Vozes que Curam, Orgulho Louco e Comunidade Recuperada

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2029


Orix“Orgulho Louco é um movimento de massa dos usuários dos serviços de saúde mental nos Estados Unidos, reunindo ex-usuários e seus aliados. Os ativistas do Orgulho Louco buscam questionar termos tais como “louco”, “doidão”, “pirado” pelo seu mau uso. O Orgulho Louco visa educar o público em geral sobre questões como as causas dos ‘transtornos mentais’, as experiências daqueles que usam o sistema de saúde mental e a pandemia de suicídio.”

Source: https://en.wikipedia.org/wiki/Mad_Pride

Na produção do premiado documentário de ação social “Vozes que Curam“, uma das nossas esperanças foi que o filme diminuiria o medo em torno de estados alterados ou extremos de consciência, como ouvir vozes e ter visões – o que é muitas vezes chamado de “psicose” ou “doença mental ” -, de tal forma que as pessoas se sentiriam mais livres para falar abertamente sobre essas experiências com a família, os amigos e com os vizinhos – que as pessoas sairiam do armário, por assim dizer – e até teriam uma sensação de ‘orgulho louco’.

Tenho de admitir que fiquei apavorado com a experiência de falar sobre os detalhes da minha experiência pessoal com os meus vizinhos. Fui criado por dois hippies maravilhosos que me deram o nome de um antílope africano. Vivíamos em uma área com população de baixa renda da cidade. Apesar de trabalharem duro em empregos servis, na maioria das vezes eles não tinham dois tostões no bolso. Quando criança, lembro-me que às vezes não havia nada para comer, exceto tortilhas e mostarda.

Hoje estou aqui, me sentindo afortunado e privilegiado, por ter um bom trabalho e por possuir uma casa em um bairro agradável. É também uma vizinhança bastante unida. Todos nós nos conhecemos uns aos outros. Há áreas coletivas para vendas em nosso bairro, nos jardins de nossas casas. Jogamos nas mesmas equipes de basquetebol e de softbol da cidade. Temos uma noite de pôquer semanal. Mas eu tinha visões de meus vizinhos a descobrir a minha história e colocando a mim e a minha família no ostracismo, e com possibilidades de nos expulsar para fora da cidade.

No início de 2014, as coisas chegaram ao ponto máximo. Eu tinha acabado de passar por um intenso estado alterado no final de 2013, o que eu prefiro chamar de busca de visão, que finalmente me levou a ser hospitalizado em um hospital, por uma semana, e submetido a altas doses de drogas psiquiátricas pesadas. Eu sabia que eu estava lerdo e fora de mim, mas eu não tinha ideia de como eu estava sendo visto de fora. Eu sabia estar prestes a ter um rude despertar.

De alta, atravessei a rua até à casa do vizinho, sentindo-me finalmente pronto para enfrentar o mundo e participar da noite do pôquer semanal. Seria bom poder me sentir ligado às pessoas novamente, tentar seguir em frente, sabendo que isso teria que ser a partir do sentimento de ser diferente, de ser um outsider, e de haver sido hospitalizado pela terceira vez. No entanto, desta vez, eu não me senti como um dos caras que estavam jogando. Eu me senti como objeto de piada. Eles perguntaram de forma provocante: “Você está tomando drogas?” “Cara, você parece dopado!” Bem, eu estava tomando drogas, mas eu não sentia que seria bem recebido se falasse sobre o porquê e o que eu tinha acabado de passar. Eu pedi desculpas e sai naquela noite sentindo-me como um pária.

Escusado será dizer que eu estava bastante nervoso sobre o que meus vizinhos iriam pensar quando lançamos o filme “Vozes que Curam” em 2016, realizando várias exibições pelos bairros, incluindo várias não muito longe de onde moro. Minha história, incluindo a minha experiência em 2013, é destaque como parte do filme. Eu não havia estado com os vizinhos uma grande parte da minha vida, e agora eis que eu ali estava, na tela grande para todos me verem. Eu me sentia nu. E eu quase que não os convidei para ver a exibição do filme.

Então eu pensei, se eu não posso fazer isso, qual é a graça? Afinal de contas não foi essa uma das principais razões pelas quais fizemos o filme? Havia chegado a hora de eu apropriar a minha experiência de vida e ter um sentimento de orgulho por ela, com todos, e não apenas com as pessoas no meu trabalho e da minha vida pessoal que já conhecem o que no documentário é abordado. Então, convidei meus amigos e vizinhos. Aqueles com quem eu nunca tinha compartilhado profundamente as minhas experiências; ainda que com um medo muito real de que eles pudessem não querer ter nada a ver comigo depois de ver o filme.

