Pesquisadores exploram sexualidade e gênero no contexto da psicose

Nev Jones e uma equipe de pesquisadores examinam como sexo, sexualidade e conteúdos relacionado a gênero são pouco explorados na pesquisa contemporânea sobre psicose.

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ZenobiaUma equipe de pesquisadores publicou recentemente um estudo na revista Psychosis, explorando como o sexo e os conteúdos sexuais e de gênero se manifestam em experiências psicóticas. A equipe, liderada pelo Dr. Nev Jones, conduziu entrevistas e grupos focais com pessoas cujas vidas foram impactadas pela psicose, e seus resultados mostram que muitas pessoas experimentam conteúdo sexual como parte de suas experiências psicóticas que estão ligadas a dinâmicas de poder culturalmente carregadas.

Essas experiências também podem ser acompanhadas por sentimentos de vergonha que não são revelados em contextos terapêuticos. Os autores discutem identificar esses temas informalmente em seu trabalho:

“Ao comparar experiências anedóticas, percebemos que temas relacionados a sexo e gênero são comuns, mas associados as estigmas aditivos, que são sub-explorados e sub-reconhecidos na literatura da pesquisa atual.”

Photo Credit: Kalypso, by Constantinos Th. Karentzos
Photo Credit: Kalypso, by Constantinos Th. Karentzos

Nas últimas décadas, pouca ou nenhuma pesquisa explorou a conexão entre experiências de sexualidade e psicose. Embora alguns estudos tenham investigado o conteúdo sexual de sintomas psicóticos ou associações entre trauma sexual e sintomas posteriores, relatos pessoais das várias manifestações de sexo, sexualidade e gênero dentro do contexto da psicose ainda não foram incluídos na literatura de pesquisa. O objetivo deste estudo foi investigar como o sexo, a sexualidade e o gênero se manifestam na vida de indivíduos que foram impactados pela psicose.

Historicamente, a sexualidade tem sido destaque no debate em torno da psicose. A teoria freudiana, por exemplo, explorou os aspectos psicossexuais da ‘esquizofrenia’. As investigações contemporâneas sobre a sexualidade em relação à psicose parecem, contudo, ter parado nos anos 90. Jones e seus colegas entendem que isso possivelmente ocorreu concomitantemente ao aumento da proeminência do discurso psiquiátrico da psicose. Com isso, com o foco em uma abordagem biomédica, há o ofuscamento da teoria psicanalítica, assim como da fenomenologia e das experiências individuais.

Neste estudo, entrevistas qualitativas e grupos focais foram realizados com a intenção de obter uma compreensão e apreciação mais profundas dos vários modos como a sexualidade se manifesta na vida dos indivíduos. Entrevistas e grupos focais centrados em conteúdo relacionado a sexo ou gênero. Jones e seus colegas recrutaram indivíduos por meio de agências locais de saúde mental, ouvindo grupos de redes de vozes e grupos de defesa de direitos.

Um total de 49 pessoas participaram de grupos focais (n = 24) e de entrevistas individuais (n = 25). Todos relataram receber um diagnóstico de ‘transtorno do espectro da esquizofrenia’ em algum momento de suas vidas. O conteúdo das entrevistas foi analisado qualitativamente através de métodos fenomenológicos para desenvolver temas que emergem das experiências individuais.

Os resultados demonstraram que 68% dos entrevistados e 20,8% daqueles em grupos focais “descreveram conteúdo explícito ou aspectos de sua experiência de psicose envolvendo sexo, sexualidade ou gênero”. Os pesquisadores agruparam esses relatos em cinco grandes grupos temáticos.

1) Variedades de experiência. Houve um leque diversificado de maneiras em que os temas envolvendo sexo, sexualidade e gênero se manifestaram nas experiências dos indivíduos. Uma característica unificadora dessas histórias envolveu entrevistados a expressar uma falta de oportunidade para discutir e explorar essas experiências em outros lugares, incluindo nunca ter compartilhado esses tópicos com um profissional de saúde mental.

Por exemplo, alguns participantes descreveram persistências relacionadas a termos sexuais, fantasias eróticas, ouvir vozes com nomes fortemente sexualizados ou de gênero, alucinações de violência sexual aterrorizantes e experiências sensuais positivas. Além disso, alguns participantes falaram de experiências psicóticas que destruíam sua sexualidade (tornavam-nas assexuadas), vozes que os intimidavam sobre suas atrações ao mesmo sexo e vozes que incessantemente comentavam sobre seus atos sexuais.

