Um Diagnóstico Psiquiátrico tem o Impacto de uma Maldição Médica?

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mcornwallNos últimos 40 anos, como terapeuta dissidente e ativista, conheci muitas pessoas que foram tão negativamente impactadas pela experiência subjetiva de receber um diagnóstico psiquiátrico altamente duradouro, que eu comecei a ver como uma rotina tão desumanizante como é a prescrição de diagnósticos é equivalente a uma maldição médica.

Uma maldição é definida como sendo: “Uma declaração solene destinada a invocar um poder sobrenatural para infligir dano ou castigo a alguém”. Claro, os profissionais de saúde mental não pretendem causar dano quando proclamam solenemente, da sua posição de autoridade médica, que uma pessoa tem um transtorno / doença psiquiátrica para toda a vida, como é definido no modelo de doença psiquiátrica do sofrimento emocional humano e codificado no DSM. Mas, uma e outra vez, eu vi as consequências desse poderoso ritual de receber e assimilar um diagnóstico de patologização para toda a vida. Esses rótulos dos modelos de doença não consideram como perdas pessoais, necessidades não atendidas, isolamento, traumas e a toxicidade social afetam nossas vidas de maneira dolorosa.

Muitas pessoas lutam por décadas, ou realmente sucumbem e tiram suas próprias vidas, por causa da dor emocional e do peso corrosivo da experiência de serem rotuladas inequivocamente. O rótulo psiquiátrico delas é reforçado, objetivamente e poderosamente, pelos prejudiciais tratamentos psiquiátricos que acompanham e seguem sempre o rótulo oficialmente decretado.

Mais uma vez, mesmo os tratamentos prejudiciais são sempre administrados com ares de benevolência, se não com uma intenção benigna. Porém, toda hospitalização, consulta clínica, prescrição escrita e entregue para medicamentos psiquiátricos, são um verificador objetivo e reforçador, em tempo real, do ‘fato’ indelével da validade do rótulo de diagnóstico, que deve ser mantido para que o tão necessário “tratamento” médico continue.

No meu artigo ao Mad in America “O Processo de Diagnóstico Psiquiátrico qualifica-se como uma Cerimônia de Degradação?”, eu descrevo as dinâmicas sociais, que permitem aos especialistas dos rituais médicos em nossa sociedade de serem investidos com o poder de mudar, permanentemente, a personalidade do ‘paciente mental’, que eles avaliam, diagnosticam e tratam.

Nesse ritual de diagnóstico / degradação, eu acredito que  uma antiga experiência humana subjetiva ocorre, com elementos que fazem com que a pessoa diagnosticada se torne o destinatário do que só pode ser descrito como uma maldição.

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Há alguns anos atrás, uma grande amiga, agora na casa dos 80 anos, estava batalhando para começar a escrever um livro sobre sua vida, o qual ela desejava escrever há décadas. Ela me contou que quando ela era uma jovem paciente de um hospital psiquiátrico falou com a sua psiquiatra sobre o desejo de escrever um livro sobre sua vida. A psiquiatra respondeu a ela: “A ideia que você tem sobre escrever um livro algum dia é uma grandiosa ilusão, é um sintoma do seu transtorno mental!” Minha amiga me perguntou, “Você acha que a fala dela, dita há tanto tempo atrás, possivelmente ainda esteja me bloqueando, Michael? Eu lembro do horrível sentimento que senti ao escutar ela me dizer que era só uma grandiosa ilusão do meu transtorno mental. Eu comecei a escrever meu livro, e parece que sempre, por alguma razão, algo me faz parar de tentar escrever. “

Eu repliquei, “Ela lhe amaldiçoou.”

Os olhos da minha amiga se arregalaram e seu queixo caiu, enquanto ela perguntava, “O que você disse?”

Respondi: “Eu disse que ela amaldiçoou você. Eu acredito que ela lhe deu o equivalente a uma maldição médica a partir da sua posição de autoridade, com um enorme poder sobre você, e por causa da crença dela que só ela sabia a verdade sobre as suas capacidades.  Ela acreditava que você deveria ser megalomaníaca, na medida em que ela sempre viu você como prejudicada e doente mental, devido ao diagnóstico que ela lhe deu. “

Minha amiga então, chorou suavemente enquanto sacudia a sua cabeça, e dizia repetidamente, “Ela me me amaldiçoou. Ela realmente me amaldiçoou.”

E finalmente ela disse veementemente, “Eu vou escrever essa droga de livro agora nem que seja a última coisa que eu faça!”

Eu não acho que nós possamos subestimar o extraordinário poder de receber tais anúncios sobre nossa personalidade, por pessoas autorizadas pela nossa cultura a servirem de árbitros da verdade. Bem como o poder sacerdotal de seus predecessores, quem amaldiçoavam rotundamente aqueles que eles acreditavam merecer tais consequências.

Parte da distorção, confusão e mistificação da experiência que RD Laing descreveu, acontece quando nós somos pegos em um vínculo recebendo duas mensagens contraditórias sobre nós próprios que são enviadas por outras pessoas, ajudando a criar uma áurea sombria da maldição médica quando somos rotulados.

Este duplo vínculo insustentável ocorre quando, em essência, nos é dito com bondade: “Eu sou um profissional médico que só tem as melhores intenções no coração, assim como tantos médicos, enfermeiras e profissionais de saúde, que ajudaram você desde que era um bebê e uma criança pequena. Baseado no meu treinamento e na melhor ciência medica atual, você precisa reconhecer que agora você está diagnosticada com um importante transtorno mental ou uma desordem psiquiátrica, principalmente por causas genéticas, biológicas e neurológicas. Quando nós hospitalizarmos você de novo, contra sua vontade, forçando injeções de drogas poderosas dentro do seu corpo, novamente contra a sua vontade, enquanto você está imobilizado por várias amarras de couro, tudo isso será sempre para o seu próprio bem. Sua raiva, medo e tristeza, que você expressa em resposta à nossa necessária intervenção, são manifestações sintomáticas e emocionalmente desafiadoras da sua doença mental, estamos fazemos o melhor para tratar você, assim como nós tratamos alguém que tem diabete, ou alguma outra doença ou transtorno. “

Em outras palavras, a mensagem diz: “Nós cuidamos de você até mesmo quando lhe machucamos, e você não consegue aceitar isso por causa da sua doença, o que nos obriga a continuar lhe machucando indefinidamente, enquanto seguimos cuidando continuamente de você. “

Eu acho que a natureza humana é regredida e se sente muito vulnerável, quando estamos assustados e isolados, e as figuras quase parentais que os médicos, enfermeiros e outros profissioanis da saúde mental, se tornam em nossas horas de necessidade, contribuem para que tomemos suas palavras como verdade.

Mas esse processo de internalização também pode nos destruir. Porque eles estão errados sobre o que está causando, e causou, o nosso sofrimento emocional.

Eles não sabem que estão errados, então eles se entregam como cuidadores profissionais apenas querendo o que é melhor para nós, porque acreditam que eles sabem o que é melhor. Tragicamente, suas opiniões grosseiramente falsas, que eles nos impõem, podem se tornar tão destrutivamente poderosas como se tivessem nos amaldiçoado.

Seria muito melhor, porque poderíamos entender isso, se a maldição médica fosse dada com eles grunhindo em fúria e condenação, em vez de serem dadas com seus rostos profissionais, plácidos e profissionais – parece que muitas vezes, sem o conhecimento de si e geralmente sem conhcer-nos , estão expressando fascismo amigável.

Em memória do querido Matt Stevenson, blogueiro da comunidade Mad e companheiro com um coração grande.