Coronavírus e o paradoxo do isolamento

Aprendendo com as experiências das outras sociedades aonde a crise produzida pela epidemia chegou antes da nossa que está apenas em seu início.

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As experiências dos países aonde o coronavírus chegou antes que no Brasil mostram uma séria de medidas públicas corretas que devem imediatamente ser adotadas. Como que as pessoas na medida do possível trabalhem em casa, que as universidades mudem para aulas virtuais, que reuniões bem como atividades culturais e esportivas sejam canceladas, para ficarmos com alguns exemplos. Essas são estratégias-chave para impedir a transmissão e/ou diminuir a sua velocidade no seio da população. No entanto, tais medidas podem ter um custo social e de saúde mental muito significativo.

As reações à crise podem incluir sentimentos de opressão, medo, tristeza, raiva e desamparo, de acordo com os especialistas. Algumas pessoas podem ter dificuldades para dormir ou se concentrar. O medo de entrar em contato com outras pessoas, viajar em transporte público ou entrar em espaços públicos pode aumentar, e algumas pessoas terão sintomas físicos, como aumento da freqüência cardíaca ou dor de estômago.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em um recente comunicado, reconheceu que a crise gera um forte estresse, e aconselha que as pessoas procurem evitar ler, ver  ou ouvir notícias que provoquem sentimentos de ansiedade ou aflição.  Para diminuir os impactos negativos para a saúde mental, a OMS aconselha:

“Que as pessoas procurem informações que sirvam sobretudo para tomar medidas práticas para preparar seus planos e proteger a si mesmo e a seus entes queridos. Que as pessoas procurem atualizações de informações em horários específicos durante o dia, uma ou duas vezes. O repetido e quase constante fluxo de notícias sobre o surto epidêmico pode fazer com que qualquer um se sinta demasiadamente preocupado. Que as pessoas procurem obter os fatos. Que as pessoas coletem informações regularmente, no site da OMS e nas plataformas das autoridades locais de saúde, para ajudá-las a distinguir fatos de rumores.”

Além da ansiedade e seus sintomas que crescem na medida em que vamos nos dando conta da gravidade dessa epidemia, é importante que não deixemos de levar em alta consideração que tais medidas geram “isolamento social e emocional“.

Protective measures on a subway train in New York.Credit…Damon Winter/The New York Times

A respeito, muito recentemente foi publicado no The New York Times (NYT) um artigo que  merece que trechos sejam destacados e comentados:

“Um paradoxo deste momento é que, embora seja necessário distanciamento social para conter a disseminação do coronavírus, ele também pode contribuir para problemas de saúde a longo prazo. Portanto, embora o isolamento físico seja necessário para muitos que têm o Covid-19 ou que foram expostos a ele, é importante que não permitamos que essas medidas causem isolamento social e emocional também.

A Administração de Recursos e Serviços de Saúde (Health Resources and Services Administration) adverte que a solidão pode ser tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Sentimentos de isolamento e solidão podem aumentar a probabilidade de depressão, pressão alta e morte por doenças cardíacas. Eles também podem afetar a capacidade do sistema imunológico de combater infecções – fato especialmente relevante durante uma pandemia. Estudos demonstraram que a solidão pode ativar o mecanismo natural de luta ou fuga, causando inflamação crônica e reduzindo a capacidade do corpo de se defender dos vírus. ”

“Solidão e isolamento são especialmente problemáticos entre os idosos. 27% dos americanos mais velhos vivem sozinhos. De acordo com a H.R.S.A, entre os idosos que relatam sentir-se sozinhos, há uma chance aumentada de 45% de mortalidade. Em uma situação de quarentena, isso pode se tornar ainda mais terrível. Aqueles que precisam de medicamentos que salvam vidas, necessitam de assistência médica específica, ou que necessitam receber\ refeições, podem não conseguir esses serviços.”

Levando em consideração que a epidemia do coronavírus acaba de chegar ao Brasil, e que segundo as estimativas a tendência é que em 1 1/2 mês a 2 meses a crise irá atingir uma proporção gigantesca, temos que aprender muito com as experiências das sociedades aonde a epidemia chegou antes da nossa. Em em termos de saúde mental, em particular, será indispensável não apenas aprender com os outros povos como eles têm enfrentado os desafios do ‘isolamento social e emocional‘, mas igualmente será desafiador como mobilizarmos as nossas capacidades criativas de solidariedade que são próprias ao modo de ser brasileiro e as suas diferenças em cada região, estado, município do país.

Eis mais um trecho da matéria do NYT, desta vez que diz respeito a algumas experiências de solidariedade entre os povos aonde o coronavírus chegou já há algumas semanas senão há meses:

“Para soluções, podemos procurar países onde as pessoas lidam com o coronavírus há algum tempo. Como noticiou a BBC, as pessoas na China estão recorrendo a meios criativos para se manterem conectadas. Alguns são shows em streaming e aulas de ginástica on-line. Outros estão organizando reuniões virtuais de clubes do livro. Em Wuhan, as pessoas se reuniram em suas janelas para gritar “Wuhan, jiayou!” que se traduz em “Continue lutando, Wuhan!” Um empresário embalou 200 refeições para os profissionais médicos, enquanto um morador de uma província vizinha doou 15.000 máscaras para os necessitados.

Para aqueles de nós que conhecem pessoas, especialmente idosos, que podem estar isolados, vamos nos conectar. Faça check-in diariamente e procure maneiras de passar tempo juntos, seja por meio de uma ligação pelo FaceTime ou pelo WhatsApp, por meio de jogos colaborativos ou apenas usando o telefone.”

Ouso a propor algumas ideias.  A serem discutidas evidentemente. E que outras surjam. A ideia geral é que imediatamente os nossos diversos serviços públicos de assistência em saúde mental, que nós criemos grupos de suporte psicossocial, via os diferentes meios de comunicação na rede da internet. Penso que isso é possível ser feito nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) – em um CAPS individualmente, embora provavelmente o mais viável seja um pool de CAPS de uma determinada cidade.  Penso que o suporte psicossocial poderia também ser feito pelas Faculdades de Psicologia, através dos seus Serviços de Psicologia Aplicada (SPA).  E assim por diante.  O importante é que os usuários não percam seus vínculos com o sistema de saúde mental, se sentindo desamparados. Aos que já são seus usuários, que não temam que seus transtornos sejam agravados. Aos que não são usuários, que possam participar da rede de suporte psicossocial colaborando conforme suas iniciativas.  E, pode-se pensar ainda em meios lúdicos e/ou artísticos-culturais, como os  suscitados pelos exemplos dados na matéria do NYT acima citada.

É da maior importância que coloquemos todas as nossas capacidades de solidariedade em ação, usando o máximo possível dos recursos que estarão disponíveis. Estamos apenas começando. A sua colaboração em redes sociais, como a do Mad in Brasil, é da maior relevância.