Por que o Conhecimento Crítico em Saúde Mental é Essencial para a Prática Ética: Uma Entrevista com a Jan DeFehr

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Este texto foi originalmente publicado no site Mad in America. A tradução é de Débora Grion, a revisão técnica é de Paulo Amarante e a edição é de Camila Motta.

Jan DeFehr argumenta que uma prática ética exige acesso ao que o próprio campo disputa, incluindo riscos sobre os quais as pessoas raramente ouvem falar.

Jan N. DeFehr é uma professora associada na Faculdade de Educação da Universidade de Winnipeg e uma associada do Instituto Taos (The Taos Institute), além de membro da Faculdade para Palestina (Faculty for Palestine) de Manitoba. Ela também é membro do Mad Studies Hub da Universidade de York. Obteve seu doutorado em Ciências Sociais e Comportamentais pela Universidade de Tilburg na Holanda. Antes de ingressar na academia foi assistente social clínica por muitos anos, trabalhando ao lado de pessoas que tentavam dar sentido ao seu sofrimento dentro do sistema de saúde mental, e muitas vezes apesar dele. Seu trabalho com ensino, pesquisa e desenvolvimento de cursos se concentram na ampliação do acesso público a análises críticas desse sistema de saúde mental, baseando-se no trabalho de usuários e sobreviventes da psiquiatria, profissionais e pesquisadores.

Seu novo livro, A Critical Mental Health Primer: Towards Informed Choice in Social Services, Education, and Healthcare (Tradução livre: Um manual básico sobre saúde mental: rumo a escolhas informadas nos serviços sociais, educação e cuidados de saúde)(Canadian Scholars, 2025), oferece um mapa nítido e acessível da produção acadêmica crítica em saúde mental. O livro examina críticas científicas ao diagnóstico, os danos potenciais dos rótulos psiquiátricos, a falta de transparência e de justiça procedimental nos serviços, críticas anticoloniais às premissas e práticas da saúde mental, e as evidências sobre medicamentos psiquiátricos e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). O livro também reúne formas de ajuda não patologizantes que centralizam abordagens relacionais, dialógicas, antiopressão e anticoloniais, juntamente com ferramentas concretas para a escolha informada e o apoio cotidiano fora do modelo biomédico dominante.

Em nossa conversa, falamos sobre como Jan passou a adotar perspectivas críticas, por que ela vê o acesso ao conhecimento crítico em saúde mental como um pré-requisito para uma prática ética e como isso se apresenta quando organizações aderem à escolha informada. Percorremos os capítulos-chave do livro, exploramos suas implicações para assistentes sociais, educadores e profissionais da saúde e analisamos como comunidades podem construir formas de cuidado que não dependem de diagnóstico ou coerção.

Justin Karter: Jan, muito obrigado por se juntar a nós.

Jan N. DeFehr: Muito obrigada por me receberem. Antes de começarmos, quero expressar meu profundo agradecimento ao Mad in America pelo trabalho que vocês vêm realizando há tantos anos, promovendo conversas em torno desses temas. Muitos de nós encontramos coragem e um material de subsídio consistente, a partir do trabalho de vocês. Muitas pessoas trabalham de forma isolada e faz diferença saber que vocês estão aí.

E obrigada a você também, Justin, pelo seu trabalho. Tive meu primeiro contato com você por meio de suas cartas abertas. Esse trabalho moldou profundamente o meu próprio pensamento.

Karter: Obrigado. É emocionante ouvir isso. Vamos começar pelo começo. Você poderia compartilhar um pouco sobre o seu caminho até esse trabalho? Como você acabou na prática em saúde mental, e quando você começou a se mover em direção a uma perspectiva mais crítica?

DeFehr: Na verdade, comecei no piano clássico, seguindo os passos da minha mãe. Na casa dos vinte anos, experiências me levaram em direção a grupos de pessoas que lutavam contra diferentes formas de injustiça sistêmica, e eu comecei a me afastar desse primeiro amor e a entrar em outros campos.

Eventualmente fiz um mestrado em serviço social na Universidade de Manitoba e iniciei uma prática de aconselhamento financiada com recursos públicos como assistente social clínica. Esse tipo de serviço é coberto pelo nosso sistema de saúde público em Manitoba e em muitos lugares do Canadá.

