A Solidão Aumenta os Riscos de Graves Problemas de Saúde Mental, além dos Físicos

Verificou-se que a solidão prediz e é reforçada por graves transtornos mentais

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Um estudo recente publicado em Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology examina a relação entre a solidão e os “transtornos mentais comuns” de gravidade variável. Realizando uma análise longitudinal em uma coorte de adultos holandeses com idades entre 18 e 64 anos, os autores descobriram que a solidão prediz o início de transtornos mentais comuns (TMC) graves, mas não de TMC de leve a moderado. Eles também descobriram que os TMC graves preveem um aumento da solidão ao longo do tempo.

“Estudos em larga escala de jovens, de meia idade e idosos, na população em geral, relatam taxas de solidão que variam de 14 a 47%, escrevem Jasper Nuyen e coautores. “Vários estudos transversais de base populacional descobriram que a solidão está fortemente relacionada a transtornos de humor e ansiedade em adultos (incluindo idosos), e estudos recentes também sugerem um vínculo transversal com transtornos por uso de substâncias”. 

Solidão pode ser definida como uma situação vivenciada por um indivíduo na qual há uma ausência desagradável ou inadmissível de (ou qualidade de) certos relacionamentos. A solidão prediz uma variedade de problemas de saúde mental e física, de modo que alguns pesquisadores nos EUA a chamam de ameaça à saúde pública.

O vínculo social de qualidade é amplamente considerado como sendo uma necessidade humana fundamental, embora dois em cada cinco estadunidenses relatam que “às vezes ou sempre sentem que seus relacionamentos sociais não são significativos”. Mais da metade de todos os estadunidenses relatou sentir que ninguém os conhece bem. Muitos países europeus também mostram altas taxas de solidão, embora países como Portugal, Grécia e outros possam ter menos incidência dessa epidemia.

“Existem algumas evidências de pesquisas longitudinais baseadas na população sugerindo que a solidão aumenta o risco de aparecimento de ansiedade e transtornos depressivos”, escrevem os pesquisadores.

“Entre os adultos com idades entre 30 e 31 anos no início do estudo (baseline), durante um período de 13 anos de acompanhamento (follow-up) verificou-se que a solidão aumentou o risco da primeira internação hospitalar ocasionada por um transtorno de ansiedade, assim como após o ajuste por idade, renda e número de doenças físicas.  Um estudo anterior entre adultos mais velhos mostrou que a solidão verificada no início do estudo previa a incidência da depressão incidente em um follow-up de três anos.”

O presente estudo busca melhorar e expandir as pesquisas existentes sobre os efeitos da solidão na saúde mental. A maior parte da literatura existente concentra-se em ansiedade e depressão, mas Nuyen e seus coautores acreditam que uma orientação mais ampla na abordagem dos transtornos mentais ajudará a esclarecer melhor a epidemia de solidão. Além disso, grande parte da pesquisa anterior se concentrou em populações clínicas e de idosos. Os autores do presente estudo concentram-se em populações adultas na Holanda que não estão em clínicas em geral.

Dados longitudinais após uma coorte de adultos holandeses foram extraídos do The Netherlands Mental Health Survey and Incidence Study-2(NEMESIS-2), com adultos de 18 a 64 anos. Um método de acompanhamento de três anos foi usado para examinar os efeitos a longo prazo da solidão na saúde mental e da saúde mental na solidão. Um total de 6646 adultos holandeses foram entrevistados face-a-face, no começo com o suporte de um computador, com várias entrevistas de acompanhamento, ao longo dos três anos de follow-up.

O número de entrevistados disponíveis diminuiu a cada acompanhamento, de 5303 para 4618 e, por fim, para 4007. Os dados da segunda e terceira sessões de entrevistas de acompanhamento foram utilizados no presente estudo, a fim de analisar os efeitos da solidão a longo prazo, usando a escala de solidão De Jong Gierveld.

Os “transtornos mentais comuns” foram classificados de leve a moderado até grave, usando o DSM-IV e o CID. Foram incluídos os seguintes transtornos: transtornos do humor (depressão maior, distimia e transtorno bipolar), transtornos de ansiedade (transtorno do pânico, agorafobia sem transtorno do pânico, fobia social, fobia específica e transtorno de ansiedade generalizada) e transtornos relacionados ao uso de substâncias (álcool / drogas abuso e dependência).

As seguintes condições foram consideradas como ‘graves’: transtorno bipolar I, dependência de substâncias com uma síndrome de dependência fisiológica, tentativa de suicídio nos últimos 12 meses ou comprometimento grave auto-relatado em pelo menos duas áreas de funcionamento.

