Apesar do nome popular “antidepressivos”, os inibidores da recaptação de serotonina (IRS) são uma classe de medicamentos amplamente prescrita para condições psiquiátricas e não psiquiátricas, como ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão, dor crônica, síndrome do intestino irritável, entre outras. Inicialmente considerados quase isentos de efeitos colaterais, dados de pós-comercialização indicam alta prevalência desses efeitos, sendo a disfunção sexual o mais comum.1 As bulas iniciais afirmavam que menos de 5% dos pacientes em ensaios clínicos relataram disfunção sexual.1 Contudo, estudos mais recentes indicam que até 88% dos pacientes que usam esses medicamentos apresentam algum tipo de disfunção sexual associada ao tratamento.2

Os sintomas mais comuns incluem redução ou ausência de libido, dificuldade ou impossibilidade de atingir o orgasmo, disfunção erétil em homens e diminuição da lubrificação vaginal em mulheres. Embora sejam bem caracterizados na prática clínica, muitos clínicos não alertam suficientemente os pacientes sobre esses efeitos.
Contudo, a partir do início dos anos 2000, surgiram relatos de indivíduos que persistiam com disfunção sexual mesmo após a interrupção do IRS, dando origem ao termo disfunção sexual pós-antidepressivo (PSSD, do inglês Post-SSRI Sexual Dysfunction). Trata-se de uma condição iatrogênica em que a disfunção sexual induzida pelo IRS não retorna ao normal após a descontinuação do medicamento. Ao descrever os critérios diagnósticos, Healy et al. (2022) indicam que, além dos sintomas sexuais previamente mencionados, a PSSD é caracterizada por anestesia ou dormência genital: a redução ou ausência de sensação tátil nos genitais, como se tivesse sido aplicado um anestésico tópico.3
A PSSD pode ocorrer em qualquer idade, em ambos os sexos, iniciar com a primeira dose ou surgir apenas após a descontinuação do IRS, e pode durar indefinidamente. Atualmente, não há tratamento disponível. A condição é pouco conhecida, mesmo entre clínicos, e pacientes frequentemente encontram descrença ao relatarem os sintomas. Isso se deve, em parte, ao fato de que a disfunção sexual, especialmente a diminuição da libido, pode ser um sintoma de depressão. Assim, quando os pacientes relatam sintomas persistentes, estes frequentemente são atribuídos ao diagnóstico original que levou ao uso do IRS, em vez de serem reconhecidos como efeito do medicamento, o que pode levar à prescrição contínua do IRS para tratar a condição inicial.
Nesse contexto complexo, é preciso também reconhecer que os IRS são usados para diversas condições, inclusive não psiquiátricas. Existem pacientes que desenvolveram PSSD após usaram IRS para síndrome do intestino irritável, dor crônica e TOC, situações nas quais a disfunção sexual não é um sintoma. Além disso, a anestesia genital, sintoma cardinal da PSSD, não pode ser explicada como manifestação de depressão. Esse fator tem retardado significativamente os avanços no reconhecimento da condição e na busca de tratamentos.
Nos últimos anos, órgãos reguladores começaram a reconhecer a PSSD. Em 2021, o Health Canada recomendou que médicos alertassem os pacientes sobre o potencial de disfunção sexual de longo prazo associada aos IRS antes do início do tratamento4. A Agência Europeia de Medicamentos5, a Administração de Produtos Terapêuticos da Austrália6 e o Royal College of Psychiatrists do Reino Unido7 também reconheceram a condição. Embora não definam completamente a natureza da PSSD, o DSM-5 observa que disfunção sexual persistente pode ocorrer após a interrupção dos IRS. Grandes veículos de mídia, como The New York Times8, The Guardian9 e a BBC10, também discutiram a PSSD.
