Do Cinema à Ciranda: o Brasil no Festival Repensando a Saúde Mental

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Entre os dias 24 e 26 de setembro de 2026, realizou-se o Festival Internacional de Cinema: Repensando a Saúde Mental, na bucólica cidade de Lillehammer, na Noruega. Organizado pelo Mad in Norway, o festival reuniu filmes de vários lugares do mundo com o objetivo de explorar e compartilhar experiências, conhecimentos e novas perspectivas sobre questões e cuidados em saúde mental, numa concepção desmedicalizante e despatologizante da vida. Parte da equipe do Mad in Brasil, junto com o grupo Cidadãos e Cidadãs Cantantes, de São Paulo, e o cineasta Renato Celso Kraté Maldos, integrou a comitiva brasileira que participou do festival.

Antes da abertura, em 23 de setembro, toda a rede Mad in the World reuniu-se na sala de reuniões do Hotel Aksjemøllen. A reunião começou com uma rodada de apresentações; em seguida, cada filiado compartilhou um pouco de seus projetos e dos desafios que tem enfrentado. À tarde, o encontro concentrou-se nos novos desafios e nas perspectivas futuras da rede. Foi um momento potente, cheio de esperança.

A comitiva brasileira apresentou um informe detalhado sobre a iniciativa do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS) da Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde que deu origem a uma agenda nacional sobre políticas de desmedicalização, numa perspectiva de conceito ampliado de saúde que engloba trabalho, cultura, arte, educação, entre outros. Além disso, foi divulgado o 10º Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas, que ocorrerá nos dias 28, 29 e 30 de outubro de 2026, na cidade do Rio de Janeiro, para o qual foram confirmados como convidados internacionais Robert Whitaker, Birgit Valla, Jose Witt-Doerring e Monique de Mol.

A abertura do festival contou com a agradável apresentação de um trio de músicos locais, que mesclou música tradicional norueguesa e repertório internacional. Depois, houve uma mesa de abertura com a presença do psiquiatra lituano Dainius Puras, ex-relator especial da ONU para o direito à saúde, que ressaltou a importância dos direitos humanos no cuidado em saúde mental.

Iniciado o festival, em 24 de setembro, duas salas de cinema da cidade foram disponibilizadas para a exibição dos filmes. Foram cerca de 26 obras selecionadas, entre longas, curtas e documentários. O primeiro a ser exibido foi “Medicando o Normal”, documentário que relata a experiência negativa de três estadunidenses com o uso de psicofármacos e suas tentativas de retirada gradual dos medicamentos para retomarem suas vidas. O filme foi legendado em português pela equipe do LAPS/Fiocruz, com tradução de Fernando Freitas, e exibido a todos os participantes no 4º Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas, em 2020. O primeiro dia encerrou-se com “O Clube da Dança”, comédia dramática sueca sobre um estagiário de psicologia em uma clínica psiquiátrica que não se identifica com o tratamento tradicional e, após conhecer três pacientes, resolve criar o Clube da Dança, explorando outras possibilidades de cuidado. O filme contagiou a plateia, que se levantou e dançou junto com os personagens.

No segundo dia, foi exibido o curta “Comunidade do Fogo Interior”, vídeo celebrativo dos dez anos da iniciativa Inner Fire, fundada por Beatrice Birch, uma comunidade centrada em honrar a escolha individual e ajudar as pessoas a se fortalecerem para retomar o controle de suas vidas sem depender do uso de medicamentos psicotrópicos que alteram a mente. À tarde, foi exibido “Uma gota de sol”, documentário indiano sobre a história de Reshma Valliappan e sua jornada como ouvidora de vozes. Após ser diagnosticada com esquizofrenia, Reshma foi inserida no sistema psiquiátrico, mas, inconformada, buscou abordagens alternativas e mais holísticas para lidar com suas questões e encontrou na arte uma maneira de se expressar e de se inserir no mundo. Decidiu sair de casa e parar de tomar seus medicamentos, mesmo sem o apoio da família. Reshma conseguiu criar para si uma vida por meio de sua arte, encontrando autonomia, pertencimento e conexão.

O dia terminou com um sarau: sobreviventes da psiquiatria declamaram poesias e fizeram apresentações musicais. Por fim, o grupo de brasileiros realizou uma ciranda coletiva. Todos os presentes formaram uma grande roda e dançaram ao som de “Cirandeiro”, de Edu Lobo, que levantou o público. Como ato final, o grupo presenteou Robert Whitaker, fundador do Mad in America e um dos idealizadores do festival, com uma pintura da artista e sobrevivente brasileira Rogéria Barbosa.

