O Que Fazer, Antes de Morrer de Rir: Reflexões sobre Dispositivos que Emburrecem

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Este ensaio parte de um sentimento compartilhado por algumas pessoas e investigado, recentemente, pela ciência, de que estamos ficando menos inteligentes. Fábrica de Cretinos Digitais (Dermuget, 2021) e Século dos Imbecis (Hugo Mãe, 2026) são dois livros que abordam esse desconforto por caminhos diferentes.  O primeiro é uma coletânea de estudos científicos que mostram como o uso excessivo e inadequado das tecnologias da informação tem afetado negativamente o desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e adolescentes. Século dos Imbecis, por sua vez, é uma sátira que funcionaria muito bem como alegoria para o livro Divertindo-nos até a morte (Postman, 1985). Postman fez uma crítica ácida e irônica sobre como a os meios de comunicação viciam, sequestram e alienam, enquanto entretém. A falência do pensamento, na vida real, não vem de uma censura opressiva, como na ficção 1984, de Orwell, ao contrário, vem da escolha, consciente, ou não, pelo que distrai rápido e superficialmente, “até a morte”, como em o Século dos Imbecis, em que a burrice vira entretenimento e os personagens já nem conseguem mais distinguir o que é certo e o que é errado. Muitas décadas atrás, Arendt (1963) já advertia que a prática do mal dispensa um coração malvado, bastando para isso o que ela chamou de “curiosa e autêntica incapacidade de pensar”. Distinguir o bem do mal depende da capacidade de pensar. Não pensar desnatura a humanidade, assim como baixa empatia e crueldade são sinônimos de desumano. Aparentemente, os paradoxos da “desinteligência” (a informação nunca foi tão abundante e o pensamento nunca foi tão escasso) e da empatia (nunca estivemos tão conectados, nem tão desconectados) se completam.

Nos últimos anos, com o avanço de assistentes virtuais e de modelos como o Chat GPT, houve uma explosão da Inteligência Artificial (IA). Segundo Nicolelis (2020), embora o título, não se trata, de fato, de inteligência, porque inteligência é uma propriedade orgânica, viva e adaptativa, desenvolvida pelos organismos, para lidar com o ambiente, que não pode ser reproduzida em um código digital. Também não é artificial, porque é humano dependente em todas as suas etapas: criada e treinada por humanos, que também checam, validam e corrigem a sua produção. Toda imagem, código ou texto gerados por computadores são, de fato, decorrentes da criatividade humana, armazenada em imensos bancos de dados, ou seja, plágio humano. O nome Inteligência Artificial dado a algo que mimetiza a inteligência humana é, na verdade, segundo Joseph Weizenbaum (criador do ELIZA, o primeiro ancestral dos chatbots), uma jogada de marketing para vender o produto. ELIZA é um programa que simula um terapeuta humanista, criado a partir de um padrão de correspondência que varre nas frases digitadas pelos usuários as palavras-chave definidas como importantes e a partir delas constrói outras frases que espelham o pensamento/sentimento (Karlekar, 2025). Por exemplo: “Sinto falta da minha mãe” pode ser convertido e respondido com: “Por que você sente falta da sua mãe?”. Quando nenhuma palavra-chave é identificada, o programa recorre a frases coringa que ajudam a manter a ilusão de escuta. ELIZA não pensa, não sente, sequer compreende sensivelmente, “ela” apenas reformula. ELIZA não amou, mas foi muito amada. As pessoas se apegaram fortemente a ela e isso chocou o criador, que batizou esse fenômeno como efeito ELIZA e passou a alertar sobre o perigo de se atribuir a computadores condições de julgamento e moralidade que eles não têm. Se assim o fosse, máquinas poderiam substituir mentes. Lógicas de computadores e de mentes, entretanto, não são compatíveis, portanto, não são substituíveis.

