A Crise da Psiquiatria

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O capítulo A crise da psiquiatria contemporânea e o poder das psicoterapias, parte de livro Você não é o seu Cérebro!, apresenta o artigo do psiquiatra Richard Friedman, Psychiatry’s Identity Crisis, publicado pelo New York Times.

Felipe S. Lisboa, autor do livro, nos traz os elementos mais importantes desse artigo. Friedman afirma que a psiquiatria contemporânea se encontra em uma crise, mais uma em sua extensa. Os dois pilares da atual psiquiatria mostraram pouco retorno em seus resultados: as pesquisas em neurociências e os remédios psiquiátricos. As neurociências não trouxeram respostas práticos para a prática clínica da psiquiatria, e os remédios psiquiátricos evoluíram muito pouco desde a sua criação nas décadas de 50 e 60. A “década do cérebro” desmoronou.

Friedman defende um retorno às psicoterapias. Segundo ele, diversos estudos apontam que o tratamento psicoterápico são tão eficazes quanto as medicações psicotrópicas para os transtornos psiquiátricos comuns (mas sem efeitos colaterais), como depressão e ansiedade. Além disso, pesquisas apontam que a maioria dos estadunidenses preferem psicoterapia à medicação.

No entanto, apesar da maior preferência pela psicoterapia, cada vezes menos estadunidenses têm se dedicado a esse tipo de tratamento, além disso o uso de medicamentos psiquiátricos vem aumentando entre eles. Friedman defende que esse fenômeno é resultado dos elevados custos da psicoterapia e da baixa disponibilidade desses profissionais nos ambulatórios.

“O fato de todos os sentimentos, pensamentos e comportamentos necessitarem da atividade do cérebro para acontecer não significa que a única ou a melhor forma de mudá-los – ou entendê-los – é com a medicina.”

O Brasil não é citado pelo do artigo de Friedman, mas podemos nos perguntar se algo similar não ocorre por aqui. Quantos psicólogos, terapeutas ocupacionais ou musicoterapeutas encontramos nos serviços de saúde? É suficiente para a demanda? Qual o acesso mais fácil para o usuário, psicofármacos gratuitos ou psicoterapia no serviço público? Os planos de saúde dificultam o acesso de seus clientes à psicoterapia?

Continuando, Friedman destaca que muitos dos pacientes que chegam aos consultórios psiquiátricos apresentam um histórico de trauma, abuso sexual, pobreza ou privação. E afirma que estes são problemas para os quais não há qualquer solução biológica possível. Além disso, ele questiona problema como depressão e ansiedade serem tratados puramente como problemas do cérebro.

Os remédios podem até, segundo o psiquiatra, melhorar o humor de alguns pacientes graves, mas nunca existirá uma pílula mágica para todos os nossos problemas emocionais dolorosos e perturbadores, os quais estamos sujeitos enquanto seres humanos. Muitas vezes não existe um substituo para a autocompreensão que vem da terapia.

Friedman é a favor das pesquisas em neurociências, e acredita que tais pesquisas poderiam ajudar no entendimento de transtornos mentais, ainda sim, afirma que somos mais que um cérebro em um frasco. Segundo ele, podemos confirmar isso perguntando a qualquer um que tenha se beneficiado de uma psicoterapia.

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LISBOA, F. S. Você não é o seu cérebro. In: ____. Você não é o seu cérebro: e outros ensaios sobre psicologia, neurociências e cinema. Curitiba: Appris, 2020. p. 15-20.