O Que as Famílias Pensam sobre as Internações Psiquiátricas?

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O artigo publicado pela revista Psicologia e Saúde, aborda o que as famílias pensam sobre as internações psiquiátricas dos seus familiares em sofrimento psíquico. As autoras, Raíssa de Brito Braga e Renata Fabiano Pegoraro, se propuseram a investigar os itinerários terapêuticos desses usuários que passaram por internações, através de seus familiares. Foram entrevistadas 10 famílias de um CAPS no triângulo mineiro, utilizando um questionário semiestruturado.

Após uma breve contextualização histórica sobre os espaços de cuidado da loucura até a Reforma Psiquiátrica. As autoras localizam o lugar da família a partir da Reforma, quando passaram a ser compreendidas como parte efetiva no tratamento da pessoa em sofrimento psíquico. A família acaba sendo a principal responsável por identificar as mudanças de comportamento que sinalizem o início de uma crise, e a responsável por procurar ajuda. Apesar do alto grau de responsabilidade e sobrecarga sobre as famílias, elas recebem pouco ou quase nenhum suporte.

 “Os autores destacam que
é possível perceber que boa parte dos familiares possui certa resistência em internar, mas veem essa como a única possibilidade de melhora diante da crise, mesmo não compreendendo a internação como única forma de cuidado na vida do familiar em sofrimento mental.”

Pesquisas apontam que as famílias costumam procuram resolver o problema sem intervenção médica, mas quando não conseguem êxito, recorrem ao serviço psiquiátrico, com um sentimento de culpa, exaustão, impotência, desespero.

A maioria dos familiares entrevistados relatou a percepção de internação conectado ao uso de medicamentos. Alguns destacaram que a internação possibilita que os usuários tomem seus medicamentos com regularidade, enquanto outros destacaram o uso excessivo dos medicamentos. Os autores chamam a atenção que os familiares destacaram a medicação como principal ou única forma de tratamento nas internações, ou seja, como contenção química.

“ele estava muito dopado, sabe? Aí ‘mãe, olha como eu estou, eu estou muito dopado, eu não quero ficar assim.”

O fornecimento de alimentos e dormitório para os usuários, foi outro tema levantado pelas famílias sobre o período de internação. Para as famílias, a internação acaba sendo um tempo para si, em que transferem o cuidado do usuário para o serviço de saúde.

“Essas questões não são novas e foram relatadas por Tsu (1993), que afirmou que apenas pequena parte dos familiares que solicitava a internação a relacionavam, de fato, com a ideia de tratamento. Para ela, muitos deles a solicitavam para ajudar na função custodial do paciente. Devido à sobrecarga que sofriam para exercer o cuidado, as famílias buscavam a internação para ter um tempo para si.”

A pesquisa também apontou para a falta de orientação dada as famílias. As poucas explicações recebidas se relacionavam com orientações sobre o uso de medicamentos ou sobre encaminhamentos. Nenhuma família citou receber informação sobre o quadro do paciente ou sobre formas de cuidado, bem como não houveram espaços para tirar duvidas ou relatar suas dificuldades.

Houve dificuldade dos entrevistados em lembrar de todo o percurso terapêutico do paciente, já que muitos tiveram diversas internações ao longo da vida. Alguns familiares entrevistados não haviam acompanhado o percurso terapêutico do usuário desde seu início, o que acabou limitando a pesquisa. Os autores consideram importantes mais investigações para avaliar a qualidade das internações, já que estas ainda fazem parte dos serviços de saúde mental brasileiro.

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BRAGA, Raissa de Brito; PEGORARO, Renata Fabiana. Internação psiquiátrica: o que as famílias pensam sobre isso?. Rev. Psicol. Saúde,  Campo Grande ,  v. 12, n. 1, p. 61-73, abr.  2020. (Link)