Sob o imperativo da felicidade: psiquiatrização e performance

Vivemos sob o imperativo da felicidade, saúde perfeita, sucesso e bem-estar. O mandato de ser feliz, “custe o que custar”, coloca-se hoje como uma demanda patente. Uma transformação fundamental tem ocorrido na economia simbólica da lei moral: ela passou a ser regulada pela ordem de atingir a plena condição de felicidade. Assim, se a felicidade se transformou em um imperativo irrepreensível, isso se deve à democratização do espaço social que concedeu a todos a pretensão de igualdade. Em uma sociedade supostamente democrática, a igualdade tornou-se um dos seus principais ideais e um dos alicerces da cidadania. A aspiração à felicidade passou a ser pleiteada como algo da ordem do direito (Birman, 2010). Ou seja, não se aceita nada menos do que ser feliz em todas as esferas da vida. Se algo fugir ao roteiro fantástico, logo, não poderá ser acolhido psiquicamente sem um profundo trabalho.

Além do consumo e da posse de bens e serviços, insígnias de conquistas objetivas, surgiu ainda a noção de “boa vida” que pode ser mensurada tendo como base a fruição de um bem-estar superlativo. Esse tipo de bem-estar denota um “sentir-se mais do que bem”, fruto de uma suposta competência na gestão da vida, no uso dos dispositivos de controle, na eliminação do sofrimento e na otimização das potencialidades vitais (Bezerra Jr., 2010).

Entretanto, apesar dos esforços na direção desse ideal fantasístico inalcançável de “bem-estar” que se embaraça muitas vezes com um “culto da performance” (Ehrenberg, 2010), o sofrimento psíquico, a doença, a morte, as dificuldades e agruras da existência persistem ainda que sob diferentes insígnias na atualidade. A denominada “depressão” passou a se impor como uma das maiores modalidades de sofrimento da atualidade, posto que esta nomenclatura também evidencia o fracasso performático do sujeito (Birman, 2010).

Para Elisabeth Roudinesco (2000), o sofrimento psíquico tem sido classificado e se manifestado sob a forma de depressão, cuja presença se transformou em uma epidemia nas sociedades democráticas. A autora aponta para uma substituição e valorização dos processos psicológicos de normalização e avaliação em detrimento das diferentes formas de exploração do inconsciente. Tratado como depressão, o conflito neurótico contemporâneo é abafado, escamoteado e rechaçado, parecendo – à primeira vista – não estar associado a nenhuma causalidade psíquica oriunda do inconsciente.

Assim, podemos dizer que há uma espécie de caldo sócio-cultural que busca promover a normalização das individualidades e dos laços sociais pelo silêncio dos registros do sujeito e da singularidade. Segundo o filósofo Gilles Lipovetsky (1989), há uma cultura de massa, amplamente difundida, que também se destina a satisfazer a necessidade de evasão dos indivíduos, cujos efeitos atingem todas as camadas sociais. Essa cultura teve como função histórica determinante a reorientação das atitudes individuais e coletivas, bem como a difusão de novos padrões de vida, seguindo novos referentes ideológicos e modelos existenciais. A cultura de massa foi um vetor essencial para o estabelecimento do individualismo contemporâneo, que dá suporte à construção de mitos e engrandece a felicidade, tornando irreais as existências concretas. Este tipo de cultura faz viver por procuração imaginária um indivíduo sonambúlico, despossuído de si mesmo pelas figuras encantadas no imaginário, abrindo a via régia para o surgimento de lideranças populistas.

Compreendemos também que este pano de fundo foi propício para a implementação de uma perspectiva negacionista.

Ehrenberg (2010) ensina que quando a transformação política da sociedade está em crise, a verborreia de challenges, desafios, performance insurgem como um conjunto de disciplinas de salvação pessoal, individual. Isso pode ser resumido como “não temos mais nada além de nós mesmos para nos servir de referência”. O culto da performance, tal como proposto por Ehrenberg, é caracterizado pela confluência de três discursos: o esportivo, o do consumo e o empresarial. O esporte caracteriza um regime de competição na qual apenas os “melhores” e mais preparados vencem. No consumo, o indivíduo aprende a desfrutar de si mesmo, alimentando a crença de que suas necessidades devem ser sempre satisfeitas e de que seu mote deve ser a autorrealização. Mas, é do discurso empresarial que observamos a verdadeira “reconversão” da sociedade ao culto da performance. Os conhecidos “homens de negócio” são transformados em modelo ideal de conduta, regendo uma nova ética meritocrática, segundo a qual vencer, ser feliz e bem-sucedido, conduzir uma vida com excelência passam, antes de mais nada, pela ação do empreendedor no mundo dos negócios, de assumir riscos e ser obstinado. Esses homens, assim como as empresas, tornam-se um grande fator de singularização para a massa de indivíduos que não encontra mais no horizonte político-social as referências para sua ação. Nessa nova “mitologia”, todos tem o “direito” (e o dever) de serem empreendedores de si, de se constituírem por conta própria mediante a sua performance. As diferenças sociais, econômicas, políticas e até mesmo sanitárias não são contempladas. Seguindo esta lógica, poucos, pouquíssimos estariam “aptos” a alcançar a felicidade.

