Eficácia do Antidepressivo não Depende da Gravidade da Depressão

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FreitasUm novo estudo, que foi publicado em Acta Psychiatrica Scandinavica, descobriu que a eficácia do antidepressivo não depende da gravidade da depressão. Os pesquisadores analisaram os dados em nível individual (IPD) de pesquisas radomizadas, duplo-cego, controladas com placebo, com antidepressivos da nova geração, para o tratamento da fase aguda da depressão maior. E os resultados são impactantes, na medida em que o que a meta-análise feita revelou que os antidepressivos aparecem como não sendo mais efetivos para a depressão maior do que para a depressão suave.

Depresssão maior

Esse estudo foi realizado por alguns dos mais destacados pesquisadores em antidepressivos: Toshi Furukawa, da Universidade de Kyoto, Stefan Leucht, da Techische Universität Muchen, e Andrea Cipriani, da Universidade de Oxford, entre outros. Esses três autores estiveram igualmente envolvidos no recente estudo publicado na Lancet Psychiatric que sugere que os antidepressivos são efetivos.

Os critérios escolhidos para a meta-análise foram: ensaio clínico duplo-cego randomizado e controlado (ECR); tratamento da fase aguda de adultos diagnosticados com transtorno depressivo maior; a intervenção feita com antidepressivos da nova geração, implementados como monoterapia, prescritos conforme a dose oficialmente recomendada; o controle foi com placebo; os ensaios clínicos foram realizados no Japão.  E a estratégia da pesquisa consistiu em examinar 11 ECRs de seis empresas farmacêuticas do Japão à espera da aprovação regulatória. Dessas, quatro empresas concordaram em fornecer os dados solicitados, o que resultou em apenas 6 estudos para constituir a amostra.  Um total de 2.464 participantes foram incluídos. Os estudos compararam seis antidepressivos com placebo. Os antidepressivos examinados foram duloxetina (Cymbalta), escitalopram (Lexapro), mirtazipina (Remeron), Paroxetina (Paxil) e bupropion (Wellbutrin).

Os autores usaram os dados individualizados dos participantes ao invés de dados agregados, isto porque tal metodologia de meta-análise tem revelado ser a que apresenta melhores vantagens, tanto estatísticas quanto clínicas.

Os autores observam que os resultados dessa meta-análise contrariam estudos anteriores que sugerem que os antidepressivos são mais eficazes na depressão grave. Eles verificaram que, como a eficácia antidepressiva sobre o placebo é um efeito tão pequeno, a melhora pode ser facilmente confundida com outros fatores. Medicamentos antidepressivos geralmente são apenas um pouco melhores que o placebo em estudos de eficácia – o suficiente para ser estatisticamente significativo. Entretanto, o significado clínico dessa pequena diferença tem sido questionado.

Esse estudo confirma investigações concluídas há mais de uma década por Irving Kirsch e colegas.

Algumas das limitações deste último estudo foram: ter apenas estudos do Japão; apenas metade dos estudos identificados foram os incluídos nos dados; muitos tipos de antidepressivos não foram examinados; e pacientes muito graves ou suicidas não foram incluídos nos estudos. De fato, os pesquisadores descrevem os participantes como “altamente selecionados”. Isso significa que o estudo não pode responder a perguntas sobre se os antidepressivos poderiam prevenir a tendência suicida na depressão grave.

Os autores assim concluem:

“Clinicamente, as implicações das descobertas atuais podem ser resumidas da seguinte forma. Os pacientes deveriam igualmente se beneficiar em todo o espectro de gravidade, na medida em que sofrem de depressão maior. O mito do benefício especificamente menor dos antidepressivos para o espectro mais moderado do transtorno, em comparação com seu espectro mais severo, deve agora ser expelido. Dadas as amplas implicações clínicas dos presentes achados, vale a pena examinar sua generalização, isto é, se a gravidade inicial modifica a eficácia de intervenções de tamanhos variáveis de efeito em amostras menos restritas de pacientes com depressão maior, em outros transtornos em psiquiatria e fora da psiquiatria.”

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Artigo: Furukawa, T. A., Maruo, K., Noma, H., Tanaka, S., Imai, H., Shinohara, K., . . . Cipriani, A. (2018). Initial severity of major depression and efficacy of new generation antidepressants: Individual participant data meta-analysis. Acta Psychiatrica Scandinavica, 137(6)450-458. doi: 10.1111/acps.12886 (Link)