Existe um pequeno grupo para quem os antidepressivos são eficazes?

Em um novo estudo, os pesquisadores não encontraram evidências de variação do grupo com antidepressivo, o que significa que não há um grupo específico de pacientes que melhoram mais do que outros no medicamento.

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Em um novo estudo, pesquisadores testaram a teoria de que alguns grupos de pessoas podem melhorar significativamente com os antidepressivos, enquanto outros não conseguem. A análise feita por eles não encontrou suporte para essa variação entre os que usam antidepressivos. Em vez disso, eles descobriram que todos os pacientes experimentam o mesmo efeito – que é mínimo – dos antidepressivos.

“Nenhum ou apenas subgrupos muito pequenos de pacientes respondem particularmente bem aos antidepressivos. Assim, o escopo do tratamento personalizado com antidepressivos parece ser limitado ”, escrevem os pesquisadores.

hoto by Marco Verch (Flickr)

Nos últimos anos, alguns pesquisadores propuseram uma teoria: que o efeito leve (acima do placebo) dos antidepressivos pode ser devido a um grupo de pacientes que se beneficiam muito, enquanto que outras pessoas não se beneficiam, experimentando apenas os efeitos adversos da droga. Assim sendo, os dois grupos se cancelariam, levando à melhoria média mínima que é observada em pesquisas com drogas.

Se isso fosse verdade, e o subgrupo que se beneficiasse com o medicamento pudesse ser identificado, os médicos poderiam assim prescrever o medicamento apenas para aqueles que melhorariam após tomá-lo. Isso reduziria o número de pessoas que tomam o medicamento e que não experimentam melhoras – porque pioram as experiências de depressão e ansiedade e / ou devido aos efeitos nocivos do medicamento.

Infelizmente, esses subgrupos ainda não foram encontrados em pesquisas até hoje realizadas. Os pesquisadores escrevem que “apesar dos esforços substanciais de pesquisa, não foram encontrados preditores de sucesso do tratamento com antidepressivos que sejam robustos e confiáveis o suficiente para o seu uso na prática clínica”.

E agora a própria teoria acaba de ser desmascarada, de acordo com um estudo publicado no BMJ Open.

Os pesquisadores Martin Plöderl e Michael P. Hengartner conduziram o primeiro estudo a testar a teoria subjacente da variação do grupo com antidepressivos. A análise estatística deles incluiu pesquisas com antidepressivos, publicadas e não publicadas, para evitar a armadilha do viés de publicação (o mais provável sendo que resultados positivos sejam os  que são publicados). Eles escrevem que seu conjunto de dados “é um dos maiores até agora analisado, resultando em estimativas precisas dos principais resultados existentes”. O estudo incluiu 169 ensaios clínicos com vários antidepressivos para pessoas com diagnóstico de transtorno depressivo maior.

Plöderl e Hengartner testaram isso comparando a variação no grupo com antidepressivo com a variação no grupo placebo. Eles descobriram que as duas variações eram praticamente as mesmas. Isso significa que o grupo com antidepressivo não teve, de fato, a grande variação prevista pela teoria. A explicação mais simples é novamente a mais provável: os antidepressivos são apenas um pouco melhor do que o placebo, para quase que todas as pessoas.

Os pesquisadores então fizeram uma simulação para testar se variações semelhantes (VRs) poderiam ocorrer, se a teoria fosse verdadeira. Mas a simulação deles descobriu que, se a teoria fosse verdadeira, não há como levar a esses achados. Eles escrevem: “Nossa análise de simulação confirmou que VRs iguais só podem ser obtidas se não houver mais do que apenas alguns pacientes a responderem um pouco acima da média”.

Ainda existem explicações peculiares e improváveis que também podem levar a esse achado. Por exemplo, também pode ser dito haver um pequeno grupo de pacientes ‘super respondentes’ que se sairiam incrivelmente bem. Mas isso deveria levar a uma distribuição fortemente não normal de pontuações, e que não foram detectadas em nenhuma análise estatística, até o momento.

Embora cada classe sucessiva de medicamentos antidepressivos tenha sido apontada inicialmente, em estudos financiados pela Indústria Farmacêutica, como sendo um tratamento poderoso para doenças mentais, pesquisas adicionais descobriram consistentemente que seus efeitos são mínimos quando comparados ao placebo. Quando dados publicados e não publicados são incluídos, os pesquisadores descobriram que cerca de metade (49%) dos ensaios clínicos com antidepressivos na verdade não mostram nenhum benefício do medicamento com relação ao placebo. Mais recentemente, vários artigos revisados por pares, do ano passado, descobriram que o efeito placebo pode ser responsável por quase toda a melhora supostamente causada por antidepressivos.

De acordo com Plöderl e Hengartner, “Com os antidepressivos atualmente disponíveis, a possibilidade de tratamentos personalizados para antidepressivos é provavelmente limitada e é improvável que a psiquiatria consiga encontrar preditores clínicos ou biológicos da resposta ao tratamento diferencial que explicaria um efeito terapêutico além de uma melhora clínica mínima ”.

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Plöderl, M., & Hengartner, M. P. (2019). What are the chances for personalised treatment with antidepressants? Detection of patient-by-treatment interaction with a variance ratio meta-analysis. BMJ Open, 9(e034816). doi:10.1136/bmjopen-2019-034816 (Full text).