Quando o Mal-estar se Transforma em Diagnóstico Psiquiátrico: Por Que a Medicina Geral é o Ponto Crítico da Prescrição Psicofarmacológica

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Texto publicado originalmente no Mad in Itália, traduzido por Enzo Allevato e revisado por  Camila Motta e Paulo Amarante.

Título original do artigo científico:

Rethinking psychotropic prescribing in primary care: a pause-before-prescribing model 

Premissa

Este artigo retoma e amplia a exposição original publicada no link indicado acima, adaptando-a à realidade italiana e complementando-a com dados epidemiológicos atualizados, reflexões clínicas e implicações específicas para a medicina geral em nosso país. O objetivo não é simplesmente traduzir um conteúdo, mas situá-lo no contexto italiano, onde o manejo do sofrimento emocional ocorre quase inteiramente nos consultórios dos médicos de família, muitas vezes sem um sistema adequado de formação continuada e nem um suporte estruturado para lidar com a complexidade do sofrimento psíquico.

Na Itália, discute-se muito sobre saúde mental, mas raramente se menciona o local onde realmente se decide o destino farmacológico das pessoas: os consultórios de clínica geral. É lá que surge a grande maioria das prescrições de antidepressivos, ansiolíticos e estabilizadores de humor; é lá que o mal-estar emocional é interpretado, classificado e transformado em diagnóstico; é lá que se determina, muitas vezes em poucos minutos, se um sofrimento será ouvido e apoiado psicologicamente ou se será medicalizado.

Os dados epidemiológicos confirmam isso: mais de 90% das prescrições de antidepressivos e benzodiazepínicos na Itália provêm da medicina geral, enquanto menos de 10% resultam de uma avaliação psiquiátrica especializada. Isso não aponta para um abuso individual, mas para um modelo sistêmico que delegou ao médico de família o manejo do sofrimento emocional de uma grande parcela da população, sem lhe fornecer ferramentas de formação, recursos psicológicos integrados ou um suporte psicossocial estável.

A medicina geral é, portanto, o ponto crítico da prescrição de psicofármacos e, ao mesmo tempo, o lugar onde pode surgir uma mudança real. Não se trata de acusar os médicos de família, mas de reconhecer que estes foram deixados sozinhos em um sistema sobrecarregado, que exige rapidez, produtividade e protocolos, sem oferecer tempo, formação ou apoio. Se quisermos reduzir o uso desnecessário de psicofármacos, evitar a cronificação iatrogênica e devolver a dignidade ao sofrimento emocional, devemos partir daqui: daqueles que, a cada dia, são os primeiros a deparar-se com o mal-estar das pessoas, e os primeiros a poder transformar a trajetória clínica antes que esta se torne puramente farmacológica.

Introdução

Na Itália, assim como nos Estados Unidos, o primeiro lugar onde o sofrimento emocional entra no sistema de saúde não é o consultório do psiquiatra, mas o consultório do clínico geral. É lá que as pessoas procuram ajuda quando algo em suas vidas dá errado: insônia, ansiedade, tristeza, confusão, medo. É lá que se busca uma resposta imediata, muitas vezes em poucos minutos, em um sistema que exige rapidez mais do que compreensão.

Esse dado não é um detalhe: mais de 90% das prescrições de antidepressivos e ansiolíticos na Itália são feitas na medicina geral. As análises da AIFA [Agenzia Italiana del Farmaco – Agência Italiana de Medicamentos] mostram que, a cada ano, são dispensadas mais de 40 milhões de embalagens de antidepressivos e mais de 70 milhões de benzodiazepínicos, e que a parcela proveniente dos serviços especializados representa apenas uma parte mínima do total. Em algumas regiões italianas, mais de 85% das prescrições de benzodiazepínicos são feitas diretamente pelo médico de família, frequentemente para sintomas agudos de insônia ou ansiedade reativa, enquanto menos de 10% das novas prescrições decorrem de uma avaliação psiquiátrica formal.

