A Rede de Apoio Como um Fator Protetor para a Saúde das Mulheres

Melhores índices de apoio social são inversamente proporcionais à ocorrência de transtornos mentais.

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A Revista Latino – Am. de Enfermagem publicou no ano passado um artigo sobre o papel do apoio social no adoecimento psíquico de mulheres. As autoras analisaram a relação entre os sintomas emocionais e físicos associados a quadros psiquiátricos em mulheres e a percepção que estas apresentam sobre apoio social.

Apoio social é entendido no artigo como o auxílio disponível nas necessidades físicas, psicológicas, materiais, bem como o encorajamento oferecido pelos indivíduos de sua rede de contato. A rede de apoio consiste em pessoas e instituições com as quais o sujeito conta e confia, e podem incluir familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, entre outros.

Estudos têm mostrado a influência positiva da rede de apoio na saúde das pessoas, demonstrando melhoras nas taxas de diminuição no uso de drogas, ajudando a amenizar as consequências negativa do estresse, etc.

Em relação ao gênero, pesquisas apontam que mulheres são mais dispostas a procurar, receber e se beneficiar do apoio social. Ao mesmo tempo demonstram que pelas responsabilidades de cuidado culturalmente atribuída a elas, necessitam acionar mais sua rede de apoio. Considera-se que a percepção de apoio social deve ser considerado como um indicador de saúde mental entre as mulheres. Especialmente, porque estudos apontam que melhores índices de apoio social são inversamente proporcionais a ocorrência de transtornos mentais.

A presente pesquisa é um estudo quantitativo transversal com mulheres atendidas em uma Unidade de Saúde da Família de Ribeirão Preto -SP. A região atendida pela unidade se caracteriza pela violência, pobreza, falta de saneamento e baixa escolaridade. A amostra estimada foi de 141 mulheres na faixa etária entre 18 e 65 anos. Os instrumentos utilizados na entrevista foram um questionário sociodemográfico, o Questionário de Suporte Social (SSQ) e o Self Report Questionaire (SRQ 20).

A maior parte da amostra era casada, branca, católica, tinha um ou dois filhos, não exercia atividade remunerada, com renda familiar de dois a cinco salários mínimos compartilhada com aproximadamente três pessoas. Os casos suspeitos de transtornos mentais alcançou 43, 4% da amostra, havendo associação significativa entre ser mãe e transtornos mentais.

A maioria delas estava satisfeita ou muito satisfeita com sua rede de apoio, e apresentavam de seis a nove apoiadores. Os apoiadores mais mencionados foram
os filhos, o cônjuge e os pais. Do total, apenas sete participantes mencionaram os profissionais da saúde como apoiadores. Também notou-se associação significativa entre não citar amigos como apoiadores e transtornos mentais. Já as mulheres pouco satisfeitas com sua rede de apoio e com filhos tiveram cerca de sete vezes mais chance de apresentar sintomas característicos de algum trastorno mental em relação aquelas satisfeitas com sua rede e sem filhos.

Os resultados do estudo apontam para questões relacionadas à desigualdade de gênero e sua interação com outros atributos, como raça, renda, escolaridade, entre outros. Nesse sentido, as autoras julgam importante considerar estes atributos ao planejar ações de saúde da mulher, já que se caracteriza como um importante determinante de saúde e saúde mental.

“O fato dos principais sintomas mencionados pelas
participantes ser o cansaço, a tristeza e o nervosismo,
corrobora estudos prévios. Tal resultado, analisado à
luz das características sociodemográficas, nos remete a
uma situação de vulnerabilidade que combina aspectos
psíquicos e sociais. Entende-se que o contexto de vida
dessas mulheres contribui de modo importante para o
aumento de tais sintomas, potencializando os riscos de
apresentar transtornos mentais.”

Ter amigos na rede de apoio é um fator protetor para as mulheres, pois representa certa diversificação nas fontes de apoio social. Ter filhos apareceu nos resultados como um fator de risco, sugerindo que a responsabilidade com os filhos, atribuída as mulheres, pode contribuir para altos índices de estresse. Ao mesmo tempo, os filhos apareceram como um dos grupos de apoiadores. Outro elemento destacado é o fato dos profissionais de saúde serem os menos citados como apoiadores, quando participam de uma parte significativa da vida dessas mulheres. Entre outros fatores, as autoras se perguntaram sobre o acolhimento oferecido pelos serviços de saúde.

Dessa forma, a rede de apoio demonstra ser relevante para as questões de saúde mental, especialmente de mulheres, assim como elementos ligados a gênero, raça, renda e outros. Levando essas questões em consideração, os profissionais de saúde podem promover uma escuta qualificada para além das questões físicas, possibilitando a elaboração de ações com maior grau de resolutividade, como a criação de apoio entre pares, rodas de conversa, ações para melhorar o manejo de estresse, entre outros. A partir dessa mudança, os profissionais e o serviço de saúde podem ser percebidos por essas mulheres como parte da sua rede de apoio, ajudando a diminuir a vulnerabilidade a que estão expostas.

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Gaino LV, Almeida LY, Oliveira JL, Nievas AF, Saint-Arnault D, Souza J. The role of social support in the psychological illness of women. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2019;27:e3157. (Link)