Durante grande parte do meu trabalho como profissional, eu era uma pessoa crítica “no armário” do sistema de saúde mental.

Na minha prática eu comecei a notar como o vocabulário da saúde mental aparecia cada vez mais entre profissionais, meus colegas, e também entre as pessoas que se encontravam comigo. As pessoas estavam se descrevendo nos termos de transtornos mentais. Comecei inclusive a ouvir meu próprio trabalho ser descrito como “prática em saúde mental” e que eu ocupava um “cargo em saúde mental” no centro comunitário de saúde onde eu trabalhava.

Isso sempre não me pareceu verdadeiro. Mesmo quando as dificuldades das pessoas eram nomeadas nos termos da saúde mental, imediatamente começávamos a falar sobre suas vidas, seus relacionamentos, condições financeiras, pressões econômicas, contextos sociais e políticos.

A lente “mental” me parecia profundamente descontextualizadora, individualizante, patologizante e despolitizante. São palavras às quais retorno com frequência. Com o tempo, fui ficando cada vez mais desconfortável e mais abertamente crítica.

Acho que isso apareceu em uma situação em que eu estava trabalhando em outro contexto. Eu comecei a trabalhar nos serviços estudantis da universidade onde hoje leciono, como conselheira estudantil. Éramos três naquele momento. Tivemos uma nova administração, e eles estavam entusiasmados para anunciar uma nova “iniciativa de saúde mental”. Ela aconteceria em todo o campus. Vários docentes foram convidados, assim como funcionários. As reuniões eram grandes. E o anúncio, basicamente, foi que teríamos uma iniciativa de detecção precoce e tratamento da doença mental no campus. Não seria ótimo diagnosticar e tratar mais estudantes o mais rapidamente possível?

Meus colegas da área de aconselhamento e eu ficamos imediatamente preocupados. Isso pode soar saudável e necessário para muitas pessoas. Tentamos apoiar aspectos da iniciativa que achávamos razoáveis.

Karter: Você pode falar mais sobre essas preocupações? Para muitas pessoas, identificar a doença cedo e conectar as pessoas ao cuidado, pode ser uma abordagem de saúde pública. Por que isso não se aplica nesse caso? Que riscos você temia no rastreio de saúde mental dos estudantes universitários?

DeFehr: Consigo imaginar as pessoas pensando: o que poderia dar errado?

Muitas de nossas preocupações tinham a ver com o fato de que muitos estudantes, e muitos professores também, poderiam atender aos critérios diagnósticos para ansiedade ou depressão em algum momento de seus estudos. Sabendo o que sabíamos sobre as críticas existentes no campo, temíamos que os estudantes fossem empurrados para o sistema de saúde mental sem acesso às críticas e controvérsias.

Tive que me assumir como uma profissional muito preocupada. Ficamos isolados em nosso trabalho. Houve repreensões formais destinadas a nos colocar na linha. Eventualmente aqueles administradores seguiram adiante. Eu permaneci.

Então, um dia, houve um convite silencioso para me conectar com a Faculdade de Educação. Soube que o reitor daquela época era um ex-psicólogo escolar que estava profundamente preocupado com a medicalização do sofrimento estudantil, especialmente entre estudantes marginalizados pelo colonialismo e pelo empobrecimento sistêmico.

Após algumas conversas, fui convidada para a Faculdade de Educação. De repente, eu estava ensinando disciplinas de saúde mental, falando abertamente, escrevendo, publicando e pesquisando sobre temas que eu havia sido explicitamente proibida de discutir nos serviços estudantis.

Foi uma grande transição e pareceu arriscada. Meus colegas me alertaram que os sistemas escolares são um terreno clínico, entrelaçado com o sistema de saúde mental. Mas o que encontrei foi que professores em formação, professores em exercício e meus colegas de faculdade foram extremamente solidários. Sou muito grata.

Karter: No início do livro, você argumenta que muitas vezes não sabemos quando estamos interagindo com “o sistema de saúde mental”, ou quando estamos sendo interpretados por meio de uma linguagem psicológica ou psiquiátrica. As escolas são um dos lugares onde isso pode acontecer. Professores podem não diagnosticar formalmente, mas frequentemente são solicitados a observar estudantes de maneiras que depois se tornam parte de uma avaliação.

