Como o estresse sexual das minorias impacta o desenvolvimento da personalidade

Novas pesquisas examinam como o heterossexismo afeta o desenvolvimento da personalidade e as respostas subseqüentes ao estresse das minorias sexuais

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Um novo trabalho de Kathleen Collins e Heidi Levitt na Universidade de Massachusetts, Boston, explora o impacto do heterossexualismo sobre o eu da minoria sexual.

Os indivíduos de minorias sexuais que vivem em sociedades heterossexuais enfrentam taxas mais altas de problemas de saúde mental em comparação com as populações heterossexuais. O estresse da minoria sexual tem sido ligado, por exemplo, à ideação suicida e ao declínio cognitivo na vida adulta. As minorias sexuais também enfrentam riscos de sobrediagnóstico por transtorno de personalidade limítrofe e têm maior probabilidade de serem interpretadas como psicóticas e paranoicas. Como Collins e Levitt escrevem:

“Os aspectos psicodinâmicos da personalidade parecem ser influenciados pelos fatores de estresse das minorias sexuais, bem como influenciar como as pessoas LGBQ reagem aos fatores de estresse das minorias sexuais”.

Usando uma abordagem que ” reconceptualiza o estigma heterossexista como algo que não só prejudica a saúde mental, mas também influencia o desenvolvimento da personalidade”, Collins e Levitt investigam a literatura existente sobre como viver com uma identidade sexual marginalizada afeta o eu e como as diferenças de personalidade podem explicar as diferentes reações à discriminação heterossexista.

Os autores restringem o escopo de suas pesquisas ao impacto e formação de três fatores de personalidade em indivíduos lésbicas, gays, bissexuais e queer: estilo de vínculo (‘attachment’), mecanismos de defesa e identidade do ego.

Estilo do vínculo

A teoria do apego [‘attachment theory’] se refere à “ideia de que as primeiras relações com os cuidadores moldam o senso de si mesmo dos bebês e o que esperar dos outros”. Embora o estilo do vínculo se desenvolva muito cedo na vida, o conflito interpessoal posterior pode mudar o estilo do vínculo. Ou seja, o sistema de vínculo continua a funcionar durante toda a vida, mesmo com a mudança das principais figuras de apego.

A pesquisa dos autores descobriu, talvez sem surpresa, que vínculos seguros estão associados a menos estresse sexual das minorias relatadas. Em contraste, homens de minorias sexuais com vínculo inseguro tendem a ter maiores níveis de vergonha. Além disso, os estilos de vínculo ansiosos foram geralmente implicados na percepção de discriminação e indicadores de sofrimento psíquico nas populações LGBQ. Em geral, os indivíduos com vínculos inseguros tendem mais a ter sentimentos negativos sobre as suas orientações sexuais minoritárias.

Mecanismos de defesa

Os mecanismos de defesa, segundo Freud, são “processos inconscientes que reduzem a ansiedade produzida pelos conflitos internos, influenciando a percepção de nós mesmos, dos outros e do meio ambiente”. Assim, os mecanismos de defesa são geralmente adaptativos, mas podem se tornar patológicos se e quando se tornam tão rígidos ou intrusivos a ponto de prejudicar o funcionamento.

A revisão da literatura feita por Collins e Levitt descobriu que mecanismos de dissociação, repressão à raiva, humor e narcisismo estão associados à orientação sexual minoritária em sociedades heterossexuais. Vale ressaltar aqui, entretanto, que os autores revisaram estudos de participantes em sua maioria brancos e cisgêneros e que estes resultados provavelmente não são generalizáveis para indivíduos trans e pessoas queer e trans de cor.

Identidade do Ego

A identidade do ego refere-se à “experiência do eu como uma entidade reconhecível e persistente” de uma pessoa. Embora não existam modelos conhecidos de desenvolvimento específico da identidade do ego LGBQ, os autores revisaram estudos sobre os modelos existentes de desenvolvimento da identidade sexual.

A discriminação heterossexista no desenvolvimento da identidade nas pessoas LGBQ parece ter impacto sobre os indivíduos durante toda a vida. Para crianças e adolescentes, a rejeição dos pais está negativamente relacionada ao desenvolvimento da identidade. Em adultos,

“A discriminação heterossexista está negativamente associada a um sentimento de pertencer à comunidade LGBQ, satisfação com relacionamentos íntimos e sentimentos de autenticidade pessoal, indicando que as pessoas que estão expostas à discriminação heterossexual têm dificuldade em se relacionar autenticamente consigo mesmas, com seus entes queridos e com a comunidade LGBQ em geral”.

Apesar dessas implicações negativas, o heterossexismo também esteve implicado em resiliência e resistência ativa em alguns indivíduos.

Com base nesta revisão da pesquisa, os autores oferecem uma estrutura teórica para pesquisas futuras que abriga espaço para múltiplas dimensões dos impactos do heterossexismo: o nível de reações ou defesas e o próprio nível de formação da personalidade.

Esta estrutura propõe mecanismos de defesa e estratégias de enfrentamento relacional como potenciais mediadores entre os estressores das minorias sexuais e os resultados psicológicos. A estrutura também se concentra nos mecanismos de enfrentamento de minorias sexuais dentro dos padrões relacionais de engajamento social. Finalmente, sugere que tanto o estilo de apego [attachment style] quanto o nível de integração de identidade moderem a relação entre os estressores internalizados e externos das minorias sexuais nas sociedades heterossexuais.

Como Collins e Levitt observam repetidamente, a literatura revisada deriva de amostras que foram em grande parte de populações brancas e cis-gênero. É necessário, portanto, mais pesquisas para concluir os impactos interseccionais, por exemplo, do racismo e da transfobia no desenvolvimento da personalidade nas sociedades heterossexuais.

No entanto, a conclusão dos autores pode ser generalizável entre assuntos minoritários:

“A experiência de marginalização sistêmica, interpessoal e intrapessoal não só leva a sintomas de distúrbios clínicos que podem ser tratados, mas também influencia a personalidade, moldando o sentido central de identidade das pessoas e o que esperar dos outros”.

A estrutura proposta pelos autores oferece uma nova maneira de conceituar o estigma da marginalização sexual e seu impacto não simplesmente em pensamentos e sentimentos específicos, mas na própria identidade.

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Collins, K., and Levitt, H. (2021). “Heterosexism and the self: A systematic review informing LGBQ-affirmative research and psychotherapy.” Journal of Gay & Lesbian Social Services. 10.1080/10538720.2021.1919275 (Link)