Alguns desses temas foram discutidos na medida em que se relacionavam com as suas experiências passadas concretamente sofridas, e outras pessoas descreveram apenas terem se envolvido com essas questões ou ideias após uma experiência delirante. Outro grupo de participantes negou qualquer conexão direta com suas experiências da vida real.

2.) Vergonha e perseguição. Em muitos casos, os entrevistados descreveram ouvir vozes ou ver sinais em sua vida diária que eram carregados de vergonha e os lembravam de experiências socialmente marginalizadas (por exemplo, abuso sexual passado ou trabalho sexual de sobrevivência) ou identidades (por exemplo, LGBTQ).

3.) Violência sexual ou sexualizada. As experiências de psicose frequentemente incluíam temas de violência sexual que diferiam entre as identidades de gênero. Isso foi verdade tanto para os participantes que tiveram experiências passadas de violência sexual quanto para aqueles que não as tiveram. Homens descreveram casos de psicose envolvendo-os como perpetradores de violência sexual, enquanto mulheres descreveram vitimização. Para outros, a violência sexual tornou-se um tema crítico que surgiu continuamente em relação a grupos mais amplos à parte deles mesmos. Por exemplo, aqueles relacionados a ideias de homofobia.

Os participantes expressaram uma série de reações sobre essas experiências, incluindo vergonha, culpa e constrangimento. Alguns expressaram preocupações de responsabilidade por essas experiências ou que podem estar ligadas a elas em um sentido “mais profundo, psicológico”.

4.) Gênero, sexualidade, agência e poder. Este tema centrou-se em torno da interseção entre experiências pessoais de dinâmicas diretas de poder que se manifestaram em experiências sexuais e dinâmicas de poder social que se manifestaram simbolicamente também. Os pesquisadores escrevem:

“Embora a maioria das experiências envolvendo violência sexual (sexualizada) certamente impliquem em claras dinâmicas de poder, incluindo ameaças físicas e emocionais, dinâmicas relacionais envolvendo ou baseadas em poder simbólico, social ou cultural também se manifestaram de formas não violentas em termos de gênero ou sexualizadas.”

Os pesquisadores discutem esse tema enquanto experiências complicadas e culturalmente carregadas da sexualidade, as quais ocorrem dentro do contexto da psicose. Isso envolve a compreensão de como alguém ‘se importa’ e funciona como capaz de agir sobre os outros e de agir sobre si mesmo. Alguns indivíduos narraram processos de empoderamento e redenção relacionados a essas experiências.

5.) Experiências positivas do erótico. Embora algumas das experiências de sexualidade acima tenham sido descritas como violentas, muitos participantes descreveram manifestações positivas de excitação que, às vezes, estavam associadas a estados espirituais ou criativos.

Notavelmente, a prevalência de experiências carregadas de vergonha se conecta a pesquisas que exploraram a vergonha como um fator no potencial desenvolvimento da psicose, bem como a vergonha como um mediador entre experiências traumáticas e a gravidade da sintomatologia pós-traumática. Jones e colaboradores observam que “o trabalho fenomenológico adicional é crucial para desmembrar a relação entre a vergonha e as experiências de marginalização social na psicose”.

Os achados deste estudo destacam a prevalência de conteúdo sexual ou de gênero nas experiências psicóticas da amostra, bem como a forma como essas experiências são interpessoais, de desenvolvimento e significativas em termos socioculturais. A construção de significado em que os participantes se envolveram apresentou religiões individuais / crenças espirituais, atitudes culturais, lutas pessoais relativas a identidades, assim como experiências relacionadas a agressão sexual ou a falhas românticas percebidas.

Os autores enfatizam que “a psicose é um termo amplamente genérico” e que, portanto, as experiências de indivíduos afetados pela psicose são “profundamente heterogêneas”. O trabalho deles foi exploratório, não confirmatório, e merece futuras investigações sobre variações transculturais. Pesquisas futuras também são necessárias para desmembrar o que esses achados significam para as relações terapêuticas e o processo social de recuperação. Os pesquisadores concluem:

“Embora não esteja focado especificamente em sexo / sexualidade, nosso trabalho contribui de maneira singular para um crescente corpo de literatura sobre influências culturais ou transculturais na fenomenologia das experiências psicóticas.”

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Jones, N., Rosen, C., Kamens, S., & Shattell, M. (2018). “It was definitely a sexual kind of sensation”: sex, sexual identity, and gender in the phenomenology of psychosis. Psychosis, 1-10. (Link)

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