A medicalização das emoções: “é normal ou é transtorno?”, eis a questão do século

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No dia 30 de outubro de 2023, o jornal Estadão publicou uma matéria relatando como as pessoas, e principalmente os jovens, procuram as soluções para sanar as suas tristezas e angustias através da medicação.

A matéria aponta que para cada tristeza ou angústia que o adolescente apresenta, a solução parece estar em uma pílula. Talvez pela falta de habilidade em lidar com as emoções ou dificuldade em discernir entre uma tristeza temporária e uma condição patológica, muitos pais têm recorrido aos consultórios médicos em busca de soluções rápidas para aliviar os conflitos internos de seus filhos.

Como destaque a reportagem ainda aponta o crescimento da patologização e medicalização da vida, sendo reproduzido assim, com estereótipo artificial e “maquiado” que a medicalização é vista como a solução dos problemas.

“A medicalização dos sentimentos, das emoções, tem sido um dos grandes desafios da vida moderna. Quando a gente coloca rótulos de transtornos mentais em fatores biológicos ou situacionais que nem sempre precisam de ajuda profissional, perdemos a chance de deixar que os filhos entendam suas próprias subjetividades para lidarem com seus problemas de um jeito mais tranquilo e natural.”

Em contrapartida a reportagem destaca a importante do suporte emocional que o jovem necessita, suporte esse que está longe de ser um suporte que medicaliza todo e qualquer sentimento. Até onde se sabe os adolescentes e jovens precisam revisitar os sentimentos, tentando entender o que eles significam, o que eles provocam e como podem lidar com as sensações que são despertadas.

Um estudo publicado em 2020 na revista científica Pediatrics trouxe à tona uma descoberta preocupante: mais de 40,7% dos pacientes entre 2 e 24 anos que receberam prescrições para tratar o Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) também receberam antidepressivos, resultando em mais de 50 tipos distintos de medicamentos psicotrópicos usados em conjunto.

Segundo o Conselho Federal de Farmácia, o Brasil viu um aumento notável de cerca de 58% nas vendas desses medicamentos entre 2017 e 2021. No Reino Unido, o censo demográfico mais recente de 2021 revela que 14,7% dos jovens de 18 anos fazem uso de algum antidepressivo. Já nos Estados Unidos, de acordo com dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), esse índice é de 13%.

Conforme a própria reportagem aponta, existe uma tentativa por parte das industrias e laboratórios farmacêuticos em transformar o ser humano em uma fonte constante de felicidade. Exemplo como o documentário Painkiller que aborda a dependência de medicamentos, que retrata a epidemia de opioides, ou até mesmo o livro “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos” da Médica Marcia Angell.

“É preciso ter coragem de permitir que os jovens vivenciem emoções como tristeza, a perda, a frustração, pois a diversidade emocional é uma parte fundamental na jornada de qualquer pessoa. E é ela quem vai garantir o desenvolvimento de habilidades e capacidades para que este ser seja capaz de superar momentos não tão bons na vida.”

A matéria ainda destaca que a cura nem sempre está nos medicamentos, mas sim na liberdade de discutir com serenidade sobre suas emoções, lembrando assim que a vida não segue uma trajetória linear.