A Psicologia Humanista apoia o Status Quo Capitalista?

Um novo artigo argumenta que a psicologia budista e a psicanálise têm mais potencial de resistência social do que as abordagens humanistas.

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Um recente artigo publicado em AWRY: Journal of Critical Psychology fornece uma resposta à psicologia humanista a partir de uma perspectiva de psicologia budista e psicanalítica. Os autores argumentam que as crenças e práticas subjacentes à psicologia humanista pouco fazem para combater o “gerencialismo” capitalista que caracteriza a psicologia contemporânea. Eles colocam a psicologia budista e a psicanálise (lacaniana) como alternativas à abordagem humanista, a qual eles argumentam que apoia o atual status quo socioeconômico e político.

“Em uma busca para fazer o mundo parecer um ideal neoliberal (‘psicologia centrada no eu’), a psicologia humanista faz uso dos mesmos tipos de técnicas frívolas de ‘autocuidado’ que Zizek advertiu estarem em voga entre profissionais e gerentes que estão tentando espremer até a última grama de mais-valia de trabalho dos trabalhadores explorados”, argumentam Benjamin Ramey e Rivers Fleming.

“Em vez de trabalhar para melhorias materiais na vida das pessoas trabalhadoras e oprimidas, psicólogos humanistas têm construído programas onde, por exemplo, indivíduos com opiniões diferentes são convidados a se reunir e a falar sobre os sentimentos trazidos à tona em tópicos difíceis, como racismo e violência policial”.

A psicologia humanista é às vezes anunciada como uma alternativa mais humana à psicologia e ao status quo da psiquiatria que depende de medicação e de formas coercitivas de “cuidado” às vezes ligadas a imperativos econômicos capitalistas.

A psicologia humanista, com sua ênfase em ver cada pessoa como tendo valor e dignidade inerentes, está confrontando tanto as limitações quanto os potenciais da condição humana. Ela parece ter algo a oferecer a seus primos tecnocráticos e desobedientes.

No entanto, alguns acreditam que a psicologia humanista tem sido muito prontamente cooptada por, ou desde o início cúmplice de, uma sociedade consumista-capitalista que se concentra no auto-aperfeiçoamento/auto-atualização e pode às vezes resultar em “mais feliz”, sendo assim mais fácil de explorar os trabalhadores.

Há exceções, é claro, como o crítico social e pensador humanista Erich Fromm, entre muitos outros pensadores humanistas e existenciais que provavelmente discordariam da forma como os ideais humanistas têm sido implantados na psicologia contemporânea.

Também se poderia argumentar que muitas práticas progressistas em psicologia/psiquiatria, tais como Diálogo Aberto, Casas da Sotéria, o trabalho de R.D. Laing e outros antipsiquiatras, a Rede de Ouvidores de Vozes etc., todas elas trazem alguma influência do pensamento humanista.

O artigo atual apresenta uma crítica de desenvolvimentos específicos no campo da psicologia humanista, especialmente ligando os ideais humanistas contemporâneos aos do capitalismo neoliberal. Os autores colocam a psicanálise e a psicologia budista como alternativas potencialmente valiosas que podem fornecer algum grau de resistência às demandas psicológicas do neoliberalismo e do mercado capitalista.

Ramey e Fleming dão uma breve história da psicologia humanista, começando com seu início no pensamento dos humanistas Abraham Maslow e Carl Rogers. Eles afirmam que o movimento nasceu da insatisfação com os elementos “desumanizadores” da psicanálise e, ironicamente, com os aspectos pessimistas do pensamento existencial e psicoterapêutico-irônico porque o existencialismo sempre influenciou a psicologia humanista.

Eles são críticos de Maslow, particularmente de seus ideais de engenharia social, que rapidamente deixaram o âmbito acadêmico e clínico e se enraizaram no mundo dos negócios. Aqui, ele aplicou seu pensamento para, argumentam os autores, “fazer os trabalhadores felizes e conformados para que o capital possa explorá-los mais efetivamente”.

Quanto a Rogers, eles afirmam que ele desenvolveu um método clínico baseado no reconhecimento da bondade essencial da outra pessoa através de certas condições, tais como consideração positiva incondicional, congruência/genuidade e empatia. O objetivo final aqui era um caminho para a “auto-atualização”, ou seja, a pessoa alcançar seus ideais e potenciais mais elevados com base em uma versão idealizada do eu.