 

 

No último dia, a programação começou com o lançamento do documentário “A ilusão da Psiquiatria”, de Peter Gøtzsche, fundador do instituto Cochrane e crítico contumaz da falta de evidências na psiquiatria. Em seu documentário, Peter tenta responder a algumas perguntas importantes: quando as questões de saúde mental necessitam de tratamento? Os diagnósticos de transtornos psiquiátricos são confiáveis? Quando as questões de saúde mental devem ser tratadas com psicofármacos? Os antidepressivos ajudam em casos de ideação suicida? A eletroconvulsoterapia (ECT) é segura? Entre outras perguntas, que ele investiga por meio de entrevistas com psiquiatras, sobreviventes e advogados.

Encerrando o festival, foi exibido o filme brasileiro “Cidadãos Cantantes: Partituras das Humanidades Criativas”, dirigido por Renato Celso Kraté Maldos, com texto de Cris Lopes e direção musical de Júlio Maluf, com apoio do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS/Fiocruz). O filme acompanha o coral cênico paulistano Cidadãos e Cidadãs Cantantes em sua jornada de formação, quando o grupo vai até territórios de populações indígenas, quilombolas e um assentamento do Movimento dos Sem-Terra (MST) para se imbuir da ancestralidade brasileira e transformar sua música. Desse encontro nascem novas partituras musicais, as partituras das humanidades criativas, que dão nome ao filme. Ao questionar os modelos psiquiátricos tradicionais, o projeto enfatiza a desmedicalização e o empoderamento das comunidades marginalizadas. O filme apresenta a arte como força transformadora que promove empatia, conexão e identidade compartilhada em um grupo diversificado.

A exibição emocionou a plateia, que acompanhou as músicas com palmas e ovacionou o filme ao final. Após a sessão, Paulo Amarante, Renato Celso, Cris Lopes e Júlio Maluf subiram ao palco para conversar com Robert Whitaker e o público, destacando a importância do projeto como possibilidade de cuidado e pertencimento para uma diversidade de pessoas, fora dos serviços psiquiátricos e de saúde mental. A cultura e a arte aparecem como ferramentas de desmedicalização e despatologização, apresentando novas possibilidades de vida. Robert Whitaker enfatizou a importância da presença do Brasil no festival, trazendo esperança a todos com iniciativas tão impactantes e necessárias na luta contra a medicalização da vida. Como forma de manifestar profunda admiração e reconhecer a relevância do filme brasileiro, a equipe do Mad in Norway ofereceu um prêmio simbólico ao diretor.

O festival terminou com uma grande celebração de toda a rede Mad em um delicioso jantar, com apresentação musical. Ao final, os brasileiros foram convidados por um dos músicos a tocar; as pessoas foram se levantando para se reunir ao canto e à dança brasileira. Tudo acabou como deve ser: em samba (ou ciranda)!1

 

Uma linda exposição de arte de sobreviventes da psiquiatria e usuários foi montada, com artistas do mundo inteiro. Duas artistas brasileiras inscreveram seus trabalhos: Rogéria Barbosa, natural do Rio de Janeiro, artista plástica, escritora, palestrante, integrante do ateliê Gaia (mBrac), presidente de honra do bloco Zona Mental e militante da luta antimanicomial; e Agnes Menezes, usuária do CAPS Profeta Gentileza, no Rio de Janeiro. O link com a amostra de arte ficará disponível no site do evento.2

 

O encontro da rede Mad in the World e o festival de filmes foram momentos de muita reflexão sobre o uso de medicamentos psiquiátricos, de valorização da diversidade e de conhecimento de outras formas de cuidado despatologizantes. Ainda que viéssemos de países e idiomas diferentes, estávamos unidos pela linguagem do coração e por uma luta comum. Foram dias repletos de reflexão, encontros, lágrimas e sorrisos. A comissão brasileira pôde levar ao Norte global um pouco de nossa cultura e de nosso trabalho antimanicomial despatologizante, mostrando que é possível realizar um trabalho baseado nos direitos humanos, na arte, na cultura e no respeito à diversidade.

 

Links:

  1. Programa completo do Festival de Filmes Repensando a Saúde Mental: https://madinnorwayfilmfest.org/program/
  2. Exposição de Arte do Festival de Filmes Repensando a Saúde Mental: https://madinnorwayfilmfest.org/mad-in-norway-film-festival-art-show/
  3. Sinopses de todos os filmes: https://madinnorwayfilmorg/films/
  1. Programa completo do Festival de Filmes Repensando a Saúde Mental: https://madinnorwayfilmfest.org/program/
  2. Exposição de Arte do Festival de Filmes Repensando a Saúde Mental: https://madinnorwayfilmfest.org/mad-in-norway-film-festival-art-show/
  3. Sinopses de todos os filmes: https://madinnorwayfilmorg/films/