Manual de Psiquiatria Crítica, Capítulo 12: Eletrochoque

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Nota do Editor: O Mad in Brasil está publicando uma versão serializada do livro de Peter Gøtzsche,Critical Psychiatry Textbook. Neste blog, ele discute a escassez de pesquisas sobre a eficácia do Eletrochoque (ECT) e o efeito comum da amnésia, que indica danos cerebrais. Quinzenalmente uma nova seção do livro é publicada, e todos os capítulos são arquivados aqui. 

O eletrochoque, também chamado de Eletroconvulsoterapia (ECT), era altamente elogiado nos livros didáticos. Um livro recomendava a ECT ou campos eletromagnéticos pulsantes (PEMF) para a depressão resistente ao tratamento|16:275|,  e outro livro observava que a ECT deve sempre ser considerada para essa condição|17:364|.

Afirmava-se que a ECT estimula a formação de novos neurônios e a manutenção da árvore dendrítica|16:558|, e o desenvolvimento de novos neurônios no hipocampo|17:746|. Um terceiro livro observava que nenhum dano cerebral agudo ou permanente havia sido demonstrado nos muitos estudos de imagem e que alguns estudos sugerem que a neurogênese no hipocampo aumenta|18:245|.

A verdade é que o cérebro reage a danos produzindo novos neurônios|11|. Um efeito prejudicial foi, portanto, elogiado como benéfico, o que é comum na psiquiatria. Não havia referências.

Um livro alegou que não foi possível detectar danos cerebrais; que a amnésia retrógrada é difícil de interpretar e de distinguir de problemas desencadeados pela doença; que alguns estudos sugerem uma ligeira perda de memória um ano após a ECT, enquanto outros estudos não a constatam; e que os sintomas de longo prazo experimentados pelos pacientes após a ECT são extremamente raros e não estão com certeza relacionados a ela|17:745|.Ao usar a palavra “experimentados”, o autor minimizou o que os pacientes relatam aos seus psiquiatras sobre os danos da ECT.

Em outro livro, o mesmo autor afirmou que nunca foi diagnosticado dano cerebral após a ECT, embora tenha observado que quase todos os pacientes apresentam sintomas amnésicos em uma série de tratamentos|16:556|. Isso é uma dissonância cognitiva em toda a sua extensão. Se a amnésia após a ECT não é um sinal de dano cerebral, o que é então? Como alguém pode argumentar dessa forma? As pessoas que ficam amnésicas após uma concussão são informadas de que isso ocorre porque sofreram danos cerebrais.

O autor explicou que a amnésia anterógrada se recupera duas semanas depois, enquanto a amnésia retrógrada é mais incerta. Ele observou que alguns estudos sugerem uma leve perda de memória de 6 a 12 meses depois, enquanto experiências prolongadas de inconvenientes são extremamente raras. Este autor, um professor de psiquiatria, ignorou os fatos ao perguntar se os problemas eram devidos à ECT ou ao transtorno.

Outros autores também negaram os fatos. Eles observaram que, raramente, alguns pacientes experimentam “inconvenientes subjetivos” na forma de lacunas na memória retrógrada e alegaram que é difícil julgar se são danos da ECT, pois pacientes com depressão grave também costumam ter tais lacunas|18:244|.

Os problemas de memória não são apenas subjetivos (o que é o roteiro padrão: culpar a vítima, não os tratamentos); eles foram comprovados em inúmeros estudos.

Em outra parte deste livro, os autores escreveram sobre uma disfunção da memória de curto prazo e que estudos minuciosos com métodos de imagem não haviam mostrado danos ao tecido nervoso|18:231|.

Isso é simplesmente incrível. A ECT causa perda de memória na maioria dos pacientes |573-575| e perda de memória permanente em alguns pacientes, o que significa dano cerebral irreversível|96,121|. Além disso, a ECT mata alguns pacientes |573|, o que significa que todas as células cerebrais estão mortas.

A negação organizada dos danos causados pela ECT era espantosa. Minha tradução do texto acima é: Nós, psiquiatras, não nos preocupamos com os problemas de memória que causamos; os pacientes já tinham problemas de memória antes de receberem o eletrochoque; os problemas de memória que os pacientes nos relatam não são reais (apenas “subjetivos”); e não precisamos prestar atenção ao que os pacientes nos dizem de qualquer maneira, porque eles são doentes mentais. Na minha opinião, os psiquiatras são perigosos demais para se ter por perto.

As descrições do que a ECT faz às pessoas estão entre as mais desonestas que encontrei ao ler os cinco livros didáticos, e isso também se aplica ao benefício postulado. Dizem-nos que a ECT é extremamente eficaz contra a depressão grave|18:231|, e que pode salvar vidas|18:244|. Isso não condiz com a informação presente no mesmo livro de que, geralmente, são aplicados de 8 a 16 choques|18:244|. A ECT também é usada em pacientes com mania para prevenir o delírio agudo|18:114|. 