No início do estudo, uma sub-coorte sem TMC de 12 meses foi descoberta e a taxa de solidão nesse grupo foi de 16,8%. Após três anos, 5,8% desse grupo desenvolveram um TMC leve a moderado em 12 meses, enquanto 2,8% desenvolveram um dos TMC graves. Uma análise de regressão logística multinomial univariada mostrou que a solidão basal estava associada ao aparecimento tardio de TMC graves, mas não de um TMC leve a moderado, o que também foi apoiado por três regressões multivariadas.

38% dos entrevistados com um TMC de 12 meses desde o início relataram sentir solidão. 45,3% desses entrevistados continuaram experimentando TMCs no seguimento, sendo 24,1% leve a moderado e 21,2% grave. Novamente, as análises de regressão univariada e multivariada mostraram uma ligação entre a solidão e a continuação de TMC graves, mas não de TMC leve a moderada.

De um grupo que respondeu inicialmente como não tendo solidão, 7,7% apresentaram algum TMC leve a moderado em 12 meses e 3,3% relataram TMC graves. Depois de três anos, quase 10% desse grupo relatou ter solidão.

“O TMC grave observado no início do estudo (baseline) permaneceu um preditor do início da solidão na análise multivariada, também ao se ajustar para o suporte social percebido no início do estudo. Nenhum dos três modelos multivariados revelou que algum TMC leve a moderado estava na linha de base associada ao desenvolvimento da solidão no seguimento do estudo”, escrevem Nuyen e coautores.

Por fim, da coorte que relatou ter solidão no início do estudo, 12,1% apresentaram um TMC leve a moderado no acompanhamento, enquanto 15,3% apresentaram um TMC grave. 59,9% relataram solidão no follow-up seguinte.

Curiosamente, a relação entre a solidão verificada no início do estudo e os TMC graves no seguimento desapareceu quando os pesquisadores controlaram o suporte social percebido.

“Isso concorda com uma descoberta anterior de que, entre pacientes mais velhos com transtorno depressivo, a associação entre solidão inicial e o curso ruim da depressão se tornou não significativa após o ajuste para outros aspectos das relações sociais, incluindo o suporte social subjetivo”.

 O artigo teve vários pontos fortes, como a grande amostra populacional não clínica, o desenho longitudinal que abrange os efeitos da solidão em vários períodos de tempo e o uso de instrumentos psicométricos estabelecidos para avaliar variáveis ​​como a solidão e os TMC.

As limitações incluíram uma sub-representação de habitantes holandeses que não eram fluentes em falar holandês, bem como dificuldades em avaliar o grau de solidão, porque estes indivíduos que viviam solidão muito grave eram muito poucos para serem analisados ​​de maneira significativa.

Além disso, os autores relataram algumas inconsistências em relação à forma como as duas principais variáveis ​​foram medidas, de modo que a solidão foi avaliada nos períodos inicial e de acompanhamento, mas os TMC foram avaliados em intervalos de 12 meses antes e após as sessões de entrevista.

Os autores concluem:

“Além disso, este estudo aponta para a importância de prestar atenção adequada à solidão, tanto em adultos com e sem TMC. Profissionais que trabalham em vários contextos, incluindo a comunidade local, a prática geral e os cuidados de saúde mental, devem estar cientes de que adultos solitários correm um risco maior de desenvolver TMC grave e que a solidão em adultos com TMC existente aumenta o risco de resultados ruins, em especial em termos de TMC grave persistente “.

“E mais ainda, os profissionais devem estar alertas ao aparecimento da solidão entre adultos com TMC graves, pois são um grupo de risco. Nossas descobertas sugerem que intervenções para reduzir a solidão podem ajudar a prevenir o aparecimento de TMC grave em adultos e podem contribuir para melhores resultados em pacientes com TMC existente.”

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Nuyen, J., Tuithof, M., de, G. R., van, D. S., Kleinjan, M., & Have, M. T. (2019). The bidirectional relationship between loneliness and common mental disorders in adults: Findings from a longitudinal population-based cohort study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology. (Link)

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Micah Ingle
Equipe MIA Research News: Micah Ingle é um estudante de doutorado em Psicologia: Consciência e Sociedade na Universidade do Oeste da Geórgia. Ele publicou abordagens terapêuticas centrando a pessoa ao contexto e às características das pessoas com alta empatia, em oposição ao modelo médico individualizante. Seus interesses atuais incluem a interseção de estruturas sociopolíticas / econômicas e saúde mental, individualismo em psicologia, gênero, psicologia da libertação e perspectivas mitopoéticas inspiradas pelo pensamento junguiano.