Se “Doenças Mentais” não são Doenças Reais, o Que São?

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LawrenceThomas Szasz explicou que ‘doenças mentais’ não são realmente doenças.[1] Isso foi verificado por uma meta-análise de 107.000 estudos que não conseguiram encontrar sequer um marcador biológico para qualquer doença mental. [2]. No entanto, esta verdade não é amplamente aceita. Isso é provável porque ele esclareceu o que não é, mas não o que é, e é algo. Ele apenas disse que são problemas de vida, o que simplesmente substitui um rótulo subjetivo por um outro. Por que algumas maneiras de viver são chamadas de problemas ou doenças, mas não outras? Para descobrir o porquê, vou dissecar os diferentes componentes da definição de doença mental da APA (Associação Americana de Psiquiatria), e por processo de eliminação, vou determinar exatamente o que queremos dizer com esses conceitos.

A APA diz: “As doenças mentais são condições de saúde que envolvem mudanças no pensamento, emoção ou comportamento associadas ao sofrimento e problemas de funcionamento nas atividades sociais, de trabalho ou nas famílias”.

Dizer que a doença mental é uma condição de saúde mental é redundante / não explicativa. É apenas a APA tentando nos fazer ceder e aceitar que as doenças mentais são doenças reais, ao dizer isso repetidamente.

Dizer que as doenças mentais são certos pensamentos, emoções ou comportamentos parece ser válido (pelo menos, afirmar que são certos pensamentos ou comportamentos, na media em que há poucas emoções e nós todos as experimentamos).

Dizer que são mudanças no pensamento / comportamento provavelmente significa mudanças do normal. Mas se isso significa raridade, então é inválido – Einstein usou o pensamento incomum para desenvolver a teoria da relatividade, mas não foi chamado de doente mental por isso. As mudanças tampouco não podem significar estados extremos, já que os jogadores de piano extremamente bons não são rotulados como doentes. E não pode significar irracionalidade, já que a maioria de nós tem crenças não baseadas na realidade (como doenças mentais serem doenças reais); apenas alguns são considerados ‘loucos’.

Sofrimento psíquico não é o que define, pois todos sofremos de tristeza, frustração e ansiedade. Embora varie em grau, a vida é uma luta para todos. É apenas porque somos criados / treinados para que apenas vejamos certas maneiras de lidar como sendo doenças mentais e, portanto, é apenas porque deduzimos que as pessoas que lidam com suas dificuldades por meio dessas formas que elas têm problemas e precisam de ajuda. Se as pessoas ouvem musicas ou assistem a filmes, não assumimos que o façam para lidar com o estresse, mas por que elas fariam isso? Como Maslow diz: “O homem é um animal incesssantemente desejante” [3], cujas ações são todas impulsionadas por necessidades insaciáveis, como alimentos, segurança, amor, estima e satisfação.

Os doentes mentais sofrem mais devido aos seus sintomas? Não – seus sintomas não são impingidos a eles por demônios ou doenças no cérebro; não há um marionetista controlando-os. Portanto, os sintomas devem ser voluntários (mesmo que não totalmente conscientes disso), são ferramentas de enfrentamento aprendidas que se tornaram hábitos, já que funcionam para a pessoa de alguma forma, assim como a música ou o cinema o fazem para o ‘não-enfermo’. Como Szasz diz: Os sintomas devem ser “adaptativos como um tipo de estratégia de vida econômica ou interpessoal … senão a pessoa já teria mudado isso”. [4]. Nossos prodigiosos cérebros e o nosso livre arbítrio nos permitem escolher entre ferramentas de enfrentamento infinitamente diversas. Algumas ferramentas são consideradas saudáveis e outras são consideradas doentes. Os sintomas não causam sofrimento psíquico; eles são apenas termos usados para conotar certas formas de lidar com ele. Quais as formas?

Se eu lidar com os problemas ouvindo música ou me engajando em qualquer atividade que venha a excluir o trabalho ou a interação com outras pessoas, então eu serei visto como sofrendo de ansiedade, esquizofrenia, vício, depressão ou TOC. Uma vez que ouvir música pode ser saudável ou dependente de seu contexto, a doença mental não pode se referir a certos tipos de pensamento ou comportamento, afinal de contas. Assim, a única parte da definição de ‘doença mental’ da APA, que é um fato objetivo, e não um julgamento de valor, é: o funcionamento reduzido nas áreas de trabalho (emprego) ou na área social (maneiras de interagir que a sociedade aprova). O DSM é uma mistura de estilos de enfrentamento não relacionados que apenas têm esse aspecto em comum; é por isso que esse é o único critério necessário para todos os seus distúrbios.

Por que um conceito tão enganador e estigmatizante como é o de doença mental evolui?

