Sofrimento da Quarentena, Normal ou Patológico?

Estudos relatam alta frequência de efeitos psicológicos negativos durante o isolamento social. A quarentena vem desafiando a capacidade humana em encontrar sentido no sofrimento e novas formas de lidar com situações-limite.

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Os impactos do distanciamento e isolamento social são o tema do artigo Rossano Cabral Lima, publicado na revista Physis.  O autor relata que durante a quarentena há alta frequência de efeitos psicológicos negativos, apontados por alguns estudos, especialmente,
humor rebaixado e irritabilidade, ao lado de raiva, medo e insônia, muitas vezes
de longa duração.

Orientações para lidar com crises humanitárias com relação à saúde mental, como documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Inter-Agency Standing Committee (IASC), fórum instituído pelas Nações Unidas, são exemplos de medidas que buscam a promoção e prevenção da saúde, de maneira a tentar diminuir os efeitos do isolamento prolongado.

“É possível perceber que as estratégias prescritas têm ênfase preventiva, no sentido de produzir ou reforçar hábitos de autocuidado tidos como saudáveis, reduzindo os riscos de adoecimento mental, além de estimular uma ética comunitária que se considera escassa na vida das grandes cidades.”

Mas, o autor faz um adendo a essas recomendações. Ele considera necessário refletir se as recomendações, e os próprios meios de divulgação, são adequados para todo o território nacional, assim como para todas as classes sociais. As populações marginalizadas apresentam outras variáveis.

“Nas favelas, a menor adesão ao “fique em casa” se liga a fatores como a distinta geografia urbana composta por vielas, becos e residências com poucos cômodos, grande aglomeração e condições sanitárias inadequadas; à necessidade de continuar trabalhando para se sustentar, dada a alta taxa de informalidade; e à “naturalização” do risco de vida, efeito da habituação a circular pela comunidade mesmo em dias de tiroteios e operações policiais.”

Nessa população, está presente o medo de passar fome, caso haja perda de emprego e diminuição da renda familiar. Já a população de rua, o objetivo é evitar a internação compulsória, com estratégias humanizadas de cuidado na própria rua, estratégias de redução de danos e disponibilidade de leitos institucionais para fins de quarentena. Essas populações não têm sido abordadas pelas diretrizes do Governo Federal.

“As publicações advertem à população que, em situações de distanciamento
e isolamento, algumas formas de mal-estar são comuns, como a sensação de
impotência, tédio, solidão, irritabilidade, tristeza e medos diversos (de adoecer,
morrer, perder os meios de subsistência, transmitir o vírus), podendo levar a alterações de apetite e sono, a conflitos familiares e a excessos no consumo de álcool ou drogas ilícitas.”

Rossano chama a atenção para o que ele chama de “zona cinzenta” entre a normalidade e a patologia, entre o sofrimento individual e o social. No primeiro caso, a distinção nítida entre as “reações normais frente a uma situação anormal” e a psicopatologia carece de critérios objetivos e quantitativos para tal. No segundo caso, falar em sofrimento social não significa apenas ressaltar a origem social da pandemia e da estratégias de distanciamento e isolamento, mas também sublinhar as circunstâncias sociais e os sentidos oferecidos pelas culturas locais que vão mediar as experiências do próprio mal-estar e da sensibilidade pela dor do outro.

A quarentena vem desafiando a capacidade humana de dar sentido ao sofrimento e estimula as pessoas a encontrarem novas formas de amortecer os impactos das  experiências – limite na vida mental.

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LIMA, ROSSANO CABRAL. Distanciamento e isolamento sociais pela Covid-19 no Brasil: impactos na saúde mental. Physis,  Rio de Janeiro ,  v. 30, n. 2,  e300214,  2020. (Link)