Então, o que é Transtorno Mental? Parte 1: Raciocínio e Significado

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jmoncrieff-150x150Então, se os distúrbios mentais não são doenças corporais, como eu argumentei no último blog, o que eles são e como devemos compreendê-los?

Eu percebi isso ao tentar escrever sobre isso nestes dois (e últimos) blogs: o quanto difícil é se estabelecer uma noção positiva sobre o que consiste o transtorno mental, quando se está criticando as ideias vigentes. Meus pensamentos aqui apresentados fazem parte de um trabalho que está em progresso.

Penso que tanto Szasz quanto Wittgenstein sugereriam que buscar a essência do transtorno mental é uma busca equivocada. Como Wittgenstein apontou, não entendemos os estados mentais através da descrição de um mundo ou mente privados, porque entendemos tais estados através de um comportamento manifestado publicamente. Szasz descreveu os transtornos mentais como “problemas de vida” ou, em outros lugares, como “padrões duradouros de comportamento humano” e que os outros acham “perturbadores ou indesejáveis” [1]. Pode ser que a única definição a ser dada de transtorno mental seja que são os típicos problemas que os serviços de saúde mental buscam dar conta.

No entanto, concluir que o transtorno mental não é uma doença levanta algumas questões importantes que dizem respeito a como nós, como sociedade, devemos responder aos problemas que chamamos de transtorno mental. Em primeiro lugar, precisamos perguntar se o comportamento que caracterizamos como transtorno mental é fundamentalmente o mesmo ou diferente de outros tipos de comportamento. Em outras palavras, seria o caso de um especial plano de ação para algumas ou todas as pessoas que são consideradas como tendo esses tipos de problemas?

Para explorar esta questão, analisarei os tipos de transtornos mentais onde há o caso mais forte de haver uma diferença: o que hoje em dia seria referido como “psicose” ou “transtorno mental severo” e, no passado, teria sido chamado de ” loucura ou insanidade”. A definição de psicose geralmente é a de uma perda de contato com a realidade, mas no passado as pessoas se referiam à perda de “razão” como característica principal de tais situações.

Jeff Coulter referiu-se ao comportamento que rotulamos como doença mental enquanto normas críticas de “inteligibilidade” (veja o meu blog anterior) [2]. Quando as pessoas estão doentes, fazem coisas loucas, porém mais do que isso, as razões para fazê-las às vezes não são baseadas sobre os princípios em que as ações humanas geralmente se baseiam. Há algo diferente sobre a forma como o mundo é avaliado e a forma como essa avaliação orienta a ação. Tomemos o seguinte exemplo:

Um jovem foi a uma delegacia de polícia para informar que os intrusos entraram em sua casa e injetaram-no com veneno. Embora ele não tenha notado nenhum sinal de uma invasão, ele estava certo de que isso aconteceu porque ele havia acordado com uma dor de cabeça. Ele também apontou alguns pontos comuns em sua pele como evidência das injeções. Ele não foi capaz de oferecer qualquer sugestão sobre como as pessoas poderiam ter entrado em sua propriedade e não parecia preocupado com o quanto isso poderia ter acontecido.

Parece que este homem não está usando os mesmos padrões ou tipos de raciocínio que a maioria das pessoas usaria nessa situação. Ele interpreta as coisas comuns (dor de cabeça, manchas) como tendo um significado especial e não está preocupado com o tipo de evidência que a maioria de nós procuraria (como intrusos poderiam ter entrado na propriedade).

Existem duas visões filosóficas sobre a natureza do comprometimento do “raciocínio” associado à psicose ou à loucura. A visão dominante no Iluminismo Europeu é exemplificada por Hegel que vê a loucura como uma perda de capacidades racionais, intelectuais e o ressurgimento de um lado mais primitivo da natureza humana dominado pelas “paixões” (veja meu blog anterior). Em contraste, o psicólogo Louis Sass baseia-se na crítica de Wittgenstein à filosofia cartesiana para descrever a “esquizofrenia”, em particular, como sendo uma forma de hiper-racionalidade, na qual os indivíduos se tornam excessivamente autoconscientes e separados do mundo cotidiano. As pessoas que estão neste estado tornam-se conscientes dos processos mentais e físicos automáticos que desconhecemos na maioria das vezes (como aqueles envolvidos na caminhada, por exemplo). Essa atitude isolada ou “objetiva” é um obstáculo quando o aplicamos à nossa própria consciência. De acordo com Sass, portanto, “loucura … é o ponto final da trajetória [que] a consciência segue quando se separa do corpo e das paixões, e do mundo social e prático, e se transforma em si mesma” [3].

