Como a Psiquiatria Perpetua uma Cultura de Exclusão

O foco no risco em psiquiatria ofusca a cura e a recuperação, conduzindo a uma cultura de exclusão.

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Em um novo artigo publicado na Cultural Reflections, Chloe Beale explora a linguagem e os sistemas de exclusão difundidos na psiquiatria moderna. A autora argumenta que a linguagem que usamos na psiquiatria, em especial em torno do suicídio, aponta para uma disciplina que se concentra mais no risco do que na recuperação. Ela escreve:

“A escolha de palavras no trabalho clínico e na documentação pode revelar atitudes perturbadoras, valores pessoais e medos. Considerando que a teoria psicanalítica continua sendo um componente central do treinamento psiquiátrico, poderíamos fazer melhor se reconhecemos as nossas próprias defesas”. Desenvolvemos todo um léxico de palavras evasivas e pensamento mágico que transmitimos entre gerações e entre disciplinas. Seria difícil chegar a uma lista exaustiva de mentiras que contamos a nós mesmos na prática psiquiátrica”.

O trabalho em tela também investiga os sistemas de exclusão em vigor dentro da psiquiatria. Por exemplo, os usuários de serviços podem ver negado o acesso aos serviços devido ao código postal, exibindo ‘muita’ ou ‘pouca necessidade’, ‘muito risco’, etc. Para combater estas atitudes e valores que impactam negativamente a cura e a recuperação, a autora argumenta que tanto o treinamento quanto o desenvolvimento de serviços devem ser verdadeiramente co-produzidos e mais atenciosos da história humana por trás dos males que a disciplina visa tratar.

Pesquisas anteriores têm detalhado problemas sistemáticos dentro da disciplina da psiquiatria. Os sociólogos têm relatado a falência da psiquiatria americana, com os pesquisadores apontando a menor expectativa e trajetórias de vida das pessoas que experimentam a psicose como exemplo de uma disciplina que não pode ajudar as pessoas a quem ela diz respeito. Algumas vozes dentro da profissão observaram que a psiquiatria é freqüentemente a causa de, e não a solução para, doenças mentais. Outros autores caracterizaram a psiquiatria como excessivamente medicante, estigmatizante e causadora de muitos dos próprios problemas nas reivindicações a serem resolvidos.

O uso problemático da linguagem pela psiquiatria é um tema que no passado muitos pesquisadores já exploraram. De acordo com alguns autores, a linguagem usada na psiquiatria pode ter impacto nas percepções, tratamento e consentimento informado do usuário de um serviço, com linguagem negativa causando danos reais através da condescendência, isolamento e estigmatização. Os pesquisadores têm até mesmo contestado o uso de termos como “doença mental” para descrever o sofrimento psicológico.

Um autor chegou ao ponto de chamar a linguagem da psiquiatria de “violação dos direitos humanos” devido à sua tendência à alienar os “doentes mentais” do resto da população e as conseqüências enfrentadas pelos usuários dos serviços como resultado. Outros escreveram sobre a tendência dos usuários de serviços de internalizar a linguagem negativa e, portanto, tornarem-se complacentes em sua própria opressão.

Pesquisas demonstraram que a linguagem estigmatizante no prontuário médico de uma pessoa afeta negativamente o atendimento ao paciente. Esta linguagem estigmatizante pode levar a um preconceito implícito, uma situação em que o prestador de serviços faz julgamentos e decisões sobre um usuário de serviços com base em estereótipos e não na experiência real vivida pelo usuário do serviço. Da mesma forma, pesquisas têm mostrado que a linguagem usada no prontuário médico de um paciente pode determinar como um paciente é tratado e como sua dor é tratada agressivamente durante anos após a criação do prontuário.

O trabalho em tela examina a linguagem de exclusão tão comumente usada dentro da psiquiatria, analisando as palavras que a disciplina usa em torno do risco de suicídio. De acordo com a autora, a psiquiatria usa listas de controle de suicídios e avaliações de risco profundamente errôneas para determinar quem pode estar em risco de suicídio. A confiança contínua da disciplina nestes instrumentos duvidosos aponta para o risco de ser a principal preocupação dos prestadores de serviços em vez da recuperação.