Você argumenta que há uma falta de transparência sobre quando passamos a estar sob esse tipo de olhar e sobre o que pode decorrer disso, às vezes de formas que as pessoas não calculam.

Poderíamos voltar um pouco e falar sobre como este livro surgiu? Em alguns momentos ele aparenta como algo que você gostaria de ter entregue à você mais nova nos serviços estudantis. Como você chegou a escrevê-lo?

DeFehr: Em parte por meio da experiência de ensinar disciplinas críticas de saúde mental para professores em formação inicial e continuada e percebendo o que eu também via na prática, que as pessoas não têm acesso à pesquisa crítica na área.

Ouço esse retorno com frequência: por que só estamos ouvindo sobre isso agora?

O campo costuma ser apresentado como coerente e unificado. As pessoas não são informadas de que ele é profundamente dividido e que sempre o foi.

Minha convicção é que o público merece acesso a essa crítica. Quando apresentamos premissas e práticas da saúde mental por meio de currículos ou campanhas de conscientização e ignoramos a produção acadêmica crítica, estamos violando o princípio do consentimento informado.

Eu queria criar um recurso para educadores e profissionais, mas também algo acessível para pessoas menos familiarizadas com o campo. A ética profissional exige divulgação completa de informações relevantes, especialmente informações sobre risco de dano. Mas os profissionais não podem fazer isso se sua formação nunca lhes ofereceu oportunidade de entrar em contato com a produção crítica. Isso também fez parte da motivação.

Karter: Você defende com veemência que o conhecimento crítico sobre saúde mental é necessário para a prática ética, pois é essencial para um consentimento informado. Gostaria de saber como isso se aplica na prática.

Por exemplo, alguém pode procurar a atenção primária, ser triado com suspeita de depressão e, então, encaminhado para receber um diagnóstico, terapia ou medicação. Nesses primeiros encontros, o que você acha que normalmente é apresentado? O que alguém treinado no material que você aborda faria de diferente para apoiar uma escolha mais informada?

DeFehr: A ética do consentimento informado não é algo novo. Muitas organizações têm formulários e listas de verificação. Muitos deles existem para cobrir responsabilidades legais.

Na maior parte das vezes, porém, o consentimento acontece por meio do consentimento implícito, como ocorre em outras áreas da medicina. Se você agendar uma consulta com um oncologista você não precisará fornecer permissão explícita para receber um diagnóstico de câncer. Seu consentimento está implícito no agendamento da consulta.

A psiquiatria e o campo mais amplo da saúde mental, frequentemente, adotam essa mesma prática, apesar de estarem trabalhando a partir de uma base de evidências muito diferente.

A preocupação com o consentimento implícito é que ele não é exatamente consentimento. As pessoas não entendem quem é o profissional de saúde mental uma vez que é um campo tão multidisciplinar.

Alguém pode relatar ao seu médico de família que está dormindo mal ou se sentindo abatido por causa de uma perda ou de mudanças abruptas, mas não entendem que estão falando com alguém, autorizado pelo Estado, que pode te introduzir num percurso na saúde mental, ou acrescentar algo a você. A avaliação pode já estar em andamento, e não há nada que sinalize: “Minha normalidade mental está agora sendo avaliada”.

As pessoas não entendem quem são os “diagnosticadores” em suas instituições, não entendem como o processo funciona e não entendem que o consentimento explícito para uma avaliação psiquiátrica, muitas vezes, não é exigido. A avalição começa com perguntas.

Como Allen Frances já mencionou, especialmente em contextos médicos, isso pode acontecer de forma rápida e silenciosa, dentro de consultas que podem durar de oito a dez minutos, e você sair com dois ou três diagnósticos inseridos no seu prontuário.

As pessoas tendem a compreender a potencial ajuda, mas o potencial dano é um mistério para muitas.

O livro argumenta a passagem do consentimento informado para um padrão de cuidado baseado na escolha informada. As pessoas precisam ter a oportunidade de considerar o benefício potencial e o dano potencial.