Usando os termos de Heidegger, a opinião de Sass é que a psicose é um desapego de nossa experiência e conhecimento à mão. É a perda da atitude inconsciente de “know-how” – que é essa nossa familiaridade com o mundo que nos rodeia, o que nos permite funcionar em um nível cotidiano -, e sua substituição pela forma de conhecimento “know that”, pelo que é objetivo. O último é importante para resolver problemas na vida comum, bem como na ciência, mas é baseado e sempre pressupõe o primeiro. Afinal de contas é essa forma mais básica e implícita de saber que é fundamental para a nossa capacidade de interagir com o mundo e outras pessoas.

Um dos problemas inerentes a um projeto como o DSM, ou qualquer tentativa de classificar as queixas psiquiátricas, é a enorme diversidade das queixas. Diferentes análises são, portanto, improváveis de capturar a experiência de loucura de cada indivíduo. Os pontos de vista de Hegel sobre o domínio das paixões podem iluminar a situação de alguém que é o que podemos chamar de “maníaco”, enquanto que as descrições de Sass podem corresponder a algumas pessoas com um diagnóstico de esquizofrenia clássica, mas a maioria das situações envolve variedades entre esses dois estereótipos. No entanto, ambas as posições sugerem que algumas formas de transtorno mental envolvem uma alteração na orientação compartilhada para o mundo e que constitui a base normal do pensamento e da ação, e que atua como base do entendimento mútuo entre os seres humanos.

Se for esse o caso, se a loucura envolve uma perda ou falha do raciocínio compartilhado que coloca o indivíduo fora da comunidade de compreensão humana imediata e implícita, isso significa que é sem interesse ou significado? Normalmente, a atividade humana pode ser entendida como um objetivo ou propósito que reflete e responda ao seu contexto social e histórico únicos. As pessoas fazem coisas por razões e, na maioria das vezes, outras pessoas podem entender essas razões, mesmo que não ajam da mesma maneira. O comportamento é significativo.

Contudo, o comportamento de pessoas com diagnóstico de transtornos mentais graves geralmente parece sem sentido. É por isso que pode ser tentador pensar nisso como impulsionado por um processo ou doença biológica. Mas o fato de que os processos de pensamento são alterados ou prejudicados torna-o completamente desprovido de significado, de alta de algum propósito?

Outra maneira de colocar esta questão pode ser perguntar se a loucura faz parte do “eu” do indivíduo ou se deve ser considerado algo separado. Podemos nos entender como indivíduos únicos com vários objetivos e desejos, conjuntos de crenças e inclinações emocionais, todos moldados por nossa história individual, interagindo uns com os outros e estando em constante diálogo com o mundo que nos rodeia. Alguns aspectos da nossa natureza provavelmente serão determinados pela nossa biologia (por exemplo, alguns aspectos do temperamento), mas estes estão entrelaçados com tudo o mais para nos tornar em o indivíduo que nos percebemos e os outros nos percebem, enfim, para ser.

Muitos escritores tentaram iluminar o sentido da loucura, mostrando como até mesmo os comportamentos que aparentemente são extremamente incompreensíveis podem estar relacionados a formas mais familiares de experiência. Isso implica que devemos ver esses estados como aspectos intrínsecos do eu, mesmo que sejam temporários.

RD Laing, por exemplo, sugeriu que a esquizofrenia pode ser entendida como uma forma de retirada do mundo em face da esmagadora “insegurança ontológica” [4]. Laing compara isso com a tendência de dissociar-nos da realidade imediata para lidar com formas mais familiares de ansiedade. Szasz também propôs que um estado psicótico possa ser uma “solução para o sentido (menos) de … vida”.