Segundo Brandão (1998), podemos supor ainda mais uma outra causa para o sentimento atual de crise: o solapamento da ética naturalista. A ética naturalista é compreendida, segundo a definição de Costa (1992) num estudo sobre Gide, como a “que busca na natureza os fundamentos da vida moral” (Costa, 1992, p.275). Os fundamentos independem das crenças particulares e contingentes, encontrando-se nos imperativos a-históricos e apolíticos da biologia, ou genericamente, na natureza, de modo que as obrigações morais se tornam válidas para todo e qualquer indivíduo. Se possuem a mesma biologia, igualmente teriam (em ficção) as mesmas condições de exercer suas potencialidades e atingir a felicidade. Este é um terreno fértil para a psiquiatria biológica ganhar cada vez mais espaço, mercado, consumidores e dependentes. A psiquiatria passa a operar oferecendo respostas prontas a uma crise multifacetada a partir do seu “tesouro semiológico”. Ela carrega consigo a promessa de felicidade e aprimoramento do humano, psiquiatrizando os comportamentos desviantes que fogem a norma.

De mãos dadas com a lógica neoliberal, a psiquiatria biológica se apropria da condição humana, das fantasias, dos ideais e das diferenças. Reduz a humanidade à pura biologia. A contrapartida oferecida pela psiquiatria junto com as inesgotáveis categorias diagnósticas que se transformam de tempos em tempos, é um verdadeiro arsenal técnico-avaliativo-medicamentoso (por vezes, profilático) que promete detectar, localizar, nomear, aliviar ou até mesmo extirpar aquilo que impede o indivíduo de atingir seu potencial máximo e, finalmente, ser feliz.

Sob a égide do culto à performance, a sociedade contemporânea impulsiona cada um a se singularizar. Este enfoque psiquiátrico tem contribuído o abortamento do debate transdisciplinar. A pluralidade de abordagens contempladas quando se tratava de explicar as vicissitudes individuais foi sequestrada por concepções fisicalistas que tendem a reduzir estas explicações a sua dimensão biológica, naturalista. Isso contribui para a escassez de buscas por saídas coletivas.

Para atingir o ideal de felicidade, valoriza-se uma natureza individual, heroica, cujo modelo erigido foi o do empreendedor. Contudo, para atingir ideais tão elevados de felicidade e performance, permeados pela verdadeira obsessão de ganhar, de vencer, de ser alguém, o consumo em massa de medicamentos psicotrópicos se tornou um grande aliado. Por isso, podemos dizer que a cultura da felicidade e da performance é também uma cultura da ansiedade, da depressão (Ehrenberg, 2010), do espetáculo (Debord, 1992) e das drogas (Birman, 2012). Estas não se restringem ao uso das drogas ilegais, mas incluem drogas lícitas, prescritas e ditas medicinais, legitimadas cientificamente. Na denominada “cultura das drogas”, vivemos intoxicados, ainda que não saibamos, pois diferentes fármacos e estimulantes se inscrevem no estilo performático da vida contemporânea e na busca pela felicidade.

Referências

Bezerra JR., B. (2010). A psiquiatria e a gestão tecnológica do bem-estar. In:Freire Filho (org.). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV,117-134.

Birman, J. (2012). O sujeito na contemporaneidade. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira.

Birman, J. (2010). Muitas felicidades?! O imperativo de ser feliz na contemporaneidade. Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 27-47.

Brandão, Eduardo Ponte. (1998). Sobre a ética das práticas psi: felicidade e cidadania. Psicologia: Ciência e Profissão18(1), 2-11. https://doi.org/10.1590/S1414-98931998000100002

Costa, J. F. (1992). Impasses da ética naturalista: Gide e o homoerotismo. Em Ética (pp.275-288). São Paulo: Companhia das Letras – Secretaria Municipal de Cultura.

Debord, G. (1992). La societé du spectacle. Paris: Gallimard.

Ehrenberg, A. (2010). O culto da performance. São Paulo, SP: Ideias & Letras.

Lipovetsky, G. (1989). O império do efêmero. São Paulo: Companhia das Letras.

Roudinesco, E. (2000). Por qué el psicoanálisis? (Vol. 53). Paidos Iberica Ediciones SA.