Por exemplo, um prestador de serviços pode rotular uma pessoa como tendo “nenhum plano ou intenção” de cometer suicídio com base em medidas errôneas. A linguagem de “sem planos ou intenção” exclui essa pessoa de receber serviços psiquiátricos destinados a ajudar pessoas suicidas. Enquanto a linguagem de “sem planos ou intenção” muitas vezes não reflete a realidade e certamente não protege uma pessoa contra o suicídio, ela permite que o prestador de serviços se sinta melhor sobre a natureza imprevisível das tentativas de suicídio.

A autora também chama a atenção para a linguagem que os prestadores de serviços usam para pedir aos possíveis usuários de serviços suicidas para ” garantir a sua segurança”. Segundo a autora, os usuários de serviços não devem ser solicitados a garantir nada aos clínicos. Em vez de se concentrar no risco, a autora argumenta que os clínicos deveriam “sustentar a esperança” e iniciar a terapia a partir de um lugar de reconhecimento da angústia e do desejo de ajudar. Ela escreve:

“É quase como se pegássemos o pior cenário e trabalhássemos para trás a partir daí, começando por ‘esta pessoa pode se matar, seguido por ‘como posso provar que a culpa disso não é minha’? Nosso ponto de partida deveria ser o simples reconhecimento da angústia e do desejo de ajudar. É essa conexão em nível humano que muitas vezes faz a diferença para as pessoas em crise. Ninguém nunca diz que foi salvo por uma avaliação minuciosa dos riscos, e certamente não se trata de uma lista autônoma de perguntas entregues sem empatia. A gente se pergunta se existe outra especialidade médica na qual existe tal devoção obstinada a uma prática não baseada em eventos”.

O trabalho corrente examina então a exclusão sistemática de certas pessoas dos serviços psiquiátricos por vários motivos, incluindo o código postal, diagnóstico, complexidade, comorbidade, demasiada necessidade, necessidade insuficiente, risco, falta de motivação, prontidão para mudanças, etc. O termo utilizado dentro da psiquiatria para estas exclusões é “gatekeeping“. Para o autor, o uso deste tipo de linguagem cria um ambiente no qual os serviços psiquiátricos se tornam uma “fortaleza” e os usuários de serviços são vistos como “intrusos”. O primeiro pensamento dos clínicos neste ambiente torna-se “como podemos proteger estes recursos contra intrusos” em vez de “como posso ajudar esta pessoa na minha frente”.

A fim de corrigir a cultura de exclusão na psiquiatria moderna e assim melhorar significativamente a utilidade destes serviços, os autores sugerem que a disciplina precisa se concentrar na verdadeira co-criação do conhecimento. O treinamento e os serviços psiquiátricos deveriamm basear-se tanto na compreensão especializada da doença mental quanto na experiência vivida por aqueles que utilizam os serviços psiquiátricos. A disciplina também deve reconhecer de forma honesta que os recursos são limitados, em vez de fingir que estamos excluindo pessoas dos serviços por razões clínicas. A autora conclui:

“Décadas de danos exigem tempo para reparar, sem mencionar a participação de todas as partes. O treinamento tem um papel, desde a graduação até o nível superior para todos os grupos profissionais, mas as organizações devem ter a coragem de implementar uma mudança de cultura em vez de uma série de caixas de seleção levemente alteradas. Quanto mais os clínicos trabalham lado a lado com as pessoas que utilizam serviços de saúde mental (e aqueles que foram excluídos deles), mais eficaz será a mensagem. O treinamento significativo e o desenvolvimento de serviços devem ser verdadeiramente co-produzidos”.

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Beale, C. (2021). Magical thinking and moral injury: Exclusion culture in psychiatry. BJPsych Bulletin46(1), 16–19. https://doi.org/10.1192/bjb.2021.86 (Link)