O DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO E A MEDICAÇÃO PSIQUIÁTRICA: O QUE NÃO COMBINA

Scientific Symposium Pharmaceuticals – risks and alternatives (Gothenburg, Sweden)

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No dia 15 de outubro em Gotemburgo, Suécia, ocorreu um Simpósio internacional que abordou a pesquisa e as evidências baseadas na prática com relação às alternativas ao tratamento com drogas psiquiátricas.  Um grupo de cientistas internacionalmente conhecidos, clínicos, e também pessoas com as suas próprias experiências de vida, estiveram juntos para discutir essa questão fundamental da saúde mental e apresentar alternativas.

Mad in Brasil inicia a publicação de algumas das apresentações. Um resumo em português de cada palestra estará sendo disponibilizado para o público em geral. E você poderá ver na íntegra o vídeo da apresentação.

A primeira palestra aqui apresentada é a do Dr. Sami Tamimi. Ao final você pode encontar um resumo da biografia e bibliografia do Dr. Sami.

O Dr. Sami abre a sua apresentação enumerando alguns dos dilemas que ele enquanto clínico e educador enfrenta no cotidiano. Embora não tenha soluções, ele mostrou como ele vem enfrentando esses dilemas. São dilemas que provavelmente a maioria de nós enfrenta. Pois como ele diz, lidar com a vida real é confuso, muito difícil, pois implica entre outras coisas saber negociar com as pessoas.

São três os dilemas que ele sublinhou:

  • O primeiro é como lidar com as pessoas a quem foram prescritas drogas psiquiátricas.
  • O segundo dilema é que as pessoas recebem uma enorme propaganda a respeito das medicações psiquiátricas. As pessoas já chegam esperando que o diagnóstico psiquiátrico será útil e que há medicamentos que ajudarão a aliviar seus sofrimentos.
  • Por conseguinte, como trabalhar em equipe? Quando o diagnóstico e a prescrição de medicamentos psiquiátricos são a regra.

O que se transformou em senso-comum:

Que há ‘anti-psicóticos’. Ou que há ‘anti-depressivos’.  Mas não existe isso a que se chama de ‘antipsicóticos’ ou de ‘antidepressivos’.  Isso é algo que o marketing utiliza, a fim de vender a ideia de que existe um tratamento específico para uma específica condição.

Na verdade, essas drogas ‘psicoativas’ são químicas usadas em qualquer pessoa, ‘normal’ ou com um diagnóstico de ‘transtorno mental’.

Um paciente chega com uma queixa: depressão:

Dr. Sami ilustra a problemática com uma situação muito comum na clínica. Uma paciente chega se queixando de um persistente baixo humor. Ela já esteve em terapia cognitivo comportamental (TCC) mas se queixa que essa terapia não lhe tem ajudado. Ela diz que uma amiga sua pensa que ela necessita de um ‘antidepressivo’, na medida em que nada lhe ajudou até agora. Assumamos que se concorde com a prescrição, diz o Dr. Sami, como isso será explicado à paciente?

Pelo modelo médico:

A razão para tal sofrimento (um persistente baixo humor) é que há um desequilíbrio químico.

É dito à paciente: “Você irá tomar esse medicamento prescrito por mim, por um período; irei suspendê-lo e iremos ver se você tem uma recaída”.

Portanto, o que está sendo dito é que está ocorrendo um desequilíbrio na química no cérebro e que a medicação irá corrigir tal desequilíbrio, quer dizer, o tratamento prescrito irá ajudar o paciente.

Na prática o que está ocorrendo?

  • Se a meta do terapeuta é mudar um estado mental (psiquico), logo isso é terapia psíquica (psicoterapia).
  • O quadro de referência empregado (a mensagem e a relação interpessoal criada), usado quando se diagnostica e prescreve, é com frequência muito mais importante do que o suposto efeito químico. Não há nenhuma evidência de ‘desequilíbrio químico’ ali.
  • Ora o modelo biomédico é provavelmente o pior quadro de referência a ser usado quando se prescreve medicamentos. Porque está se empregando um agente externo ao que é ‘psicoterápico’.