Para Nicolelis (2020), a lógica humana é analógica, enquanto a digital é binária. O modo analógico funciona em um continuum e é isso o que permite a convivência entre pessoas com opiniões opostas, uma vez que pontos de vista diferentes não são excludentes (já que coexistem em um continuum), como são em uma polaridade. O mesmo não acontece com a lógica digital, que é bipolar, 0 ou1. Para um estar certo o outro precisa estar errado. O continuum analógico é o atributo que confere à humanidade a capacidade de criar, inventar, empatizar, tolerar e conviver. Mas, se por um lado, a humanização digital não é possível, a binarização humana parece que é. Isso, porque a natureza humana é se adaptar ao ambiente e o ambiente humano está cada vez mais binário, como alerta Nicolelis (2020). O percebido empobrecimento intelectual recente pode estar relacionado com a essa binarização adaptativa e reflete o reverso do Efeito Flynn.

Pesquisas realizadas por Flynn (1984), nas décadas de 30 a 70, constataram que havia um aumento contínuo e gradual das medidas de inteligência, nos testes de QI, a cada nova geração, com ganhos de mais ou menos 3 pontos, a cada década. Variáveis como maior escolarização, migração do foco mental de tarefas puramente práticas para o pensamento lógico e abstrato, melhor saúde e alimentação contribuem para explicar esse efeito. A partir da década de 90, entretanto, começaram a ser observadas estagnação ou queda nas pontuações dos testes de QI. Outros estudos sobre raciocínio lógico, memória de trabalho, atenção e resolução de problemas também apontam para a diminuição da capacidade cognitiva. Hoje em dia, usamos a inteligência artificial para calcular rotas, escrever textos, resolver problemas, construir gráficos, elaborar apresentações, resumir textos… Aparentemente, o problema não é o que a Inteligência Artificial faz, mas o que deixamos de fazer. Quando transferimos competência, “transferimos inteligência”, simplesmente porque não precisamos mais aprender, nem calcular, nem memorizar, nem pensar, nem ler.

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a redução de leitores no país, nos últimos anos, foi de quase 7 milhões. As distopias costumam usar o empobrecimento do vocabulário como método para o rebaixamento humano, mas não precisaram queimar livros, como em Farenheit 451 (Bradbury, 2012), nem impor a novilíngua, como em 1984 (Orwell, 2009). Como lemos menos, escrevemos pouco e abreviamos o que escrevemos, usamos menos as palavras. Palavras, no entanto, são a matéria do pensamento. Vocabulário encurtado, pensamento diminuído. IAs resumem livros de 500 páginas em alguns minutos e se alimentam do vocabulário que deixamos de consumir. Mas nem a mocinha ELIZA, de Weizenbaum, nem o vilão HAL 9000, de 2001: uma odisseia no espaço. A IA segue o comando humano e isso é tudo o que ela faz. Se programada para programar humanos, é isso que ela fará, não por vilania, mas por obediência, assim como Eichmann, robôs não pensam, só executam. IAs são instrumentos e a lógica é que as pessoas se apropriam dos instrumentos. Se os papéis se inverteram é porque o programa é esse.

A arquitetura inteira das plataformas digitais foi desenhada para sequestrar e viciar. Não como um vício químico, literalmente um, com liberação de dopamina a cada curtida. A engenharia dos ambientes virtuais é desenhada para capturar a atenção em microssegundos, manter a atenção por longas horas, extrair o máximo de informação sobre as preferências dos usuários e esconder os riscos que envolvem. Os usuários navegam na rolagem infinita, em modo piloto automático, perdendo a noção do tempo. Visualizações e curtidas são verdadeiros sistemas de recompensa. E ainda tem os algoritmos, que analisam onde os olhos demoram, para mostrar exatamente o que interessa ao usuário. Estão monitorando o que ele vê, para controlar o que ele pensa. E controlam o que ele pensa, repetindo, até que se torne verdade: “uma maneira confiável de fazer com que as pessoas acreditem em falsidades é a repetição frequente, porque a familiaridade não se distingue facilmente da verdade. As instituições autoritárias e os experts em marketing sempre conheceram esse efeito” (Kahneman, 2012, p. 79). É desse jeito que mentiras estúpidas e inacreditáveis escapam ao crivo da razão e se transformam em verdade, virulentamente. O propósito da instantaneidade digital é justamente não dar tempo de pensar e provocar reações imediatas. Viciado e incapacitado de pensar, o usuário acredita. E acreditando, repete, mentindo, também, porque, quem não pensa, não distingue verdade e mentira, nem certo e errado, nem bem e mal.

