Pesquisadores: “Antidepressivos não Devem ser Usados em Adultos com Transtorno Depressivo Maior”

Uma nova revisão, publicada na BMJ Evidence-Based Medicine, conclui que os antidepressivos não devem ser usados, pois os riscos superam as evidências de benefícios.

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Em um novo artigo, os pesquisadores afirmam explicitamente que os antidepressivos não devem ser usados, uma vez que não há evidências suficientes de benefício e evidências para o risco de possíveis danos. Eles baseiam essa conclusão em uma revisão completa dos estudos existentes.

 “Os benefícios dos antidepressivos parecem ser mínimos e possivelmente sem importância para a maioria dos pacientes com transtorno depressivo maior”, eles escrevem. “Antidepressivos não devem ser usados em adultos com transtorno depressivo maior, antes que evidências válidas mostrem que os potenciais efeitos benéficos superam os efeitos nocivos”. 

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 O artigo, publicado on-line no BMJ Evidence-Based Medicine, foi escrito por pesquisadores proeminentes da área, incluindo Irving Kirsch (Harvard University, especialista em antidepressivos e efeito placebo) e Janus Jakobsen e Christian Gluud (Center for Clinical Intervention Research, Dinamarca).

Os pesquisadores escrevem que as análises dos ensaios clínicos constatam consistentemente que os antidepressivos têm uma ligeira vantagem estatística sobre o placebo. No entanto, esse efeito é mínimo e provavelmente nem é visivelmente diferente do placebo para clínicos ou pacientes. Embora exista uma pequena diferença estatística, ela está associada a um julgamento de “nenhuma mudança”. Estima-se que a diferença seja equivalente a menos de uma diferença de 2 pontos em uma escala de 52 pontos – e outras pesquisas descobriram que pelo menos uma diferença de 7 pontos é necessária para ser clinicamente relevante.

Apesar desses resultados, o uso de antidepressivos é generalizado e crescente. Os pesquisadores observam que um em cada oito adultos nos EUA relatou tomar um antidepressivo no mês passado, e mais de 60% deles tomam o medicamento há mais de dois anos.

Uma percepção comum é que os antidepressivos são necessários nos casos mais graves de depressão, mesmo que sejam ineficazes para a depressão de leve à moderada. No entanto, a pesquisa atual tem sistemática e consistentemente não dando apoio a esta hipótese. Os pesquisadores escrevem que “não há evidências claras para apoiar a noção de que os antidepressivos seriam mais benéficos na depressão grave em comparação com a depressão leve ou moderada”.

Outro ponto importante é que os antidepressivos geralmente são prescritos para tratamento a longo prazo, apesar da falta de estudos rigorosos a longo prazo – e evidências de que os sintomas depressivos podem sim ser agravados pelo uso de antidepressivos a longo prazo. Os pesquisadores escrevem que “não há evidências para tratamento a longo prazo com antidepressivos”.

Os pesquisadores também criticaram os altos níveis de viés nos ensaios clínicos existentes, o que resulta em uma superestimação de benefícios e minimização de danos. Os pesquisadores escrevem que os ensaios independentes – não vinculados à indústria farmacêutica – não encontraram “efeito significativo dos ISRSs”, ainda que os ensaios com “viés de obtenção de lucro” provavelmente encontrem um efeito estatisticamente significativo para os antidepressivos. Estudos, nos quais um autor do artigo era funcionário da empresa farmacêutica, “tiveram 22 vezes menos de chances a ter declarações negativas sobre o medicamento” do que aqueles estudos realizados sem profissionais comprometidos com a indústria farmacêutica.

Os pesquisadores também observam que o diagnóstico de depressão é um julgamento subjetivo, feito com base na interpretação do clínico a partir de variados critérios. Quer dizer, o diagnóstico não se baseia em nenhum quadro referencial com bases causais ou biológicas, e “não há testes objetivos e nem tampouco laboratoriais (por exemplo, exames de sangue, ressonância magnética) para depressão ou para que o diagnóstico seja validado”.

O estudo também analisa pesquisas sobre os efeitos adversos dos antidepressivos. Eles destacam o risco de problemas gastrointestinais, disfunção do sono e disfunção sexual, que podem continuar mesmo após a interrupção do medicamento. Eles também observam que muitos dos dados sobre danos vêm apenas de estudos de curto prazo de uso e que os efeitos a longo prazo são provavelmente os mais graves. Eles também escrevem que os efeitos de abstinência podem ser graves e durar vários meses, se não muito mais.

Os pesquisadores concluem que qualquer recomendação para prescrever antidepressivos deve avaliar os benefícios e os malefícios do medicamento. A análise feita por eles sugere que os benefícios potenciais são mínimos, na melhor das hipóteses, enquanto que o risco de dano é gigantesco.

Eles sugerem reformas estruturais, tais como abordar questões como desemprego e pobreza, que estão substancialmente correlacionadas com a experiência da depressão. Eles também citam diretrizes internacionais para o tratamento da depressão, que tomam como foco exercícios, higiene do sono e alimentação saudável – enquanto sendo intervenções de primeira linha.

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Jakobsen, J. C., Gluud, C., Kirsch, I. Should antidepressants be used for major depressive disorder? BMJ Evidence-Based Medicine. Epub ahead of print: September 26, 2019. DOI:10.1136/ bmjebm-2019-111238 (Link)

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