos dos antipsicóticos, é imprescindível o desenvolvimento e a implementação de abordagens seguras para reduzir e colocar um fim ao uso de antipsicóticos. A investigação sugere que as pessoas diagnosticadas com perturbações psicóticas sejam gradualmente retiradas dos seus antipsicóticos, para que possam melhorar o seu funcionamento e os resultados do tratamento a longo prazo.

Considerando que o nosso cérebro se adapta ao uso a longo prazo de drogas como é o caso dos antipsicóticos, a descontinuação abrupta dos medicamentos antipsicóticos é susceptível de levar a recaídas e a sintomas de abstinência. Os sintomas de abstinência podem consistir em sintomas somáticos, como náuseas e sudorese, problemas motores e psicológicos, incluindo a própria psicose. Os sintomas somáticos normalmente começam em dias e duram algumas semanas. Em contraste, os sintomas motores podem se manifestar durante um período de semanas após a redução da dose e podem se prolongar por meses ou mesmo anos.

O Professor David Taylor, do King’s College London, que é um dos autores, explicou o seguinte:

“Os antipsicóticos são tão familiares aos prescritores que é tentador assumir serem simultaneamente eficazes e inofensivos. Ainda que sejam talvez o tratamento mais útil para doenças mentais graves como a esquizofrenia, a sua natureza tóxica torna-os impróprios para as condições menos graves. Os antipsicóticos induzem alterações duradouras nas células nervosas do cérebro, e precisam de ser retirados muito lentamente (e de uma forma adequada às particulares de cada usuário) para dar tempo ao cérebro para se restabelecer.”

Embora a distinção entre as recidivas associadas à abstinência e as que refletem um curso típico de um transtorno psicótico seja um desafio, os sintomas de abstinência associados à recidiva podem ser evidenciados no aumento das taxas de recidiva após a cessação antipsicótica.

A investigação também descobriu que os indivíduos a quem foram prescritos antipsicóticos durante períodos mais longos têm um risco acrescido de recaída, incluindo sintomas psicóticos, após uma interrupção da sua medicação – com o risco a duplicar após 1-2 anos de uso de antipsicóticos, triplicando após 2-5 anos, e aumentando 7 vezes após 8 anos de uso.

Os autores salientam que a recaída após uma interrupção da medicação ocorre com os medicamentos psicotrópicos, em geral:

“Este padrão de recidiva precoce, consistente com os efeitos relacionados com a descontinuação, não se restringe aos antipsicóticos, mas é também evidente no caso dos antidepressivos na ansiedade, bem como do lítio e outros estabilizadores do humor no transtorno afetivo-bipolar, também persistindo durante meses.”

Existe uma falta de informação e orientação no que diz respeito ao processo de redução gradual dos antipsicóticos, o que contribui para a hesitação dos psiquiatras em ajudar os clientes a descontinuar a sua medicação. O afilamento gradual parece ser uma forma eficaz de reduzir a recidiva após a cessação, visto que as alterações neurológicas feitas pelos antipsicóticos se têm mostrado persistentes durante anos após o fim do uso de antipsicóticos. Presentemente, as diretrizes sugerem que a afilação a doses mínimas é eficaz, mas não indicam especificamente como fazer uma afilação.

O coautor Sir Robin Murray, do King’s College London acrescentou:

“Alguns psiquiatras estão relutantes em discutir a redução de antipsicóticos com os seus pacientes. Infelizmente, a consequência é que os pacientes param subitamente a medicação por si próprios, com o resultado de que há uma recaída. Muito melhor será que os psiquiatras se tornem especialistas em quando e como aconselhar os seus pacientes a reduzirem lentamente o seu antipsicótico.”

Os autores oferecem diretrizes sobre como deixar de tomar antipsicóticos em segurança, o que também se alinha com uma investigação recente que publicaram sobre como interromper o uso de antidepressivos em segurança.

Eles identificam os seguintes princípios quando se afunila: “fazê-lo cautelosamente por pequenas quantidades, e assegurar uma estabilidade dos pacientes (com sugestões de intervalos de três até seis meses entre as reduções de dose, ou pequenas reduções feitas a cada mês) antes de fazer mais outras. É necessário haver versões líquidas do fármaco ou formulações em doses pequenas, para ajudar os pacientes a fazer a redução e evitar o esmagamento dos comprimidos como é feito hoje em dia.

Outros peritos de renome na matéria sublinham a importância destas recomendações. Joanna Moncrieff, da psiquiatria da UCL, que está na liderança do ensaio RADAR, o primeiro estudo em Inglaterra para analisar o efeito de reduzir lentamente os antipsicóticos em pessoas com um diagnóstico de esquizofrenia, disse:

 “Muitas pessoas querem desesperadamente tentar parar os seus antipsicóticos, e por boas razões, mas os psiquiatras estão muitas vezes relutantes em ajudá-los. Este artigo irá melhorar a confiança dos psiquiatras em ajudar as pessoas a reduzir e parar os antipsicóticos, o que dará às pessoas mais escolha sobre o seu tratamento.”

O Professor John Read, da Universidade de East London, Presidente do International Institute for Psychiatric Drug Withdrawal, declarou:

“Este documento é um avanço histórico que proporcionará uma orientação há muito esperada por milhares de pessoas que estão atravessando, há décadas, este difícil processo com pouco apoio ou informação. Os psiquiatras envolvidos são verdadeiros pioneiros na caminhada para uma abordagem mais baseada na evidência dos medicamentos psiquiátricos.”