Consequentemente, são construídas ideias de que se trata de ‘doenças crônicas’, porque é isso o que de fato ocorre com tais ideias construídas em torno da abordagem biomédica da psiquiatria. E o modelo psicofarmacológico é um desses meios.

Dr. Sami apresenta um quadro com evidências científicas que sinalizam o que ele chama de ‘más notícias’.

O hiato entre o laboratório/clínica

  • Entre 50 -70% das pessoas se recuperam sem serem tratadas, sem intervenções.
  • 75% das pessoas que entram em tratamento não apresentam melhorias (USA).
  • Apenas 15% no UK alcançam recuperação com esse paradigma.
  • Pesquisas na Austrália. Apesar de haver dobrado os recursos em saúde mental, o que resultou foi o aumento de pessoas em tratamento e resultados muito abaixo do esperado. O que ocorreu? Foi o aumento de pessoas tomando medicamentos. E não se recuperando.
  • As pessoas que se recusaram a aceitar a ideia de doença mental têm muito mais chances de se recuperarem do sofrimento.

Embora há sempre o problema de falta de recursos destinados à assistência em saúde mental, Dr. Sami chama a nossa atenção que não esse o problema mais importante que está em jogo, quando o foco se volta para a falta de recuperação dos que são tratados por esse paradigma biomédico da psiquiatria.

O principal problema não é a falta de recursos para a multiplicação desse modelo de assistência.

Dr. Sami apresenta um quadro dramático sobre o que ocorre no mundo com os pacientes em tratamento por longo-prazo.

Pacientes em tratamento por longo-prazo:

  • USA: pessoas que dependem de pensão por ‘doença mental’ – via o Supplemental Security Income (SSI) ou Social Security Disability Insurance (SSDI) – mais do que dobrou: de 1 em 184 americanos em 1987 para 1 em 76 em 2007.
  • UK: A doença mental se tornou a principal razão para a dependência por ‘incapacitação’ em 2011. Cerca de 50% é por diagnóstico de ‘depressão’. Enquanto que outras condições médicas têm melhorado ao longo do tempo.
  • Esse padrão é replicado em todos os países ocidentais que têm aumentado o seu financiamento para os serviços de saúde mental.

Como bem pode ser observado, o aumento do financiamento para o tratamento de problemas ‘psiquiátricos’ não é acompanhado pela melhoria das condições (‘transtornos mentais’), como ocorre com as enfermidades em geral.

O que se observa é que quanto mais pessoas entram no sistema de assistência psiquiátrica mais pessoas ficam doentes; sendo que uma parcela significativa para o resto de suas vidas.

Dr. Sami faz uma análise da visão dominante que está sustentando essa epidemia: a proliferação de serviços psiquiátricos sendo acompanhada pela epidemia de doenças mentais.  Trata-se do que ele chama de ‘tecnologia psiquiátrica’.

A visão de uma tecnologia psiquiátrica:

– Um sistema de classificação válido.

– Trilhas causais biológicas e psicológicas.

– Tratamento tecnológicos que possam ser aplicados independentemente do contexto.

O que está implicado nesse modelo tecnológico:

O modelo tecnológico:

– Privilegia a técnica, em detrimento da relação.

– Privilegia o diagnóstico, em detrimento das expectativas.

– Privilegia o processo, em detrimento dos resultados.

– Privilegia os manuais, em detrimento do contexto social.

Dr. Sami desconstrói os componentes dessa visão ‘tecnológica’.  Primeiramente, sublinhando que na verdade não há ‘diagnóstico psiquiátrico’. Na teoria médica, diagnóstico é explicação para certos sintomas; é o que se aprende desde os primeiros dias da formação acadêmica em medicina.  E o que ocorre com a medicina mental (quer dizer, com a psiquiatria) é que não há ‘diagnósticos’ propriamente ditos.

