Com o tempo a psicoterapia se torna mais eficaz, enquanto os antidepressivos diminuem a sua eficácia

Uma nova revisão dos dados de depressão a longo prazo considera a psicoterapia mais eficaz ao longo do tempo, enquanto os antidepressivos diminuem em eficácia.

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Em um novo artigo, os pesquisadores Susan McPherson e Michael Hengartner examinam dados sobre os resultados da depressão a longo prazo. O estudo foi conduzido em antecipação às próximas revisões das diretrizes de tratamento da depressão propostas pelo Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados – National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Seus resultados demonstraram que os antidepressivos se tornam menos eficazes ao longo do tempo, enquanto que as terapias psicológicas tendem a aumentar em eficácia.

Anteriormente, o NICE excluiu análises de ensaios de depressão a longo prazo em suas diretrizes, porque o número de estudos sobre depressão a longo prazo era insuficiente. No entanto, essa decisão foi recebida como sendo um empecilho, porque estudos de longo prazo – que examinam o prognóstico da depressão além da média de 10 semanas de tratamento – são uma fonte crucial de evidência.

McPherson e Hengartner argumentam que “se for possível concordar que dados de ensaios de boa qualidade e de longo prazo são a melhor evidência possível para condições de longo prazo, a escassez e a qualidade variável desses dados não devem ser um motivo para excluí-los nas análises usadas para informar as recomendações das diretrizes de depressão.”

O NICE concordou recentemente em considerar esses dados para a próxima revisão. Em resposta, para informar o processo de revisão, McPherson e Hengartner realizaram uma revisão das evidências disponíveis sobre os resultados da depressão em longo prazo. Eles escrevem:

“As partes interessadas argumentaram que os resultados a longo prazo fornecem a  ‘melhor evidência possível’ e os executivos da NICE concordaram recentemente em analisar o problema novamente. Examinamos os dados disponíveis para ilustrar como o NICE poderia fazer uso dessa evidência.”

A análise deles constatou:que a longo prazo os antidepressivos são consistentemente menos eficazes do que o tratamento psicológico isoladamente ou em combinação com antidepressivos”.

Photo Credit: Nicepik

Entre os estudos sobre resultados de depressão sintetizados pelo NICE, os ensaios de depressão a longo prazo foram agrupados em duas categorias distintas: “depressão resistente ao tratamento” e “depressão crônica”. No entanto, porque os estudos “resistentes ao tratamento” e “crônicos” tendem a caracterizar casos de depressão ocorridos em ‘episódios’ que duram dois anos ou mais, os pesquisadores não os consideraram distinções clinicamente significativas.

Nesta revisão, eles combinaram os dois corpos da literatura (sobre depressão “resistente ao tratamento” e “crônica”). Sua análise incluiu onze estudos que examinaram a depressão aos seis meses de tratamento ou mais tarde. Os tratamentos nesses estudos variaram, apresentando uma combinação de terapias antidepressivas e psicológicas (por exemplo, apoio de colegas, terapia interpessoal, terapia cognitivo-comportamental, terapia de grupo).

McPherson e Hengartner examinaram os tamanhos dos efeitos dos antidepressivos ao término do tratamento e acompanharam e compararam os tamanhos dos efeitos dos tratamentos psicológicos na conclusão e acompanhamento do tratamento.

Os tratamentos psicológicos pareceram aumentar em eficácia ao longo do tempo, exceto a psicoterapia cognitivo-interpessoal em grupo, que diminuiu em eficácia ao longo do tempo, e o sistema de análise cognitivo-comportamental da psicoterapia, ao apresentarem resultados variados. Os antidepressivos foram consistentemente menos eficazes ao longo do tempo quando comparados aos tratamentos psicológicos isolados e aos tratamentos psicológicos em combinação com antidepressivos.

Existem várias limitações a serem consideradas ao se interpretar esses achados. Inconsistências entre os estudos, como a variabilidade no design e os efeitos diferenciais causados por danos menores, efeitos colaterais e tolerabilidade em tratamentos psicológicos versus ensaios com antidepressivos, se quisermos dar alguns exemplos. “Portanto”, escrevem os autores, “as descobertas aqui não são apresentadas como uma meta-análise independente e devem ser interpretadas com cautela”.

As diretrizes da NICE, no entanto, fornecem uma graduação de ensaios que podem ser responsáveis por esse viés quando seus resultados forem aplicados para o desenvolvimento de diretrizes.

Além disso, é importante examinar os dados suplementares sobre os resultados a longo prazo da depressão que apóiam esses achados. Por exemplo, outros estudos ilustraram que a recorrência da depressão é mais provável para aqueles que tomam antidepressivos do que aqueles que receberam um placebo. Além disso, quanto mais tempo uma pessoa toma antidepressivos, maior a probabilidade de que ela sofra recaída. Esses resultados foram interpretados como sendo resultante do aumento da tolerância aos antidepressivos ou os efeitos da retirada do antidepressivo.

Estudos de coorte naturalistas indicam que o uso de antidepressivos a longo prazo tem resultados piores do que o uso a curto prazo, e tratamentos não farmacológicos resultam serem mais promissores do que aqueles com o uso a longo prazo de antidepressivos. Além disso, a pesquisa constata que é difícil parar de tomar antidepressivos após uso prolongado.

De fato, alguns pacientes podem desenvolver uma dependência aos antidepressivos, e alguns que usam antidepressivos por um período prolongado relatam sentir-se viciados. Além das complicações do uso de antidepressivos, estão os efeitos colaterais complicados que se apresentam enquanto complicações significativas à saúde, como obesidade, hepatotoxicidade e eventos cardiovasculares.

“As análises experimentais dos dados de resultados a longo prazo revelam um quadro clínico importante, apoiado em evidências encontradas em outras formas de pesquisa longitudinal. Embora as evidências devam ser avaliadas adequadamente com a metodologia GRADE, é importante considerá-las nas diretrizes da NICE para cuidado com os pacientes, bem como nas prioridades de pesquisa em andamento e futuras. ”

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McPherson, S., & Hengartner, M. P. (2019). Long-term outcomes of trials in the National Institute for Health and Care Excellence depression guideline. BJPsych Open5(5). DOI: 10.1192/bjo.2019.65 (Link)