EUA consideram políticas que levarão à morte em massa de pacientes psiquiátricos

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A primeira morte do coronavírus (COVID-19) na Coréia do Sul foi um paciente psiquiátrico em uma enfermaria trancada.

Seis outros pacientes psiquiátricos, também presos, morreram em poucos dias.

Quem a doença mais atinge não está totalmente claro, assim como muita coisa a respeito dessa pandemia. Mas a primeira morte na Coréia do Sul é consistente com o que sabemos sobre o número de mortes em todo o mundo: são os idosos e as pessoas com condições de saúde preexistentes e sistemas imunológicos comprometidos que parecem ser os mais vulneráveis. Para deixar claro, até os jovens saudáveis estão ficando gravemente doentes e morrendo, mas, no geral, o número de mortes é mais alto entre os mais frágeis.

Pacientes psiquiátricos têm taxas muito mais altas de diabetes, tabagismo / cigarro eletrônico, pressão alta, obesidade e outras condições de saúde que aumentam a vulnerabilidade ao vírus. Estresse contínuo, isolamento, vivendo sob estigma e sem relacionamentos e redes sociais contribuem para o enfraquecimento da imunidade. O confinamento em enfermarias psiquiátricas ou residências terapêuticas, em comunidades terapêuticas  casas de repouso para idosos também certamente agravará o risco de adoecer, e as pessoas com diagnóstico psiquiátrico estão super-representadas no sistema prisional, em um orfanato, entre os sem-teto e entre aqueles que vivem na pobreza – onde maiores taxas de doenças e menor expectativa de vida são a norma.

Ser um paciente psiquiátrico provavelmente o coloca em um risco muito maior de adoecer ou morrer de COVID-19.

Enquanto a maior parte da conversa sobre ‘saúde mental no tempo da pandemia’ se concentra na ‘atenção-plena’ (‘mindfulness’), em maneiras de aliviar o estresse e na acessibilidade dos psiquiatras durante o distanciamento social, essa realidade do COVID-19 e da saúde mental está sendo ignorada.

Portanto, devemos ficar claros: quando você ouve as frases “os mais vulneráveis”, “os frágeis”, “os com maior risco” e “os idosos” como sendo quem está morrendo e morrerá do COVID-19, essa linguagem claramente também inclui pacientes psiquiátricos e pessoas com diagnóstico de saúde mental. A política de resposta pandêmica também é, portanto, política de saúde mental: como tratamos as pessoas com diagnóstico psiquiátrico.

Sabemos o que funciona e salva as vidas. Sabemos o que protegerá os vulneráveis, incluindo pacientes psiquiátricos. Respostas bem-sucedidas à pandemia retardaram a doença e protegeram o sistema de saúde da sobrecarga na China, Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e outros lugares. É absolutamente claro que existe um conjunto direto de políticas comprovadas para proteger as pessoas de doenças e defender hospitais e profissionais médicos de ficarem tão sobrecarregados que não podem cuidar das pessoas, como está acontecendo na Itália e na Espanha. Essas políticas incluem distanciamento e bloqueio social, rastreamento de contatos, contenção e testes generalizados. Temos a sorte de ter dados muito bons desses países a mostrar o que funciona para salvar os ‘frágeis e vulneráveis’ – que sabemos que incluem pacientes psiquiátricos que, de outra forma, morreriam.

Nosso imperativo moral está, portanto, bem diante de nós.

É claro que há um custo para a economia dessas medidas disruptivas. Essa é a natureza dessa pandemia, que está afetando fortemente nossas economias. Vai custar nossa economia. Mas não há argumento: economias voltam: pessoas mortas não. Implementada globalmente, uma resposta eficaz à pandemia salvará dezenas ou centenas de milhões de vidas; nos EUA, estima-se que medidas efetivas possam reduzir o número de mortos em um milhão de pessoas ou mais.

No entanto, agora a liderança política dos EUA está abertamente falando em abandonar políticas eficazes e seguir uma direção diferente que poderá matar desnecessariamente muito mais pessoas – talvez milhões – e inclusive matar centenas de milhares ou mais de pacientes de tratamento em saúde mental. No momento, o presidente dos EUA, conselheiros, políticos, líderes estaduais e locais e comentaristas estão discutindo a suspenção do distanciamento social, do bloqueio e da contenção que estão retardando a propagação da doença.

