Parte II: Michelle Inicia o Prozac e vê o Diabo

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Peter Breggin

Parte II de uma série de relatórios sobre a história de Michelle Carter. A Parte I pode ser encontrada aqui.

Enquanto Michelle Carter e sua família abriam caminho – pela barreira erguida por câmeras de TV montadas fora do tribunal de Massachusetts – rumo ao tribunal que iria julgar a Michelle, a atmosfera dentro e fora do tribunal estava tensa. Era o mesmo juiz que já a havia condenado por homicídio involuntário no suicídio de seu namorado, Conrad Roy.

Enquanto perito em psiquiatria, por mais de duas horas eu permaneci sentado em frente a uma câmera em um estúdio em Ithaca, Nova York. Estava eu lá a espera de ouvir pelo meu fone de ouvido que a câmera postada em minha frente estaria ligada e que o meu microfone me colocaria ao vivo.

Eu passei a maior parte deste terceiro dia de agosto, das 12h às 20h, ouvindo e respondendo à cobertura televisiva da sentença de Michelle Carter. A melhor notícia foi que minha esposa Ginger estava na sala de engenharia do estúdio, ajudando-me a acompanhar o que era importante.

Rodeado pela indignação

Pelo meu fone de ouvido fui informado de que eu entraria ao vivo em alguns segundos; e endireitei a minha postura e passei a focalizar os meus olhos na câmera. Eu estava mais uma vez preparado para falar sobre a verdadeira Michelle Carter, uma jovem cálida e atenciosa, em grande parte graças às forças que estavam além da sua compreensão ou do seu controle. E então a sala de comando em Atlanta desligou novamente a minha câmera .

A cobertura mudou para um incidente fora do tribunal. Quando Michelle passava pela multidão com o olhar assustado e frágil, alguém gritou para ela: “Mate-se!” O canal repetiu a cena, para ter certeza de que todos ouvimos as palavras. Para os produtores de TV e os comentaristas, isso não passava de um grande teatro.

Eu me senti imerso em uma realidade de espetáculo, dominada pela raiva, vingança e ódio contra Michelle, um espetáculo assistido por milhões de telespectadores via a Headline News (HLN), de propriedade da CNN. Esta condenação midiática, às vezes sutil e às vezes não, foi dirigida à Michelle pela maioria dos comentaristas das redes de TV; pelos espectadores selecionados para filmagem; com as entrevistas feitas com os indignados familiares do jovem falecido; por advogados encolerizados e pelos promotores selecionados para o show; e até mesmo por alguns ‘especialistas’ de saúde mental.

A imagem ampliada

Depois de passar um dia ouvindo a cobertura da mídia da HLN – com algumas pausas para olhar para a CNN, a Fox News Channel e outros canais -, comecei a perceber que a cobertura de TV da história de Michelle e dos aspectos legais do caso não passavam de uma diversão midiática, para evitar que os americanos voltem a sua atenção para o que realmente incomoda o nosso país e o mundo de hoje em dia. Neste caso, a história a ser evitada a todo custo é a da epidemia das drogas, que atinge os nossos filhos e jovens, e de como estamos entregando os nossos filhos às companhias farmacêuticas e aos médicos. Em vez de uma tomada de consciência, que se odeie e que se culpe a vítima, e que não nos deixem ver o estrangulamento que o Império Farmacêutico está fazendo na psiquiatria, a medicina, as companhias de seguros, a mídia, o Congresso, o sistema educacional e praticamente em toda a nossa cultura.

O programa da ABC TV 20/20 dedicou uma hora à história de Michelle Carter, em 4 de agosto de 2017, no dia seguinte à sua sentença, e forneceu vislumbres de realidades escondidas. Com base na filmagem de mais de 90 minutos no estúdio de Nova York, provavelmente a entrevista que dei teve influência na apresentação da história de uma forma mais equilibrada. Em vários clipes curtos na produção final, me foi dada a oportunidade de fazer minhas observações sumárias, sendo as mais importantes: que Michelle tentou por dois anos salvar a Conrad, até que ela sucumbiu à influência de suas ameaças abusivas de se matar e também à intoxicação involuntária causada por uma mudança recente em sua medicação.