Essa centralidade da medicina geral não é uma anomalia italiana: também no Reino Unido, nos Estados Unidos e nos países escandinavos, a maior parte das prescrições de psicofármacos tem origem nos consultórios dos médicos de família. Mas, na Itália, o fenômeno assume uma dimensão particular, porque o médico de família é frequentemente o único ponto de acesso real ao sistema de saúde, sobretudo nas áreas rurais, nas periferias urbanas e nas camadas sociais mais vulneráveis. Em muitas regiões do país, o médico de família é o único profissional que atende regularmente a pessoa, conhece sua história familiar, suas condições de vida e suas vulnerabilidades. É, portanto, inevitável que seja ele quem se depare com o sofrimento emocional antes de qualquer outra pessoa.

 

Isso significa que a discussão sobre os psicofármacos não pode se limitar à psiquiatria. O lugar onde se decide a trajetória farmacológica da população é outro: a atenção primária.

O médico de família não é um “prescritor fácil”. É um profissional que trabalha em condições de tempo limitado, encargos administrativos crescentes, recursos psicológicos insuficientes e um sistema que valoriza mais a produtividade do que a escuta. Nesse contexto, a prescrição se mostra a resposta mais compatível com a organização do sistema de saúde. Não porque é a melhor, mas porque é a mais viável.

O problema é que essa dinâmica produz efeitos clínicos significativos. Quando o medicamento se torna a resposta padrão, o mal-estar emocional não segue mais o seu curso natural. Observam-se, em vez disso, fenômenos bem documentados: neuroadaptação, instabilidade devido a mudanças rápidas na dosagem, polifarmácia, síndromes de abstinência confundidas com recaídas. O quadro clínico se complica, e o que era um mal-estar situacional se transforma em uma condição iatrogênica difícil de interpretar.

Na psiquiatria, apesar de todas as suas limitações estruturais, existe um debate sobre esses temas, fruto de uma análise hoje bastante aprofundada — em grande parte promovida pelos próprios usuários. Na medicina geral, por outro lado, esse debate é muito menos desenvolvido. E, no entanto, é justamente lá onde se concentra a maior parte das prescrições. É lá que se pode prevenir a exposição desnecessária, evitar a cronificação, reduzir a politerapia e acompanhar a suspensão dos psicofármacos com segurança.

Mas, para isso, é necessário um sistema de formação e organização que não existe hoje na Itália.

O papel ativo dos médicos de família: como evitar a prescrição automática

O médico de família não é apenas o primeiro a identificar o mal-estar: é também o primeiro a poder alterar sua trajetória. É nesse momento inicial, muitas vezes resumido a poucos minutos, que se decide se o sofrimento será interpretado como uma experiência humana contextualizada ou como um distúrbio a ser tratado farmacologicamente. Esse limiar clínico é frágil, mas é também o ponto em que o médico de família pode exercer sua competência mais valiosa: a capacidade de interpretar o sintoma na vida da pessoa.

Uma das formas mais eficazes de evitar que a consulta caia no automatismo da prescrição é criar um espaço para a avaliação contextual. Não é preciso muito tempo e nem um ambiente psicoterapêutico. Basta fazer uma pergunta que desvie a atenção do sintoma para a história: “O que está acontecendo na sua vida neste momento?”

Essa pergunta, aparentemente simples, tem um profundo impacto clínico. Ela permite perceber se a ansiedade, a insônia ou a tristeza são respostas compreensíveis a um evento, a uma perda, a um conflito ou a uma sobrecarga. Em muitos casos, é o suficiente para evitar que uma experiência situacional seja transformada em diagnóstico e medicação.

Outro passo crucial é a ativação imediata de um recurso psicoterapêutico ou psicossocial. Não se trata de construir um percurso complexo, mas de oferecer um primeiro ponto de apoio concreto: um nome, uma consulta, um lugar onde a pessoa possa ser ouvida de maneira diferente. A literatura demonstra claramente que, quando o médico de família abre essa possibilidade já na primeira consulta, a probabilidade de recorrer a psicofármacos diminui significativamente.

