Recente Estudo de Meta-Análise Sobre Eficácia dos Antidepressivos

A meta-análise de Cipriani e colegas na realidade não traz nenhuma comprovação real de eficácia, recaindo sobre os mesmos erros de outros estudos.

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O mais recente artigo de Joana Moncrieff, psiquiatra, membro da Divisão de Psiquiatria da University College London, faz uma crítica a recente meta-análise sobre a eficácia dos antidepressivos, realizada por Cipriani e colegas (Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis) e publicada pela revista The Lancet.

O artigo intitulado What does the latest meta-analysis really tell us about antidepressants? (O que a recente meta-análise realmente nos diz sobre antidepressivos?) saiu na revista Epidemiology and Psychiatric Sciences, e propõe a reflexão sobre algumas falhas no artigo de Cipriani e colegas. A meta análise incluiu dados de ensaios comparativos que ausentes no grupo placebo, além de ensaios de curto prazo sobre tratamentos de antidepressivos, de oito semanas em média.

Para aqueles que não estão familiarizados com metodologias científicas, a meta-análise é uma revisão de literatura que compara dois ou mais estudos, realizando uma análise estatística, com o objetivo de integrar os estudos, combinando-os e resumindo seus resultados.¹

O principal resultado de eficácia é a ‘taxa de reposta’, que demonstra que ser um e meio a duas vezes mais provável que pessoas tratadas com antidepressivos apresentem essa taxa de resposta do que os participantes do grupo placebo. Porém, ‘resposta’ é uma categoria artificial, arbitrariamente construída fora dos scores das escalas de depressão. Na realidade, os antidepressivos produzem alterações mentais e físicas, como náuseas, boca seca, tontura, sonolência, embotamento emocional, entre outros. Essas mudanças possibilitam que os participantes percebam se eles foram alocados no grupo do antidepressivo ou no do placebo. Isso pode explicar porque a amitriptilina aparece como sendo mais eficaz no estudo de Cipriani e colegas, já que é um dos antidepressivos que possui alterações físicas e mentais mais visíveis.

Outro problema é que frequentemente as pesquisas com antidepressivos, incluem pessoas que já estão usando esta medicação e que precisam parar de tomá-las para participar do estudo. Sabemos que os efeitos de abstinência duram cerca de uma a duas semanas. Os estudos não tentam identificar quais são os efeitos da abstinência, o que pode acabar sendo confundido com os sintomas da depressão no caso dos participantes do grupo placebo. Os estudos em que não existe grupo placebo comparativo apresentam respostas mais altas dos participantes com o uso de antidepressivos do que naqueles estudos em que existe também o grupo placebo, o que demonstra que os resultados dos estudos são influenciados pelas expectativas dos participantes em receber o antidepressivo.

Cipriani e colegas olham apenas para os dados de tratamentos de curto-prazo, quando, na vida real, as pessoas utilizam antidepressivos durante anos de suas vidas. O grande estudo longitudinal STAR-D demonstrou que o número de pessoas que aderiram à recomendação de tratamento e que se recuperaram e não tiveram recaída foi surpreendentemente baixo (108 de 3110 pessoas!). Além disso, outro estudo demonstra que não há grandes diferenças entre o grupo controle e o placebo em casos de depressão grave.

Moncrieff termina dizendo que a mais nova meta-análise não resolve o debate sobre a utilidade dos antidepressivos, mas as diretrizes clínicas continuam a recomendá-los e muitas pessoas esperam por isso, persuadidas de que a depressão é causada por um desequilíbrio químico no cérebro, mesmo que não hajam evidências científicas suficientes comprovando isso. No entanto, os antidepressivos não são placebos e causam uma série de alterações físicas e mentais, estudos demonstram que a utilidade desses efeitos para o tratamento da depressão é mínimo. Portanto, é necessário que os médicos considerem todos esses fatores para tomar decisão informada sobre usar ou não antidepressivos.

O artigo de Moncrieff revela novamente que as pesquisas sobre antidepressivos estão enviesadas, procurando demonstrar a todo custo que os antidepressivos são sim eficazes, quando na realidade a ciência está longe de saber o que realmente acontece com nosso cérebro nos casos de depressão e do uso de antidepressivos. Sendo assim, é necessário que os pacientes/usuários sejam devidamente esclarecidos sobre as poucas evidências da eficácia dos antidepressivos e as possíveis consequências de seu uso, para que dessa forma o paciente/usuário possa utilizar de sua autonomia para decidir, conjuntamente com o profissional, o melhor tratamento para seu caso.

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Moncrieff J. What does the latest meta-analysis really tell us about antidepressants? Epidemiol Psychiatr Sci. 27(5):430-432, oct. 2018. (link)

¹http://www.uece.br/nutrindo/index.php/noticias/14-lista-de-noticias/344-como-prometido-breve-definicao-d-emeta-analise

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