Eu acho que fazer paralelos com o vício possa ser útil também, conforme elaborado por Richard Lewis. O vício (ou dependência química) pode ser entendido como um mecanismo de enfrentamento para lidar com emoções indesejadas que “ficam estancadas”. As drogas podem trazer alívio imediato das emoções negativas, mas podem se tornar um hábito auto-reforçador e prejudicial que fecha as oportunidades de aprender outros mecanismos de enfrentamento. A psicose pode ser pensada como tendo uma função similar. Embora possa ser uma experiência gratificante em algumas circunstâncias, não há dúvida de que, para muitas pessoas ser psicótico é angustiante e assustador, o que torna difícil entender como isso possa ser considerado com tendo um propósito. A comparação com a dependência química, no entanto, sugere que, inicialmente, recuar para um mundo interno pode reduzir a ansiedade e os sentimentos negativos; para alguns ela cria uma vida e emoção com mais cores, o que substitui uma realidade triste ou dolorosa. Mas pode se tornar uma tendência autodestrutiva que pode ser difícil de sair.

Muitos outros escritores têm lutado com o significado de psicose e outros comportamentos extremos e desconcertantes que rotulamos como transtorno mental. Em termos de ajudar as pessoas, o que todas essas análises destacam é a necessidade de se relacionar com pessoas enquanto pessoas que sofrem experiências humanas extremas e assustadoras, e não como portadoras de doença. Como Laing colocou ao descrever o comportamento de um paciente em particular: “pode-se ver seu comportamento como um sinal de uma doença; [ou] pode-se ver seu comportamento como expressivo de sua existência “. O filme Mad to be Normal documenta o tempo de Laing em Kingsley Hall, a comunidade terapêutica que ele fundou para que pacientes e “profissionais ” vivessem juntos. Sua ideia era que somente ao dar suporte à psicose das pessoas, estando ao lado delas, é que os outros poderiam realmente entender a experiência.

O projeto Soteria também foi estabelecido para refletir a visão de que a psicose é uma “maneira humana de ser”. Para seu fundador, Loren Mosher, isso exigiu que a equipe adotasse uma “relação não intrusiva, não controladora, mas sim empática” com os clientes, o que ele caracterizou como “estar com”. [6] O movimento de diálogo aberto mais recente também reflete essa abordagem e a mudança para envolver pessoas com experiência vivida de psicose ou problemas mentais graves.

Conclusão:

Parece que, quando pensamos em distúrbios mentais graves, como psicose ou “esquizofrenia”, estamos nos referindo a comportamentos que não são apenas diferentes do usual, mas que se caracterizam pelo comprometimento das formas usuais de raciocínio. Isso contrasta com outros tipos de desvio comportamental, como comportamentos criminosos típicos, por exemplo, onde as intenções são geralmente transparentes e a base das ações compreensível.

No entanto, reconhecer que o raciocínio pode ser comprometido em psicoses não significa necessariamente que o comportamento associado não tenha significado ou propósito. O significado é mais difícil de discernir do que o habitual, o que as inúmeras tentativas de entender tal comportamento testemunham, mas isso não significa que ele esteja ausente.

De algum modo, portanto, os estados em que podemos nos referir como loucura ou psicose são distintos da experiência ordinária, na medida em que as pessoas podem se desprender da nossa compreensão cotidiana de nós mesmos e do nosso mundo. No entanto, eles ainda podem ser considerados padrões significativos de comportamento – aqueles que têm um propósito, embora que obscuro e, muitas vezes, objetivamente autodestrutivo.

O próximo blog analisará as implicações desta análise para conceitos de autonomia, agência e responsabilidade e o último explorará a natureza do transtorno mental a partir de uma perspectiva social.

Referências bibliográficas:

  1.  Szasz T. The Untamed Tongue. Chicago: Open Court; 1990.
  2.  Coulter J. The Social Construction of Mind. London: Macmillan; 1979.
  3.  Sass LA. Paradoxes of Delusion: Wittgenstein, Schreber and the schizophrenic mind. New York: Cornell University Press; 1995.
  4.  Laing RD. The Divided Self. Pelican Books: 1965.
  5. Jenner FA, Monteiro ACD, Zagalo-Cardoso JA, Cunha-Oliveira JA. Schizophrenia: A Disease or Some Ways of Being Human. Sheffield: Sheffield Academic Press; 1993.
  6. Mosher LR. Soteria and other alternatives to acute psychiatric hospitalisation: a personal and professional review. Journal of Nervous and Mental Disease 1999;187:142-9.

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