Os autores são rápidos em apontar que o tipo de psicanálise que os psicólogos humanistas viam como “desumanizante” não se baseava, de fato, no próprio Freud, mas como a psicanálise havia sido assumida enquanto “psicologia do eu” nos Estados Unidos.

Aqui, houve uma ênfase significativa no desenvolvimento de um ego robusto e saudável, que os autores acreditam ter eliminado muito do respeito pela natureza enigmática e às vezes irracional do inconsciente como Freud concebeu – focalizado em uma forma “extática” de razão com poesia, imaginação e muito mais. A psicologia do ego também, eles acreditam, continha elementos de conformidade e adaptação à sociedade consumista-capitalista, com sua ênfase em uma forma “técnica” de razão.

Em justiça, os autores distinguem entre as raízes da psicologia humanista – o existencialismo e a fenomenologia – e a própria psicologia humanista. Eles citam o proeminente psicólogo existencialista Rollo May e Irvin Yalom como apontando para uma fenda entre a psicologia humanista “egocêntrica” dos anos 60 e 70 “movimento potencial humano”, a psicologia humanista contemporânea, e as raízes existenciais-fenomenológicas da psicologia humanista.

Eles observam que Rollo May era um grande apreciador de Freud, mesmo que ele finalmente pensasse que as idéias freudianas tinham suas limitações. May também foi um crítico da ênfase da psicologia convencional em “artifícios” e “técnicas” sobre como prestar atenção à pessoa inteira em toda a complexidade de sua experiência vivida:

“A abordagem centrada no Eu, pensou May, gera tédio e a produção em massa de um novo conjunto de intervenções destinadas a enfrentar uma reclamação e aumentar a satisfação do consumidor com os serviços terapêuticos”.

Contra o auto-foco idealizado da psicologia humanista e o conformismo da psicologia psicanalítica do ego, os autores apresentam duas alternativas – a psicologia budista e uma versão da psicanálise baseada em Freud e no psicanalista francês Jacques Lacan.

A psicologia budista, argumentam eles, se opõe a valorizar o ego, indo contra o paradigma do “autoaperfeiçoamento” ou “auto-atualização” da psicologia humanista. Eles colocam esta abordagem como uma alternativa ao auto-foco, que pode facilmente cair na armadilha do capitalismo de consumo.

Mais centralmente, os autores se concentram em uma visão renovada da psicanálise baseada em Freud e Lacan. Eles citam Lacan:

“A abordagem estadunidense se degenerou tão sumariamente em um meio de obter ‘sucesso’ e em um modo de exigir ‘felicidade’, a tal ponto que deve ser assinalado que isto constitui um repúdio à psicanálise”.

Para Ramey e Fleming, assim como para Lacan, o objetivo da psicanálise não é uma espécie de remendo instrumental com sintomas isolados com a promessa de melhoria pessoal – associada à sociedade de consumo americana e à psicologia do ego – mas um foco nas “linhas de falha” da subjetividade da pessoa e uma ênfase em assumir a responsabilidade pelo seu destino, “independentemente dos eventos aos quais se tenha sido submetido”.

Os autores concluem:

“Consideramos nossas críticas à psicologia humanista de especial relevância no atual clima político dos Estados Unidos. A psicologia humanista se desenvolveu em meados do século XX através de um particular desvio da psicoterapia existencial, que foi cultivada no meio capitalista nitidamente narcisista dos EUA, e seus objetivos de auto-atualização são passíveis de serem atendidos pelos ditames da classe profissional- gerencial a serviço do capitalismo.

Temos mostrado como as teorias e objetivos da psicologia humanista têm se desviado imensamente dos desenvolvimentos fundadores da psicologia existencial – tal como a forma como a psicologia do ego se desviou do trabalho de Freud – e temos fornecido uma crítica budista ao objetivo principal da psicologia humanista, ou seja, a reificação e aperfeiçoamento de um eu que está progredindo putativamente ao longo de um caminho teleológico para algum tipo de ‘plenitude'”.

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Benjamin, R. & Fleming, R. (2022). A response to humanistic psychology. AWRY: A Journal of Critical Psychology3(1), 161-173. (Link)