A palavra “Florescimento” usada pela psiquiatria reflete o mundo real?

A construção de "florescimento" pode oferecer perspectivas promissoras para a política de saúde mental, mas o que fica de fora de sua conceitualização?

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Um novo artigo publicado na SSM-Mental Health, uma revista internacional interdisciplinar de saúde mental, oferece perspectivas críticas sobre o que significa “florescimento” e o que impede o florescimento nos Estados Unidos. Os autores defendem que a palavra “florescer” é entendida de forma diferente pelo público do que como é usada em espaços acadêmicos, filosóficos e midiáticos.

Eles escrevem: “Antes que os esforços corajosos para promover florescimento possam ser justificados, devemos primeiro perguntar: De quem são as definições de florescimento que fornecem o roteiro? Que suposições sustentam estas definições? De quem é o florescimento que eles são projetados para dar apoio”?

Eles acrescentam: “As definições eruditas de florescimento têm ressonância com os usos cotidianos e reais do termo, ou qualquer dimensão essencial está sendo negligenciada ou deixada de fora? Acima de tudo, devemos perguntar: as concepções predominantes de bem-estar mental estão bem adaptadas à tarefa de enfrentar os problemas mais urgentes na pesquisa, política e cuidados clínicos atuais – ou, alternativamente, podem elas correr o risco de nos desencaminhar”?

Em 2021, um artigo no The New York Times discutiu a saúde mental de uma nova maneira – em um espectro que vai do definhamento ao florescimento da saúde mental. “Flourishing” representa “o auge do bem-estar”. Entretanto, pesquisas têm demonstrado que quando operacionalizamos palavras em nome de um sentido para a saúde mental, como resiliência, podemos estar fazendo mais mal do que bem.

Os autores do estudo atual procuraram entender se o The New York Times conseguiu captar corretamento o florescer, realizando um projeto de pesquisa antropológica em Cleveland, Ohio. Os pesquisadores incluíram Sarah S. Willen, Abigail Fisher Williamson e William Tootle Jr. da Universidade de Connecticut, Colleen C. Walsh, da Universidade Estadual de Cleveland, e Mikayla Hyman, uma pesquisadora independente.

Primeiro, a equipe começou uma avaliação crítica das principais concepções de florescimento em psicologia positiva e comparando-as aos entendimentos de florescimento nas ciências sociais críticas da saúde, teoria jurídica crítica, bioética, estudos sobre deficiência e saúde pública crítica. Através desta avaliação, os autores destacam que, naturalmente, “a capacidade das pessoas de florescer depende muito das circunstâncias em que vivem”, de modo que “qualquer relato que se limite ao domínio psicológico ficará necessariamente aquém”.

Então os autores apoiam sua afirmação de que o conceito de florescimento, ainda que seja uma alternativa interessante aos entendimentos mais medicalizantes do que consiste o bem-estar mental, ele ainda falha na forma como as pessoas comuns entendem o seu próprio bem estar pessoal.

Seu estudo de métodos mistos foi concebido com a ajuda do Northeastern Ohio’s Health Improvement Partnership-Cuyahoga (HIP-Cuyahoga). Os pesquisadores entrevistaram 80 membros da comunidade da região de Cleveland. Eles perguntaram aos participantes se eles se descreveriam, pessoalmente, como florescendo, assim como o que eles achavam que as pessoas precisavam, em geral, para florescer.

Cinqüenta e um por cento dos participantes disseram que estavam florescendo. Catorze por cento estavam se aproximando do florescimento, 15% se sentiam confusos para escolher a resposta adequada, 4% se afastavam do florescimento, e 16% dos participantes responderam que não estavam florescendo. As mulheres ricas, brancas, mais velhas e instruídas responderam que estavam florescendo.

“As diferenças por raça e status socioeconômico foram particularmente acentuadas”, observam as autoras.

Menos da metade dos entrevistados negros relataram estar florescendo, em comparação com mais de dois terços de seus pares brancos.

“Em termos de renda, 88% daqueles com renda familiar acima de US$ 100.000 relataram estar florescendo (14/16), comparado com menos da metade daqueles com renda familiar inferior a US$ 30.000 por ano (46%; 24/11)”.

Com relação às respostas quanto sobre o que as pessoas precisam para prosperar, dois dos fatores mais comuns mencionados foram uma renda estável e os determinantes sociais da saúde.

Os autores terminam o artigo com o seguinte resumo:

“O que é surpreendente – e o que queremos enfatizar aqui – é a persistente e problemática desatenção a essas questões na maioria das pesquisas sobre o florescimento. Do ponto de vista da saúde da população, não há dúvida de que as principais abordagens ao florescimento desempenham um papel importante para facilitar a comparação entre grandes grupos, com efeitos clínicos e políticos significativos. Mas o que aprendemos – e o que perdemos – quando fazemos comparações no agregado usando índices que podem perder aspectos vitais do que as pessoas reais, em cenários do mundo real, vêem como necessário para prosperar? De quem são os indicadores de florescimento que existem, projetados para medir, melhorar e avançar – e que podem ser menos bem capturados, ou não ser capturados de forma alguma”?

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Willen, S. S., Williamson, A. F., Walsh, C. C., Hyman, M., & Tootle, W. (2022). Rethinking flourishing: Critical insights and qualitative perspectives from the US Midwest. SSM-mental Health2, 100057. (Full text)

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Nota do Editor: O termo “medicalização” é bem conhecido por nós. O termo “florescimento” começa a estar integrado ao vocabulário da psiquiatria. Vale a pena começarmos a estar atento ao sentido que o termo vem ganhando no campo da saúde mental e as suas implicações. Confira esta matéria publicada na Revista Galileu