Por exemplo, elas precisam entender a permanência de um diagnóstico do DSM e que ele pode funcionar de maneira diferente de muitos diagnósticos em outras áreas da medicina. Em muitos sistemas, não existe um mecanismo simples para remover o diagnóstico depois que ele entra no prontuário. As possibilidades costumam ser enquadradas em termos de remissão ou recaída. É possível adicionar rótulos, mas não é fácil removê-los.

As pessoas também precisam entender que pode haver consequências vocacionais, financeiras, legais e relacionais que podem se manifestar décadas depois que um diagnóstico é atribuído.

Karter: Vamos permanecer no diagnóstico, porque você começa o livro por aí. Por que iniciar pelo diagnóstico? E o que você acha que a maioria das pessoas não sabe sobre diagnóstico, mas precisaria saber para o tipo de escolha informada que você está descrevendo?

DeFehr: O livro apresenta uma crítica científica ao diagnóstico.

Há algumas coisas que acho que as pessoas precisam ter clareza e, às vezes, nem mesmo em contextos críticos isso está nítido.

Primeiro, não temos evidência cientificamente válida de biomarcadores de patologia para diagnósticos de transtorno mental, com exceção de um pequeno número, talvez cinco ou menos, dentre centenas de diagnósticos.

Uma crítica relacionada é que esses diagnósticos no manual diagnóstico não são feitos com base em exames laboratoriais. Não temos exames de laboratório ou testes médicos objetivos disponíveis, ou exigidos, para diagnósticos psiquiátricos do DSM. Não se tem para esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno de déficit de atenção ou TDAH, diagnósticos de depressão e assim por diante.

Nunca tivemos um teste para desequilíbrio químico.

Isso não significa que o sofrimento das pessoas não seja real ou válido. Significa que não temos evidências adequadas para medicalizar o sofrimento das pessoas e comportamentos que podem ser debilitantes ou desconcertantes.

A crítica científica é fundamental, não porque a ciência seja a palavra final, mas porque é importante entender que não estabelecemos evidência válida de biomarcadores que possa ser medida em laboratório.

O discurso costuma ser o de que alguém “tem TDAH”, como se carregássemos uma infecção psiquiátrica em nossos genes, neurológica ou bioquímica. As pessoas merecem clareza sobre o que podemos e o que não podemos afirmar cientificamente.

Karter: Uma vez que você começa isso, pode abalar a suposição de que esses são transtornos consolidados, condições discretas tratadas como outros diagnósticos médicos. E quando essa suposição se afrouxa as pessoas podem se tornar mais abertas a alternativas e a diferentes formas de nomear.

A partir daí, você avança para críticas anticoloniais e para o contexto. Você poderia falar sobre essa parte do livro e sobre como sua localização e experiências no Canadá moldaram sua abordagem?

DeFehr: Fui influenciada pelo trabalho de Ameil Joseph, professor d

e serviço social na Universidade McMaster. Ele apresentou uma crítica aos movimentos críticos na psiquiatria e na saúde mental, dizendo que eles não falaram muito sobre colonialismo, assim como a própria psiquiatria tende a omitir esse assunto.

No entanto, muitos argumentam que o colonialismo é uma das maiores forças que moldam a miséria e o sofrimento em todo o mundo, especialmente considerando o que alguns estudiosos descrevem como uma espécie de apartheid global.

Sou uma colonizadora ensinando em terra roubada, a terra dos povos Anishinaabeg, Anishinaabemowin, Inuik, Nehethuik, Oceti Sakowin, Dakota Oyate e Michif, no Território do Tratado Um (Treaty One territory), pátria nacional dos Métis do Rio Vermelho (Red River Métis).

Como colonizadora, como colonizadora branca, tenho uma responsabilidade.

Não penso nisso como ativismo. Eu entendo como dever. Um dever de compreender as críticas decoloniais e de garantir que o trabalho não seja superficial ou apenas uma questão de aparência, como muitas vezes acontece em nosso país.

Para mim, isso se conecta com os movimentos de devolução de terras, defesa das terras indígenas e proteção da água. Inclui contribuir financeiramente e comparecer com todo o meu ser, não apenas no Canadá, mas em outras partes do mundo.