Os autores concluem enfatizando a necessidade de mais investigação e de diretrizes formais para o emprego de antipsicóticos afilados. Uma implementação de tais diretrizes poderia ser transformadora para as pessoas a quem são prescritos antipsicóticos, tal como salientado por aqueles com experiência de vida:

Sandra Jayacodi, que faz parte do painel consultivo de experiência vivida e membro do processo RADAR, disse:

“Os efeitos secundários dos medicamentos antipsicóticos são extremamente desagradáveis, e reduziram a qualidade da minha vida, e as hipóteses são de que a minha esperança de vida também tenha sido reduzida. Por vezes, parece uma sentença de prisão perpétua. Se me fosse dada uma escolha com o apoio e orientação adequados, eu teria deixado de os tomar. Sim, é, portanto, uma questão de tempo, os psiquiatras receberão orientações para ajudar as pessoas a reduzir ou a parar os seus medicamentos antipsicóticos. Saber que existe uma tal orientação também dará às pessoas a confiança para iniciar uma conversa com o seu psiquiatra sobre a redução ou interrupção dos medicamentos antipsicóticos.”

****

Horowitz, M. A., Jauhar, S., Natesan, S., Murray, R. M., & Taylor, D. (2021). A method for tapering antipsychotic treatment that may minimize the risk of relapse. Schizophrenia Bulletin. doi:10.1093/schbul/sbab017 (Link)

Estudo Brasileiro Relata o que Pesquisadores Acham da Retirada das Drogas Psiquiátricas

0

Um importante estudo que procurou investigar o que pesquisadores e profissionais da área pensam sobre os psicofármacos no cuidado em Saúde Mental. O artigo que saiu na revista internacional Journal of Critical Psychology, Counselling and Psychotherapy investigou profissionais dos cinco continentes do planeta e foi resultado de uma parceria entre o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS) e o Centro de Estudos Estratégicos (CEE), ambos da FIOCRUZ.

O que motivou a pesquisa foi o crescente número de pessoa no Brasil e no mundo que consomem alguma categoria de droga psiquiátrica, bem como a dificuldade que estas mesmas pessoas, e os próprios médicos, sentem em realizar a descontinuação farmacológica. Como bem-sabido, a retirada da dose psicofármacos em uso pode ser um processo muito difícil de ser suportado pelos usuários, especialmente devido aos sintomas de abstinência e a falta de tecnologias para que essa descontinuação seja realizada de maneira segura. A indústria farmacêutica não disponibiliza doses personalizadas ou com variações que permitam um processo de redução lento e gradual para evitar que o sofrimento com sintomas de abstinência seja o mínimo possível.

O método empregado foi um questionário ‘online’, com 10 perguntas objetivas, enviado para o endereço de correio eletrônico de autores de publicações científicas sobre o tema. Foram enviados convites da pesquisa para 14. 981 ‘e-mails’, dos quais foram obtidas 384 respostas válidas. A amostra consistiu em 318 questionários totalmente respondidos, o que significa um nível de confiança de 95%, com margem de erro de 5%.

O questionário foi estruturado em duas partes. O primeiro qualificou os respondentes de acordo com seu nível de conhecimento sobre o assunto (‘Bom’, ‘Algum’ ou ‘Nenhum’ conhecimento). Foram excluídos da investigação aqueles que responderam não ter ‘Nenhum’ conhecimento. Na segunda parte da pesquisa, respondentes com ‘Algum’ ou com um ‘Bom’ conhecimento passaram para as demais 9 perguntas do questionário. As respostas eram restritas a “Concordo”, “Discordo” ou “Não sei”.

A ocorrência de sintomas relacionados à retirada dos psicofármacos foi reconhecida pela maioria dos respondentes, bem como a controvérsia sobre a eficácia do tratamento psicofarmacológico. A maioria dos respondentes também concordou sobre a necessidade de proporcionar a descontinuação personalizada das drogas psiquiátricas, respeitando cada características e necessidades individuais e permitindo, assim, uma maior oportunidade de sucesso no procedimento.

“A literatura científica e a experiência de vida dos usuários indicam que quanto mais tempo os indivíduos usam uma droga psiquiátrica, é maior a probabilidade de graves sintomas de abstinência (M. Harrow et al., 2012; M. Harrow & Jobe, 2013; Martin Harrow & Jobe, 2007; Moncrieff, 2006). A maioria dos entrevistados concordou com esta posição.”

Apesar da crescente pesquisa e da abundante quantidade de relatos de experiências de vida de ex-usuários de medicamentos psiquiátricos sobre a dependência química e os sintomas de abstinência, a maioria dos entrevistados (a Academia) disse não ter conhecimento sobre a problemática de abstinência dos medicamentos. No entanto, a maioria concordou sobre a importância da retirada das drogas psiquiátricas para o bem-estar do paciente, isso significa que há o reconhecimento dos efeitos dessa retirada, demandando uma assistência adequada durante o processo.

Os resultados do estudo sugerem a importância de se desenvolver tecnologias para garantir a disponibilidade de medicamentos psiquiátricos em doses adequadas, para assim permitir haver a descontinuação sob medida às singularidades de cada usuário.

***

FREITAS, F., MOTA, F.,  BRAGA L.A.M. and GOMES, Camila M.  Attitudes of researchers
concerning discontinuation of psychopharmacological treatment. Journal of Critical Psychology, Counselling and Psychotherapy, Vol. 20, No. 4, 55-65. (link).

Noticias

Blogues