Se Você Não Tem um Cérebro…

"Com um relato histórico do debate entre Peter Breggin e Ted Kennedy" (editores do Mad in Brasil)

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Peter Breggin“Se você não tem seu cérebro, você não pode nunca mudar a sua mente. ”

Essas palavras me foram ditas pela minha esposa na noite passada e elas ativaram as minhas lembranças e pensamentos.

No início da década de 1970, sob forte pressão minha, Ted Kennedy, ainda que relutantemente, realizou as audiências do Comitê de Saúde para investigar o ressurgimento da lobotomia e formas mais recentes de mutilação cerebral ou psicocirurgia psiquiátrica. O senador Kennedy estava a favor dos tratamentos; ele pensava que eles eram científicos.

Eu estava fazendo uma campanha contra o ressurgimento da psicocirurgia em toda a Europa e América do Norte, falando em conferências aqui e no exterior, testemunhando no tribunal e no Congresso, dirigindo-me a agências federais, redigindo legislação para a criação de uma Comissão Federal de Psicocirurgia, organizando oposição e escrevendo artigos científicos e capítulos de livros. Isso tomou vários anos da minha vida.

No final, meus esforços levaram a que a maioria das psicocirurgias no mundo ocidental fossem interrompidas.

Na audiência do Senado sobre psicocirurgia, Kennedy me desafiou em um breve debate no qual ele perguntou retoricamente se eu seria também contra a cirurgia cardíaca, porque às vezes para melhorar a sua função o procedimento cirúrgico prejudica o coração, embora isso retarde perigosas arritmias, por exemplo.  Eu respondi, que na verdade, “Senador Kennedy, quando você danifica seu coração, isso pode afetar a circulação do sangue através da corrente sanguínea; mas quando você danifica seu cérebro, prejudica a expressão de sua alma aqui na Terra “.

Devo admitir que foi uma observação que fiz com raiva, o que não me ajudou, porque o New York Times voltou-se contra mim. O jornal afirmou falsamente que por motivos religiosos eu estava contra a psicocirurgia, e não a partir de bases éticas e científicas. Porém, o meu testemunho havia sido de fato muito científico.

Naquela noite, o confronto entre Kennedy e eu foi exibido na TV em Washington DC. O pessoal de Kennedy expurgou esse confronto da transcrição oficial da audiência. Muitas vezes eu desejei o clip original da TV com o meu breve debate com o senador.

O confronto entre eu e Kennedy simboliza o problema da psiquiatria. Muitos psiquiatras veem o cérebro sem mais reverência do que o coração ou o fígado. Se você receber um transplante de fígado, você ainda está lá; mas se você receber um transplante de cérebro, você se foi. E se você está afligido com drogas psicoativas, você achará mais difícil saber que você está lá.

Quando forçamos as pessoas a tomarem drogas psiquiátricas, ou quando mentimos para levá-las a tomar as drogas, não estamos prejudicando apenas o órgão de seu corpo chamado cérebro – estamos prejudicando a capacidade de pensar e sentir e conhecer e de se expressar. Estamos limitando sua personalidade e identidade, e a expressão de sua alma ou de seu espírito.

Drogas, tratamento de choque e lobotomia tornam muito mais difícil para os indivíduos entender e superar seus problemas emocionais. Essas lesões no cérebro e em seu funcionamento tornam difícil, e às vezes impossível, para as pessoas fazerem as melhores escolhas em suas vidas. É provável que permaneçam presas em um só lugar ou que piorem ao longo do tempo. Como a frase de Ginger tão apropriadamente expressou, “Se você não tem o seu cérebro, você nunca pode mudar de ideia”.

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