As experiências de Perdas Traumáticas vividas por Michelle

Em variações infinitas, a história de Michelle é parecida com a que é vivida diariamente por milhões de crianças na América e em outros lugares do mundo, especialmente no mundo industrializado.

Tanto quanto alguém pode dizer, ela estava indo bem até aos seus 14 anos de idade, sendo uma boa aluna, uma atleta-estrela e uma garota que gostava da vida e que era amada pelas pessoas que a conheciam. Nada havia nela como igual a qualidades antissociais.

Então, em setembro de 2010, um mês depois de completar 14 anos e de entrar na 8ª série, Michelle sofreu um duplo trauma. Os seus avós maternos muito queridos, que moravam nas proximidades e que eram muito presentes na vida familiar, morreram inesperadamente em uma rápida sucessão. Primeiramente, seu avô materno morreu de um ataque cardíaco e, algumas semanas após, sem aviso prévio, a sua avó morreu de um acidente vascular cerebral. Essas perdas traumáticas seriam suficientes para agredir temporariamente qualquer criança; e Michelle passou pelo processo normal de luto – exceto que foi oficialmente diagnosticada com ansiedade e depressão, em vez de estar a sofrer de um processo saudável de luto e necessário.

Um mês após à morte de seus avós, o corpo forte e atlético de Michelle havia diminuído cerca de 20 a 30 libras (em torno de 9 a 12 kg).  Ela já pesava 85 libras (38 kg), 2% para a sua faixa etária e altura.

O gastroenterologista a descreveu como “anormalmente magra” por não querer comer; e ela foi diagnosticada com anorexia, ansiedade e depressão. Suas funções hepáticas estavam anormais e permaneceriam assim por anos. Seu eletrocardiograma mostrou anormalidades que seriam esclarecidas posteriormente. Seu sistema cardiovascular estava tão instável que ela desenvolveu hipotensão ortostática – ou seja, sua pressão sanguínea caia precipitadamente quando ela se levantava. Ela passou a ser uma criança muito emocionalmente angustiada e fisicamente enferma.

O que Michelle e sua família realmente precisavam

Michelle precisava de um terapeuta familiar experiente, alguém que teria juntado rapidamente toda a família Carter para ajudar a lidar com a sua dor. A irmã mais nova de Michelle também perdeu seus avós; e a mãe de Michelle, obviamente, por haver perdido os dois pais. As duas crianças, especialmente, precisavam de ajuda para expressar seus inevitáveis medo e ansiedade sobre a própria morte. No aconselhamento familiar, os quatro membros da família poderiam ter trabalhado juntos para aumentar sua comunicação amorosa e processar suas emoções compartilhadas de tristeza.

Em vez de se concentrar em Michelle como paciente, um terapeuta familiar teria enfatizado ajudar os pais de Michelle, sendo eles os líderes da família. Na minha experiência, ao ajudar os pais, a necessidade do terapeuta de ver as crianças muitas vezes diminui. Os pais, com seu novo entendimento e melhores habilidades de comunicação, conseguem ajudar a toda a família a se curar. No caso de Michelle, onde ela se comunicava quase que exclusivamente com seus pares através das mídias sociais, um grande avanço implicaria mudar mais as suas comunicações para com seus pais e irmã.

Ao invés disso, foram dados a Michelle antidepressivos, o que abafou a sua habilidade e a sua motivação para lidar com as aflições. Um dos efeitos mais comuns dos antidepressivos é justamente a supressão da emoção, ao mesmo tempo que impõem a apatia e a indiferença. As drogas, por conseguinte, impedem a ligação com a família e de fazer o luto. Depois de se retirarem dos antidepressivos, muitos pacientes percebem que passaram por eventos importantes, como as graduações de seus filhos ou a morte de seus pais, “sem sentir nada”. (Para estudos da apatia antidepressiva, veja a parte número quatro dos artigos científicos que estão no meu Centro de Informações sobre Antidepressivos.)

A iniciação de Michelle com o Prozac

Em vez de tratá-la como membro de uma família sob estado de choque e triste, Michelle foi tratada como se tivesse uma doença mental. Em 17 de fevereiro de 2011, seu médico da Atenção Primária a iniciou no Prozac, para aumentar seu peso e talvez para tratar sua ‘depressão’. Após uma semana, seu médico dobrou a sua dose para 20 mg.