A isso se soma a importância da reavaliação precoce. Uma consulta de acompanhamento após alguns dias ou semanas permite observar como o mal-estar evolui quando este não é imediatamente encaixado em um diagnóstico. Muitos estados emocionais agudos se modificam espontaneamente, se atenuam e se esclarecem.

Para que tudo isso seja sustentável, é necessário um sistema de formação e organização que hoje não existe

A pausa reflexiva e a suspensão dos psicofármacos: um único processo clínico

A “pausa reflexiva” não é um convite para não prescrever. É, ao contrário, um convite para prescrever melhor, ao devolver à decisão farmacológica a complexidade que ela merece. Em um sistema que pressiona por respostas rápidas, a pausa reflexiva introduz um tempo diferente: um tempo clínico, não administrativo.

Essa suspensão do ato de prescrever permite distinguir entre um mal-estar situacional e uma condição que requer intervenção farmacológica. É também o momento em que se pode discutir riscos e benefícios de forma transparente, definir prescrições por tempo limitado e planejar, desde o início, uma possível suspensão dos psicofármacos.

Mas a pausa reflexiva não diz respeito apenas ao momento da prescrição: diz respeito também, e talvez sobretudo, ao momento da suspensão dos psicofármacos. A retirada gradual dos psicofármacos é um dos aspectos mais delicados da prática clínica. Reduções muito rápidas ou interrupções repentinas podem gerar instabilidade significativa, muitas vezes confundida com uma recaída.

A literatura científica esclareceu que a maneira mais segura de reduzir os psicofármacos é a redução hiperbólica, um método que prevê diminuições cada vez menores à medida que a dose diminui, pois a relação entre a dose ingerida e a ocupação dos receptores não é linear, mas curvilínea: pequenas reduções em doses baixas produzem efeitos fisiológicos muito maiores do que as mesmas reduções em doses altas.

Mas a redução hiperbólica requer formação, supervisão e ferramentas que hoje não são fornecidas aos médicos de atenção primária.

Nesse processo, o médico não pode ser deixado sozinho. É necessária uma rede: terapeutas, serviços psicossociais e — quando possível — especialistas como pares.

Infelizmente, na Itália, os especialistas como pares ainda não estão inseridos de forma estável no sistema de saúde.

A suspensão requer, portanto, competências específicas e uma comunidade terapêutica em torno da pessoa. Não se trata de um ato técnico: é um percurso compartilhado.

Conclusão: a medicina geral como alavanca da mudança

O médico de família é o primeiro ponto de contato, o primeiro a interpretar o mal-estar, o primeiro profissional capaz de evitar uma prescrição desnecessária ou acompanhar uma suspensão segura. É na medicina geral que se define a trajetória farmacológica da população.

A medicina geral não é o problema: é a chave para a solução. É o espaço onde se pode devolver ao mal-estar emocional sua complexidade, introduzir uma pausa para reflexão, ativar recursos psicoterapêuticos e psicossociais e construir percursos seguros de suspensão do tratamento.

A centralidade da medicina geral fica ainda mais evidente quando se consideram os dados epidemiológicos: mais de 90% das prescrições são feitas nos consultórios dos médicos de família. Isso não indica um abuso individual, mas um modelo sistêmico que delegou ao médico de família a gestão do sofrimento emocional sem lhe fornecer as ferramentas adequadas.

Por isso, a medicina geral deve se tornar o lugar da mudança. Não um local de resistência solitária, mas um local onde se constrói uma rede: médicos, terapeutas, serviços territoriais, apoio psicossocial, especialistas como pares.

Se quisermos reduzir o uso desnecessário de psicofármacos, evitar a cronificação iatrogênica e promover percursos seguros de suspensão, devemos partir daqui: da medicina geral.

 

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