Aqueles de nós que se consideram acadêmicos anticoloniais onde trabalho, têm a obrigação de se opor ao colonialismo em todo o mundo e de trabalhar em solidariedade com povos oprimidos.

Karter: Como você vê o sistema de saúde mental conectado ao colonialismo, tanto nas formas pelas quais ele pode reforçar esse projeto quanto, se você acha que isso é possível, nas formas pelas quais ele poderia também interrompê-lo?

DeFehr: O sistema de saúde mental frequentemente enquadra o sofrimento indígena como uma questão terapêutica, como um sinal de dano e déficit. Ele enquadra a necessidade como uma escassez de serviços de saúde mental, como se prescisássemos de mais profissionais de saúde mental, em vez de reconhecer como os sistemas e estruturas produzem sofrimento.

Essa palavra, sofrimento, parece pequena demais, honestamente. O sistema colonial mantém muitas pessoas apenas em nível de sobrevivência.

Sou influenciada pelo trabalho de Arthur Manuel,  falecido líder Secwépemc. Faço referência aos seus escritos no primer. Ele escreve sobre desapropriação e dependência do Estado como características definidoras do Canadá colonial. Ele escreve sobre o que chama de sistema 99,8, no qual o Estado colonial controla quase toda a massa territorial, enquanto os povos indígenas têm cuidado sobre aproximadamente 0,2%. Isso produz empobrecimento massivo e força muitas pessoas a viverem em níveis de sobrevivência e de crise.

Uma parte central da crítica é como o sistema de saúde mental pega o sofrimento indígena coletivo e o “lava” para dentro da patologia individual. Ele o descontextualiza, o patologiza e faz suposições de déficit.

No livro, eu também exploro a nomeação colonial de lugares. Comecei a pensar nas práticas diagnósticas como uma prática de nomeação. Profissionais de saúde mental rotineiramente colocam nomes nas pessoas, nomes que vêm da Associação Psiquiátrica Americana.

Por que estamos colocando esses rótulos em pessoas que não são estadunidenses, em pessoas de culturas diferentes, em povos indígenas, sem consentimento informado e sem oportunidade de escolha informada?

Comecei a pensar nos diagnósticos atribuídos a povos indígenas de forma não consensual, o que ocorre praticamente o tempo todo, como uma continuação da nomeclatura colonial de lugares.

Karter: Você levanta a questão do que um nome faz, material e psicologicamente. O que acontece quando renomeamos algo, seja a terra ou uma experiência humana? Quais são as consequências de importar uma taxonomia diagnóstica criada em um determinado momento histórico e cultural e aplicá-la amplamente?

DeFehr: Leanne Betasamosake Simpson escreveu sobre a relação entre a atribuição de nomes e a propriedade.

Também estou pensando no grupo Emotions Are Not Illnesses (Emoções Não São Doenças), ERNI. Eles descrevem a nomeação diagnóstica como uma espécie de roubo de identidade. Muitas pessoas não têm memória de si mesmas separada de um diagnóstico atribuído na segunda série na escola, elas não têm outra forma de compreender  a si mesmo, a não ser como pacientes psiquiátricos.

Claro, para muitas pessoas, um diagnóstico foi benéfico dentro de nossos sistemas. Mas para muitas outras, a atribuição foi uma forma de roubo. Ela pega algo que pertence à pessoa, e a nós coletivamente: nossos sentimentos, comportamentos, nossa estranheza, e de repente nomeia isso como psiquiátrico.

Depois que isso acontece, não há um mecanismo para desfazer, pelo menos não oficialmente. Indivíduos fazem isso por conta própria de muitas maneiras e há atos de resistência. Mas, no registro oficial, como Kenneth Gergen escreveu décadas atrás, essa pessoa passa a ser considerada abaixo do ideal.

Nenhuma campanha antiestigma vai salvar alguém quando essa pessoa perceber que quer uma profissão, mas não pode obter licença profissional por causa de um diagnóstico registrado na oitava série; que seu seguro de vida ou invalidez é mais caro; que não é elegível para um seguro de vida; que seu diagnóstico agora aparece em uma disputa de custódia; que quer adotar, mas seu histórico de saúde mental precisa ser divulgado e conta contra ele.