Em Psiquiatria não há diagnósticos:

  • Os diagnósticos em psiquiatria não podem ser explicados (exceto demências).
  • Considere-se a questão ‘O que é TDAH’ e compare-se com a questão ‘O que é diabetes’?
  • Considere o que ocorre quando nós argumentamos que ‘TDAH causa hiperatividade e falta de atenção’!
  • Em psiquiatria nós temos classificação e não diagnóstico.
  • Ecossistemas usam múltiplas classificações – o que é o mais apropriado para sistemas com contexto rico e dinamicamente abertos.

Dr. Sami apresenta resultados de pesquisa da qual ele é um dos colaboradores. Trata-se do Projeto Colaborativo de Pesquisa sobre Depressão.

Foram comparadas quatro abordagens de tratamento (Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Interpessoal, Antidepressivos, Placebo) aplicadas em diversos locais de assistência. As expectativas de tratamento e a aliança criadas entre paciente e profissional de saúde mental, nas duas primeiras sessões, são os melhores preditores dos resultados ao longo de cada um dos tratamentos. As psicoterapias (Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia Interpessoal), sem as condições criadas pelos antidepressivos, em longo prazo foram as práticas que garantiram menor probabilidade de recaída, e mais semanas de mínimos sintomas ou de nenhum sintoma.

Dr. Sami chama a atenção para algo que é muito comum escapar da clínica. Ele diz: “Se você encaixa a sua abordagem em um modelo específico tem menos chances de ter bons resultados”.  A própria importância do efeito placebo ainda é pouca conhecida e desenvolvida.

Achados centrais da pesquisa sobre resultados: Contexto e relações

Contexto e Relações:

  • A pesquisa mostra que a psicoterapia é efetiva para problemas de saúde mental, principalmente como um ‘catalisador’.
  • Modelo ou técnica tem um mínimo impacto nos resultados.
  • Fatores extra-terapêuticos tais como circunstâncias sociais e motivação têm o maior impacto nos resultados.
  • E a qualidade da aliança terapêutica é de suma importância.
  • Outras ideias, tais como um sistemático monitoramento de resultados, a abertura dialógica, o pensamento sistêmico, a ‘aativação dos recursos’, todas são ideias promissoras.

Daí a ênfase a ser dada deve ser na ‘relação’ em ‘contexto’, e não na técnica.  Trabalhando-se com as ‘motivações’ e as ‘expectativas’, e criando janelas de oportunidades.

Voltando à problemática da medicação.  Quando necessária, as prescrições devem ser apenas por um tempo limitado.

Alguns dos livros escritos pelo Dr. Sami Timimi, entre outros:

Re-thinking Autism: Diagnosis, Identity and Equality

A straight talking introduction to children’s mental health problems

Livros em co-autoria, entre outros:

Dimimi, S., Cohen, C. Liberatory Psychiatry: philosophy, politics and mental health.

Dimimi, S., Maitra, B. Critical voices in child and adolescent mental health

 

 

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Estou na busca de um tratamento alternativo, sem medicação alopata para meu filho que tem 39 anos e a 20 eu estou tratando com a psiquiatria convencional, ele foi diagnosticado sendo portador de transtorno bipolar do humor, usa diariamente lítio em altas dosagens 1.800 mg + depakene 3 ao dia e respiridona 4 dia e diazepan de 5mg 1 a noite. Quando ele fica internado toma altas dosagens haloperidol injetado e clonazepan.
    Após o primeiro surto,a vinte anos atrás, ele nunca mais se livrou da medicação , só veio engordando muito e ficando instável , já tem 20 internações em hospital psiquiátrico.
    Apesar de ser totalmente ignorante no assunto, eu penso que esse tipo de tratamento não funciona,portanto , gostaria da ajuda dos senhores para me indicar uma terapia alternativa que não prejudicasse tanto o organismo do meu filho.
    Desde já agradeço e aguardo ansiosamente uma resposta
    Sergio Guimarães 25/01/2017