Quantas pessoas desenvolvem PSSD após interromperem os IRS? Estudos preliminares indicam que a PSSD pode afetar uma proporção significativa de pacientes: um estudo estimou que 1 em 216 homens desenvolveu PSSD após interromper o IRS11. Em outro estudo, até 13% relataram anestesia genital após a descontinuação do tratamento12. Devido à escassez de estudos epidemiológicos abrangentes, o panorama da condição permanece amplamente desconhecido. No entanto, uma hipótese relevante sugere que a PSSD pode não ser rara; pelo contrário, é possível que seja comum, manifestando-se em um espectro de intensidade. Como ilustrado no gráfico hipotético abaixo, é provável que a maioria das pessoas não desenvolva PSSD após a interrupção do tratamento, enquanto uma minoria apresente todos os sintomas persistentes. Contudo, pode existir um amplo espectro de indivíduos que, embora funcionais, apresentem prejuízos parciais na esfera sexual.

O modelo biomédico tradicional divide os efeitos dos medicamentos em duas classes: os chamados efeitos “terapêuticos” e os chamados efeitos “colaterais”. Nesse modelo, considera-se que os efeitos terapêuticos podem ser de longo prazo. Ou seja, uma vez que o paciente completa um tratamento com sucesso, ele pode permanecer em remissão mesmo após a interrupção do tratamento farmacológico.
A abordagem em relação aos efeitos colaterais, no entanto, é tratada de forma distinta. Frequentemente, presume-se que os efeitos colaterais estejam presentes apenas enquanto o medicamento está sendo utilizado. Assim, se o paciente consegue tolerar ou manejar esses efeitos durante o tratamento, espera-se que, ao final do uso do psicofármaco, ele esteja livre dessas consequências indesejadas.
Contudo, do ponto de vista farmacológico, essa distinção entre efeito terapêutico e efeito colateral é, em grande medida, artificial. O que existe, na realidade, são moléculas que se ligam a diferentes receptores nos neurônios. O resultado da ligação dessas moléculas a determinados receptores é considerado desejável, pois produz efeitos que reduzem sintomas das doenças; a esses efeitos atribuímos o rótulo de efeitos terapêuticos. A ligação da mesma molécula a outros receptores, entretanto, pode gerar consequências que consideramos indesejáveis, às quais damos o nome de efeitos colaterais.
Uma vez reconhecido que essa distinção é conceitual e não biológica, torna-se questionável a suposição de que, ao término do tratamento, os efeitos terapêuticos possam persistir, enquanto os efeitos colaterais necessariamente desapareçam. Nesse contexto, a PSSD não constitui um fenômeno isolado. Outras condições nas quais efeitos indesejados de medicamentos psiquiátricos podem persistir após a interrupção do tratamento incluem a discinesia tardia, associada ao uso prévio de antipsicóticos, e a síndrome de abstinência prolongada, observada após a interrupção de benzodiazepínicos.
Os efeitos de longo prazo devem ser cuidadosamente considerados ao prescrever IRS para crianças e adolescentes, cuja maturidade sexual ainda está em desenvolvimento. Apesar de pouco investigado em humanos, uma revisão sistemática da colaboração Cochrane na Dinamarca avaliou se o uso de IRS em animais poderia levar à disfunção sexual persistente. Após analisar 14 estudos, os resultados indicaram efeitos substanciais e duradouros na sexualidade de ratos expostos precocemente a IRS14, reforçando a necessidade de atenção regulatória. Com base nesses estudos em modelo animal, podemos hipotetizar que indivíduos expostos precocemente a IRS podem apresentar prejuízos sexuais na vida adulta. Contudo, esses indivíduos podem apresentar dificuldades em compreender o real impacto do uso de IRS sobre a sua sexualidade, uma vez que fizeram uso do medicamento antes da maturação sexual e, portanto, não dispõem de um nível basal com o qual possam comparar sua função sexual. Existem relatos não sistemáticos de indivíduos que, já na vida adulta, acreditavam ser assexuais até se depararem com a PSSD e perceberem que a ausência de sensibilidade genital poderia estar relacionada ao uso de IRS durante a infância ou adolescência.