Uma sociedade só prospera se seus membros abandonarem a liberdade de perseguir à vontade seus desejos egoístas e, em vez disso, trabalharem em equipe para contribuir com o bem comum, em troca dos benefícios da vida em uma sociedade segura / eficiente. Rousseau [5] e Hobbes [6] chamaram isso de ‘contrato social’. As sociedades prósperas impedem os membros de se prejudicar uns aos outros através de leis impostas pela polícia, tribunais e prisões. O sucesso de uma sociedade também depende das pessoas que desaprovam aqueles que colocam seus próprios desejos à frente dos outros; a moral e a ética através da religião alcançam esse fim. Mas há um terceiro tipo de infrator do contrato social.

As sociedades investem muitos recursos para socializar seus filhos (educando-os para canalizar sua livre vontade em papéis que promovam a continuidade da sociedade). Se eles, em vez disso, aprenderem a lidar de maneiras que não funcionam, não desenvolvendo relacionamentos de sustentação da sociedade ou perturbando os esforços dos outros para fazê-lo, então a sociedade irá enfraquecer. Por exemplo, se as pessoas se separam de uma sociedade que as machuca e optam por criar sua própria realidade, isso pode ser adaptável para elas, mas prejudicial à eficiência da sua sociedade, já que provavelmente elas não funcionarão ou formarão famílias.

Durante o século XX, a psiquiatria expandiu seu domínio para incluir estilos de enfrentamento associados apenas a problemas leves de trabalho / socialização. Cada DSM inventou novas doenças, que, com o passar do tempo, exigiam menos e menos deficiências funcionais (em 2013, a Avaliação Global de Funcionamento terminou por auxiliar esta tendência), para que mais pessoas possam ser alvo de tratamento. Agora todos satisfazem critérios para elas. As pessoas que não desafiam o contrato social são enganadas para ir a médicos para curar doenças recentemente identificadas que são apenas aspectos irritantes, mas inevitáveis da vida, como sentimentos dolorosos ou a imaturidade de seus filhos.

A psiquiatria moderna transforma esses adultos trabalhadores em deficientes, ao sedá-los / viciá-los e enganando-os para que pensem que estão doentes demais para trabalhar. Também faz com que as crianças sejam privadas de chances de aprender habilidades necessárias para se tornarem produtivas para a sociedade. Os pacientes são colocados no sistema de assistência em saúde para que os médicos possam receber o pagamento mensalmente e para sempre. Criar clientes permanentes é para onde o dinheiro da sociedade está indo.

O principal papel da psiquiatria agora é, assim, impedir que pessoas contribuam para a sociedade e oferecer-lhes benefícios da sociedade que dependem de sua não-contribuição. A Psiquiatria sofreu uma mutação de um executor temido a um sabotador parasitário do contrato social em grande escala – por isso é agora um ‘outlier’ que está ameaçando a sobrevivência da sociedade e, portanto, que deve ser banido.

A ‘doença mental’ é apenas um conceito que evoluiu enquanto um meio para desumanizar as pessoas que lidam de maneiras que não ajudam a sociedade a prosperar, de modo a justificar sua remoção forçada da sociedade. Isso também tem sido um meio de advertir os outros que eles também poderão ser levados pelos homens de casacos brancos se eles não colaborarem. Talvez as pessoas sejam menos facilmente atraídas para aceitar sua doença mental depois que aprendam seu verdadeiro significado.

Notas:

  1. The Myth of Mental Illness: Foundations of a Theory of Personal Conduct. Szasz, T, 1961, New York: Hoeber-Harper.
  2. “Why Has it Taken So Long for Biological Psychiatry to Develop Clinical Tests.” Kapur, S, et al, 2012 Molecular Psych 17, 1174-9.
  3. “A Theory of Human Motivation.” Maslow, A, 1943, Psychological Review 50(4)370-96.
  4. “Thomas Szasz on Freedom and Psychotherapy.” Wyatt, R, Psychotherapy.net, Dec 2000.
  5. The Social Contract. Rousseau, J, 1762.
  6. Leviathan. Hobbes, T, 1651.
  7. Madness and Civilization: A History of Insanity in the Age of Reason. Foucault, M, 1965, Random House, New York.
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Lawrence Kelmenson
Lawrence Kelmenson praticou psiquiatria por 32 anos, trabalhando com crianças, adultos e famílias. Graduou-se na faculdade de medicina da Universidade Estadual de Nova York e completou o treinamento de residência psiquiátrica em Cornell. Ele se tornou psiquiatra da equipe, posteriormente, diretor médico do Craig House Hospital em Beacon, Nova York até 2000, e desde então faz clínica privada baseada em psicoterapia em Cold Spring, Nova York.

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