Vinte miligramas é uma dose de Prozac comum para adultos. Para Michelle, em sua condição frágil, tornou-se uma dose gigantesca. Seu sistema cardiovascular ficou instável. Ela estava com 2% do seu peso normal. Para adicionar a este estado vulnerável, o mau funcionamento do fígado provavelmente reduziu a sua capacidade de metabolizar ou quebrar o Prozac, levando-o a um nível ainda maior na corrente sanguínea do que o previsto. Seu sistema cardiovascular danificado colocou-a em risco para uma arritmia induzida por drogas e para a morte.

Em 5 de abril de 2011, sem explicação, o médico de Michelle da Atenção Primária aumentou a dose de Prozac para 30 mg. Esta dose, acima da média para um adulto, foi uma receita para a tragédia de Michelle.

Após uma semana de aumento da dose, o médico exclamou no registro, “Ganho de peso!” Michelle tinha mais três quilos e seu IMC era agora de 3%.

Na época, Prozac já estava aprovado para a depressão em crianças, mas nunca seria aprovado para transtornos alimentares em crianças. O impacto imediato dos ISRSs geralmente causa perda de peso, um fato que os médicos equivocadamente usaram para pressionar as mulheres que queriam perder peso, enquanto tentavam superar a depressão.

Infelizmente, o efeito a longo prazo de antidepressivos como Prozac, Citalopram e Escitalopram é geralmente ganho de peso; e para uma criança que é desesperadamente fóbica sobre gordura, isso aparece como uma calamidade. O aumento de peso de Michelle com os antidepressivos SSRI contribuirá para o seu crescente desespero nos próximos três anos. Como ela perdeu o controle de seu peso, ela se tornou bulímica, perseguindo corridas exaustivas, como uma maneira de evitar que ganhasse mais peso.

O que sabíamos sobre os perigos dos antidepressivos em 2011?

Em 2011, qualquer pessoa que lesse a literatura científica, em grande parte vinda das principais referências médicas americanas, teria sabido que as crianças não podem tolerar ISRSs e que, portanto, não se deve prescrever essas drogas a elas. O relato científico que citarei a seguir, bem como muitos outros estudos confirmatórios, podem ser obtidos sem custo em meu site www.123antidepressants.com.

Uma equipe liderada por Riddle, do Yale Child Study Center, um centro afiliado à Yale Medical School, descobriu que 50% das 24 crianças, entre 8 e 16 anos de idade, desenvolveram anormalidades comportamentais graves quando tratadas com Prozac. Onze crianças (45%) desenvolveram ‘inquietação motora’, que geralmente é um sinal de acatisia, uma desordem que provoca piora da condição de uma criança ou adulto, levando às vezes à psicose, violência ou ao suicídio.

Nesse estudo, seis crianças e adolescentes desenvolveram ‘desinibição social’, o que também pode causar comportamentos perigosos, como os que Michelle mais tarde mostrará no final da vida de Conrad. Três crianças desenvolveram ‘uma sensação subjetiva de excitação’, que é o início da mania, com todos os seus riscos, incluindo seus sentimentos de grandiosidade e onipotência, muitas vezes desastrosos; o que Michelle também expressaria nos últimos dias de Conrad, de uma maneira muito desagradável.

Como se estivesse avisando qual seria o futuro de Michelle, os autores desse estudo ao qual estou me referindo concluíram:

Os clínicos que tratam crianças com fluoxetina [Prozac] devem estar conscientes dos efeitos colaterais comportamentais … Esses efeitos colaterais podem ser difíceis de se diferenciar de sintomas psicopatológicos comuns, como hiperatividade, agitação e impulsividade.

A ‘impulsividade’ induzida por drogas, juntamente com a ‘desinibição social’, e outros sintomas induzidos por fármacos maníacos, como é o esperado provavelmente passaram a dominar a vida de Michelle.

Reacções ao Prozac e a todos os outros antidepressivos mais recentes podem destruir vidas. Com base na minha experiência clínica e forense, descrevi muitos desses casos no meu livro Medication Madness: The Role of Psychiatric Drugs in Cases of Violence, Suicide and Crime.

