Sobre a herança psíquica e as patologias da herança: o pensamento de Freud como ruptura a perspectiva biologicista

Os efeitos da herança psíquica podem ser devastadores quando transmitidos transgeracionalmente, pois guardam um intenso potencial patológico muitas vezes  classificado equivocadamente enquanto categoria nosológica psiquiátrica ou disfunção na bioquímica cerebral. Em função disso, torna-se necessário esclarecermos alguns pontos sobre a herança psíquica e enfatizarmos as contribuições de Freud. Tais contribuições são prévias à medicalização da própria psicanálise ocorrida nos EUA e com estudos subsequentes da psicologia do ego.

Freud propôs uma reflexão ética, política e cultural contra-hegemônica que precisa ser retomada. O pensamento de Freud sobre a hereditariedade apareceu como ruptura às teorias da degenerescência que ele combateu em várias oportunidades. A teoria da degenerescência foi introduzida por Buffon (1749) e desenvolvida por Morel (1857) com o objetivo de criar uma classificação consistente das patologias mentais que não fosse apoiada somente na diferenciação dos sintomas ou nas manifestações corporais. Morel (1857) desejava substituir uma classificação dos sintomas por uma classificação etiológica das doenças mentais, pois, somente com a determinação das causas, ele poderia associar um sistema classificatório a uma terapêutica apropriada.

A medicina do século XIX buscava comprovações materiais para
os fenômenos que estudava. Tal compreensão implicava em que o sintoma deixasse uma marca no corpo biológico, alvo do olhar de uma medicina que se esforçava para incluir-se no campo das ciências exatas. Daí, dentro de uma perspectiva organicista, o grande louvor concedido à anatomia patológica, na medida em que, supostamente, permitiria ao médico prever uma regularidade em termos de sintomatologia.
Contudo, a loucura era uma doença que não deixava marcas anatomopatológicas, tornando-se necessária uma busca de marcas concretas para justificá-la como doença. Nesse momento histórico, o interrogatório exercia uma importância fundamental na busca de dados sobre a loucura do indivíduo, pois se a marca de sua realidade não se inscrevia no corpo, deveria aparecer sob a forma de predisposições que se revelariam através de lembranças, indicando os antecedentes da doença pertencentes à família.
Portanto, a loucura seria um mal hereditário e a “família”, a loucura hipostasiada (Garcia-Roza, 2000).

A técnica do interrogatório visava, por fim, a obtenção de uma confissão, isto é, o reconhecimento, por parte do paciente, de sua própria loucura. Nesse contexto, a herança e a hereditariedade apareceriam como o grande marco explicativo das patologias mentais. As circunstâncias externas seriam simples “atualizadores” de uma predisposição mórbida transmitida por gerações (Caponi, 2012).

 O modelo de contágio e a psicologia das multidões

A noção de contágio mental, desenvolvida por Le Bon (1895), é exemplar da epistemologia social fundada no pensamento médico do século XIX. O autor caracteriza a multidão pelos traços de impulsividade, a irritabilidade, dificuldade para raciocinar, ausência de juízo e espírito crítico e exagero nos sentimentos. Kaës (2001) enfatiza o quanto uma sugestão pode ser contagiosa em aglomerações humanas. Assim, muitas vezes o que é metáfora ou símbolo torna-se, para a multidão, realidade concreta.

A influência das multidões pode transtornar ou arrastar a personalidade do
sujeito. Logo, sem mediação, o contágio se dissemina em um fluxo irrefreável.
As noções de contágio estavam ligadas às duas diferentes concepções de doença que eram
coexistentes: uma concepção ontológica, que esteve presente no imaginário de praticamente todas as culturas desde o mundo antigo, e uma concepção dinâmica, formulada no mundo grego em conformidade com a ideia de physis e que, por intermédio das teorias hipocráticas e galênicas,  constituiu o pensamento médico erudito até o século XVI (Czeresnia, 1997).

A concepção ontológica compreendia a doença como um ser com existência própria, uma entidade concreta que vem do exterior – tanto do ar, como de outros indivíduos e objetos – e que não fazia parte da natureza do homem. Era associada a algo que entra no corpo, como espíritos, possessões demoníacas ou flechas lançadas pelos deuses. A cura seria, neste caso, um esforço de expulsão da doença por meio de tratamentos mágicos (Canguilhem, 1978).

A concepção dinâmica, presente nas teorias hipocráticas, compreendia a doença como perturbação do equilíbrio e da harmonia da physis. A doença não era entendida como algo que se localizaria em alguma parte; ela era uma totalidade. Não viria do exterior e sim faria parte da natureza do homem, da sua constituição, ou seja, não era uma entidade que existiria por si só, mas um processo que ocorreria dentro do indivíduo (Czeresnia, 1997).

De acordo com Kaës (2001), Freud se apoiou nesses modelos de pensamentos que circulavam à época, ainda que em oposição, para desenvolver as bases do conceito de transmissão psíquica e a noção de hereditariedade. Kaës localiza o início da noção de transmissão psíquica em diversos apontamentos de Freud em relação às questões da hereditariedade, como será descrito a seguir.

