Disco criado por pacientes de hospitais psiquiátricos reverbera vozes manicomializadas: Álbum é documento artístico de realidade manicomial ainda presente

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O disco experimental “Rádio Lelé”, lançado no dia sete de fevereiro, é uma iniciativa coletiva, criada por pacientes de hospitais psiquiátricos públicos, durante ações de projeto arte-ativista que promoveu intervenções nas instituições. Rabay, idealizador da proposta, inspira-se em Nise da Silveira, uma das principais referências da luta antimanicomial no Brasil, para articular arte, tecnologia, educação e comunicação como maneiras de fomentar o protagonismo e o bem-estar de pessoas portadoras de transtornos mentais.
O projeto nasce de uma área chamada Educomunicação, que pensa estratégias de promoção da solidariedade nas relações humanas, através do diálogo, da criatividade e da autonomia dos indivíduos. Mestrando em Artes, Urbanidades e Sustentabilidade, pela Universidade Federal de São João del-Rei, onde pesquisa a aplicação de práticas educomunicativas no universo da saúde mental, o artista se dedica, há cerca de 7 anos, ao desenvolvimento de ações nesse contexto. No último Congresso Brasileiro de Saúde Mental, promovido pela ABRASME, Rabay apresentou uma prévia do álbum no formato de live, reproduzindo e remixando trechos das gravações durante a programação cultural do evento.
Gravado dentro dos hospitais, o disco documenta indiretamente uma realidade que muitos acreditam já estar superada. Distantes do centro urbano, localizados às margens dos municípios, os manicômios contribuem com o isolamento dos pacientes, dificultando sua reinserção na sociedade. Além disso, moradores das instituições acabam perdendo o vínculo familiar e passam décadas “residindo” em uma situação que os priva de qualquer individualidade, habitando alas hospitalares coletivas, repletas de leitos e uma rotina diária com pouca ou nenhuma autonomia. A proposta do disco Rádio Lelé é permitir o acesso à textura humana, criativa e subjetiva desses indivíduos tão invisibilizados. Ouvir as criações dessas pessoas é reconhecer que elas existem e infelizmente continuam trancadas dentro das instituições.
Em 2019, o Relatório de Inspeção Nacional dos Hospitais Psiquiátricos no Brasil, realizado pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, pelo Conselho Federal de Psicologia e outros órgãos, apontou que a situação de violação dos direitos humanos e constantes abusos por parte dos hospitais psiquiátricos, persiste no país. De acordo com o documento, “foram identificadas diversas situações de violação de direitos humanos que apontam para práticas de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, além de denúncias de estupro, violência de gênero, desrespeito à crença, revista vexatória como método institucional e a imposição de religião como método terapêutico”. O relatório afirma que as instituições inspecionadas são “exclusivamente instituições de privação de liberdade”.
Apesar de buscar fomentar o protagonismo dos pacientes, o material esbarra em limitações jurídicas que ilustram o contexto manicomial e, nesse sentido, acaba por denunciá-lo: o trabalho nasce do registro cotidiano das práticas coletivas propostas pelo educador, porém, por se encontrarem em situação de internação, a questão dos direitos de imagem dos autores é intermediada (e muitas vezes tutelada) pela administração dos hospitais, ficando subordinada a sua avaliação. De acordo com Rabay, essas lideranças têm uma percepção majoritariamente conservadora e higienista acerca das obras dos pacientes e não as interpretam como arte, apenas como evidências de um adoecimento, que devem ser omitidas. Essa postura impossibilita a tramitação que facilitaria a divulgação dos vários autores e autoras envolvidos no trabalho.
Em seu livro Imagens do Inconsciente, de 1981, Nise da Silveira já apontava que esse comportamento era típico da psiquiatria manicomial, que se recusava a reconhecer o valor artístico das produções expressivas de pessoas portadoras de transtornos mentais e insistindo em procurar nessas obras apenas “reflexos de sintomas e de ruína psíquica”. Rabay conta que ficou impactado ao se deparar com uma postura criticada pela autora há 60 anos atrás.