Alegou-se que 80% dos pacientes com transtornos afetivos respondem à ECT|17:360|, mas não havia grupo de controle nem referência.

Aqui está um relato dos fatos|7:207|. Na revisão Cochrane sobre a ECT para pacientes com esquizofrenia, que data de 2005|576|, mais pessoas apresentaram melhora com a ECT do que com o placebo ou a ECT simulada, com razão de risco de 0,76 (0,59 a 0,98), mas esse achado não é confiável. Foi estatisticamente insignificante; os ensaios foram pequenos (apenas 392 pacientes em 10 ensaios); quanto maior o ensaio, menor o efeito, o que sugere que existem ensaios negativos que não foram publicados; e os autores excluíram de sua revisão apenas os ensaios em que mais de 50% dos pacientes foram perdidos no acompanhamento, o que é generoso demais. Outros pesquisadores concluíram que todos os ensaios de ECT simulada apresentam falhas graves|577|.

Os autores da Cochrane relataram que, usando a Escala Breve de Avaliação Psiquiátrica, a ECT foi melhor do que a ECT simulada, mas havia apenas 52 pacientes na análise, e não temos ideia de quantos pacientes ou dados estavam faltando nem por quê. Além disso, a diferença foi de apenas 6 em uma escala que vai até 126, o que não é um efeito clinicamente relevante (veja o Capítulo 7, Parte Um sobre uma falta semelhante de efeito relevante dos medicamentos para psicose) .

Ainda mais preocupante, a ECT foi consideravelmente menos eficaz do que os medicamentos para psicose; por exemplo, o dobro de pacientes não apresentou melhora no grupo da ECT, com razão de risco de 2,18 (1,31 a 3,63).

Os autores não tiraram conclusões definitivas sobre qualquer benefício de curto prazo, e não havia evidências de um benefício de longo prazo.

Uma revisão de 2003 constatou que a ECT era mais eficaz do que a ECT simulada para a depressão (6 ensaios, 256 pacientes, tamanho do efeito -0,91 (-1,27 a -0,54), correspondendo a uma diferença de 10 pontos na escala de Hamilton, e a ECT também foi melhor do que os medicamentos (18 ensaios, 1.144 pacientes, tamanho do efeito -0,80 (-1,29 a -0,29)|578|. Isso parece impressionante, mas trata-se de efeitos de curto prazo; a qualidade dos ensaios foi baixa; a maioria dos ensaios foi de pequeno porte; os resultados provavelmente mudariam significativamente se alguns estudos neutros fossem identificados; os ensaios raramente utilizaram desfechos relevantes para a prática clínica; e os dados sugeriram que a ECT causava atrofia cortical no cérebro. Os autores aconselharam que o compromisso entre tornar a ECT idealmente eficaz em termos de melhoria dos sintomas depressivos e limitar o comprometimento cognitivo deve ser considerado.

Pesquisadores psiquiátricos frequentemente evitam dizer em linguagem simples o que descobriram e o que isso significa, pois isso seria ameaçador para a corporação psiquiátrica. Eles deveriam ter dito que é incerto se a ECT para depressão traz mais benefícios do que malefícios, especialmente porque causou danos cerebrais e porque apenas estudos de curto prazo foram avaliados. Revisões sistemáticas não conseguiram encontrar benefícios além do período de tratamento, tanto para esquizofrenia quanto para depressão|573,578|.

Muitos psiquiatras acreditam que a ECT pode salvar vidas, mas não há dados confiáveis que apoiem essa crença|573,578|,enquanto sabemos com certeza que a ECT pode ser mortal. Uma revisão sistemática constatou uma taxa de mortalidade de cerca de 1 por 1.000|573|,o que é 10 vezes maior do que o que afirma a Associação Psiquiátrica Americana. Quando dei uma palestra em Brisbane em 2015, uma mãe me contou que os psiquiatras mataram seu filho com a ECT, mas o ressuscitaram. Quando ele acordou, apresentava queimaduras graves e, nos dois ou três meses seguintes, não conseguia dizer nada que as pessoas pudessem entender. Ele sofreu danos cerebrais permanentes e suas habilidades sociais são muito precárias; ele não consegue viver sozinho.

Em 2003, o boletim informativo do Colégio Real de Psiquiatras do Reino Unido afirmava que mais de 80% dos pacientes com depressão respondem bem à ECT e que a perda de memória não é clinicamente importante|575|. Não perguntamos a um cabeleireiro se precisamos cortar o cabelo. Os pacientes discordaram e os níveis mais baixos de satisfação foram obtidos em estudos conduzidos por pacientes, e não por psiquiatras.

Se quisermos saber a verdade sobre medicamentos psiquiátricos e eletrochoque, precisamos ouvir os pacientes e não os psiquiatras|121|. Uma paciente dinamarquesa não conseguia se lembrar nem mesmo das coisas mais comuns, como o nome da capital da Dinamarca, depois de ter sido submetida a eletrochoque|121|. Ela sofreu danos cerebrais permanentes devido a eletrochoques que nunca deveria ter recebido, pois seu problema era ter sofrido abuso sexual na infância. Ela não tinha nenhum transtorno psiquiátrico. Seu livro é um relato assustador do que há de errado com a psiquiatria|121|.

