Desafios na Atenção à Crise em Saúde Mental

A atenção à crise apresenta três formas de organização diferentes, mas a hegemônica continua sendo a tríade SAMU - unidade de pronto atendimento - hospital psiquiátrico, culminando em internações.

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A revista Ciência & Saúde Coletiva publicou recentemente um artigo sobre a atenção à crise na saúde mental. O objetivo é analisar as disputas teóricas e práticas na área de urgência e emergência, assim como compreender quais são os desafios para o cuidado em rede.

Os autores realizaram um estudo exploratório de dois tipos de protocolos: protocolos de centrais regulatórias e de serviços de atendimento móvel à urgência (SAMU) que contivessem fluxos e protocolos relacionados à saúde mental de municípios que estabelecem serviços de referência em atenção à crise, publicados entre 2006 e 2016.

Os documentos analisados apresentaram um contraste discursivo, enquanto uns evocam uma terminologia referente à reforma psiquiátrica, outros se referiam a uma terminologia que remetia ao diagnóstico psiquiátrico. Com base na análise, foram identificados três formas de organização dos serviços em relação a atenção à crise a partir do binômio centralização x não centralização.

A primeira categoria de organização é aquela em que o atendimento é centralizado em um serviço especializado. Nele o conhecimento biomédico é hegemônico, há maior concentração de poder e menor articulação com a rede. As principais abordagens utilizadas são aquelas voltadas para a estabilização. Encontra-se em prontos-socorro de psiquiatria e no próprio hospital psiquiátrico, principais referências para a rede em situações de crise.

A segunda categoria são as redes com atenção centralizada, no entanto com uma boa capacidade de articulação. Permitindo que outros tipos de serviço, como o CAPS, sejam consideradas. Enquanto o terceiro modelo parte do referencial de que toda a rede deve realizar o cuidado à crise. As abordagens devem ser orientadas por um projeto que preveja as situações de crise, possibilitando diferentes abordagens com corresponsabilização dos serviços especializados, atenção básica, emergência, etc.

“No Brasil, a existência de concepções antagônicas que correspondem ao mesmo fenômeno,coloca em evidência as disputas de sentido teóricas e das práticas não só sobre a noção de crise, mas sobre as diferentes abordagens em saúde mental. Um dos dispositivos capazes de evidenciar essas disputas são os protocolos e documentos institucionais que servem como instrumentos norteadores de práticas de gestão e de cuidado em saúde mental.”

No entanto, essa última categoria apresenta dificuldades em ser desenvolvida, especialmente porque cada um dos serviços apresentam linguagem e dispositivos muito diferentes do que é usado pela saúde mental. A maioria dos casos atendidos pelo SAMU em Aracaju, por exemplo, são por motivos de “agitação” e conduzidos a prontos-socorros de urgência. Aos CAPS são levados apenas 1,1% dos casos. O que permite inferir que a rede de urgência/emergência funciona como redes paralelas ao sistema assistencial em saúde mental.

Os autores chamam a atenção para a tríade SAMU – Unidade de pronto atendimento -hospital psiquiátrico, acabar culminando na internação psiquiátrica, independentemente do sujeito em crise estar vinculado a algum CAPS. Essa situação acaba ocasionando no desenvolvimento da noção de que a rede substitutiva é alternativa e de baixa capacidade resolutiva.

O artigo evidencia os desafios da Reforma Psiquiátrica quanto a atenção à crise e os jogos de poder existentes dentro da rede. Reafirmando a importância de uma forma de abordagem à crise construída em rede, com ênfase nos serviços comunitários, de maneira interdisciplinar. Há a necessidade de se desenvolver outras formas de lidar com a crise, desmistificando a ideia de que apenas o hospital psiquiátrico é capaz de lidar com esses tipos de casos.

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DIAS, Marcelo Kimati; FERIGATO, Sabrina Helena; FERNANDES, Amanda Dourado Souza Akahosi. Atenção à Crise em saúde mental: centralização e descentralização das práticas. Ciênc. saúde coletiva,  Rio de Janeiro ,  v. 25, n. 2, p. 595-602,  Feb.  2020 (Link)