“Mesmo não concordando com o modelo das instituições, acredito que devemos pensar nas pessoas que ainda se encontram lá dentro e buscar maneiras de intervir, sem deixar que o hospital se aproprie desse trabalho para tentar legitimar sua existência. Seria algo como uma redução de danos, enquanto o espaço não é desativado. Essa postura é um desafio, pois os hospitais psiquiátricos buscam se maquiar, visando divulgar uma suposta renovação a todo momento. Rádio Lelé é fruto de entender esses processos: nasce de registros das práticas coletivas que realizei, porém de gravações e composições cuja divulgação não foi diretamente autorizada pelos dirigentes dos hospitais, justamente por revelarem esse aspecto mais autônomo e livre dos indivíduos.”, diz Rabay.
Segundo o educomunicador, quando um paciente cantava uma canção religiosa ou fazia algum relato positivo sobre a instituição, não havia problema algum na exposição do material, porém criações mais fluidas e críticas, ou até mesmo ritmos como o funk, eram desencorajados. “O hospital psiquiátrico, no geral, quer divulgar uma imagem “normalizada” de seus pacientes, de preferência algo de teor moralizante ou cristão. Apesar disso, resolvi lançar o material, para que de alguma forma as vozes e criações dessas pessoas possam reverberar. O que eu gostaria mesmo era que os autores e autoras pudessem estar aqui do meu lado, mostrando seu rosto e falando sobre as suas criações”, relata.
Estou me sentindo humilhada. Enquanto nós estamos na Bienal, curtindo a chamada “Arte Incomum”, os autores dessas obras estão dentro de cárceres psiquiátricos, recebendo tratamentos desumanos. (…) Eu os acho infelizes, eles são os verdadeiros pacientes, de paciência mesmo. São infelizes porque lhes é negado o direito de serem livres, de estarem aqui junto conosco na Bienal, discutindo a sua própria arte. Nise da Silveira
O disco foi criado em parceria com Airton, Ulisses, Adriano, Antonio, Wellington, Laudete, Andreza, Teresa, Luciene, Vitória, Lucimara, Rafael, Regina, Mara, Salete, Bruna, Lucinei, Elizabete, Elizangela, Cristiana, Luis Carlos, Francisco, Patrick, Renato, Ítalo, Rodrigo, Cícero, Deivison, Nilson, Valdecir, Noemi, Julia , Daniel, Adair, Márcia, Maria, Afrânio, Verinha, Anderson, Hugo, Julio, Flávio, Cíntia, Anderson, Priscila, Otto, Fagner, Paulo, Daniel, Antonino, Santo Noé, Sidnei, Elza, Renata, Cristina, Donizetti, Fabiano, Zé, Wilson, Pirata, Julio César, João, Clóvis, Suzana, Raila, Maitê, Ercina, Antônio, Natalino, Osmar, Ricardo, José, Cleuza e muitas e muitos mais, direta ou indiretamente.
As imagens que acompanham o material são de autoria do artista Marlon de Paula e foram produzidas durante uma residência artística realizada em 2019, no Museu Bispo do Rosário, na cidade do Rio de Janeiro. As fotografias foram realizadas no interior da Colônia Juliano Moreira, instituição psiquiátrica que chegou a “abrigar” cerca de 5.000 pessoas na década de 60, sendo palco de práticas terríveis como o eletrochoque e cirurgias como a lobotomia. Um desses internos foi Arthur Bispo do Rosário, artista plástico cuja obra se tornou referência para a reflexão sobre os limites entre arte e loucura. Outra interna do Juliano Moreira e que, de acordo com Rabay, foi uma das principais referências para o projeto é a poetisa Stella do Patrocínio, dona de uma obra visceral e questionadora.
O disco e as imagens podem ser acessados através do youtube e as faixas também se encontram disponíveis nas principais plataformas digitais de streaming. O trabalho conta com a mixagem e masterização de áudio feitas pelo produtor e artista Márcio Dabliueme.
Links:
Álbum Visual no youtube: https://youtu.be/peiW3431kgk