Medo e crença no “desequilíbrio químico” impedem as pessoas de parar de usar antidepressivos

Os pesquisadores entrevistaram pessoas que receberam orientação médica para interromper os antidepressivos.

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Em um novo estudo, os pesquisadores entrevistaram pessoas que receberam orientação médica para interromper os antidepressivos. O uso de antidepressivos pelos participantes foi considerado como sendo “não indicado”, tomando como base as diretrizes que orientam a prática clínica. Usuários de antidepressivos que não tinham diagnóstico de saúde mental no momento, tampouco histórico de problemas de saúde mental recorrentes e que estavam tomando antidepressivos por muito mais tempo do que as diretrizes sugerem (mais de nove meses). Apesar de receber esse conselho para interromper, mais da metade dos participantes se recusou a parar de tomar o medicamento – e os pesquisadores descobriram duas razões principais.

A pesquisa foi liderada por Rhona Eveleigh e Peter Lucassen na Universidade Radboud, na Holanda. O estudo foi publicado no Therapeutic Advances in Psychopharmacology.

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Segundo os pesquisadores, cerca de cinco em cada seis usuários de antidepressivos não estavam se beneficiando com o seu uso. Assim, a maioria das pessoas que estava tomando antidepressivos estava sendo exposta desnecessariamente aos possíveis danos do medicamento. As evidências sobre o uso a longo prazo são escassas (a maioria dos medicamentos recebe a aprovação do FDA com base em estudos de curto prazo), mas estudos demonstraram que o uso a longo prazo pode ser inútil ou até causar mais danos do que benefícios.

As diretrizes da prática clínica são a referência para esta pesquisa. Geralmente, o conselho apresentado nas diretrizes é considerar como positivo a interrupção do uso de antidepressivos após vários meses (o período exato varia de acordo com as diretrizes), se os sintomas indicados tiverem diminuído. Obviamente, muitas pessoas estão tomando antidepressivos prescritos off-label – de uma maneira que não segue as diretrizes – e a descontinuação também pode ser uma opção nesses casos.

Em suas entrevistas, os pesquisadores identificaram duas barreiras significativas à descontinuação. O primeiro foi o medo: medo de que, se os participantes parassem de tomar antidepressivos, experimentariam níveis de depressão com os quais poderiam ser incapazes de lidar.

“O medo (de recorrência, recaída ou de equilíbrio perturbado) foi a barreira mais importante; e tentativas anteriores alimentaram essas antecipações.”

Segundo os pesquisadores, a melhor solução para esse medo foi a explicação e a orientação clara que seriam apresentadas pelo médico prescritor: enquadrar o uso de antidepressivo como temporário no início do tratamento, bem como uma compreensão clara do processo de retirada para a descontinuação.

A segunda barreira para poder seguir o conselho médico em torno da descontinuação seria a crença na teoria de deficiência de serotonina: trata-se da noção de que os antidepressivos corrigem um desequilíbrio químico. Em suas entrevistas, os pesquisadores descobriram que essa crença equivocada estava ligada à ideia de que os participantes tinham uma doença ao longo da vida e que precisariam de antidepressivos indefinidamente.

“A deficiência de serotonina como explicação para a eficácia do antidepressivo promove o uso por toda a vida e dificulta a interrupção do tratamento com antidepressivos”.

Por exemplo, aqui estão as palavras de dois participantes diferentes que “rejeitaram o conselho e não interromperam” o medicamento:

“Eu só preciso disso. Para mim, isso não é uma doença psicológica, é física. E meu corpo não é capaz de produzir serotonina suficiente, então tomo a pílula para fornecê-la. ”

 “Ela (a clínica) me disse que eu deveria ver isso como tendo uma deficiência no cérebro, como alguém que sente falta de uma certa substância e que o medicamento a fornece. Ela me disse que é como alguém com diabetes que precisa de insulina pelo resto da vida. Bem, porque acredito nisso, então nunca questionei o meu uso.”

Segundo os pesquisadores, explicar biologicamente o sofrimento emocional “parece sair pela culatra, dificultando convencer o paciente a interromper o medicamento”.

No entanto, outros médicos descreveram claramente o uso de antidepressivos de maneira diferente. Outro participante disse: “Meu clínico geral deixou bem claro que (o antidepressivo) é apenas uma solução temporária, ajudará, mas que o problema está em outro lugar”.

Parece que a maneira como o médico prescreveu o uso de antidepressivos desempenha um papel significativo se a pessoa tentou seguir o conselho para interromper ou não.

Além disso, quando o médico foi visto como uma figura útil, que levava a sério as preocupações do paciente e o ajudava na descontinuação, os pacientes podiam ver isso como “uma rede de segurança” e assim iniciar o processo de redução gradual da droga.

Os pesquisadores escrevem que os médicos precisam estar cientes dos medos dos pacientes em relação à descontinuação, pois isso pode impedi-los de agir sob orientação médica. Eles também sugerem que os médicos se mantenham a par de novos métodos de redução e descontinuação de antidepressivos para minimizar os sintomas de abstinência.

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Eveleigh, R., Speckens, A., van Weel, C., Voshaar, R. O., & Lucassen, P. (2019). Patients’ attitudes to discontinuing not-indicated long-term antidepressant use: barriers and facilitators. Therapeutic Advances in Psychopharmacology, 9, 1-9. https://doi.org/10.1177/2045125319872344 (Link)