Transgênero, Assexualidade e os Antidepressivos

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Recentemente, o renomado psiquiatra David Healy postou em sua página um blog onde ele coloca para o debate público a questão dos possíveis impactos que o uso de antidepressivos pode estar tendo em nossa própria sexualidade e questões de gênero.

Resolvi escrever algo a partir da leitura desse blog.

A imagem acima é de Ben, que acredita que ele na verdade possa ser a Amy.  É por isso/ou para isso, que ele está tomando hormônios para prevenir a puberdade. Esse tema faz parte de um programa da rede de televisão pública britânica BBC, dirigido a crianças a partir dos seis anos de idade.

Just  Girl, o nome do seriado, é a respeito de uma criança que no começo da sua puberdade é um ‘transgênero’ que tenta dar sentido a seu mundo, lidando com bullying e se esforçando para manter suas amigas.

Trata-se de uma problemática muito contemporânea. Sexualidade e gênero: o que é que é da ordem do biológico por natureza?  Por outro lado, o que é socialmente construído? Quais as relações entre esses termos? Quais são os limites para a intervenção no biológico? Que mundo se quer construir socialmente?

Um debate aberto, cujos ‘topos’ são ocasião para acaloradas defesas de posições.

Por exemplo, há muitos que consideram que dar hormônios a crianças antes da puberdade para prevenir o desenvolvimento natural é uma forma de ‘abuso infantil’. Há outras pessoas que dizem que quanto mais se promove a ideia que um garoto possa ter nascido em um corpo de menina, e que uma menina possa ter nascido em um corpo de garoto, e que drogas e cirurgia podem colocar as coisas em seu lugar, isso pode levar as crianças a se sentirem profundamente confusas.

Pois bem, nesse debate David Healy coloca algo a tornar mais complexa a discussão sobre essa problemática.  A pergunta que Healy formula é:

                    Que relações podem haver de fato entre problemas de transgênero ou   disforia sexual e os antidepressivos? 

De imediato, é verdade que cada vez mais há mais pessoas tomando antidepressivos. Afinal de contas, é uma das modas dos tempos atuais buscar nos antidepressivos a solução para as diversas manifestações de infelicidade.  E entre os inúmeros efeitos colaterais, os antidepressivos estão associados a um grande número de efeitos na função sexual, incluindo desejo sexual alterado, dificuldades de excitação (ereção nos homens, falta de lubrificação, nas mulheres), problemas de orgasmo, etc. [1]

Esses são efeitos colaterais dos antidepressivos já bem conhecidos e relatados. O que já é por si algo bastante alarmante!  Pouco a pouco se vem conhecendo o impacto dos antidepressivos na destruição das relações amorosas, estando fortemente associados ao crescimento das possibilidades de divórcio quando um ou os dois parceiros faz uso dessas drogas.

E quantos efeitos adversos ainda são desconhecidos?

Por exemplo, o que ocorre com filhos de pais que na sua gestação estavam fazendo uso de antidepressivos? Senão, quantas crianças, adolescentes e jovens adultos são pacientes de drogas antidepressivas?  Como a explosão do consumo dos antidepressivos se deu a partir dos anos 1990, ainda há muito o que desconhecemos.

A questão da relação entre os antidepressivos e a ‘disforia sexual’ tratada pela psiquiatria tem antecedentes na própria ciência que está na base dos atuais psicotrópicos prescritos.  Healy lembra que o primeiro artigo de língua inglesa sobre a imipramina, que foi o primeiro inibidor relativamente potente da reabsorção de serotonina, em 1958, já era mencionado que algumas pessoas com uma orientação homossexual transitariam ou se converteriam à heterossexualidade. Isso foi motivo de celebração na época. O que quer dizer, que já se sabe há muito que os antidepressivos têm impactos na sexualidade.

O tempo passa, mudanças socioculturais ocorrem. Mas, como mais uma vez Healy nos lembra,  em 1993, portanto muito mais recentemente, Peter Kramer, o autor do famoso livro Ouvir o Prozac  dizia algo muito parecido. O que foi comemorado, como um meio para se construir o mundo de relações, conforme o desejo.

A orientação sexual, como é mudada?

São questões que ainda temos respostas quase que absolutamente provisórias.

Quem pode ajudar na construção desse conhecimento, são as próprias pessoas que estão passando por tais experiências. Como é bem observado por Healy, as pessoas mais bem colocadas para descobrir o que pode estar acontecendo é a própria comunidade dos que vivem essa ‘fluidez’ de gênero.

Healy organizou uma plataforma na internet muito importante, que é uma comunidade virtual dos que comungam a problemática dos efeitos colaterais das drogas psiquiátricas prescritas por médicos. Como você pode se dar conta, ao se conectar a essa página, lá você tem disponibilizadas várias maneiras para se manter em comunicação com pessoas que sofrem os efeitos adversos das drogas psiquiátricas, e que querem compartilhar ideias e experiências com os demais.

Nesse sentido, precisamos de relatos de pessoas cuja orientação e auto-visão mudaram dramaticamente com exposição a essas drogas ou retirada de alguma dessas drogas. Mas por trás da mudança no exterior, precisamos saber mais sobre quaisquer mudanças no interior. Como foi a mudança? O que mudou para provocar a mudança? Essas coisas poderiam estar ligadas a efeitos ‘primitivos’, como efeitos sobre nosso cheiro ou olfato. E assim por diante.

Esse programa da BBC é eloquente sobre a atualidade dessa ‘problemática’, não é mesmo?

Quanto mais bem informados somos, as nossas decisões podem ser tomadas com mais consciência.  E o debate público passa a ser mais bem qualificado.