Graças em parte a meus trabalhos científicos, em 2004 e 2005, a FDA modificou a informação de prescrição completa para todos os antidepressivos, incluindo o Prozac. A partir de então, todas as informações completas da prescrição de antidepressivos passaram a ter múltiplas referências a um contínuo de ativação ou estimulação de efeitos adversos, que são semelhantes à metanfetamina e à cocaína:

Todos os pacientes que estão sendo tratados com antidepressivos para qualquer indicação devem ser monitorados adequadamente e observados de perto para a piora clínica, o suicídio e para as mudanças incomuns no comportamento, especialmente durante os primeiros meses do processo de terapia medicamentosa, ou em momentos de mudanças de dose, quer aumentando-a ou diminuindo-a. Os seguintes sintomas, como ansiedade, agitação, ataques de pânico, insônia, irritabilidade, hostilidade, agressividade, impulsividade, acatisia (inquietação psicomotora), hipomania e mania, foram relatados em pacientes adultos e pediátricos, tratados com antidepressivos para transtorno depressivo maior assim como para outras indicações, tanto psiquiátricas como não psiquiátricas. Seção 5.1 (em negrito no original)

Uma porcentagem significativa das internações hospitalares é causada por psicose e mania induzidas por antidepressivos. Como a informação completa da prescrição aprovada pela FDA confirma, os efeitos colaterais mais comuns podem ser acompanhados de mudanças drásticas em relação a comportamentos agressivos antissociais, incluindo “irritabilidade, hostilidade, agressividade, impulsividade”. E ‘sintomas maníacos’, como a grandiosidade que Michelle exibiria por um breve e trágico período de dez dias antes do suicídio de Conrad.

Reação de Michelle para a primeira rodada de Prozac

O profissional de saúde de Michelle só reconheceu a ‘dor de cabeça’ como uma reação adversa depois de aumentar a dose de Michelle, para o que era para ela uma dose gigantesca de 30 mg. O texto de Michelle com seus amigos mostra o primeiro desenvolvimento conhecido de comportamento problemático. Embora atraída por meninos, Michelle desenvolveu uma paixão feminina e perseguiu compulsivamente sua amizade até que a mãe da menina interveio. A perda desse relacionamento aumentaria suas perdas anteriores e aumentaria seu sofrimento ao longo dos próximos anos.

Para Michelle, seus relacionamentos eram sempre pautados por apegos emocionais profundos. Ela queria ajudar as pessoas. Ela queria amar as pessoas e ela buscava o amor delas. Com meninos ou meninas, jovens ou adultos, os objetivos eram sempre os mesmos, amor e ajuda mútua; e as pessoas respondiam muito calorosamente e com apreciação a ela.

Esses sentimentos apaixonados, porém, platônicos, foram abertamente compartilhados em centenas de textos entre Michelle e seus amigos que se mantinham afeiçoados. O foco potencialmente perigoso de Michelle em ajudar e ser ajudada tornou-se mais desesperado e obsessivo sob a influência de antidepressivos e o implacável abuso de Conrad sobre ela.

Como Michelle sentiu que estava indo bem já há algum tempo, seu médico da Atenção Primária interrompeu o Prozac, no início de outubro de 2011. Michelle estava fora do Prozac quando conheceu Conrad pela primeira vez, em fevereiro de 2012. Ela tinha agora quinze anos.

Recomeçando o Prozac sete meses depois

No dia 3 de maio de 2012, seu médico da Atenção Primária escreveu no prontuário de Michelle: “Retorno da chamada da mãe – Mãe preocupada, Michelle comendo demais – não pode parar de comer e está se exercitando compulsivamente. Michelle agora pede ajuda, mas não quer voltar ao [outro] consultório, pois está preocupada que a equipe a veja como um “fracasso”.

Na época, a mãe de Michelle calculava o peso da filha em 45 quilos, com cerca de 11 quilos abaixo do peso. Seu médico anterior encaminhou-a para um novo médico no mesmo grupo de cobertura, porém em outro local.

O novo médico da Atenção Primária, que permaneceria com Michelle até da morte de Conrad, rapidamente aceitou o pedido de Michelle para reiniciar o Prozac. Em uma escalada muito rápida de catorze dias, o médico levantou a dose de Michelle de 10 a 30 mg, simplesmente porque Michelle estava tomando 30 mg no passado.

