Como o Japão passou a acreditar na depressão

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Você pode estar interessado em saber que a “doença mental” que nós chamamos “depressão” não existia no Japão até o final dos anos 1990, quando uma empresa farmacêutica deu a ela o nome “resfriado da alma” (kokoro no kaze) a fim de poder criar mercado para os antidepressivos lá.  Um pouco da história de como foi introduzida essa “doença mental” no Japão você pode conhecer lendo essa matéria recentemente publicada pela BBC News, com o título ‘Como o Japão passou a acreditar na depressão’.

Lendo a matéria fica-se sabendo:

  • Que a depressão não era reconhecida como doença no Japão, até a década de 90.
  • Quando uma campanha publicitária chamou de “resfriado da alma”, as vendas de antidepressivos cresceram.
  • Hoje em dia há uma ‘epidemia’ de antidepressivos no Japão.

O jornalista que escreveu a matéria fala de um personagem de mangá que ilustra bem o processo de como a depressão passou a ser considerada no Japão como sendo ‘doença mental’. A partir dos anos 1990. O personagem Watashi (cujo nome significa ‘Eu’ em japonês) está a trabalhar horas a fio em seu emprego como servidor público, com frequência sem dormir, quem começou de repente a ter uma ideia que insistia em circular em sua mente: “Eu tenho que morrer”.  Na verdade, o que se passava com personagem era o que estava ocorrendo com o próprio autor desse mangá, Torisugari, com a idade de 29 anos.  Sem o reconhecimento do seu sofrimento por parte dos seus pais, ele foi a um médico e ele lhe disse que nada errado estava ocorrendo com ele. Foi a um outro que lhe disse que o que se passava com ele era uma doença chamada “depressão”, um transtorno mental ainda pouco conhecido no Japão.

“Não havia nada incomum nisso. Até o final dos anos 90 no Japão, ‘depressão’ era uma palavra raramente ouvida fora dos círculos psiquiátricos. Alguns alegam que isso acontecia porque as pessoas no Japão simplesmente não sofriam de depressão. As pessoas encontravam maneiras de acomodar esses sentimentos enquanto, de alguma forma, continuavam com a vida. E eles davam uma expressão estética ao baixo humor – na arte, no cinema, no prazer da flor de cerejeira e de sua beleza fugaz.”

Uma razão mais provável é a tradição médica do Japão, na qual a depressão vinha sendo considerada primariamente como física, em vez de uma combinação de física e psicológica, que seria mais comum no Ocidente. Enquanto o diagnóstico em si raramente era usado, era provável que as pessoas que apresentavam sintomas clássicos fossem informadas por seus médicos de que simplesmente precisavam descansar.

Tudo isso fez do Japão uma perspectiva tão ruim para um mercado de antidepressivos que os fabricantes do Prozac já haviam desistido do país. Mas, no final do século 20, uma notável campanha de marketing encomendada por uma empresa japonesa de medicamentos ajudou a mudar as coisas.”

A palavra espalhada sobre a depressão foi kokoro no kaze – um resfriado da alma. Isso poderia acontecer com qualquer pessoa e a medicação poderia tratá-la.

O número de pessoas diagnosticadas com um transtorno de humor no Japão dobrou em apenas quatro anos, à medida que o mercado de antidepressivos crescia – em 2006, vendeu seis vezes o que havia sido apenas oito anos antes.

Em um país tão aberto quanto qualquer outro para a confissão de celebridades, todos, desde atores a leitores de notícias, agora pareciam dispostos a sair e dizer que haviam tido uma experiência de depressão. Esta nova doença não era apenas aceitável – estava até na moda.

Como ocorreu em todo o mundo onde o marketing dos antidepressivos foi agressivo, a exemplo do que ocorre no Brasil, o diagnóstico de depressão passou a ser comum, a depressão passando a fazer parte das doenças com maior incidência, com impactos nos sistemas de saúde, na área escolar, no campo jurídico e no mundo do trabalho.

“As limitações da campanha “resfriado da alma” estão ficando claras. Foi criticado na época por fazer ligações enganosas entre o resfriado comum e a depressão. Mas, além disso, a experiência do Japão com a depressão mostra como algumas formas de doença física e mental estão intimamente ligadas a atitudes culturais mais amplas – sobre o trabalho, por exemplo, e níveis de responsabilidade com relação aos outros. Aumentar a conscientização pública acaba sendo uma tarefa complicada e delicada.”

Leia a matéria da BBC News na íntegra clicando aqui → 

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Há um filme muito interessante mostrando como a depressão enquanto doença mental foi introduzida no Japão: Does Your Soul Have a Cold?  Você encontrará esse filme on line.

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Texto e trad. Fernando Freitas