Para minha surpresa, sem exceção, eles amaram o filme.  O filme nos fez ficar mais próximos – não o oposto. Eu penso que isso diga muito sobre o filme. Ele humaniza as pessoas.  Ali, nele, eu posso ver a minha própria vida, em tempo real: o poder que o filme provou ter.

Um dos subprodutos do filme é de diminuir o medo que pode separar as pessoas umas das outras, é despertar uma maior curiosidade e uma abertura para as experiências uns dos outros. Naquela noite do pôquer, no início de 2014, eu desejava que meus vizinhos estivessem genuinamente curiosos e empáticos sobre onde eu havia estado e o que estava se passando comigo. Eu queria que mostrassem que eles se importavam comigo. Mas parece que agora somos ensinados pela nossa sociedade a não sermos curiosos. Que se alguém está se comportando de uma forma diferente, essas pessoas necessitam ser encaminhadas para um profissional. Perdemos um senso de poder da comunidade em torno dessas questões. Muitas vezes isso leva a crianças a serem separadas dos pais, a casamentos serem despedaçados, e sim, a que os vizinhos sejam colocados no ostracismo em suas comunidades.

Comunidade que se recupera

Eu queria ilustrar a importância de sermos curiosos, através das minhas observações sobre a nossa recente estreia teatral em Bay Area, Oakland. Na manhã da Estreia, eu tive uma experiência muito estranha enquanto dando uma corrida. Eu estava em uma bela ciclovia em Berkeley, agindo como usualmente faço quando estou fazendo jogging: saúdo as pessoas, sorrio, faço acenos. Algumas pessoas acenam para trás, outras sorriem, algumas outras apenas olham para o chão. De repente, um jovem vestido de branco, andando com fones de ouvido, aproximou-se de mim e disse: “Vá louco! Turma de 2013!”

Levando em consideração que isso que ocorreu foi algo inusitado, pensei que esse incidente seria uma ilustração excelente da importância de se ser curioso.

Mais tarde, naquela noite, depois que os créditos do filme rolaram tela abaixo, eu peguei o microfone e disse, “Vá louco! Turma de 2013!”

Então, eu segui dizendo:

– Por que eu disse isso? Oh, bem, não ouça, ele é um louco. Mas esperem um pouco, por que é que eu comecei com isso? Vocês estão curiosos? Querem ouvir?

Eu continuei, a fim de compartilhar com o público como esse comentário aleatório, feito por essa pessoa aleatória, estava realmente muito relacionado com a minha experiência. “Vá louco! Classe de 2013!” Pois bem, em 2013 eu havida ido de fato à ‘loucura’, e que nesta mesma noite da Estreia centenas de pessoas estavam vendo essa experiência na tela grande. Uau! Quanta sincronicidade! Será que o jovem de branco tinha visto ‘Vozes que Curam’? Será que o mundo gira em torno de mim?

Deixando de lado o meu ego, seguindo a minha curiosidade perguntei a ele o que ele queria dizer, e descobri que ele estava na classe de 2013, e sem saber ao certo o que “Vá seu louco” queria dizer.

Eu ofereço essa história como algo para se pensar. Não acredito em coincidências, e acho que todos nós estamos conectados em um nível profundo que não entendemos completamente. E assim o meu ego aceitou de bom grado, com muita satisfação, aquela manhã como um belo presente espiritual.

A nossa visão de ‘Vozes que Curam’ sempre foi criar um filme de ação social. Inicialmente, lançamos o filme em abril de 2016, pela ocasião de um evento produzido por parceiros locais e comunitários. O objetivo principal era mobilizar a comunidade de saúde mental, nossa base, por assim dizer, demonstrando como o filme poderia ser usado em um nível comunitário, para estimular o diálogo em torno de questões de saúde mental. Perguntamos: “O que estamos falando quando falamos de” doença mental “? O objetivo era mudar nossa conversa do desespero e medo para a esperança e a cura.

A exibição em Oakland havia sido um exemplo do próximo passo para nosso filme de ação social. O primeiro do que estamos chamando de eventos ‘Recuperando a Comunidade’. Agora que temos mobilizada as nossas bases, é hora de estourar essa bolha de saúde mental, para que se saia totalmente do armário, porque essas questões nos tocam a todos. Queremos mudar a conversa, mas também queremos ampliar a conversa. Porque problemas de saúde mental não são uma questão singular.

Os panelistas de Oakland fizeram uma nova pergunta: “Dado o estado de loucura do mundo em que vivemos, como você acha que os temas abordados no filme se cruzam com a saúde mental das comunidades?”