Michelle e Conrad têm contato limitado o levando à sua tentativa de suicídio

Michelle e Conrad se encontraram com suas famílias em férias na Flórida, em fevereiro de 2012, quando ela tinha quinze anos e ele tinha dezesseis anos. As primeiras comunicações entre Michelle e Conrad disponibilizadas para mim são trocas diretas de mensagens no Facebook, que começaram alguns meses após o primeiro encontro em 17 de julho de 2012.

Eles se encontraram novamente em agosto de 2012 na casa dos Carter. Seus dois últimos encontros ocorreram em suas cidades natais em Massachusetts, no verão de 2013, e eles não se viram nunca mais durante o ano antes da morte de Conrad.

Suas comunicações disponíveis de 17 de julho de 2012 a 5 de setembro de 2012 parecem infantis e brincalhonas, muitas vezes consistindo apenas de uma a três palavras. Em uma mensagem trocada, Conrad escreve: “amo você” e algumas linhas depois Michelle replica, “Que bom. Eu te amo muito.”

Em 10 de outubro de 2012, Conrad começou outra troca de mensagens diretas no Facebook; em uma das quais ele disse a Michelle que havia deixado recentemente um hospital, após uma séria tentativa de suicídio. Michelle, que não tinha suspeitas de que ele estava emocionalmente mal, ficou chocada.

Em 2011, Conrad havia tido uma forte overdose em Tylenol, na primeira das quatro ou mais tentativas de suicídio (meu testemunho & Registros Públicos 3, 29 e 31). Eu testemunhei que as mudanças nos medicamentos antidepressivos de Conrad agravaram seu estado de suicida e sua mãe concordou que o divórcio de seus pais “o machucou profundamente” (Registro Público 23). Haviam também alegações de que Conrad havia sido abusado fisicamente por seu pai e abusado verbalmente por seu avô e seu tio (meu testemunho, testemunho policial e registros públicos 34, 49 e 50).

A primeira tentativa séria de suicídio de Conrad guarda semelhanças com o seu suicídio de fato, por haver envolvido uma colega (Relatório Público 51). O pai de Conrad explicou à polícia: “A primeira vez que Conrad tentou se suicidar ele estava falando com uma garota que ele conheceu em um grupo, e ela ligou para a polícia imediatamente, e ela salvou sua vida. . . “(Relatório público 2).

Nos próximos dois anos, Conrad repetidamente ameaçou se matar enquanto mandava textos para Michelle. Durante dez dias, em julho de 2014, essas ameaças combinadas com o antidepressivo que tomava a derrubaram mentalmente, e ela concordou em apoiar seu objetivo de morrer rápido e facilmente, para ir ao céu.

Transformação trágica de Conrad

Durante essa troca de mensagens de 10 de outubro no Facebook, Conrad já não exibe a inocência e a relativa sensibilidade de suas comunicações anteriores – sem drogas – com Michelle. Em vez disso, ele continua todos os dias a atormenta-la com ameaças repetidas de que ele planejava se matar naquela noite. Aterrorizada, ela implora que não fizesse isso. Ele insiste, “não, eu vou”, e depois explica “apenas deixar você saber que a voz na minha cabeça me disse para fazer isso”. Ele se considera “louco” e diz que ele irá realizar seus planos.

Conrad continua torturando Michelle com descrições de seus vários métodos de suicídio, insistindo: “Eu vou tentar o meu melhor e não falhar na próxima vez”. Ele repete suas intenções de que ele faria isso “esta noite”. Ela diz a ele, “Você está me assustando” e reitera o quanto ela o ama e quer ajuda-lo. Isso ocorreu várias e várias vezes.

Michelle torna-se frenética e chama um amigo e um parente de Conrad em sua cidade natal, que fica a uma hora de carro. Enquanto isso, ainda não sendo bastante estar entre 16 e 30 mg de Prozac, Michelle permanece insegura sobre o que mais fazer até ouvir um retorno dele.

Michelle, cujo principal objetivo na vida era amar e ajudar as pessoas, agora está presa em uma situação desesperadora. Ela acredita que ama Conrad e ele está convencido de que só ela poderá salvá-lo. Este padrão desesperado continuará por quase dois anos.

Sua mensagem é interrompida por cinco horas até às 9 horas daquela noite em que Michelle envia uma única mensagem sem resposta, “Conrad, responda-me agora, por favor”.