Estudos sobre a ECT utilizando testes neuropsicológicos de rotina concluíram que não há evidência de perda de memória persistente, mas o que é medido é tipicamente a capacidade de formar novas memórias após o tratamento (memória anterógrada). Relatos de pacientes sobre perda de memória dizem respeito ao apagamento de memórias autobiográficas ou amnésia retrógrada, e são contundentes.575 Com uma definição estrita de perda de memória, entre 29% e 55% dos pacientes são afetados. Com critérios mais flexíveis, a variação vai de 51% a 79%.

Outros estudos também mostram que a ECT pode causar danos cerebrais permanentes|573|. Na década de 1940, reconheceu-se que a ECT “funciona” porque causa danos cerebrais e déficits de memória, e estudos de autópsia encontraram consistentemente danos cerebrais, incluindo necrose.

É flagrantemente desonesto afirmar, como fizeram os psiquiatras autores de uma revisão Cochrane sobre idosos com depressão|579|,que “atualmente, não há evidências que sugiram que a ECT cause qualquer tipo de dano cerebral, embora sejam frequentemente relatados comprometimentos cognitivos temporários” e que “a ECT parece ser um procedimento seguro”.

A orientação oficial de 2010 para clínicos gerais na Dinamarca sobre depressão era ainda pior. Ela afirmava que, “Muitos têm um medo infundado do tratamento com ECT, embora não haja evidências de que o tratamento cause danos cerebrais, na verdade, há fortes evidências de que novas células nervosas são formadas em resposta ao tratamento.” |580|

A ECT “funciona” deixando as pessoas confusas e destruindo suas memórias, que são o que nos define como seres humanos, mas os médicos descrevem isso como positivo. Eles também descreveram a lobotomia e os muitos outros tratamentos prejudiciais que usavam no passado como positivos|1|. 

Conforme ilustrado pelo caso em Brisbane, o que acontece na prática está longe do que deveria acontecer. Isso tem sido estudado sistematicamente. Auditorias repetidas realizadas pelo Colégio Real de Psiquiatras do Reino Unido mostraram que muitos hospitais não cumpriam os padrões do colégio|575|. Uma auditoria constatou que apenas um terço das clínicas de ECT atendia aos padrões|578|. Há também enormes variações na prática clínica e nas taxas de uso|573,575,578|.

Na Dinamarca, o tratamento forçado com ECT quadruplicou em apenas sete anos na década de 1990, mas o tratamento forçado é imensamente desagradável, os pacientes ficam muito assustados, muitas vezes provoca amargura e raiva colossais, e é percebido pelos pacientes como uma quebra de confiança|581|.

Há um documentário muito comovente sobre Mette Askov, uma enfermeira dinamarquesa que ouvia vozes desde os oito anos de idade e foi paciente psiquiátrica por 15 anos |582|. Ela foi diagnosticada com esquizofrenia paranóica e recebeu grandes quantidades de medicamentos, 150 eletrochoques e um auxílio-invalidez. Ela foi estigmatizada e cercada de preconceito, mas depois que recuperou sua própria vida e deixou a psiquiatria, alcançou alguns de seus maiores objetivos. Sua história ilustra muito bem o que leva o abuso de tratamentos forçados por parte dos psiquiatras. Mesmo quando é tão claro que eles não funcionam, os psiquiatras continuam a usá-los.

Já ouvi muitas histórias em que psiquiatras descrevem melhoras milagrosas e pacientes agradecidos. Certa vez, em uma reunião após minha palestra sobre medicamentos, perguntaram-me qual era minha opinião sobre uma mulher que estava tão deprimida que mal conseguia se comunicar, mas pediu um copo d’água após um eletrochoque|8:87|. Respondi que, como se tratava de uma anedota, responderia com outra anedota. Examinei um homem recém-internado, um alcoólatra inconsciente, e como precisava descartar meningite, tentei inserir uma agulha nas costas dele para coletar líquido cefalorraquidiano para exame microscópico e cultura. Foi muito difícil penetrar e acertei o osso dele várias vezes. De repente, o bêbado exclamou em voz alta: “Caramba, pare de me picar nas costas!” Será que eu causei um milagre com minha agulha e curei o cara? Não. Coisas estranhas acontecem o tempo todo na área da saúde. Será que eu teria acordado a mulher profundamente deprimida com minha agulha? Quem sabe, mas talvez?

Alguns psiquiatras que conheci nunca usaram eletrochoque. Esse tratamento bárbaro deveria ser ilegal, assim como as lobotomias são. Em particular, ninguém deveria ser forçado a receber eletrochoques contra sua vontade.

 

*Tradução realizada por Camila Motta, com revisão técnica de Paulo Amarante. 

 

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