Acho que mais e mais pessoas estão começando a ver que nosso mundo está ficando um pouco louco. Se você ligar a TV ou ler um jornal, você pode até dizer que isso é óbvio. O Projeto Ícaro e Madness Radio, duas iniciativas nossas, nacionais, do movimento dos usuários e ex-usuários dos serviços psiquiátricos, costumam perguntar: “O que significa ser louco em um mundo louco?” E uma pergunta que também é interessante para mim é a seguinte: “O que significa estar bem adaptado a um mundo louco?”

Um dos temas principais do filme é essa ideia de “canários na mina de carvão”. Os canários sentem o perigo e soam o alarme. Na minha experiência, esta é uma excelente metáfora para o que acontece quando as pessoas experimentam estados alterados ou extremos, o que os médicos chamam de “psicose” ou “doença mental”. E se, ao invés de rotular e suprimir essas experiências, tomássemos uma abordagem mais curiosa! Poderemos descobrir que muitas pessoas estão enfrentando um perigo significativo em suas vidas pessoais. Isso pode ser na forma de abuso, trauma, negligência, falta de amor, pobreza, ameaça da pobreza, e a lista continua. O canário soa o alarme: algo não está certo na minha vida!

Há um papel mais amplo que nós canários podemos ter a serviço da sociedade, se as pessoas reservarem um tempo para ouvir e para serem curiosas. Muitas vezes nossos estados alterados refletem não apenas nossas vidas pessoais, mas também a sociedade em geral. Uma das experiências mais comuns, para alguém que esteja passando por um estado extremo, é sentir que temos de salvar o mundo. Mais especificamente, que eu irei salvar o mundo; o que pode se transformar em “Eu sou Jesus”, “eu sou o Messias”. E o que vamos fazer? Nós não levamos essas pessoas a sério! Elas estão enchendo os nossos hospitais estaduais, as enfermarias psiquiátricas e outras instituições. Nós não as ouvimos! Eu sei disso, porque eu fui uma dessas pessoas. Bem, eu digo, não atirem no mensageiro! Podemos haver ficado confusos, nosso ego pode haver se perdido no caminho, mas ouçam a mensagem central: O mundo precisa ser salvo! Nós loucos conhecemos isso há muito tempo. E nós realmente não podemos fazer isso sozinhos, temos que fazer isso juntos.

Nossa intenção é que os próximos eventos – nossas sessões de “Recuperação da Comunidade” – traga tantos movimentos sociais diferentes quanto for possível. LGBTQIA, Direitos Civis, Direitos de Deficiência, Direitos Ambientais, Recuperação de Dependência, Justiça Criminal, Movimentos Espirituais, etc. Esses movimentos estão todos conectados. E é doloroso para mim que os movimentos progressistas ainda tenham tantos equívocos com relação às pessoas que são rotuladas de ‘doente mental’. Mesmo dentro desses movimentos, às vezes parece que somos o único grupo que é ‘ok’ ser rotulado, para que nos ‘tratem’ à força, para que nos tranquem em uma instituição psiquiátrica. Bem, enquanto é tempo para nós do movimento Orgulho Louco sair do armário, também é tempo para os chamados ‘normais’, para que não só nos recebam nesses grandes movimentos progressistas, mas também tempo de volta para a família humana.

Antes de concluir, eu queria voltar para o local, para o meu bairro, porque eu omiti algo importante. Havia realmente um vizinho em 2014 que estendeu a mão, que me fez sentir mais humano. Ele notou que eu não estava indo bem naquela noite. Ele me enviou uma mensagem de texto e me ofereceu para me levar para almoçar. No almoço, ele compartilhou sobre suas próprias lutas com a depressão e como correr havia, basicamente, salvado a sua vida. Ele é a razão pela qual eu estava fazendo jogging naquela manhã em Berkeley. Eu sou agora um corredor regular, graças a ele. Acho que correr é uma das coisas que me fazem estar de pé. Devo muito a ele ter me dado a coragem para compartilhar mais de mim com o resto de meus vizinhos, e uma grande razão porque eu sinto, mais do que nunca, conectado a eles e com outras pessoas.

Você vê, um simples ato de curiosidade, um simples ato de bondade, pode ir abrir um longo caminho para nos ajudar a recuperar um sentido de comunidade.

Então eu desafio o leitor para realmente ouvir a experiência da outra pessoa. Ao fazê-lo, você pode aprender muitas coisas profundas, não apenas o quanto a loucura com certeza é uma experiência difícil e dolorosa, mas também que ela é uma parte muito bonita e espiritual da condição humana. Você pode entrar em contato com sua própria loucura e perceber que não há nós e eles. Somente nós. E quem sabe, você pode até começar a sentir algum Orgulho Louco!