Saúde Mental em Situação de Desastre

Estudo destaca a necessidade de existirem planos de contingência e treinamento de equipes para lidar com questões de saúde mental em casos de desastres.

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A saúde mental das pessoas envolvidas em situação de desastre natural é o tema do artigo publicado pela revista Saúde Debate. Os autores entrevistaram trabalhadores da saúde do município de Blumenau, no Estado de Santa Catarina. Foram entrevistados dois enfermeiros, dois psicólogos, um assistente social, um trabalhador da defesa civil e outro do Corpo de Bombeiros. O estudo teve por objetivo descrever a visão dos trabalhadores sobre a saúde mental das pessoas envolvidas em situação de desastre.

Os episódios de desastre são desorganizadores, com grande potencial de adoecimento físico e psíquico. As pessoas atingidas, direta ou indiretamente, os trabalhadores envolvidos, e até mesmo as pessoas que acompanham a situação pelos meios de comunicação, ficam suscetíveis ao adoecimento. Essa situação, demanda o desenvolvimento de ações por parte dos trabalhadores da atenção psicossocial. No entanto, são poucos os profissionais qualificados para lidar com esse tipo de situação.

“buscar a compreensão sobre as experiências subjetivas das pessoas nos contextos de desastres e na recuperação pós-desastre denota como os afetados compreendem o seu mundo social, após a experiência do trauma, e permite serem ouvidos, legitimando o sofrimento que emerge dessas situações de vida, oportunizando o entendimento sobre o sofrimento que é muitas vezes marginalizado e invisível com o passar do tempo.”

As vítimas podem continuar sentido forte medo e ansiedade após a situação de desastre. E com o tempo, podem dar lugar aos sentimentos de tristeza e irritabilidade. Também é comum surgirem sintomas psicossomáticos, e a dor pode ser intensificada quando ocorrem perdas materiais e pessoais. Os autores defendem que a readaptação pode ser facilitada com o apoio psicossocial, mas não deve se limitar aos serviços especializados, senão estar presente nas ações de todos os trabalhadores envolvidos.

No estudo, emergiram três categorias de análise: Evento inesperado com a população desprevenida; Aumento do número de pessoas em sofrimento psíquico e agravo dos casos já em tratamento; Estratégias atuais do município. Constatou-se que após os desastres causados pela chuva em 2008 nesse município, houve o aumento expressivo na procura da
população, especialmente por serviços de saúde mental, o agravamento de quadros preexistentes e sob tratamento antes do desastre, e a ocorrência de novos casos de
sofrimento mental enfocam a pertinência do tema para a formação profissional em
saúde.

A ação dos profissionais de saúde nessas circunstâncias são um verdadeiro desafio, já que não existem planos de contingência ou preparo da equipe para as ações em saúde mental. Por outro lado,  o Apoio Matricial e a Educação Permanente se efetivaram e se mostram importantes ferramentas para a população e trabalhadores envolvidos em situações de desastre.

Os autores destacam a importância da qualificação dos trabalhadores para lidarem com a crise, promovendo a saúde da população em contexto pós-desastre. Assim como também, olhar para o sofrimento da própria equipe, enquanto parte da população direta ou indiretamente afetada.

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Rafaloski, A.R et al. Saúde mental das pessoas em situação de desastre natural sob a ótica dos trabalhadores envolvidos. Rev. Saúde em Debate, Rio de Janeiro,  v. 44, n. 2, p. 230 – 241, jul.  2020. (Link)