A PSSD tem impactos profundos na identidade, nos relacionamentos interpessoais e nos objetivos de vida, sendo frequentemente acompanhada de sofrimento emocional intenso, desesperança e isolamento. Comunicação transparente sobre riscos, integração da PSSD na formação médica e inclusão de discussões sobre a condição durante consultas são medidas essenciais. A avaliação da função sexual basal no início do tratamento, com monitoramento contínuo, permite o reconhecimento precoce de alterações e melhor compreensão da trajetória da doença. Protocolos de consentimento informado devem ser obrigatórios sempre que houver prescrição de IRS.
Referências:
- Healy D. Antidepressants and sexual dysfunction: a history. J R Soc Med. 2020;113(4):133-135. doi:10.1177/0141076819899299
- Safak Y, Inal Azizoglu S, Alptekin FB, et al. Antidepressant-associated sexual dysfunction in outpatients. BMC Psychiatry. 2025;25(1). doi:10.1186/s12888-025-06751-1
- Healy D, Bahrick A, Bak M, et al. Diagnostic criteria for enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, finasteride and isotretinoin. Int J Risk Saf Med. 2022;33(1):65-76. doi:10.3233/JRS-210023
- Summary Safety Review – Selective Serotonin Reuptake Inhibitors (SSRIs) and Serotonin-norepinephrine Reuptake Inhibitors (SNRIs) – Assessing the Potential Risk of Sexual Dysfunction despite TreaTMent Discontinuation – Drug and Health Products Portal. Accessed February 4, 2026. https://dhpp.hpfb-dgpsa.ca/review-documents/resource/SSR00254
- Medicines Agency E. New product information wording-Extracts from PRAC recommendations on signals. Published online 2019. Accessed February 4, 2026. www.ema.europa.eu/contact
- Updated warnings about persistent sexual dysfunction for antidepressants | Therapeutic Goods Administration (TGA). Accessed February 4, 2026. https://www.tga.gov.au/news/safety-updates/updated-warnings-about-persistent-sexual-dysfunction-antidepressants
- Antidepressants. Accessed February 4, 2026. https://www.rcpsych.ac.uk/mental-health/treatments-and-wellbeing/antidepressants
- Sexual Dysfunction After Stopping SSRI Antidepressants – The New York Times. Accessed November 7, 2025. https://www.nytimes.com/2023/11/09/health/antidepressants-ssri-sexual-dysfunction.html
- ‘It feels like we’ve been lobotomised’: the possible sexual consequences of SSRIs | Mental health | The Guardian. Accessed February 4, 2026. https://www.theguardian.com/society/2024/mar/02/ssri-antidepressants-sexual-dysfunction-side-effects-consequences-libido
- BBC One – Panorama, The Antidepressant Story. Accessed November 7, 2025. https://www.bbc.co.uk/programmes/m001n39z
- Ben-Sheetrit J, Hermon Y, Birkenfeld S, Gutman Y, Csoka AB, Toren P. Estimating the risk of irreversible post-SSRI sexual dysfunction (PSSD) due to serotonergic antidepressants. Ann Gen Psychiatry. 2023;22(1). doi:10.1186/S12991-023-00447-0
- Pirani Y, Delgado-Ron JA, Marinho P, et al. Frequency of self-reported persistent post-treatment genital hypoesthesia among past antidepressant users: a cross-sectional survey of sexual and gender minority youth in Canada and the US. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol. 2025;60(7):1771-1779. doi:10.1007/S00127-024-02769-0
- How Common is Post-SSRI Sexual Dysfunction (PSSD)? – RxISK. Accessed March 18, 2026. https://rxisk.org/how-common-is-post-ssri-sexual-dysfunction-pssd/
- Simonsen AL, Danborg PB, Gotzsche PC. Persistent sexual dysfunction after early exposure to SSRIs: Systematic review of animal studies. International Journal of Risk and Safety in Medicine. 2016;28(1):1-12. doi:10.3233/JRS-160668
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