A próxima comunicação que me foi fornecida data de seis semanas depois. Naquele momento, em 19 de novembro de 2012, Conrad continua com o que se tornará uma avalanche periódica de comunicações estranhas e sombrias. Ele fala sobre “Eu quero o seu sangue” e “Quero misturar o seu sangue com a sua saliva e com o meu sangue”. Michelle é atraída para o que ela descreve nas mensagens como essa conversa “nojenta”.

Pesadelos diabólicas e alucinações

Após a meia-noite de 24 de novembro de 2012, ainda em 30 mg de Prozac, Michelle envia uma mensagem direta a Conrad no Facebook dizendo que, pela primeira vez, está tendo terríveis pesadelos sobre o diabo que a impede de dormir.

Em suas comunicações com Michelle, Conrad mostra uma indiferença grosseira em relação a seus sentimentos, provavelmente causada ou agravada pelos efeitos emocionais das drogas. Quando Michelle traz os pesadelos perturbadores, Conrad brinca de si próprio e faz pouco dos sonhos dela.

Ela responde: “Tento me matar neles [os pesadelos]” e depois elabora, “na verdade, o Diabo tenta me matar haha”. Ela então descreve como um namorado dormiu e a ajudou com os pesadelos.

Na noite seguinte, ela novamente traz seus pesadelos. “No entanto, vou para o inferno. O Demo me disse isso. Eu juro … Não estou brincando. Estou falando sério.”

Conrad pergunta: “Ele te disse isso?” E ela responde: “Sim”.

Então ele volta a atenção para si mesmo: “Eu já vi o diabo”.

Michelle responde: “Eu também, e como você o viu?”

Conrad responde: “Ele estava no hospital, em uma noite, olhando para mim. E ele me disse para matá-los todos. ”

Não há discussão sobre a alucinação do comando “matar todos eles”. Em vez disso, Michelle pergunta: “Você está falando sério?”

Conrad diz: “Mortos, sério”.

Michelle mais uma vez se torna a ajudante simpática. “Sinto muito, amor!”

Conrad descreve sua visão do Diabo: “Ele estava vermelho e tinha uma capa preta”.

Michelle diz-lhe para não ouvir o Diabo. “Eu aprendi a lutar contra ele, e sim, eu sei que eu também o vi. Eu realmente o vi, de verdade. ”

Ela elabora que “tudo isso ocorre no sono “, “mas para mim parece uma vida real”.

Conrad diz: “Eu o vi na vida real”.

Michelle continua, “e eu pensei que o vi em minha cama uma noite, mas acho que era uma alucinação. Eu não sei.”

Conrad responde: “Eu pisquei e ele desapareceu” e ela responde: “Sim, isso aconteceu também comigo”.

Conrad então apresenta a ideia de que suas experiências mútuas com o Diabo indicam que “talvez estivéssemos destinados a estar juntos”.

Michelle diz: “Ninguém acredita que eu realmente o veja, mas sim eu o vejo”.

Conrad declara categoricamente: “o diabo nos trouxe a estar juntos”.

Michelle responde: “e sim, talvez seja uma maneira engraçada de estar juntos”, com a qual Conrad segue com “porque não conheço mais ninguém que tenha visto o diabo”.

Michelle conclui: “estamos destinados ao inferno então?” E Conrad confirma, “Sim”.

Michelle continua a descrever, “como uma vez falei, eu alucinava e meus olhos estavam sangrando. Foi assustador. Eu pensei que era real na época, mas não era. Isso me assustou tanto. ”

Eles compartilharam o assustador que tudo isso se lhes aparecia, e Michelle continua a se perguntar, “como se eu não soubesse o que ele quer de mim ou de você. Por que nós?

Conrad responde à sua pergunta, “porque nós somos suas vítimas”.

Sem ganhar clareza, eles continuam a discutir por que tudo isso está acontecendo com eles.

Os pesadelos e a ênfase de Conrad sobre o diabo trazendo os dois juntos, teve que deixar Michelle confundida sobre o que é real e o que não é real. Às vezes, posteriormente, à noite ela se apegava ao seu cachorrinho, com a esperança de assustar o diabo.

Os pesadelos com o Prozac

Desde a primeira informação a respeito da prescrição do Prozac até às mais recentes, “sonhos anormais” foram listados na literatura como sendo a reação adversa mais freqüente ao Prozac. Pois bem, parece que nem Conrad e nem Michelle foram avisados sobre esses efeitos comuns com essas drogas, apesar de ambos estarem nos antidepressivos de ISRS.