Há muitas consequências materiais, além de como nos compreendemos. As pessoas geralmente não têm a chance de considerá-las antes de comparecer a uma consulta em saúde mental.

Karter: Essa nomeclatura também pode implicar um determinado tipo de resposta. Ela pode iniciar o que Rachel Aviv chamou de uma “carreira” como paciente psiquiátrico, o que muitas vezes envolve medicação.

Seu próximo capítulo aborda os medicamentos psiquiátricos e os padrões de cuidado. Como foi abordar essa literatura e escrever sobre ela, enquanto alguém que não prescreve? E por que era essencial incluir esse tema?

DeFehr: As pessoas podem notar minha formação e se surpreender com o fato de haver um capítulo sobre medicamentos psiquiátricos. Eu não sou prescritora. Nunca fui. Não sou farmacêutica.

Mas muitas pessoas que fazem trabalho acadêmico crítico relacionado a medicamentos psiquiátricos nunca foram prescritoras, isso não é um pré-requisito para pensar criticamente sobre um sistema. Você não precisa ser membro desse sistema para estudá-lo.

Tenho colegas na criminologia que fazem trabalho crítico sobre policiamento, mas nunca foram policiais, isso não é exigido para a crítica acadêmica.

Não estou sozinha nisso. Penso, por exemplo, em James Davies, sua formação é em antropologia e ele é psicoterapeuta, se as informações online estiverem corretas. Também em John Read, que contribuiu tanto como psicólogo e acadêmico, ele também não é prescritor.

Há muita produção acadêmica crítica e pesquisa disponível ao público que não exige formação em farmacologia para ser compreendida e utilizada.

Sou grata pela revisão por pares. Também sou grata ao meu cônjuge, que é médico de saúde comunitária, conversamos sobre essas questões há mais de 35 anos. Sou grata também pelas conversas com prescritores. Muitos de nós temos aprendido juntos.

Há também recursos disponíveis para as pessoas, incluindo orientações para psicoterapeutas sobre conversas com clientes que estão usando ou retirando medicamentos psiquiátricos prescritos. E o Mad in America também tornou muito desse conhecimento acessível.

Karter: Ao examinar as pesquisas e os debates em torno dos medicamentos psiquiátricos, o que pareceu mais importante que as pessoas compreendam ao entrar nesses sistemas?

DeFehr: As pessoas frequentemente assumem que a crítica ao campo da saúde mental é automaticamente anti-medicação. Mas aprendi com o trabalho de redução de danos, incluindo Shira Hassan e outras pessoas, adoto uma abordagem de redução de danos e de escolha informada em relação aos medicamentos psiquiátricos também.

As pessoas precisam ter acesso a informações precisas sobre o que essas substâncias são, como podem ser benéficas para algumas pessoas e como podem causar danos. Não adoto uma abordagem antidroga em relação a drogas recreativas ou a medicamentos psiquiátricos prescritos, a distinção entre essas categorias costuma ser arbitrária. Estamos falando de substâncias psicoativas.

Para mim, os modelos de ação dos medicamentos propostos por Joanna Moncrieff são essenciais, eles oferecem uma explicação sólida do que os medicamentos psiquiátricos fazem e dos limites do que podemos afirmar. Eles ajudam a esclarecer onde faltam evidências, por exemplo, não temos evidências adequadas de que os medicamentos psiquiátricos atinjam especificamente uma patologia subjacente da forma como muitas pessoas presumem.

Em vez disso, os medicamentos psiquiátricos, como substâncias psicoativas, produzem uma gama característica de efeitos. Esses efeitos podem ser úteis para algumas pessoas e não para outras. Também acho essencial que as pessoas compreendam tolerância, dependência e retirada. Essa conversa normalmente não acontece, pelo menos onde eu moro.

Quando alguém inicia uma prescrição, muitas vezes não há uma conversa sobre o que pode acontecer se decidir parar. Muitas pessoas pensam que é como parar uma vitamina, ou talvez um antibiótico, que você pode simplesmente interromper quando quiser. As pessoas não entendem que os efeitos de retirada podem ser severos e debilitantes, eles  também podem ser mínimos ou inexistentes, mas as pessoas precisam de informação.

