Suicídio Entre os Povos Indígenas Guarani e Kaiowá

O Artigo traz a discussão sobre os altos índices de suicídio entre indígenas, chegando a ser maiores que a taxa da população brasileira em geral e do índice global.

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O Suicídio entre o povo Guarani e Kaiowá é tema do artigo Onde e Como se Suicidam os Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul: Confinamento, Jejuvy e Tekoha, de autoria de Pamela Stalino, Marcos L. Mondardo e Roberto C. Lopes, todos da Universidade Federal da Grande Dourados (MS).

O objetivo do trabalho foi analisar onde e como ocorrem os suicídios destes dois povos indígenas na contemporaneidade. Para tal, os autores realizaram uma pesquisa qualitativa de análise documental, com reportagens publicados nos principais jornais do estado do Mato Grosso do Sul. A partir da combinação dos descritores: suicídio, Guarani, Kaiowá, índio e indígena, a busca foi realizada em 23 jornais, mas apenas 12 deles apresentaram as combinações exigidas. A amostra selecionada foram de 100 reportagens que informaram 105 ocorrências de suicídio  no período de 2002 a 2018.

O artigo inicia com uma retrospectiva histórica sobre a luta pelo direito à saúde dos povos indígenas brasileiros, desde a criação da Funai em 1967 até a criação do Sesai em 2010 (Secretaria Especial de Saúde Indígena). Depois, o artigo apresenta dados do Ministério da Saúde sobre a mortalidade por suicídio dos povos indígenas, quase três vezes maior que os da população em geral, e até mesmo maior que as taxas mundiais apresentadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Dentre os suicídios de indígenas, os casos entre Guarani e Kaiowá das reservas indígenas da região sul de MS são os maiores do estado.

A saúde para os Guarani e Kaiowá está estreitamente ligada à questão da luta pela terra. Portanto, os autores decidiram analisar a situação da saúde indígena por meio do debate de território e territorialidade, na luta pela terra. Apesar das concepções e modalidades de territórios e territorialidades entre os povos indígenas variarem, é comum entre os diferentes povos que o território seja fundamental para a produção de saúde.

“O território para os povos originários é fundamental para a produção de saúde  e reelaboração cultural de seus modos de ser por meio da relação entre natureza, cultura e relações de poder/resistência.”

A pesquisa detectou que os municípios de Dourados e Amambai são aqueles que apresentam os maiores números de ocorrência, 40% e 21% respectivamente, o que coincide os Relatórios de violência contra os povos indígenas do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) do período de 2003 a 2013.

Após uma análise dos autores sobre os conflitos por terra nesta localidade, sobre a explicação que os indígenas dão para os suicídios e a importância da terra para esses povos, os autores concluem que o suicídio entre os povos Guarani e Kaiowá é um fenômeno grave e complexo, influenciado por questões históricas, cosmológicas e territoriais, próprias da luta pela territorialidade (teko). As questões histórias perpassam pela desterritorialização promovida pelo confinamento em reservas, a vivencia forçosa em pequenas áreas demarcadas pelo Estado, gerando falta de perspectiva de vida e produtiva nas reservas, a luta pela terra e os conflitos territoriais com os fazendeiros.

“Em que medida pode-se pensar que a prática por enforcamento se relaciona simbolicamente ao ato de calar-se, por não ter voz, não ser ouvido, ser marginalizado e invisibilizado?”

Dessa forma, ressalta-se a necessidade de políticas públicas afirmativas com equipes multidisciplinares, com diversos segmentos da sociedade, indígenas e não indígenas, e pesquisadores de diferentes áreas. Além disso, sugere-se a criação e implementação do CAPS indígena, com a participação de atores institucionais, como o Sesai e lideranças religiosas indígenas, valorizando assim o conhecimento tradicional, dos rituais respeitando a cosmologia de cada povo.

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STALIANO, Pamela; MONDARDO, Marcos Leandro; LOPES, Roberto Chaparro. Onde e Como se Suicidam os Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul: Confinamento, Jejuvy e Tekoha. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 39, n. spe,  e221674,    2019 . (Link)

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