Economia Solidária e Saúde Mental: Relato de Experiência de Práticas Virtuais

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O artigo Economia solidária e saúde mental: relato de experiência de práticas virtuais traz um relato de experiência interprofissional sobre o projeto de extensão universitária de economia solidária e saúde mental, a partir dessa interlocução, é possível absorver novas perspectivas para um processo educacional critico. Um trabalho que é descritivo e desenvolvido com base na observação participante e analisado à luz de Mikhail Bakthin e Paulo Freire, sendo de suma importância na construção de saberes múltiplos.

Nesse sentido, refletindo sobre o campo educacional na formação de futuros profissionais, percebe-se a importância de desenvolver formas de articulação dos saberes, para que haja uma interdisciplinaridade dos conhecimentos. A interdisciplinaridade surge como uma proposta de articulação entre áreas visto que “produz um deslocamento na formação de origem de cada uma dessas áreas, o que gera uma partilha, um espaço de contaminação e composição”.

Assim, buscando descrever a atuação interdisciplinar em um projeto de extensão do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) intitulado Rede Gerar de Economia Solidária e Saúde Mental, localizado em Salvador/BA, a Rede Gerar se fundamenta nos preceitos da economia solidária, visando à inclusão social pelo trabalho de pessoas em sofrimento psíquico, usuárias da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Essa atuação envolve usuários da RAPS, docentes, alunos de graduação e pós-graduação e profissionais das mais diversas áreas, no período da pandemia entre dezembro de 2020 e julho de 2021.

O trabalho a partir da economia solidária busca a emancipação das pessoas, seu bem-estar na produção e expressão de sentidos pela arte e a inclusão social por meio do trabalho no território. Singer  define a economia solidária como uma corrente sustentável e social centrada na produtividade coletiva e de divisão justa e cooperada, sendo uma “resposta organizada à exclusão pelo mercado, por parte dos que não querem uma sociedade movida pela competição”. Significando que mediante a solidariedade, constroem-se formas de produzir, trocar e criar espaços sem exclusão. Contudo, para a efetiva consolidação desses projetos, são necessárias as políticas públicas e a participação social.

A Rede Gerar surgiu em 2014, ainda sem local físico, utilizando espaços cedidos para suas atividades. Em 2018 foi inaugurado a Casa Gerar, cedida pela UFBA, que passou a comportar uma loja, espaços para as oficinas, reuniões de coletivos e atividades culturais. A ações são sempre construídas pelos mais diversos atores sociais, compreendendo a importância da amplitude dos saberes na construção da economia solidária. Sendo fundamental destacar a resistência que se estabelece na busca por manter ativas iniciativas de economia solidária e saúde mental no Brasil, considerando as crescentes tentativas de desmonte e os retrocesso vivenciados no país no que diz respeito a economia solidária e à saúde mental.

O presente artigo traz esse relato de experiência como forma de buscar expor e refletir acerca da atuação interdisciplinar que permeou as ações do projeto de extensão universitária Gerar Virtual, da Rede Gerar de Economia Solidária e Saúde Mental, as atividades do projeto foram todas desenvolvidas em formato virtual em decorrência da pandemia da Covid-19. Sendo realizadas reuniões semanais para o planejamento e discussão das atividades entre a equipe.

Durante o projeto, foram realizadas 5 oficinas virtuais com aulas semanais, alocando o total de 55 alunos, 4 lives com empreendimentos de economia solidária de outros estados do Brasil, 1 encontro com 8 iniciativas locais, entre outras atividades complementares.  Um estudo descritivo e de abordagem qualitativa acerca das ações realizadas no período de dezembro de 2020 a julho de 2021 e se desenvolve com base na análise documental de 8 relatórios, sendo 7 mensais e 1 final, observação participante semanal e 28 diários de campo. Os dados coletados foram organizados em dois momentos. No primeiro momento as ações descritas enquanto articulação e intercâmbio em rede, oficinas virtuais e Rede Gerar na internet. No segundo momento, será realizada a análise por meio das categorias práxis em Freire e dialogismo em Bakhtin.

