Pobreza: a mais nova doença cerebral tratável clinicamente

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Tristeza, ansiedade e raiva não são mais vistas como reações normais às coisas que acontecem na vida de alguém, mas como doenças cerebrais espontâneas (‘depressão’, ‘ansiedade generalizada’ e ‘transtorno bipolar’). Impulsividade e desatenção não são mais vistas como características normais de crianças ainda em fase de crescimento, mas igualmente como uma doença biológica (‘TDAH’). Assim sendo, por que parar aqui? Por que não estender o domínio da psiquiatria biológica para incluir todas as experiências desagradáveis? Isso poderia ser feito com facilidade: a mesma ‘evidência’ usada para ‘provar’ as alegações acima também poderia ser usada, por exemplo, para ‘provar’ uma afirmação tão absurda quanto: “Agora sabemos que a pobreza é uma doença cerebral tratável”. Aqui está como:

  1. Sofrimento: a pobreza certamente envolve sofrimento, o que o DSM diz ser um aspecto crucial da “doença mental”.
  2. Alta morbidade/mortalidade em geral: isso é típico da pobreza, evidenciando ainda mais que é uma condição debilitante e de difícil recuperação.
  3. Sintomas específicos que afetam o funcionamento normal: como qualquer “doença mental”, o diagnóstico de pobreza é baseado em sintomas subjetivos (insegurança alimentar / habitacional, fome e frio persistentes e desespero em geral) que interferem nas atividades diárias (falta de higiene) / desnutrição, subemprego e comportamentos anormais repetitivos, como vasculhar lixo, implorar e procurar abrigo).
  4. Bioquímica anormal: a fome demonstrou envolver atividade da dopamina.[1] Essa descoberta importante sugere que a fome constante relatada na pobreza é causada por um problema de regulação da dopamina, em vez de uma necessidade real de comida, como se pensava anteriormente. E foi demonstrado que a desnutrição encontrada na pobreza se correlaciona com níveis anormais de proteínas ou outros produtos químicos.[2] Esse enorme avanço aponta ainda mais para a pobreza como devida a um desequilíbrio químico, em vez de comida, dinheiro ou moradia realmente inadequados. Esse desequilíbrio provavelmente prejudica o funcionamento do cérebro, causando pensamentos desordenados, como uma preocupação irracional por comida e dinheiro. É análogo ao modo como a “depressão” é considerada uma doença cerebral bioquímica que produz sentimentos e pensamentos negativos injustificados.
  5. Predisposição genética: é sabido que a pobreza ocorre nas famílias – se uma criança a tiver, seus irmãos também terão quase 100% de chances. Inclusive ocorre nas famílias em que os filhos não são criados por seus pais biológicos: os filhos adotivos, cujos pais biológicos costumavam ter pobreza, geralmente desenvolvem a pobreza quando adultos. [3 ] Isso implica que a ocorrência de sintomas de pobreza é resultado de um cérebro determinado geneticamente por um defeito de conexão, em vez de questões ambientais reais. Reivindicações de fome ou falta de moradia são “apenas a pobreza se manifestando”.
  6. Resposta à medicação: Acabei de concluir um estudo sobre pessoas que têm pobreza: Após administrar uma dose de 1000 mg de Seroquel, dentro de uma hora, quase todos os indivíduos surpreendentemente deixaram de reclamar de fome ou frio! Além disso, os comportamentos problemáticos relacionados à pobreza que eles estavam exibindo (ou seja, implorando) diminuíram instantaneamente. (Mas, assim como em outras doenças cerebrais, os sintomas negativos da pobreza, como redução da higiene e da nutrição, eram misteriosamente menos responsivos ao tratamento.) Como os sinais e sintomas da pobreza são curados por produtos químicos, a hipótese que ela deveria ser uma doença causada por bioquímica desordenada hoje ganha evidências na clínica. Leia meu estudo, intitulado “Altas doses de tranquilizantes fortes aliviam surpreendentemente os sintomas da pobreza em horas”, no American Journal of Pseudocientifc SCAMs (Silenciando Medicamente as Queixas dos Americanos).
  7. Scanners cerebrais anormais: Altas taxas de atrofia cerebral ou outras anomalias estruturais são observadas nas ressonâncias magnéticas de pessoas idosas com pobreza [4]  – o que ” confirma que a pobreza é uma doença cerebral crônica e progressiva.

A ‘lógica’ que usei aqui é exatamente a mesma que a psiquiatria moderna usa para apoiar sua alegação de que comportamentos incômodos e emoções indesejadas são doenças graves, mas tratáveis. É assim que meus argumentos são tão válidos quanto. Então, por que não tentar corrigir, com essa hipótese, a falta de dinheiro / moradia / comida em pessoas que sofrem de pobreza? A teoria que é um problema social fica assim desmascarada. A ciência prova que é bioquímica; os pobres apenas precisam de remédios adequados para a sua doença, assim como os diabéticos precisam de insulina.

Todo mundo às vezes experimenta fome e se preocupa com dinheiro / moradia. Mas se a sua fome / preocupações são tão graves e persistentes que levam a comportamentos anormais e disfuncionais, você tem uma pobreza clínica. Não lute desnecessariamente com a pobreza não tratada. Como qualquer doença, você não pode se livrar dela sozinho. Você precisa de ajuda e agora está aqui – pergunte ao seu médico sobre novos e excitantes tratamentos para a pobreza hoje!

Você agora concorda que a psiquiatria biológica é uma farsa ridícula que que realmente está calando totalmente as pessoas, descartando (invalidando) suas queixas como meros ‘sintomas’ a serem drogados? Caso contrário, considere o seguinte:

Se os médicos que tratam problemas médicos reais também adotassem a “lógica” da psiquiatria e parassem de procurar razões subjacentes? Imagine, por exemplo, que você vá ao pronto-socorro reclamando de dor no peito esmagadora que é típica de um ataque cardíaco, e o médico diz: “Devido a novas pesquisas nas quais descobrimos que os remédios para dor reduzem essa dor no peito, deduzimos que isso é dor, portanto, não se deve a um ataque cardíaco, como se acreditava anteriormente; é devido à desregulação dos analgésicos naturais do seu corpo.” As últimas palavras que você ouviria antes de morrer seriam: “Vamos corrigir o seu desequilíbrio químico com esses opiáceos, e tudo ficará bem”.

Notas de pé de página:

  1.  “Hunger and Satiety Gauge Reward Sensitivity” Cassidy, R and Tong, Q, Frontiers in Endocrinology, May 18, 2017.
  2. “Evaluation of Blood Biomarkers Associated with Risk of Malnutrition in Older Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis” Zhang, Z, et al, Nutrients, Aug 3, 2017,9,829,1-20.
  3. “Improving Family Foster Care: Findings of the Northwest Foster Care Alumni Study” Pecora, P, et al, Casey Family Program and Harvard Medical School, April 5, 2005.
  4. “Malnutrition and Risk of Structural Brain Changes Seen in Magnetic Resonance Imaging in Older Adults” de van der Schueren, MA, et al, J Am Geriatric Soc, 2016 Dec,64(12)2457-63.

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