 A hereditariedade nos textos de Freud

Um dos primeiros textos de Freud centrados na questão da hereditariedade é o artigo “A hereditariedade e a etiologia das neuroses” (1976/1896), onde ele inicia suas formulações e algumas objeções à teoria etiológica das neuroses que foi legada aos discípulos de Charcot. O papel atribuído por Charcot à hereditariedade em sua teoria é conhecido: trata-se da única causa verdadeira e indispensável das afecções neuróticas.
Não obstante as inúmeras contribuições de Charcot, reconhecidas e estimadas por Freud,
inclusive no que tange aos estudos sobre a histeria, o criador da psicanálise discordava do mestre Charcot ao tratar tanto da histeria, como mais um tópico da neuropatologia, quanto considerar a hereditariedade como causa única. Dessa forma, a histeria poderia ser concebida como uma forma de degeneração, um membro da “famille névropathique”. Para Freud, Charcot superestimou a hereditariedade como agente causativo da histeria, e não deixou espaço algum para a possibilidade da aquisição da denominada “doença nervosa”. Outras considerações formuladas por Freud à teoria de Charcot
apontavam para o papel atribuído à sífilis apenas como “agent provocateur” e a ausência da distinção entre afecções nervosas orgânicas e as neuroses, tanto no que tange à sua etiologia como a outros aspectos (Freud, 1976/1893).

Freud apresentou mais algumas objeções à teoria proposta por Charcot e elencou outras possíveis influências etiológicas da neurose. Para Freud (1976/1896) na patogênese das denominadas “neuroses maiores”, a hereditariedade preencheria o papel de uma precondição poderosa em todos os casos sendo mesmo indispensável na maioria deles. Freud reconheceu a relevância da predisposição hereditária na medida em que as mesmas causas específicas, agindo em um indivíduo saudável, não produzem nenhum efeito patológico manifesto, ao passo que, numa pessoa predisposta, sua ação provoca a emergência da neurose cujo desenvolvimento seria proporcional em intensidade e extensão ao grau da precondição hereditária. Todavia, ele acreditava que certas perturbações nervosas podem desenvolver-se em pessoas perfeitamente saudáveis e em
cujas famílias nada se pode reprovar. Em face dessa etiologia, a ação da hereditariedade é comparável à ação de um multiplicador num circuito elétrico, multiplicador este que exagera o desvio visível da agulha, mas não pode determinar a sua direção (Freud, 1976/1896). Essa metáfora é interessante, tendo em vista que alude às possibilidades de transformação do destino do sujeito. Caso contrário, o sujeito estaria fadado a
repetir desoladamente.

No artigo “A etiologia da histeria” (1976/1896), Freud continuou com as suas objeções em relação à formulação de Charcot de que somente a hereditariedade mereceria ser reconhecida como a verdadeira causa da histeria. Freud (1976/1896) preocupou-se em não determinar a hereditariedade como evidência conclusiva da origem da neurose e, nesse sentido, destacou que a existência de perturbações nervosas adquiridas é tão provável quanto a existência de perturbações hereditárias. Assim, considerou que as experiências infantis deveriam ser consideradas como traumas que levam tanto a uma reação histérica nos eventos da puberdade quanto ao desenvolvimento de sintomas histéricos. Dito de outro modo, os sintomas histéricos seriam decorrentes de reminiscências que se ligariam a algum evento traumático através de cadeias
associativas. Entretanto, vale dizer que se Freud desloca a importância atribuída à hereditariedade para as experiências infantis, ele não dispensa de modo absoluto o papel da primeira, contudo, compreendendo-a para além do determinismo biológico defendido por Charcot.

Freud propunha, ao criar a psicanálise, algo muito diferente da ciência cujo caráter eugênico avançava cada vez mais. Contudo, ele não conseguiu impedir a marcha
desse projeto de erradicação das anomalias que se mantém até os dias de hoje. Atualmente, a ciência tem, de modo geral, a proposta de intervenção de purificar a matriz biológica das futuras gerações, promovendo ingerências antes mesmo da fecundação. Nesse caso, a herança é compreendida como uma herança genética na qual a subjetividade não é levada em conta.

Embora Freud nunca tivesse descartado a influência de fatores hereditários, o que lhe interessava era a genealogia do sujeito na relação com o outro no campo da linguagem. Na teoria freudiana, a genealogia do sujeito se apoia na construção de um aparelho psíquico, constituído na, e pela linguagem, a partir da relação com o Outro.  A partir da teoria psicanalítica, ser herdeiro é uma condição constitutiva de todo sujeito. Cada pessoa  tem  como  tarefa – nada trivial, diga-se de passagem –   organizar  e  transformar  a  herança  psíquica.  Este árduo processo não pode ser desconsiderado.

Referências:

Canguilhem, G. (1978). O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Caponi, S. (2012). Loucos e degenerados: Uma genealogia da psiquiatria ampliada. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ.

Czeresnia, D. (1997). Do contágio à transmissão: Ciência e cultura na gênese do conhecimento epidemiológico. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ.

Freud, S. (1976). Charcot (vol III). Edição Standard brasileira das obras completas de Freud. Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1893)

Freud, S. (1976). A hereditariedade e a etiologia da neurose (vol. V). Edição Standard brasileira das obras completas de Freud. Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1896).

Freud, S. (1976). A moral sexual civilizada e a doença nervosa moderna (vol. VII). Edição Standard brasileira das obras completas de Freud. Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1908).

Freud, S. (1976). Totem e Tabu (vol. XIII). Edição Standard brasileira das obras completas de Freud. Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1913)

Garcia-Roza, L. (2000). Introdução à metapsicologia freudiana: Artigos de metapsicologia: Narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente (1914-1917). Vol. 3. Rio de Janeiro: Zahar.

Le Bon, G. (2005). Psicologia das massas. Lisboa: Esquilo. (Texto original publicado em 1895).

Morel, J. (1857). Traité des Dégénérescences Physiques, Intellectuelles et Morales de lÉspèce Humaine et des Causes qui Produisent ces Variétés Maladives. Paris: Bailliére.