A Arte como Atividade Terapêutica na Colônia Juliano Moreira

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CAMILAO artigo A experiência com arte na Colônia Juliano Moreira na década de 1950, de João Henrique Queiroz de Araújo e Ana Maria Jacó-Vilela, publicado recentemente na revista História, Ciência e Saúde – Manguinhos, nos traz uma visão histórica sobre a relação entre arte e os saberes e práticas psi no Brasil. Os autores visam ampliar o debate, buscando compreender como as atividades de expressão artística tornaram-se um instrumento terapêutico.

Os autores fizeram um levantamento de documentos junto ao Centro de Estudos da Colônia Juliano Moreira, bem como na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. Para dar suporte à leitura dos documentos, realizou-se uma revisão bibliográfica. Ademais, os autores compararam as produções da Colônia Juliano Moreira com aquelas que estavam sendo produzidas paralelamente em outros centros psiquiátricos, como é o caso de Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Nacional – atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, e de Osório César no Hospital Psiquiátrico do Juquery. Ambos, como bem sabido, são referências no campo.

A Colônia Juliano Moreira foi fundada em 1924, tendo como principal atividade terapêutica o trabalho rural, em um contexto em que a psiquiatria brasileira estava fortemente orientada pelo tratamento moral de inspiração francesa. Ou seja, a psiquiatria pretendia devolver à sociedade sujeitos aptos para o trabalho. Nesse contexto, acontece algo muito relevante, trabalhos artísticos são produzidos espontaneamente por pacientes. A arte no ambiente psiquiátrico não foi introduzida pelos saberes psi, mas surgiu dos próprios pacientes, o que acabou despertando o interesse de alguns médicos, posteriormente. Porém, foi somente na segunda metade da década de 1940 que as atividades artísticas começaram a ser incorporadas como recurso terapêutico na área da saúde mental, apesar do descrédito da psiquiatria hegemônica de cunho organicista.

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Como sabido, na mesma época, a psiquiatra Nise da Silveira adquiria notoriedade a partir do ateliê de pintura e modelagem (1946) e do Museu Imagem do Inconsciente (1952). Na mesma época, em 1949,  será criada a Seção de Artes Plásticas do Hospício de Juquery  sob a coordenação de Osório César. É preciso ressaltar que cada instituição incentivou  as atividades artísticas com objetivos, metodologias e recursos distintos.

No Hospital do Engenho de Dentro, onde Nise atuava, a livre expressão foi fortemente estimulada, o tratamento tinha como base as relações afetivas e simbólicas que se estabeleciam e o fazer artístico não possuía fins diagnósticos. Já para Osório, a compreensão da arte dos internos incluía uma ideia de liberdade. Ele acreditava que impedir o modo de expressão livre poderia afetar a estrutura psíquica dos pacientes. Diferentemente de Nise e Osório, a Colônia Juliano Moreira ressalta outro papel para as atividades artísticas dos internos, que seria o de penetrar na intimidade psíquica do paciente. Buscava-se com isso identificar traços de loucura por meio da produção artística. A metodologia utilizada nas oficinas artísticas apresentava uma tendência ao trabalho dirigido e padronizado, pois acreditava-se que a produção espontânea acentuaria a dissociação e desajuste psíquico.

O artigo é valioso para refletirmos na emergência da arte como terapêutica no interior dos hospitais psiquiátricos, antes da reforma psiquiátrica, além de identificar os diferentes objetivos pretendidos ao se utilizar dessa ferramenta. Por último, outra diferença no contexto da Colonia Juliano Moreira é que apenas 5 pacientes frequentavam o setor de produção artística, porém esse setor foi altamente valorizado pela Colônia, saindo em seus boletins e produzindo exposições artísticas nas quais participaram pessoas importantes da época. Os autores do artigo propõem uma possível resposta a isso como sendo uma tentativa de criar uma boa imagem da instituição.

“A produção artística, certamente deveria chamar mais atenção do que o trabalho braçal e bruto, simplesmente auxiliar ou administrativo, nesse sentido, pode ter sido utilizada também como meio para construir no imaginário social uma sensação de bom funcionamento da instituição. (…) Os espectadores poderiam ser levados a ignorar a doença e os problemas do sistema público de saúde (…)”

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ARAUJO, João Henrique Queiroz de; JACO-VILELA, Ana Maria. A experiência com arte na Colônia Juliano Moreira na década de 1950. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  Rio de Janeiro ,  v. 25, n. 2, p. 321-334,  June  2018

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