As pessoas também precisam entender o potencial de dano, não apenas o potencial de benefício. U exemplo que considero marcante é que o manual diagnóstico reserva um capítulo inteiro para transtornos de movimento induzidos por medicamentos causados por drogas neurolépticas, ou seja, antipsicóticos. Esses medicamentos estão sendo prescritos cada vez mais para crianças para controlar o  comportamento, especialmente em contextos institucionais, como escolas.

Vale a pena olhar para esse capítulo e ouvir pessoas que lidam com coisas como discinesia tardia ou acatisia, essas sensações torturantes que podem impedi-las de seguir com suas vidas.

Karter: À medida que nos aproximamos do final, o que podemos fazer em vez disso? Você apresenta uma crítica nítida de como as coisas estão atualmente enquadradas e sendo praticadas. Que exemplos você vê de trabalho fora do sistema dominante ou de transformação a partir de dentro? E como as pessoas se sustentam em esforços de longo prazo para reparar e reimaginar o cuidado?

DeFehr: Frequentemente ouvimos: sim, o sistema tem problemas. Mas, enquanto isso, precisamos viver com ele, não temos uma alternativa. O que eu argumento é que alternativas sempre existiram.

Primeiro, os povos indígenas têm formas diversas de compreender o sofrimento e de responder a ele ao redor do mundo. Mas também existem outras comunidades de prática. Destaco as práticas dialógicas e a importância do profissional adotar uma postura de aprendiz, aprender junto com as pessoas sobre o que elas estão enfrentando, caminhar ao lado delas, buscar compreensão prática, em vez de assumir que precisamos estar um passo à frente.

Eu não atendo mais pessoas como profissional, mas estou pensando no trabalho de ajuda de forma geral, a investigação compartilhada é importante, assim como a aprendizagem mútua, como também criar condições para a escolha informada da melhor maneira possível.

Abordagens baseadas em pares são essenciais. Qualquer coisa que envolva comunidades se reunindo, solidariedade, onde as pessoas experimentem a dignidade de dar e receber, em vez de serem colocadas apenas na posição de receptoras.

Para mim, uma abordagem anti opressão sustenta tudo isso, independentemente das práticas específicas das quais lançamos mão. É importante compreender como sistemas e estruturas moldam as condições de vida das pessoas, seus sentimentos e comportamentos.

Precisamos trabalhar coletivamente sempre que pudermos. Essa é a minha maior fonte de esperança e força.

 

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Mad in Brasil (Texto original do site Mad in America ) hospeda blogs de um grupo diversificado de escritores. Essas postagens são projetadas para servir como um fórum público para uma discussão – em termos gerais – da psiquiatria, saúde mental e seus tratamentos. As opiniões expressas são próprias dos escritores.

 

 

 

 

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PhD, lidera a cobertura de notícias sobre pesquisa e a estratégia editorial do Mad in America. Ele é diretor interino do Programa de PsyD em Psicologia Clínica e Humanidades Psicológicas da Boston College e professor em tempo parcial do Centro de Humanidades Psicológicas e Ética. Sua bolsa de estudos examina as formações históricas e culturais da mente, subjetividade e personalidade, os papéis dos movimentos ativistas e comunidades de experiências vividas, incluindo a tradição do consumidor/sobrevivente/ex-paciente (C/S/X) e como os discursos sobre saúde mental moldam instituições, práticas e identidades. Ele trabalha com estudos sobre loucura, psicologia crítica, filosofia da psicologia e saúde mental global baseada em direitos. Metodologicamente, ele é especialista em investigação qualitativa crítica e pesquisa do processo de psicoterapia baseada em abordagens intersubjetivas e fenomenológicas. Ele é presidente da Divisão 24 da APA (2025-26) e atua no Conselho Executivo da Divisão 32. Anteriormente, foi oficial de pesquisa do Relator Especial das Nações Unidas sobre o Direito à Saúde. Ele obteve seu doutorado em Psicologia de Aconselhamento na Universidade de Massachusetts Boston, onde sua dissertação examinou a defesa das pessoas com deficiência psicossocial no movimento global de saúde mental. Ele também possui pós-graduação em Jornalismo e Psicologia Comunitária pela Point Park University.