Fortes pesadelos também têm sido relatados na literatura científica. Trinta e oito dias após o início de um ensaio clínico duplo-cego controlado por placebo comparando o Prozac com uma pílula de açúcar, um menino de doze anos “experimentou um pesadelo violento sobre matar seus colegas de classe até ele mesmo ser baleado”.

Ele despertou com muitas dificuldades, e o sonho continuou a ser sentido como “muito real”. Ele relatou ter tido vários dias de “sonhos ruins” cada vez mais vivos antes deste episódio; estes incluíram imagens de se matar e de seus pais morrendo. Quando ele foi visto mais tarde naquele dia, ele estava agitado e ansioso, recusou-se a ir à escola e relatou ideias suicidas marcantes e que o tornaram inseguro em casa também. P. 180

Este pesadelo na escola, que persistia após o despertar, é notável por ter ocorrido muito antes do surto de tiroteios bem conhecidos iniciados na Columbine High Schoolem 1999. O estudo clínico duplo-cego do menino foi interrompido e foi confirmado que ele estava tomando o Prozac, 20 mg. A droga foi retirada e ele gradualmente melhorou. Quando Prozac foi reiniciado algum tempo depois, ele voltou a tentar se suicidar, e novamente a medicação teve que ser interrompida.

O papel dos que prescrevem

Os médicos que falham em alertar seus pacientes sobre pesadelos, suicídio compulsivo, sentimentos violentos e outras reações adversas potencialmente perigosas e angustiantes dos antidepressivos estão fazendo a seus pacientes e à sociedade um grave desserviço. A falta de informação dos seus pacientes deixa-os à mercê de experiências horríveis que permeiam à psicose. Os pacientes desavisados terão medo de estar ficando loucos. Eles vão pensar que estão ‘tão longe’, que nem mesmo os potentes antidepressivos podem ajudá-los. Isso muitas vezes leva ao desespero e às vezes ao suicídio.

Michelle e Conrad em Isolamento

Esses dois adolescentes feridos e perturbados, com quinze e dezesseis anos, desenvolveriam um relacionamento nas redes sociais – principalmente sem se verem, comandado por Conrad – que iria dominar os dois. Os distúrbios mentais induzidos por seus antidepressivos e as suas próprias vulnerabilidades emocionais os expulsariam do convívio com as outras pessoas, devastando as suas vidas e causando sofrimentos inimagináveis às suas famílias e amigos. Na medida em que tomavam as suas drogas antidepressivas, exibiam todos os efeitos adversos mais graves, incluindo a piora geral da saúde mental, como irritabilidade e hostilidade, grandiosidade e suicídio.

Devemos mostrar respeito por Michelle e Conrad, e a todas as vítimas do Império Farmacêutico, tomando suas vidas como exemplos do que devemos evitar que continue a acontecer. Devemos ouvir e contar suas histórias. Devemos ser advertidos e inspirados para recuperar nossos filhos do que eu chamo de ‘Complexo Psicofarmacêutico’ em meu livro Toxic Psychiatry.

Império Farmacêutico, com seu forte marketing de drogas psiquiátricas para os problemas da vida real das crianças, tem roubado desses jovens e suas famílias a vontade e a capacidade para buscar e usar abordagens mais carinhosas e humanas, para lidar e superar o inevitável, como são as lutas que os jovens enfrentam enquanto crescem e se tornam pessoas maduras.

O crescente abuso emocional de Conrad e o terrorismo feito à Michelle, e seu declínio mútuo ao tomar antidepressivos, serão o assunto adicional da terceira parte. Conrad e Michelle selarão seu relacionamento de uma forma profundamente perturbada e, eventualmente, condenável; mas Conrad é sempre responsável, até que Michelle finalmente entregue os pontos e se torne agressiva.

(Nota dos Editores do Mad in Brasil: O Dr. Breggin interrompeu temporariamente sua série sobre Michelle Carter enquanto a resolução é tomada pelo tribunal sobre que informação médica pode ou não ser tornada pública. O tribunal está programado para se pronunciar sobre este assunto em 21 de agosto. Dr. Breggin pretende retomar a série em breve.)