Experiência de Implementação dos Princípio do ‘Diálogo Aberto’ em Vermont

O estudo acompanhou o processo de implementação de uma abordagem inspirada no 'Diálogo Aberto', apontando os desafios e sucessos da empreitada.

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A revista Psychiatric Quarterly publicou recentemente um artigo sobre a adaptação e implementação da abordagem ‘Diálogo Aberto’ na cidade de Vermont nos EUA. O estudo qualitativo realizado por Ana C. Florence, Gerald Jordan, Silvio Yasui e Larry Davidson explorou as experiências de 22 membros das equipes de dois serviços, através da participação desses profissionais em grupos focais, além de realizar entrevista com 3 desenvolvedores da abordagem.

Inspirado pela Terapia de Família Sistêmica, o ‘Diálogo Aberto’ enfatiza a perspectiva da rede social e concebe que problemas de saúde mental são problemas relacionais. O foco está na criação de significado através da linguagem, na qual a psicose e outras crises de saúde mental são compreendidas como experiências extremas não faladas. Portanto, a meta do tratamento é gerar diálogo terapêutico através do compartilhamento de todas as vozes, possibilitando uma conversa compartilhada a fim de produzir a criação conjunta de significados.

Alguns autores veem chamando a atenção para o alinhamento do ‘Diálogo Aberto’ com o paradigma dos Direitos Humanos. As práticas do ‘Diálogo Aberto’ promovem uma compreensão contextualizada das necessidades de saúde mental; equilibra as diferenças de poder durante o tratamento; e reduz o risco de excesso de medicalização dos problemas de saúde mental. Além do que, é bem sucedido em prevenir violência e coerção nos tratamentos e sistemas.

No caso de Vermont, foi desenvolvida em 2010 um adaptação do ‘Diálogo Aberto’ denominada Collaborative Network Approach (CNA). Um currículo de treino foi criado, engloba as principais técnicas e princípios do ‘Diálogo Aberto’, assim como outras várias modalidades de treinamentos curtos. Alguns dos princípios da CNA é a reflexão; ouvir sem uma agenda; desacelerar e levar um tempo antes de tomar decisões; evitar explicações e interpretações em prol da escuta com curiosidade; convidar todas as vozes a serem a escutadas durante os encontros e garantir segurança para a rede. Esses princípios também podem ser praticados em sessões de terapia individual, equipes de supervisão, suporte à crises e outras práticas.

Os temas comuns encontrados em todas as entrevistas com o pessoal das equipes foram: o impacto do treinamento, a cultura organizacional e a adesão. No princípio da implantação da CNA, os entrevistados informaram que a cultura organizacional foi favorável a incorporação dos princípios do ‘Diálogo Aberto’, por causa do seu conjunto de valores humanisticos. A maioria concordou que as técnicas aprendidas foram úteis de uma maneira geral, influenciando suas relações com clientes, familiares e colegas.

“O psiquiatra mencionou que a filosofia do CNA se encaixa bem com suas preocupações sobre uso de medicamentos e efeitos colaterais e permitiu discussões adicionais com as redes sobre a introdução ou aumento de medicamentos antes de tomar decisões.”

Outro elemento destacado pelo artigo, é a importância da adesão de diferentes níveis do serviço de saúde, colegas, gerência e departamento de saúde mental o que possibilitou implementar as mudanças necessárias.

Enquanto que os principais desafios destacados pelos entrevistados, foram as estruturas de cobranças inadequadas, treinamento caro e demorado, e resistência em mudar a cultura organizacional para integrar a CNA nas agências.

Esses achados, por fim, mostraram ser coerentes com outros estudos já realizados sobre a implementação de abordagens derivadas do ‘Diálogo Aberto’ em outros locais do EUA, assim como em outros países. Porém, ainda há uma defasagem em materiais sobre o assunto, bem como uma falta de medidas padronizadas para determinar a fidelidade dessas abordagens ao modelo original e a adaptabilidade dos princípios do ‘Diálogo Aberto’ em diferentes contextos, dificultando determinar em qual grau essas adaptações se assemelham ao modelo original do ‘Diálogo Aberto’.

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Florence, A.C., Jordan, G., Yasui, S. et al. Implanting Rhizomes in Vermont: a Qualitative Study of How the Open Dialogue Approach was Adapted and Implemented. Psychiatr Q (2020) (Link)