As vozes são muito mais que um sintoma: um artigo sobre os Ouvidores de Vozes

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Apresentando a compreensão de como pessoas que participaram do grupo de ouvidores de vozes no SUS lidam com suas experiências, além de explorar estratégias de enfrentamento individuais, desenvolvidas pelas vivencias de cada um com as suas próprias vozes, o artigo As vozes são muito mais que um sintoma, fala sobre o Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes, que atua como um instrumento de socialização, por meio da normalização da experiência, da maior autoaceitação e da redução do estigma.

Ouvir vozes tem sido constantemente associado aos diagnósticos de transtornos mentais, na contracorrente desse paradigma, o Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes ganhou força e autonomia com o passar dos anos, dando respeito e qualidade de vida para pessoas que experienciam esse fenômeno, sendo um movimento que acredita, também, na necessidade de combater os preconceitos que envolvem a experiência de ouvir vozes e fomenta o apoio as pessoas que necessitam.

Uma das formas importantes na atuação do movimento é a criação do grupo de Ouvidores de Vozes. Nesses grupos, as pessoas que passam por tais situações podem se encontrar e partilhar experiências, validando os seus sentimentos e possibilitando a vivência de pertencimento dos indivíduos, sendo assim, atuando no enfrentamento do silenciamento e do isolamento do sujeito. O movimento pode ser visto, então, como uma estratégia de desinstitucionalização com um forte status de luta contra os estigmas e preconceitos.

O artigo aponta que no último guia da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Saúde Mental, são indicadas e valorizadas ações que estimulem o recovery e a participação comunitária, bem como criações de estratégias centradas na pessoa e que respeitem os direitos humanos. Entre elas, os grupos de ouvidores são citados como modelos a serem seguidos. Portanto, é de interesse do campo da Saúde Coletiva e da Reforma Psiquiátrica Brasileira a criação de estratégias baseadas nesse paradigma, pois veem o indivíduo, a sua história e seus contextos em sua integralidade.

A pesquisa apresentada pelo artigo, foi realizada em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPs) de Curitiba-PR, através de entrevistas em profundidade e elaboração de diário de campo via observação participante, levando em conta a singularidade de cada indivíduo e buscando conhecer as vivências e representações acerca da experiência vivida. As entrevistas foram feitas no período entre setembro e outubro de 2020, com os participantes do grupo. O recrutamento privilegiou participantes que frequentaram regularmente o referido grupo de Ouvidores de Vozes, por pelo menos um mês. Os dados foram coletados de cinco entrevistas.

Com as entrevistas, percebeu-se que as vozes exercem impacto na vida dos sujeitos e que eles precisaram estabelecer formas de lidar com elas para conseguir seguir com suas atividades cotidianas. As descrições de como lidam com essas situações, frequentes em seu dia a dia, foram variadas. As ações que essas pessoas utilizam para lidar com as situações, por meio de sua vivência e da experimentação, podem ser denominadas como mecanismos de enfrentamento. Uma pesquisa que realizou revisão sobre o estado de conhecimento de pesquisas, com foco no diagnóstico de esquizofrenia e sintomatologia alucinatória, identificou que os mecanismos de enfrentamento utilizados podem ser voltados para a diminuição das vozes, ou então, podem objetivar melhora dos sentimentos associados a elas.

Os entrevistados contaram que suas reações variavam de acordo com a vivência. Neste trecho por exemplo:

“Que é um constante aprendizado também, sim. Depende a pessoa que é e o que ela representa, o que aquela visão representa, você vai lidar diferente. É meu irmão, por exemplo, vou conversar sobre a minha mãe, entende?” (Frida)

É válido, ainda, compreender que as estratégias empregadas na prática, mediante a vivência pessoal da situação, têm grande relevância por colocarem os sujeitos em protagonismo, valorizando sua própria forma de construir recursos para amenizar o sofrimento. Nesta pesquisa, por exemplo, Virgínia contou que conseguia lidar com as vozes por meio da compreensão de que não precisava responder às demandas delas, entendendo que podia realizar julgamento e escolha. Segundo ela, as vozes mandavam fazer coisas ruins, as quais interpretava como demoníacas:

“Pensei: não vou fazer isso porque são as vozes que estão mandando. É coisa ruim, daí eu não fiz.” (Virgínia)

De modo parecido, outro participante do grupo relatou que, para sair do estado de persecutoriedade (perseguição), utilizava o raciocínio lógico. Conseguia pensar que se não fez nada para ser perseguido, então isso não devia estar realmente acontecendo e esses pensamentos permitiam que ele se tranquilizasse. Podemos afirmar que uma boa vinculação com os profissionais tende a predispor melhora com relação aos sentimentos e, por essa perspectiva, é importante que os profissionais valorizem a experiência dos viventes, realizem o cuidado centrado na pessoa e compartilhem a tomada de decisões.

Ao longo da pesquisa os entrevistados mencionaram atividades prazerosas e que exigiam concentração ou criatividade, como práticas manuais ou corporais. Demonstrando que a realização de atividades pode ajudar pelo fato da pessoa que está escutando vozes conseguir desviar o foco delas, podendo se sentir menos invadida.

“As coisas nós pintávamos, nós pintávamos pano de prato, nós fazíamos vaso tudo lá com terapeuta lá embaixo. Ajudava mais eu, eu não ficava escutando vozes, chegando em casa mais animada, né?” (Virgínia)

“Eu tenho que respirar, que eu aprendi que nem agora, respira inspira segura, conta até seis e vai soltando devagarinho. Esse eu aprendi e me ajudou muito.” (Frida)

O artigo expõe diversas estratégias para lidar com vozes, visões e sensações corporais consideradas estranhas ou bizarras. As pessoas que as vivenciam utilizam tais estratégias em seu dia a dia, inclusive modos complexos de interação que tendem a ser deixados de lado ou a ser pouco explorados nos atendimentos em saúde.

Essas formas de lidar com tais fenômenos vão muito além das abordagens clássicas de tratamento e, à medida que são conhecidas, poderão ser estimuladas, desenvolvidas ao longo do tempo e compartilhadas. São algumas delas: refletir e realizar escolha própria; usar a racionalidade; comunicar-se com alguém de confiança; contar com os as profissionais; realizar atividades que envolvam concentração e criatividade; interagir com vozes.

Ao mesmo tempo, a participação nos grupos de ouvidores de vozes garante interação social e reforça a percepção de não estar sozinho. O estímulo e o desenvolvimento de grupos de ouvidores de vozes podem permitir que as pessoas contem o que vivenciam de modo protegido, suspendendo, mesmo que temporariamente, o estigma social nesses espaços para funcionarem como local de aprendizado e troca de experiências, respeitando as singularidades de cada indivíduo, mas, ao mesmo tempo, auxiliando na manutenção da esperança, no protagonismo, no apoio mútuo e na construção coletiva.

Por fim, o artigo destaca que a diversidade de pessoas participantes, com suas variadas experiências, estratégias de enfrentamento, histórias de vida e ressignificações, pode garantir exemplos e trazer esperança de uma vida melhor para aquelas que estão se deparando com tais fenômenos. Tal enfoque amplia o próprio paradigma compreensivo clássico da Psiquiatria, que enxerga o fenômeno como apenas um sintoma a ser controlado. Pelo contrário, esse olhar, por meio da experiência, permite a estruturação de uma rede solidária, comunitária, que não depende de serviços de saúde para que aconteça.

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Nota do Editor: Todos os artigos, matérias, notícias e traduções publicadas no Mad in Brasil são previamente autorizadas e revisadas pelo nosso editor-chefe, Paulo Amarante.