Por quê? A ideia – que está longe de ser correta – é que voltar ao trabalho e voltar aos negócios melhorará os resultados e manterá a economia mais lucrativa, evitando recessão ou depressão que precisariam de uma intervenção governamental mais massiva. Nesta visão, o ‘custo econômico’ – isto é, lucros perdidos e perturbações sociais e o custo das medidas governamentais – é mais importante do que salvar vidas. Mais pessoas ‘idosas’ devem morrer do que precisam, para manter os lucros das empresas na economia.

É isso mesmo, em nome da proteção dos negócios, como de costume, agora existe um cálculo que diz que é permitido deixar o vírus se espalhar mais rapidamente, ajudar o mercado de ações e aumentar o fluxo de receita de empresas privadas. Ao acelerar a propagação do vírus e aumentar a carga em nosso sistema hospitalar, essas políticas sendo consideradas quase certamente levarão à morte em massa de muitas pessoas mais ‘vulneráveis’. (E lembre-se de que o distanciamento social não é apenas para protegê-lo – é para retardar a disseminação para outras pessoas. Pessoas em situações em que não conseguem se distanciar socialmente ou são impedidas de se distanciar socialmente, como instituições ou residências terapêuticas, ainda seriam deixadas correndo maior risco de infecção se mudarmos essas políticas porque o vírus será mais disseminado e infectará mais rapidamente pessoas confinadas e institucionalizadas, além de deixar os hospitais mais propensos a ficar sobrecarregados e impedidos de prestar ajuda na medida que os profissionais fiquem doentes.)

Portanto, devemos esclarecer o que isso significa: nossos líderes, confrontados com as escolhas do que fazer na pandemia, confrontados com os fatos do que salvará vidas, agora, de maneira explícita, intencional e consciente, estão pensando em escolher políticas que quase certamente resultarão na morte em massa de pacientes psiquiátricos que não precisariam morrer. É isso mesmo: os líderes estão considerando seriamente abandonar políticas que salvam vidas em grande escala para economizar dinheiro. Dinheiro. Não vidas. Dinheiro. E vidas que podem chegar a centenas de milhares, um milhão ou mais.

O fato de isso estar sendo discutido – considerado aceitável e pensável – é uma acusação moral da crueldade de nossa sociedade. Precisamos parar de falar eufemisticamente sobre ‘os idosos’ e ‘aqueles com sistema imunológico comprometido’. Precisamos adicionar pacientes psiquiátricos e entender de quem está sendo falado, para que fiquemos totalmente claros sobre quem vai morrer. Precisamos tornar o imperativo moral de forma severa e inequívoca.

Essa ideia de abandonar esse isolamento social eficaz seria impensável se os ricos e poderosos não estivessem mais protegidos de adoecer e morrer do que você e eu. Eles não estão olhando para políticas com a mesma probabilidade de acabar matando a si ou a seus familiares como as que devem matar você e eu. Os ricos, as celebridades e o 1% estão obtendo acesso mais fácil a testes e bons tratamentos por causa de um sistema médico privatizado, onde quanto mais rico se é, melhor é o atendimento. Dada essa desigualdade, são os mais vulneráveis e excluídos, inclusive os psiquiátricos, que são os dispensáveis. Economizar dinheiro é visto como mais importante do que salvar vidas. Mais mortes são consideradas um preço aceitável a pagar – porque são outras pessoas que morrerão.

Não é um sacrifício nacional compartilhado que está sendo proposto. As mortes adicionais não serão para proteger uma economia que beneficie a todos. As pessoas morrerão pelo bem de uma economia que enriqueceu um número cada vez menor de pessoas como parte da maior desigualdade de riqueza e renda da história da humanidade. Uma economia que alimentou a assistência médica privada com lucro que levou diretamente à crise da pandemia se tornar no que é. Uma economia que privatizou os cuidados de saúde e nos deixou completamente despreparados para uma pandemia que sabíamos que estava por vir.

Vivemos em um mundo onde os crimes de guerra do passado são considerados impensáveis hoje. Tragicamente, esses mesmos crimes muitas vezes retornam vestidos em linguagem diferente, uma linguagem mais civilizada e higienizada de eufemismo e jargão. O que é visto como normal, quando olhamos mais de perto acaba sendo imoral e errado. Ao considerar abandonar as medidas de distanciamento social, bloqueio e contenção que sabemos funcionar, os líderes agora estão discutindo políticas que resultariam diretamente na morte de um grande número de pacientes psiquiátricos entre os vulneráveis. Tudo porque nossas vidas são consideradas dispensáveis para manter os preços das ações altos e os negócios como de costume. Tudo em nome da ‘economia’.

As primeiras mortes na Coréia do Sul devem soar um alarme para todos nós. Estamos à beira de um abismo moral.