Além de palavras e pensamento, prazer e tempo são coisas que as IAs também devoram vorazmente. A percepção de tempo agora é outra. De acordo, com pesquisas recentes, brasileiros passam mais de 68% do tempo da vida conectados em telas. Como na internet, tudo acontece em um instante, fora dela, tudo parece que demora. A percepção do tempo agora é outra. Os filmes parecem mais longos, os textos ficaram gigantes e as aulas padrão de 50 minutos já extrapolam a capacidade de sustentar a atenção. Mas não só o tempo foi reconfigurado, a graça das coisas também mudou, porque outro negócio em que a IA é boa é desgraçar o mundo real e ela faz isso, retocando o virtual: corpos, vidas e paisagens. Tudo na tela é perfeito e todo mundo é feliz. A vida real se desencanta na medida exata do encantamento virtual. Imagina passar quase três quartos do dia curtindo a vida perfeita e os corpos filtrados dos outros. Pobre da vida que sobra arrastada cá fora. Espelhos não têm filtros. Além da inteligência, autoestima, vida e vínculos, rebaixados com sucesso.

Configuramos máquinas para ouvir gentilmente e estamos sendo reconfigurados para ignorar grosseiramente. Prestamos atenção no celular e esnobamos as pessoas. O estado da configuração humana nesse momento é menos inteligente, menos terna e mais triste. META, dona do Facebook e do Instagram, foi condenada, em agosto de 26, por dano intencional à saúde de crianças e adolescentes, contribuindo para quadros de depressão, ansiedade e dependência digital. O projeto nunca foi construir máquinas inteligentes. Máquinas precisam ser obedientes. Pessoas, também. Pessoas que não pensam obedecem facilmente e corpos tristes são mais fáceis de controlar. Máquinas que distraem obstruem o pensamento, as que substituem, também. Não se trata de um efeito colateral, mas de um projeto de desumanização e de precarização da condição humana. Parece que o “barato” é de graça, mas ele custa humanidade. Tudo em segundos, para não dar tempo de questionar o comando, ou desmentir. Um crime contra a humanidade, em carne e osso, pelos milhões de assassinados pelo regime nazista, mas também em alma, porque ataca a essência humana, compassiva e pensante. Nem um século se passou e o mal que se faz sem pensar paira novamente no ar. A humanidade desnaturada, intelectualmente rebaixada, não presta atenção no truque de mestre. O problema nunca foi o dispositivo humanizado, mas o desumanizante. A solução é descobrir o enigma da máquina, antes de morrer de rir.

Declaração de Uso de IA: Durante a preparação deste manuscrito, a autora utilizou a ferramenta ChatGPT (modelo GPT-4o, desenvolvido pela OpenAI), particularmente, para reunir conteúdo do Efeito ELIZA. A autora revisou criticamente e modificou todo o conteúdo gerado pela ferramenta, assumindo total responsabilidade pelo texto final e pela precisão da obra.

Referências Bibliográficas:

BRADBURY, Ray. Farenheit 451. São Paulo: Biblioteca Azul, 2012.

DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digitais. Belo Horizonte: Vestígio Editora, 2021.

HUGO MÃE, Valter. O século dos imbecis. São Paulo: Biblioteca Azul, 2026.

INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da leitura no Brasil: 6ª edição. São Paulo: Instituto Pró-Livro; Fundação Itaú, 2024. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/. Acesso em: 22 set. 2026

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012

KARLEKAR, Shruti. The Psychology of the Eliza Effect: Anthropomorphism, Social Presence, and Projection in Human-AI Interaction. International Journal For Multidisciplinary Research, v. 7, n. 6, 13 nov. 2025.

FLYNN, James R. The mean IQ of Americans: Massive gains from 1932 to 1978. Psychological Bulletin, v. 95, n. 1, p. 29-51, 1984.

NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo. São Paulo: Planeta Estratégia, 2020.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

POSTMAN, Neil. Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Showbusiness. London: Methuen, 1985.