O artigo aponta que diante da pandemia da Covid-19 e da necessidade de se adequarem às medidas sanitárias, a Rede Gerar adaptou suas práticas e desenvolveu novas ações que contemplassem as necessidades advindas do seu contexto social, tendo em vista possíveis dificuldades de comunicação, pois parte das pessoas se encontravam em vulnerabilidade social.

Segundo Singer:

[…] a autogestão exige um esforço adicional dos trabalhadores na empresa solidária: além de cumprir as tarefas a seu cargo, cada um deles tem de se preocupar com os problemas gerais da empresa.

Surge então o Gerar Virtual, realizando ações pautadas por seus trabalhadores e trabalhadoras em conjunto com as necessidades elencadas pelas RAPS de Salvador. Com o objetivo de promover a articulação e o intercâmbio de ideias no campo da saúde mental, ocorreram algumas atividades que objetivaram atravessar o espaço do projeto. Sendo realizadas lives transmitidas pelas redes sociais com participação de iniciativas de outros lugares suas experiências.

Um dos pilares da Rede Gerar são as práticas artesãs. Foram ofertadas oficinas de tecelagem, costura, fuxico, pintura e ambiente virtual. Participaram da oficina de tecelagem 4 educandos, e teve como intuito desenvolver a criatividade por meio da transformação de linhas em tecidos com desenhos diversos. A oficina de costura foi um espaço importante de acolhimento para os 14 educandos que participaram. Já a oficina de fuxico, que já é ofertada há alguns anos, contou nessa etapa com 7 participantes. A pintura teve como proposta estimular a criatividade e a produtividade artística dos 10 educandos que participaram. E por último, a oficina de ambiente virtual, uma proposta que surgiu a partir da demanda dos usuários da RAPS quanto à dificuldade de inserção digital para comunicação. Todos produtos confeccionados durante as oficinas fizeram parte da nova linha da Rede Gerar, composta por peças de vestuário, acessórios e decoração.

O encontro entre a saúde mental e a economia solidária se estabelece por meio de uma série de propostas coletivas, considerando que ambas promovem o estar no mundo perante a sua diversidade de crenças e culturas, almejando a mudança social para uma forma mais justa e solidária. É a partir da práxis transformadora, concebida na ação-reflexão, no modo como o sujeito compreende o mundo ao seu redor e a prática estabelecida, que a possibilidade da educação libertadora emerge.

Sendo assim, por meio das oficinas e interações virtuais, viu-se a potencialidade da construção coletiva, percebendo o processo educador como múltiplo, mútuo, como vemos na fala de Paula seguir:

[…] a gente tanto ensina como aprende e o aprendizado que a gente tem agora como online, […] tô aprendendo fazendo as coisas pela internet, pelo celular, pra mim isso tá sendo um aprendizado muito importante tanto pra mim quanto para as pessoas.

O artigo ainda aponta a importância nos diálogos referentes às atividades das oficinas, que eram frequentes as falas sobre possibilidades e formas de provocar a participação ativa nos processos de aprendizagem. Abordando o quanto a educação é uma interação entre teoria e prática, e que constitui-se como dialógico-dialética, ou seja, “ninguém educa ninguém, tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Sendo assim, a educação parte da premissa transformadora, crítica, libertária, almejando desses futuros profissionais essa mesma dinâmica em suas vivências.

“Uma importante forma de construção social, a economia solidária pode e deve ocupar espaços múltiplos enquanto possibilidade de construção coletiva”

Por fim, a Rede Gerar se consolida como uma iniciativa importante na saúde mental de Salvador, buscando firmar os preceitos da desinstitucionalização a partir da inclusão pelo trabalho, potencialização da autonomia e emancipação das pessoas em sofrimento mental. Compromete-se potencialidades dos usuários no território e a desconstrução do estigma da loucura, a partir da interação do projeto com a sociedade. Idealizando alcançar tais objetivos, a Rede Gerar desenvolve ações com atores de diversos campos do saber, articulando e mobilizando a rede e sendo uma referência para os usuários, trabalhadores da RAPS e estudantes no que tange à economia solidária e à saúde mental.

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SANTOS, C.; PORTUGAL, C.; NUNES, M.. Economia solidária e saúde mental: relato de experiência de práticas virtuais. Saúde em Debate, v. 46, n. spe6, p. 251–260, 2022. (Link do artigo)